DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS

Jorge Amado

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DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS
Jorge Amado

    Este livro foi scaneado e corrigido por Airton Simille Marques, que para tal se utilizou um
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    Alterao, atualizao e consolidao da legislao .
    TITULO III - Dos direitos do autor.
    Capitulo IV - Das limitaes aos direitos autorais.
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    I - A reproduo:
    d) De obras literrias, artsticas ou cientficas, para uso exclusivo de deficientes visuais, sempre
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***



DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS
Jorge Amado

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Reservados todos os direitos de traduo, reproduo e adaptao. Copyright by Jorge Amado,
Rua Alagoinhas, 33 (Rio Vermelho) Salvador, Bahia, Brasil. Direitos de publicao em lngua
portuguesa reservados pela Livraria Martins Editora S.  A So Paulo.














DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS
Jorge Amado

    Para Zlia, na tarde quieta de jardim e gatos, na clida ternura deste abril; para Joo e Paloma,
na manh das primeiras leituras e dos primeiros sonhos.
    Para minha comadre Norma dos Guimares Sampaio, acidentalmente personagem, cuja
presena honra e ilustra estas plidas letras. Para Beatriz Costa, de quem Vadinho foi sincero
admirador. Para Eneida, que teve o privilgio de ouvir o Hino Nacional executado ao fagote pelo
doutor Teodoro Madureira.  Para Giovanna Bonino que possui um leo do pintor Jos de Dome
- retrato de Dona Flor adolescente, em ocres e amarelos. Quatro amigas aqui juntas no afeto do
autor.
    Para Diaulas Riedel e Lus Monteiro.

    "Deus  gordo"
    (Revelao de Vadinho ao retornar)

    "A terra  azul"
    (Confirmou Gagarin aps o primeiro vo espacial)

    "Um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar"
    (Dstico na parede da farmcia do doutor Teodoro Madureira)

    Ai!
     (suspirou Dona Flor)


























I

DA MORTE DE VADINHO, PRIMEIRO MARIDO DE DONA FLOR, DO VELRIO
E DO ENTERRO DE SEU CORPO

(ao cavaquinho o sublime Carlinhos Mascarenhas)

        ESCOLA DE CULINRIA SABOR E ARTE

    QUANDO E O QUE SERVIR EM VELRIO DE DEFUNTO
(Resposta de Dona Flor a pergunta de uma aluna)

     Nem por ser desordenado dia de lamentao, tristeza e choro, nem por isso se deve deixar o
velrio correr em brancas nuvens. Se a Dona da casa, em soluos e em desmaio, fora de si,
envolta  em dor, ou morta no caixo, se ela no puder, um parente ou pessoa amiga se encarrega
ento de atender  sentinela pois no se vai largar no alvu, sem de comer nem de beber, os
coitados noite adentro solidrios; por vezes sendo inverno e frio.
     Para que uma sentinela se anime e realmente honre o defunto a presidi-la e lhe faa leve a
primeira e confusa noite de sua morte,  necessrio atend-la com solicitude, cuidando-lhe da
moral e do apetite.
    Quando e o qu oferecer?
     Pois a noite inteira, do comeo ao fim. Caf  indispensvel e o tempo todo, caf pequeno, 
claro. Caf completo, com leite, po, manteiga, queijo, uns biscoitinhos, alguns bolos de aipim ou
carim, fatias de cuscuz com ovos estrelados, isso, s de manh e para quem atravessou ali a
madrugada.
    O melhor  manter a gua na chaleira para no faltar caf; sempre est chegando gente.
Bolachas e biscoitos acompanham o cafezinho; uma vez por outra uma bandeja com salgados,
podendo ser sanduches de queijo, presunto, mortadela, coisas simples pois de consumio j
basta e sobra com o defunto.
    Se o velrio, porm, for de categoria, dessas sentinelas de dinheiro a rodo, ento se uma xcara
de chocolate  meia noite, grosso e quente, ou uma canja gorda de galinha. E, para completar,
bolinhos de bacalhau, frigideira, croquetes em geral, doces variados, frutas secas.
    Para beber, em sendo casa rica, alm do caf, pode haver cerveja ou vinho, um copo e to
somente para acompanhar a canja e a frigideira. Jamais champanha, no se considera de bom-
tom.
    Seja velrio rico, seja pobre, exige-se, porm, constante e necessria, a boa cachacinha; tudo
pode faltar, mesmo caf, s ela  indispensvel; sem seu conforto no h velrio que se preze.
Velrio sem cachaa  desconsiderao ao falecido, significa indiferena e desamor.













1

     Vadinho o primeiro marido de Dona Flor, morreu num domingo de carnaval, pela manh,
quando, fantasiado de baiana, sambava num bloco, na maior animao, no Largo Dois de Julho,
no longe de sua casa. No pertencia ao bloco, acabara de nele misturar-se, em companhia de
mais quatro amigos, todos com traje de baiana, e vinham de um bar no Cabea onde o usque
correra farto  custa de um certo Moyss Alves, fazendeiro de cacau, rico e perdulrio.
     O bloco conduzia uma pequena e afinada orquestra de violes e flautas; ao cavaquinho,
Carlinhos Mascarenhas, magricela celebrado nos castelos, Ah! um cavaquinho divino. Vestiam-se
os rapazes de ciganos e as moas de camponesas Hngaras ou romenas; jamais, porm, hngara
ou romena ou mesmo blgara ou eslovaca rebolou como rebolavam elas, cabrochas na flor da
idade e da faceirice.
     Vadinho, o mais animado de todos, ao ver o bloco despontar na esquina e ao ouvir o
ponteado do esqueltico Mascarenhas no cavaquinho sublime, adiantou-se rpido, postou-se ante
a romena carregada na cor, uma grandona, monumental como uma igreja - e era a Igreja de So
Francisco, pois se cobria com um desparrame de lantejoula doirada -, anunciou:
     - L vou eu, minha russa do Toror...
     O cigano Mascarenhas, tambm ele gastando vidrilhos e miangas, festivas argolas penduradas
nas orelhas, apurou no cavaquinho, as flautas e os violes gemeram, Vadinho caiu no samba com
aquele exemplar entusiasmo, caracterstico de tudo quanto fazia, exceto trabalhar. Rodopiava em
meio ao bloco, sapateava em frente  mulata, avanava para ela em floreios e umbigadas, quando,
de sbito, soltou uma espcie de ronco surdo, vacilou nas pernas, adernou de um lado, rolou no
cho, botando uma baba amarela pela boca onde o esgar da morte no conseguia apagar de todo
o satisfeito sorriso do folio definitivo que ele fora.
    Os amigos ainda pensaram tratar-se de cachaa, no os usques do fazendeiro: no seriam
aquelas quatro ou cinco doses capazes de possuir bebedor da classe de Vadinho; porm toda a
cachaa acumulada desde a vspera ao meio-dia quando oficialmente inauguraram o carnaval no
Bar Triunfo, na Praa Municipal, subindo toda ela de uma vez e derrubando-o adormecido. Mas
a mulata grandona no se deixou enganar: enfermeira de profisso estava acostumada com a
morte, freqentava-a diariamente no hospital. No, porm, to ntima a ponto de dar-lhe
umbigadas, de pinicar-lhe o olho, de sambar com ela. Curvou-se sobre Vadinho, colocou-lhe a
mo no pescoo, estremeceu, sentindo um frio no ventre e na espinha:
    - Ta morto, meu Deus!
   Outros tocaram tambm o corpo do moo, tomaram-lhe do pulso, suspenderam-lhe a cabea
de melenas loiras, buscaram-lhe o palpitar do corao. Nada obtiveram, era sem jeito. Vadinho
desertara para sempre do Carnaval da Bahia.

2

      Foi um rebulio no bloco e na rua, um corre-corre pelas redondezas, um deus-nos-acuda a
sacudir os carnavalescos - e ainda por cima a escandalosa Anete, professorinha romntica e
histrica, aproveitou a boa oportunidade para um chilique, com pequenos gritos agudos e
ameaas de desmaio. Toda aquela representao em honra do dengoso Carlinhos Mascarenhas,
por quem suspirava a melindrosa de faniquito fcil - dizendo-se ela prpria ultra-sensvel,
arrepiando-se como uma gata quando ele dedilhava o cavaquinho. Cavaquinho agora silencioso,
pendendo intil das mos do artista, como se Vadinho houvesse levado consigo para o outro
mundo seus derradeiros acordes.
     Veio gente correndo de todos os lados, logo a notcia circulou pelas imediaes, chegou a So
Pedro,  Avenida Sete, ao Campo Grande, arrebanhando curiosos. Em torno ao cadver reunia-
se uma pequena multido a acotovelar-se em comentrios. Um mdico residente em Sodr foi
requisitado e um guarda de trnsito sacou de um apito e nele soprava sem parar como a advertir a
cidade inteira, a todo o Carnaval,do fim de Vadinho.
      "Pois se  Vadinho, coitadinho dele !", constatou um careta, com sua mascara de meia,
perdida a animao. Todos reconheciam o morto, era largamente popular, com sua alegria
esfuziante, seu bigodinho recortado, sua altivez de malandro, benquisto sobretudo nos lugares
onde se bebia, jogava, e farreava; e ali, to perto de sua residncia, no havia quem no o
identificasse.
     Outro mascarado, este vestido de aniagem e coberto com uma cabeorra de urso, varou o
cerrado grupo, conseguiu aproximar-se e ver. Arrancou a mscara deixando exposta uma cara
aflita, de bigodes cados e crnio careca e murmurou:
     - Vadinho, meu irmozinho, que foi que te fizeram?
     "Que foi que deu nele, de que morreu?" perguntavam-se uns aos outros, e havia quem
respondesse: "foi cachaa", numa explicao por demais fcil para to inesperada morte. Uma
velha curvada parou tambm, deu sua olhadela, constatou:
     - To moderno ainda, por que morrer to moo?
     Perguntas e respostas cruzavam-se, enquanto o mdico colocava o ouvido sobre o peito de
Vadinho, numa constatao final e intil.
     "Estava sambando, numa animao retada, e sem avisar nada a ningum, caiu de lado j todo
cheio da morte" - explicou um dos quatro amigos, curado por completo da cachaa, de sbito
sbrio e comovido, meio sem jeito nas roupas femininas de baiana, as faces vermelhas de
carmim, fundas olheiras negras, traadas com cortia queimada, sob os olhos.
     O fato de estarem fantasiados de baiana no deve levar a maliciar-se sobre os cinco rapazes,
todos eles de macheza comprovada. Vestiam-se de baianas para melhor brincar, por farsa e
molecagem, e no por tendncia ao efeminado, a suspeitas esquisitices. No havia chibungo entre
eles, benza Deus. Vadinho, inclusive, amarrara sob a angua branca e engomada, enorme raiz de
mandioca e, a cada passo, suspendia as saias e exibia o trofu descomunal e pornogrfico fazendo
as mulheres esconderem nas mos o rosto e o riso, com maliciosa vergonha. Agora a raiz pendia
abandonada sobre a coxa descoberta e no fazia ningum rir. Um dos amigos veio e a desatou da
cintura de Vadinho. Mas nem assim o defunto ficou decente e recatado, era um morto de
Carnaval e no exibia sequer sangue de bala ou de facada a escorrer-lhe do peito, capaz de
resgatar seu ar de mascarado.
     Dona Flor, precedida,  claro, por Dona Norma a dar ordens e a abrir caminho, chegou quase
ao mesmo tempo que a polcia. Quando despontou na esquina, apoiada nos braos solidrios das
comadres, todos adivinharam a viva, pois vinha suspirando e gemendo, sem tentar controlar os
soluos, num pranto desfeito. Ao demais, trajava o robe caseiro e bastante usado com que
cuidava do asseio do lar, calava chinelas cara de gato  e ainda estava despenteada. Mesmo assim
era bonita, agradvel de ver-se: pequena e rechonchuda, de uma gordura sem banhas, a cor
bronzeada de cabo-verde, os lisos cabelos to negros a ponto de parecerem azulados, olhos de
requebro e os lbios grossos um tanto abertos sobre os dentes alvos. Apetitosa, como costumava
classific-la o prprio Vadinho em seus dias de ternura, raros talvez porm inesquecveis. Quem
sabe, devido s atividades culinrias da esposa, nesses idlios Vadinho dizia-lhe "meu manu de
milho verde, meu acaraj cheiroso, minha franguinha gorda", e tais comparaes gastronmicas
davam justa idia de certo encanto sensual e caseiro de Dona Flor a esconder-se sob uma
natureza tranqila e dcil. Vadinho conhecia-lhe as fraquezas e as expunha ao sol, aquela nsia
controlada de tmida, aquele recatado desejo fazendo-se violncia e mesmo incontinncia ao
libertar-se na cama. Quando Vadinho estava de veia, no existia ningum mais encantador e
nenhuma mulher sabia resistir-lhe. Dona Flor jamais conseguira recusar-se a seu fascnio nem
mesmo se a tanto se dispunha cheia de indignao e de raiva recentes. Pois, em repetidas
ocasies, chegara a odi-lo e a arrenegar o dia em que unira sua sorte  do bomio.
     Mas andando agoniada, ao encontro da intempestiva morte de Vadinho, Dona Flor ia zonza,
vazia de pensamentos, de nada se recordava, nem dos momentos de densa ternura, menos ainda
dos dias cruis, de angstia e solido, como se ao expirar ficasse o marido despojado de todos os
defeitos ou como se no os houvesse possudo em "sua breve passagem p reste vale de
lgrimas".
     "Foi breve sua passagem por esse vale de lgrimas", pronunciou o respeitvel professor
Epaminondas Souza Pinto afetado e afobado, tentando cumprimentar a viva, dar-lhe os
psames, antes mesmo dela chegar junto ao corpo do marido. Dona Gisa, tambm professora  e
at certo ponto tambm respeitvel, conteve o aodamento do colega e conteve o riso. Se em
verdade fora breve  passagem de Vadinho pela vida  vinha de completar trinta e um anos -,
para ele, Dona Gisa bem o sabia, no fora o mundo vale de lgrimas e, sim, palco de frases,
engodos, embustes e pecados. Alguns deles aflitos e confusos, sem dvida, submetendo seu
corao a rduas provas, a agonias e sobressaltos: dvidas a pagar, promissrias a descontar,
avalistas a convencer, compromissos assumidos, prazos improrrogveis, protestos e cartrios,
bancos e agiotas, caras amarradas, amigos esquivando-se, sem falar nos sofrimentos fsicos e
morais de Dona Flor. Porque, considerava Dona Gisa em seu portugus arrevesado - era
vagamente norte-americana naturalizara-se e se sentia brasileira mas o diabo da lngua Ah! no
conseguia domin-la -, se houvera lgrimas na breve passagem de Vadinho pela vida, elas tinham
sido choradas por Dona Flor e foram muitas, davam de sobra para o casal.
     Diante de to sbita morte, Dona Gisa no pensava em Vadinho seno com saudade: era-lhe
simptico, apesar de tudo; possua um lado gentil e cativante. Nem por isso, no entanto, nem por
ele encontrar-se ali, no Largo Dois de Julho, morto, estendido na rua, vestido de baiana, iria ela
de repente santific-lo, torcer a realidade, inventar outro Vadinho feito de um s pedao. Assim
explicou a Dona Norma, sua vizinha e ntima, mas no obteve da parceira o esperado apoio.
Dona Norma muitas vezes dissera as ltimas a Vadinho, brigava com ele, pregava-lhe sermes
monumentais, chegara um dia a amea-lo com a polcia. Naquela hora derradeira e aflita, porm,
no desejava comentar as predominantes e desagradveis facetas do finado, queria apenas gabar
seus lados bons, sua gentileza natural, sua solidariedade sempre pronta a manifestar-se, sua
lealdade para com os amigos, sua indiscutvel generosidade (sobretudo se a praticava com o
dinheiro alheio), sua irresponsvel e infinita alegria de viver. Alis, to ocupada em acompanhar e
socorrer Dona Flor, nem tinha ouvidos para Dona Gisa com sua dura verdade. Dona Gisa era
assim: a verdade acima de tudo, por vezes a ponto de faz-la parecer spera e inflexvel; talvez
numa atitude de defesa contra sua boa f, pois era crdula ao absurdo e confiava em todo
mundo. No, no relembrava os malfeitos de Vadinho para critic-lo ou conden-lo, gostava dele
e com freqncia perdiam-se os dois em longas prosas, Dona Gisa interessada em apreender a
psicologia do submundo onde Vadinho se movimentava, ele a contar-lhe casos e a espiar-lhe no
decote do vestido o nascer dos seios pujantes e sardentos. Talvez Dona Gisa o entendesse
melhor que Dona Norma, mas, ao contrrio da outra, no lhe descontava sequer um defeito, no
ia mentir s por que ele morrera. Nem a si prpria Dona Gisa mentia, a no ser quando isso se
fazia indispensvel. E no era o caso, evidentemente.
     Dona Flor atravessava o povo no rastro de Dona Norma a abrir caminho com os cotovelos e
com sua extensa popularidade:
    - Vai, arreda minha gente, deixa a pobre passar...
     L estava Vadinho no cho de paraleleppedos, a boca sorrindo, todo branco e loiro, todo
cheio de paz e de inocncia. Dona Flor ficou um instante parada, a contempl-lo como se
demorasse a reconhecer o marido ou talvez, mais provavelmente, a aceitar o fato, agora
indiscutvel, de sua morte. Mas foi s um instante. Com um berro arrancado do fundo das
entranhas, atirou-se sobre Vadinho, agarrou-se ao corpo imvel, a beijar-lhe os cabelos, o rosto
pintado de carmim, os olhos abertos, o atrevido bigode, a boca morta, para sempre morta.

3

     Era domingo de carnaval, quem no tinha naquela noite corso de automveis a fazer, festa
onde divertir-se, programa para a madrugada? Pois bem: com tudo isso, o velrio de Vadinho foi
um sucesso. "Um autntico sucesso", como orgulhosamente constatou e proclamou Dona
Norma.
     Os homens do rabeco largaram o corpo em cima da cama, no quarto de dormir, s depois os
vizinhos o transportaram para a sala. Os tipos do necrotrio estavam apressados, seu trabalho
aumentava com o carnaval. Enquanto os demais se divertiam, eles lidavam com defuntos, com as
vtimas de desastres e de brigas. Arrancaram o lenol imundo a embrulhar o cadver, entregaram
o laudo  viva.
     Vadinho ficou nu como Deus o ps no mundo, em cima da cama de casal, uma cama de ferro
com cabeceira e ps trabalhados, comprada em segunda mo por Dona Flor, num leilo de
mveis, quando do casamento, seis anos antes. Dona Flor, sozinha no quarto, abriu o envelope,
estudou o parecer dos mdicos. Balanou a cabea, incrdula. Quem diria? Aparentemente to
forte e so, to moo ainda!
     Gabava-se Vadinho de jamais ter estado doente e de ser capaz de atravessar oito dias e oito
noites sem dormir, jogando e bebendo ou na farra com mulheres. E por vezes no passava
realmente oito dias sem aparecer em casa, deixando Dona Flor em desespero, como maluca? No
entanto, ali estava o laudo dos doutores da Faculdade: era um homem condenado, fgado
imprestvel, rins estrompados, corao aos pandarecos. Podia morrer a qualquer momento, como
morrera. Assim, de repente. A cachaa, as noites nos cassinos, a esbrnia, a correria doida  cata
de dinheiro para o jogo haviam arruinado aquele organismo belo e forte, deixando-lhe apenas a
aparncia. Sim, porque, olhando-o s pelo lado de fora, quem o julgaria to implacavelmente
liquidado?
     Dona Flor contemplou o corpo do marido, antes de chamar os prestimosos e impacientes
vizinhos para a delicada tarefa de vesti-lo. L estava ele, nu como gostava de ficar na cama, uma
penugem doirada a cobrir-lhe braos e pernas, mata de pelos loiros no peito, a cicatriz da
navalhada no ombro esquerdo. To belo e msculo, to sbio no prazer! Mais uma vez as
lgrimas assomaram aos olhos da jovem viva. Tentou no pensar no que estava pensando, no
era coisa para dia de velrio.
     Ao v-lo assim, porm, largado sobre o leito, inteiramente nu, no podia Dona Flor, por mais
esforo que fizesse, deixar de record-lo como era na hora do desejo desatado: Vadinho no
tolerava pea de roupa sobre os corpos, nem pudibundo lenol a cobri-los, o pudor no era seu
forte. Quando a chamava para a cama, dizia-lhe: "vamos vadiar, minha filha"; era o amor, para
ele, como uma festa de infinita alegria e liberdade,  qual se entregava com aquele seu
reconhecido entusiasmo aliado a uma competncia proclamada por mltiplas mulheres, de
diferente condio e classe. Nos primeiros tempos do casamento Dona Flor ficava toda
encabulada e sem jeito, pois ele a exigia nuinha por inteiro:
     - Onde j se viu vadiar de camisola? Por que tu te esconde? A vadiao  coisa santa, foi
inventada por Deus no paraso, tu no sabe?
     No s a despia toda, como, achando pouco, tocava e brincava com os detalhes de seu corpo
de curvas largas e reentrncias profundas onde cruzavam-se sombra e luz num jogo de mistrios.
Dona Flor tentava cobrir-se, Vadinho arrancava o lenol entre risos, expunha-lhe os seios rijos, a
formosa bunda, o ventre quase despido de pelos. Tomava dela como de um brinquedo, um
brinquedo ou um fechado boto de rosa que ele fazia desabrochar em cada noite de prazer. Dona
Flor ia perdendo a timidez, entregando-se aquela festa lasciva, crescendo em violncia, tornando-
se amante animosa e audaz. Nunca, porm, abandonou por completo a pudiccia e a vergonha;
era necessrio reconquist-la cada vez, pois, apenas desperta dessas loucas audcias e dos ais de
desmaio, voltava a ser tmida e pudorosa esposa.
     Naquela hora, a ss com a morte de Vadinho, deu-se conta Dona Flor, ento e
completamente, de sua viuvez e de que no mais o teria, nem em seus braos voltaria a desmaiar.
Porque desde o momento do trgico boato transmitido de boca em boca, at a chegada do
rabeco, no fim da tarde, vivera a professora de culinria uma espcie de sonho mau e ao mesmo
tempo um tanto excitante: o impacto da notcia, a caminhada em prantos at o Largo Dois de
Julho, o encontro com o corpo,  multido a rode-la, a cuidar dela, a oferecer-lhe solidariedade e
conforto,  volta para casa quase carregada por Dona Norma e Dona Gisa, pelo professor
Epaminondas e por Mendez, o espanhol do botequim. Tudo to rpido e confuso, no lhe
deixara tempo para pensar e realizar por completo a morte de Vadinho.
     O corpo fora levado do Largo para o necrotrio, mas nem assim ela teve um momento de
sossego. De repente tornara-se o centro da vida no s de sua rua mas de todas as artrias
adjacentes, e isso num domingo de carnaval. At o trazerem de volta, embrulhado num lenol, o
traje de baiana numa pequena trouxa colorida, Dona Flor no parou de receber psames, provas
de amizade, gentilezas, numa contnua romaria de vizinhos, conhecidos e amigos. Dona Norma e
Dona Gisa, essas abandonaram inteiramente os afazeres de suas casas, j um tanto descuidados
devido ao carnaval, almoos e jantares entregues ao critrio das amas apressadas. No
despregaram as duas de junto de Dona Flor, cada qual mais dedicada e consoladora.
     L fora era o carnaval com seus mascarados, seus blocos e ranchos, suas fantasias ricas ou
divertidas. As msicas das multiplicadas orquestras, os z-pereiras, os zabumbas, os blocos, os
ranchos, afoxs com seus tamborins e atabaques. De quando em vez, Dona Norma no resistia e
corria at a janela, debruava-se, arriscava um olho, trocava faccias com um mascarado
conhecido, transmitia a notcia da morte de Vadinho, aplaudia uma fantasia original ou um bloco
bonito. Por vezes chamava Dona Gisa, se um rancho particularmente animado surgia na esquina.
E quando o Afox dos Filhos do Mar, j na parte da tarde, deu entrada na rua, com sua figurao
inesquecvel, acompanhado por grande multido a sambar, at Dona Flor, as lgrimas mal
contidas, aproximou-se da janela e espiou o afox to anunciado nos jornais, a maior beleza do
carnaval baiano. Espiou mas sem se mostrar, escondida pelas largas espduas de Dona Gisa.
Dona Norma, esquecida do morto e das convenincias, batia palmas entusisticas.
     Assim fora durante o dia inteiro, desde a hora da notcia. At Dona Nancy, Argentina retrada,
nova na rua, casada com o dono da fbrica de cermicas, um arrevesado Bernab, desceu de seu
sobrado rico e de sua soberbia, para oferecer condolncias e prstimos a Dona Flor, revelando-se
pessoa simptica e educada e trocando com Dona Gisa filosficas consideraes sobre a
brevidade da vida e sua insegurana.
     No tivera Dona Flor, como se v, tempo de refletir em seu novo estado e nas
transformaes de sua existncia. S quando trouxeram Vadinho do necrotrio e o deixaram nu
no leito de casal onde tantas e tantas vezes tinham feito o amor, ento, e somente ento,
encontrou-se sozinha com a morte do marido e se sentiu viva. Jamais voltaria ele a derrub-la na
cama de ferro, arrancando-lhe vestido e combinao, e as peas mais ntimas, atirando com o
lenol para cima da penteadeira, tomando de cada detalhe de seu corpo, fazendo-a delirar.
     Ah! nunca mais, pensou Dona Flor, e sentiu um n na garganta, um tremor nas pernas,
compreendeu ento que tudo terminara. Ficou ali parada, sem palavras e sem lgrimas, despida de
qualquer excitao, distante de toda a representao a cercar a morte. Apenas ela e o cadver nu,
ela e a definitiva ausncia de Vadinho. No ia mais ter de esper-lo madrugada a fora, nem de
esconder de suas vistas o dinheiro pago pelas alunas, nem de vigiar suas relaes com as mais
bonitas, nem de apanhar dele nos dias de cachaa e mau humor, nem de ouvir os cidos
comentrios dos vizinhos. Nem de rolar com ele na cama, abrindo-se toda para seu desejo,
despindo-se da roupa, do lenol e do recato para a festa do amor, a inesquecvel festa. O n na
garganta, estrangulando; uma dor no peito, aguda punhalada.
     - Flor, no est na hora de vestir ele? - a voz de Dona Norma ressoava urgente no quarto,
vinda da sala. - No tarda chegar visitas .. .
     A viva abriu a porta, agora estava sria, calada, sem soluos, sem gemidos, fria e austera.
Sozinha no mundo. Os vizinhos entraram para ajudar. Seu Vivaldo, da funerria "Paraso em
Flor", viera pessoalmente entregar o caixo barato - fizera considervel abatimento, era
companheiro de Vadinho nas mesas de roleta e bacar onde jogava atades e lpides - e
colaborou com eficcia e experincia para fazer do bomio um morto apresentvel. Dona Flor a
tudo assistiu sem uma palavra, sem uma lgrima, estava sozinha no mundo.

4

     O corpo de Vadinho foi depositado no caixo, levado para a sala de visitas onde haviam
improvisado um estrado com as cadeiras. Seu Vivaldo trouxera flores, contribuio gratuita da
funerria. Dona Gisa arrumou uma saudade roxa entre os dedos cruzados de Vadinho. Seu
Vivaldo considerou para si mesmo o absurdo do gesto: deviam colocar entre os dedos do morto
uma ficha de jogo, isso sim. Uma ficha em vez da saudade roxa, e se em lugar da msica e dos
risos do carnaval se elevassem por ali perto o rudo das mesas da roleta, a voz rouquenha do
crupi, o soar das fichas, as nervosas exclamaes dos jogadores, era bem possvel ver-se
Vadinho levantar do caixo, sacudir dos ombros sua morte, como sacudia, num gesto
caracterstico, as complicaes a perseguirem-no e encaminhar-se para depositar sua ficha no 17,
seu nmero predileto. Que poderia ele fazer com uma saudade roxa, logo estaria murcha e
fanada, nenhuma roleta a aceitaria.
     Seu Vivaldo no se demorou; carnavalesco obstinado, s abrira a funerria naquele domingo
de festa para atender a um amigo como Vadinho. Fosse outro o defunto, e se arranjasse como
pudesse, no iria ele, Vivaldo, perturbar seu carnaval.
     Muitos perturbaram seus projetos de carnaval. Foi um desfilar de gente noite a dentro, na
sentinela do bomio. Alguns vieram por ser Vadinho descendente de ramo pobre e bastardo de
uma famlia importante, os Guimares. Um dos seus avoengos fora senador estadual e manda
chuva na poltica. Um tio seu, de apelido Chimbo, ocupara o posto de Delegado Auxiliar durante
uns poucos meses. Esse tio, um dos raros Guimares a reconhecer Vadinho como parente
legtimo, foi quem lhe arranjou o emprego na Prefeitura: fiscal de jardins, lugar dos mais
modestos, ordenado msero, no dava para uma noite gorda no Tabaris. No  necessrio
ressaltar a completa negligncia do jovem funcionrio municipal: jamais fiscalizara jardim de
nenhuma espcie, s aparecia na repartio para receber os magros caramingus mensais. Ou
para tentar o aval impossvel do chefe, para morder os colegas em vinte ou cinqenta mil-ris. Os
jardins no lhe interessavam, no tinha tempo a perder com plantas e flores, podiam desaparecer
todos os jardins da cidade, no lhe fariam falta. Ave noturna, seus canteiros eram as mesas de
jogo, e suas flores, como bem considerara seu Vivaldo, as fichas e os baralhos.
     Os que vieram por influencia do nome dos Guimares podiam-se contar nos dedos, vagos e
apressados parentes. Todos os demais, aquele desfilar sem conta, vinham para despedir-se de
Vadinho, para fitar mais uma vez sua face, sorrir para ele numa recordao agradvel, dizer-lhe
adeus. Porque gostavam dele, desculpavam-lhe as loucuras, valorizavam seu lado bom.
     Um dos primeiros a chegar  noite, vestido a rigor, pois iria mais tarde levar as filhas, trs
moas de truz, ao baile de um grande clube, foi o comendador Celestino, portugus de
nascimento, banqueiro e exportador. No passara s carreiras, como quem cumpre fastidiosa
obrigao. Demorara-se na sala, a conversar, recordando sucessos de Vadinho, aps ter abraado
Dona Flor e ter-lhe oferecido seus prstimos. De onde vinha sua estima pelo pequeno
funcionrio da Prefeitura, pelo bomio dos cabars de segunda, pelo jogador sempre
encalacrado?
     Vadinho tinha lbia, que lbia! Certa vez arrancara a assinatura do prspero lusitano numa
promissria de alguns contos de ris. No esqueceu de pagar, pois jamais esquecia as datas de
vencimento dos diversos ttulos por ele firmados e espalhados em Bancos e em mos de agiotas.
No pde pagar, o que era diferente. Em geral nunca podia pagar, e no pagava; no entanto a
cada dia o nmero dos ttulos aumentava, aumentava o nmero dos avalistas. Como ele o
conseguia?
     Celestino no voltara a avalizar, no caa duas vezes no mesmo conto. Soltava-lhe, no entanto,
pelegas de cem, duzentos e at de quinhentos mil-ris, quando Vadinho lhe aparecia desesperado,
sem tosto e com a certeza de ser aquele o seu dia de estourar a banca. Outros,porm, avalizavam
duas e trs vezes, como se fosse Vadinho o pagador mais correto, o de melhor cadastro bancrio.
Todos vencidos por suas manhas, sua conversa dramtica e convincente.
     O prprio Z Sampaio, marido de Dona Norma, estabelecido com loja de sapatos na Cidade
Baixa, sujeito de conversa rara, casmurro, pouco dado a visitas, a relaes e intimidades com os
vizinhos, o oposto da esposa, ele prprio fora enrolado por Vadinho algumas vezes e, apesar
disso, no lhe retirara nem a estima nem o crdito na loja.
     Nem mesmo quando descobriu a inacreditvel sujeira: Vadinho, certa manh, comprara fiado
em seu estabelecimento vrios pares de sapatos, dos mais finos e caros, e imediatamente os
revendera, quase sob as vistas horrorizadas dos empregados de Sampaio, e por preo nfimo, a
uma loja rival recm instalada nas imediaes. A dinheiro batido - tratava-se de um Vadinho
necessitado de urgente numerrio para jogar no bicho.
    O comerciante levou certamente em conta, ao pesar as responsabilidades do trapaceiro,
determinadas atenuantes capazes de explicar e desculpar o deslize.
    Um Vadinho alegre e despreocupado, naquela mesma tarde, contou-lhe ter sonhado durante
toda  noite com Dona Gisa, transformada em avestruz, a persegui-lo numa campina sem fim,
no sabia exatamente se na inteno de vadiar com ele nos pastos verdes - era um avestruz fmea
e em seus olhos brilhava uma luz velhaca - ou se pretendia devor-lo a bicadas, pois o perseguia
com o enorme bico aberto e ameaador. Acordava agoniado, sacudia o sonho fora, tentava
dormir pensando em assunto mais ameno, e l voltava a renitente professora a correr atrs dele
com o olho libertino e o bico agressivo. Estivesse Dona Gisa em seu quotidiano invlucro carnal,
e Vadinho no fugiria, enfrentaria a parada, emprenharia o diabo da gringa em cima dos matos,
com todo seu acento e seus conhecimentos de psicologia. Mas com ela vestida de penas, virada
num avestruz descomunal, no lhe restava alternativa, alm da vergonhosa retirada. Quatro, cinco
vezes repetiu-se o pesadelo, e de manh, cansado de tanto correr, banhado em suor, viu-se
Vadinho com o palpite mais certeiro e sem tosto. Vasculhou a casa, Dona Flor estava lisa, ele
levara-lhe na vspera at as moedas. Saiu na esperana de morder uns conhecidos, a praa
revelou-se fraqussima, Vadinho andara abusando ultimamente de seu parco crdito. Foi quando,
ao passar ante a Casa Stela, a bem sortida loja de Z Sampaio, ocorreu-lhe a idia luminosa e
divertida de dedicar-se por breve prazo ao honesto negcio de sapataria, nica maneira de obter
rapidamente uns trocados.
     No houvesse empreendido a operao comercial, desonesta e desastrada na aparncia, em
verdade sutil e lucrativa, e jamais se perdoaria, pois deu o avestruz - Dona Gisa no mentia nem
em sonhos  e Vadinho cobrou um dinheiro alto. Agradecido e digno, procurou em seguida Z
Sampaio na loja e, ante os empregados atnitos, pagou-lhe o valor da mercadoria comprada pela
manh, comentou a rir o golpe primoroso e o convidou para um trago comemorativo. Z
Sampaio declinou do convite mas no se zangou com Vadinho, continuou a dar-se com ele e a
vender-lhe sapatos com desconto e a prazo. Abatimento de dez por cento no valor da conta,
crdito limitado a um par de sapatos em cada compra e s aps ter sido liquidada a fatura
anterior.
     Prova ainda mais impressionante do prestgio de Vadinho foi ter Z Sampaio comparecido 
sentinela. Por breves minutos,  verdade, mas era aquele o primeiro velrio do comerciante nos
ltimos dez anos. Tinha horror a todo e a qualquer compromisso social, sobretudo a cerimnias
fnebres, velrios, cemitrios, missas de stimo dia, o que levava Dona Norma a gritar-lhe
quando ele se recusava a acompanh-la a um de seus vrios enterros semanais:
     - Quando voc morrer, Sampaio, no vai ter gente nem para carregar o caixo... Vai ser uma
vergonha.
     Z Sampaio punha-lhe um olhar turvo, no respondia, o dedo grande da mo direita metido
entre os dentes, num gesto seu, habitual, de resignao ante o perptuo alvoroo da esposa.
     Compareceram os importantes, como Celestino e Z Sampaio, como o parente Chimbo, o
arquiteto Chaves, o Dr. Barreiros, proeminente figura da Justia, e o poeta Godofredo Filho.
Chegaram incorporados os colegas da repartio, a todos eles Vadinho devia pequenas quantias.
A comand-los, oratrio e solene, veio o ilustre Diretor dos Parques e Jardins, trajando terno
preto. Vieram os vizinhos, os ricos e os pobres, os remediados tambm. E vieram todos quantos
na Bahia naquele ento freqentavam os cassinos de jogo, os cabars, as bancas de bicho, as
alegres casas de mulheres: Mirando, Curvelo, P de Jegue, Waldomiro Lins e seu jovem irmo
Wilson, Anacreon, Cardoso Pereba, Arigof, Pierre Verger com seu perfil de pssaro e seus
mistrios de If. Alguns, como o doutor Giovanni Guimares; mdico e jornalista, pertenciam
aos dois grupos familiares dos grandes e dos pequenos, dos respeitveis e dos irresponsveis.
     Os importantes recordaram Vadinho entre risos, suas histrias cheias de picardia e de malcia,
seus golpes divertidos, suas trampolinagens atrevidas, suas atrapalhaes e confuses, e seu bom
corao, sua gentileza, sua graa inconseqente. Tambm os vizinhos assim o relembravam:
bomio sem horrio e sem limites. Uns e outros ampliavam a realidade, inventavam detalhes,
atribuam-lhe casos e aventuras, a lenda de Vadinho comeava a nascer ali junto de seu corpo,
quase na hora mesmo de sua morte. O citado doutor Giovanni Guimares imaginava pedaos
inteiros de histrias, floreava os acontecidos, era chegado a uma mentirazinha bem apoiada em
datas e locais precisos:
     - Um dia, h quatro anos passados, no ms de maro, encontrei Vadinho na casa de Trs
Duques, jogando no 17. Estava vestido com uma capa de borracha, por baixo no tinha roupa
nenhuma, nuzinho. Botara tudo no prego, empenhara cala e palet, camisa e cueca, para poder
jogar. Ramiro, aquele espanhol canguinha do Setenta e Sete, s queria aceitar a cala e o palet,
que diabo iria fazer com uma camisa de colarinho pudo, uma velha cueca, uma gravata
vagabunda? Mas Vadinho lhe impingiu at o par de meias, guardou apenas os sapatos. E tinha
tanto mel na lngua que conseguiu que Ramiro, aquela fera que vocs conhecem, lhe emprestasse
uma capa de borracha quase nova pois no ia sair nu, rua a fora, em direo  casa de Trs
Duques...
     - E ganhou? - queria saber o jovem Artur, filho de seu Sampaio e de Dona Norma, ginasiano
e admirador de Vadinho, a ouvir boquiaberto o relato do jornalista.
     Doutor Giovanni olhou o moo, fez uma pausa, sorriu com o rosto todo:
     - Qual o qu... Pela madrugada perdeu a capa do espanhol no 17 e foi trazido para casa
embrulhado nas folhas de um jornal...  o sorriso transformava-se num riso sonoro, contagioso,
ningum igual a doutor Giovanni para animar uma sentinela.
     E como naquele momento entrasse na sala o inumervel Robato, o jornalista acrescentou a
prova final, as palavras ainda molhadas do riso:
     - Est a quem no me deixa mentir... Voc ainda se lembra, Robato, daquela noite em que
Vadinho foi nu para casa, enrolado num jornal?
     Robato no era homem de vacilar: circundou o olhar em torno, examinando o grupo
acomodado num canto da sala de jantar; temeroso de ouvidos femininos e indiscretos, no
fossem chegar  desolada viva tais recordaes; mas vacilar no vacilou, no era de recusar
desafios, tinha o repente fcil, pegou a deixa no ar:
     - Nu, enrolado num jornal? Ora, se me recordo... - pigarreou para aclarar a voz barroca e
desatar a imaginao - Pois se a gazeta era minha... Foi no castelo de Eunice Um Dente S; alm
de ns dois e de Vadinho, me lembro de Carlinhos Mascarenhas, de Jenner e de Viriato
Tanajura... A gente tinha bebido a noite inteira, um pifa sem medida...
     Era esse Robato um noctvago da fora de Vadinho, de outra estirpe, porm. No o tentava o
jogo nem fugia ao trabalho; ao contrrio, homem de sete instrumentos, tinha fama de ativo e
competente. Fabricava dentaduras, consertava rdios e vitrolas, tirava retratos para carteiras, bulia
em tudo quanto era mquina, cheio de hbil curiosidade. Sua roleta era a poesia, bem metrificada
e bem rimada (rimas ricas), seu cassino os bares e cabars onde atravessava as madrugadas na
amena companhia de outros tenazes literatos e de raparigas simpatizantes das musas e de seus
cultores, a declamar odes, cantos libertrios, poemas lricos e lbricos, sonetos de amor. Tudo de
sua autoria. Ele mesmo proclamara-se "rei mundial do soneto", batera todos os recordes
conhecidos, autor at aquela data de vinte mil oitocentos e sessenta e cinco sonetos, entre
decasslabos e alexandrinos, de arte menor e de arte-maior, e anacclicos. Um princpio de calva
ameaava-lhe a cabeleira morena de vate mas no lhe diminua a simpatia radiosa.
    Tomou da palavra e novamente Vadinho atravessava a sala envolto em jornais, no mais iria
esquec-lo o jovem Artur, dele se recordaria para sempre: embrulhado nas folhas de " Tarde",
Vadinho, heri de um mundo proibido e fascinante.
     Sucediam-se as histrias enquanto Dona Norma, Dona Gisa, a casadoira Regina, outras moas
e senhoras, serviam cafezinho com bolos, clices de cachaa e de licor de frutas. A vizinhana
providenciara para que nada faltasse ao velrio.
    Os importantes, sentados na sala de jantar, no corredor, na porta da rua, relembravam
Vadinho entre anedotas e risos. Os outros, os parceiros de jogo e de malandragem, recordavam-
no em silncio, srios e comovidos, demoravam na sala de visitas, de p, ao lado do corpo. Ao
entrar, paravam ante Dona Flor, apertavam-lhe a mo, encabulados, como se fossem
responsveis pelos maus feitos de Vadinho. Muitos deles no a conheciam sequer, nunca a
tinham visto, mas de tanto ouvirem falar nela, sabiam como por vezes Vadinho  tomava-lhe at o
dinheiro das despesas para jog-lo no Place, no Tabaris, no Abaixadinho, no antro de Zez
Meningite, no de Ablio Moqueca, nas mltiplas roletas ilegais da cidade, inclusive na mal
afamada casa de tavolagem do negro Paranagu Ventura, onde por princpio s o banqueiro
devia ganhar.
     Figura torva e amedrontadora essa do negro Paranagu Ventura com suas incontveis
entradas na polcia, um rol de acusaes jamais completamente provadas, sua fama de ladro,
estuprador e assassino. Por crime de morte respondera a jri e fora absolvido mais por falta de
coragem dos jurados do que por falta de provas. Diziam-no autor de dois outros assassinatos,
sem falar na mulher esfaqueada na Ladeira de So Miguel, em pleno meio-dia, pois essa escapara
por um triz. O covil de Paranagu, freqentavam-no apenas capadcios profissionais de baralhos
marcados, gatunos, batedores de carteira, vigaristas, gente sem nada mais a perder. Pois bem: at
l chegava Vadinho com seu magro dinheiro e seu riso alegre, e talvez fosse ele um dos poucos
eleitos a poder gabar-se de haver ganho alguma vez nos dados viciados de Paranagu. Segundo
constava, de quando em quando, o negro permitia a um parceiro de sua afeio acertar uma
bolada.
     Vieram tambm s alunas de Dona Flor, quase todas. Alunas e ex-alunas, unnimes no desejo
de consolar a estimada e competente professora, to boazinha, coitada! De trs em trs meses,
sucediam-se s turmas nos cursos de culinria geral (pela manh) e de culinria baiana (pela
tarde), formavam-se em forno e fogo. Com diploma impresso e quadro de formatura exposto
em loja da Avenida Sete, desde uma turma antiga,  qual pertencera Dona Oscar linda, enfermeira
de categoria, funcionria do Hospital Portugus, esbelta e esporreteada, doida por um enredo.
Exigira diploma e quadro, movimentara as colegas, fizera uma agitao dos demnios, recolhera
contribuies, arranjara desenhista de graa, pintara o sete, a enxerida. Assim pressionada, Dona
Flor concordou, inclusive com o desenhista, um conhecido de Dona Oscarlinda, no sem
proclamar no entanto a competncia de seu irmo Heitor  que desenhara o cartaz com o nome
da Escola, ainda na Ladeira do Alvo - infelizmente residindo agora em Nazareth das Farinhas. De
qualquer maneira, sentira-se vaidosa ao ler, no diploma e no quadro de formatura, em grossas
letras tipogrficas:

ESCOLA DE CULINRIA SABOR E ARTE

E, logo abaixo, em caracteres floreados:

Diretora: Florpedes Paiva Guimares

     Vadinho, nos raros dias em que, acordando mais cedo, permanecia em casa, rondava as
alunas, envolvendo-se nas aulas de culinria, perturbando-as. Reunidas em torno da professora,
lacres e graciosas, elas anotavam as receitas, as quantidades exatas de camaro, de azeite de
dend, de cco ralado, uma pitada de pimenta do reino, aprendiam como tratar o peixe, como
preparar a carne, como bater os ovos. Vadinho interrompia com uma piada sobre ovos, de duplo
sentido, riam-se as descaradas.
    Umas descaradas, quase todas elas. Muita amizade e adulao com Dona Flor mas de olhos
interessados no patife. L estava ele, com seu ar trfego e altivo, escornado numa cadeira ou
estendido num degrau da porta da cozinha, a la godaa, a medi-las de cima a baixo, demorando-
se atrevido nas pernas, nos joelhos, no caminho das coxas, na altura dos seios. Elas baixavam os
olhos, o no-sei-que-diga no baixava os dele.
     Dona Flor preparava os pratos salgados e os bolos, tortas e doces, nas aulas prticas. Vadinho
emitia conceitos, arrotava chalaas, comia os quitutes, circulando em torno delas, puxando
conversa com as mais bonitas, arriscando a mo salafrria se alguma mais rdega se aproximava.
     Dona Flor ficava nervosa, agoniada, a ponto de errar as medidas da manteiga derretida no
manu difcil, rogando a Deus fosse Vadinho para a rua, para a malandragem, para a desgraa do
jogo, mas deixasse as alunas em paz.
     Agora, no velrio, cercavam Dona Flor e a confortavam, mas uma delas, a pequena Ieda, com
sua cara de gata arisca, mal podia conter as lgrimas e no desviava os olhos da face do morto.
Dona Flor logo percebeu o exagero do sentimento, sentiu um baque no peito. Teria se passado
alguma coisa entre eles? Nunca notara nada de suspeito, mas quem podia garantir no se
encontrassem os dois fora da escola, fossem terminar num castelo qualquer? Vadinho, desde o
caso com a sirigaita da Nomia aparentemente deixara de pastorear as alunas. Mas era homem de
muita manha, bem podia esperar a desbriada na esquina, botar-lhe conversa, e que mulher resistia
 lbia de Vadinho? Dona Flor acompanhava o olhar de Ieda, descobria o beicinho trmulo da
moa. No lhe restava dvidas, Ah! Vadinho mais sem jeito...
     De todos os desgostos que lhe dera o marido, nenhum comparvel ao caso com a donzela
Noemia, putinha de famlia respeitvel, e noiva, um horror! Mas Dona Flor no queria recordar
aquela tristeza antiga na noite da sentinela, quando, pela derradeira vez, fitava a face de Vadinho.
Tudo aquilo passara, estava distante, a fulana casara, fora-se embora com o noivo, um zinho com
fumaas de jornalista, talento precoce pois to jovem e j to corno, de nome Alberto. Ao
demais, com o casamento a pedante enfeara de vez, virara um bucho sem medida.
     Quando, naquela ocasio, tudo terminara bem quase por milagre, Vadinho lhe dissera no calor
do leito e da reconciliao: "Mulher permanente pra mim s mesmo tu sou capaz de suportar. O
resto  tudo xixica para passar o tempo." Ali, no velrio, cercada de tanta gente e de tanta afeio,
Dona Flor no deseja relembrar aquela esquecida histria, tampouco vigiar gestos e olhares da
pequena Ieda com seu choro mal contido, seu segredo debulhado em lgrimas. Com Vadinho
morto nada mais importava, para que esclarecer, tirar a limpo, acusar e lastimar-se? Ele morrera,
tinha pago tudo e at com juros, pois to jovem se finara. Dona Flor sentiu-se em paz com o
marido, no tinha contas a acertar com ele.
     Curvou a cabea, deixou de controlar os movimentos da moa. Via apenas, ao baixar os olhos,
Vadinho tocando-lhe o corpo com a mo, no leito de ferro, dizendo-lhe ao ouvido: "Tudo xixica
para passar o tempo, permanente s tu, Flor, minha flor de manjerico, outra nenhuma". Que
diabo era xixica? - quis de repente saber Dona Flor. Uma pena, nunca lhe havia perguntado, mas
coisa boa no seria. Sorriu. Tudo xixica, permanente s ela, Flor, flor de Vadinho em sua mo
desfolhada.

5

    No outro dia, as dez da manh, saiu o enterro, com grande acompanhamento. No havia bloco
nem rancho naquela manh de segunda-feira de carnaval capaz de comparar-se em importncia e
animao com o funeral de Vadinho. Nem de longe.
    - Espie... pelo menos espie pela janela... - disse Dona Norma a Z Sampaio, desistindo de
arrast-lo ao cemitrio -... espie e veja o que  o enterro de um homem que sabia cultivar suas
relaes, no era um bicho do mato como voc... Era um capadcio, um jogador, um viciado,
sem eira nem beira, e, entretanto, veja... Quanta gente e quanta gente boa... E isso num dia de
carnaval... Voc, seu Sampaio, quando morrer no vai ter nem quem segure a ala do caixo...
    Z Sampaio no respondeu nem olhou pela janela. Metido num pijama velho, na cama, com os
jornais da vspera, apenas gemeu um fraco gemido e meteu o dedo grande na boca. Era um
doente imaginrio, tinha um medo desatinado da morte, horror de visitas a hospitais, de
sentinelas e enterros, e naquele momento encontrava-se  beira do enfarte. Assim vinha desde a
vspera, desde que a esposa lhe informara ter o corao de Vadinho estourado de repente.
Passara uma noite de co a esperar a exploso das coronrias, rolando na cama em suores frios, a
mo comprimindo o peito esquerdo.
    Dona Norma, colocando sobre a cabea de formosos cabelos castanhos um xale negro,
apropriado para a ocasio, completou, impiedosa:
    - Eu, se no tiver pelo menos quinhentas pessoas em meu enterro, vou me considerar uma
fracassada na vida. De quinhentas para cima...
     Partindo desse princpio, Vadinho devia considerar-se plenamente vitorioso e realizado. Pois
meia Bahia viera a seu funeral e at o negro Paranagu Ventura abandonara seu soturno covil e ali
estava, o terno branco brilhando de espermacete, gravata negra e negro lao na manga esquerda,
rosas vermelhas na mo. Preparava-se para segurar uma ala do caixo e, ao dar os psames a
Dona Flor, resumiu o pensar de todos na mais breve e bela orao fnebre de Vadinho:
     - Era um porreta!

INTERVALO

    BREVE NOTICIA (APARENTEMENTE DESNECESSRIA) DA POLEMICA
TRAVADA EM TORNO DA AUTORIA DE ANNIMO POEMA A CIRCULAR, DE
BOTEQUIM EM BOTEQUIM, NO QUAL O POETA CHORAVA A MORTE DE
VADINHO - REVELANDO-SE AQUI E POR FIM A VERDADEIRA IDENTIDADE
DO IGNOTO BARDO, A BASE DE PROVAS CONCRETAS
(o inumervel Robato Filho a declamar)

     No, no se transformaria certamente, com o passar do tempo, em indecifrvel mistrio das
letras, em mais um obscuro enigma da cultura universal, desafiando, sculos depois, universidades
e sbios, estudiosos e bigrafos, filsofos e crticos, e convertendo-se em matria de pesquisas,
comunicaes, teses a ocupar bolsistas, institutos, catedrticos, historiadores e velhacos variados
em busca de existncia fcil e regalada. No seria um novo caso Shakespeare, no passaria de
dvida to insignificante quanto o pequeno acontecimento a servir-lhe de tema e inspirao: a
morte de Vadinho.
     Nos meios literrios de Salvador, no entanto, elevou-se  interrogao e em torno dela nasceu
 polmica: qual dos poetas da cidade compusera - e fizera circular - a "ELEGIA A
DEFINITIVA MORTE DE WALDOMIRO DOS SANTOS GUIMARES, VADINHO
PARA AS PUTAS E OS AMIGOS"? Cresceu rpida a discusso, no tardou a azedar-se, a ser
motivo de inimizades, retaliaes, epigramas, e at uns tapas. Circunscritos, porm, debates e
rancores, dvidas e certezas, afirmaes e negaes, xingamentos e tabefes s mesas dos bares,
onde, em torno de geladas bramotas, reuniam-se noite adentro os incompreendidos talentos
jovens (a demolirem  e a arrasarem toda a literatura e toda a arte anteriores ao feliz aparecimento
dessa nova e definitiva gerao) e os sub-literatos tenazes, empedernidos, resistindo a todas as
inovaes, com seus trocadilhos, seus epigramas, suas frases retumbantes; empunhando uns e
outros - gnios imberbes e beletristas de barba por fazer -, com a mesma violenta disposio de
leitura, suas ltimas produes em prosa e verso, cada uma delas e todas elas destinadas a
revolucionar as letras brasileiras, se Deus quiser.
     Nem por se limitar ao mbito do Estado da Bahia (do Estado e no somente da Capital, pois
repercutiu o debate em municpios da regio cacaueira. Nos anais da Academia de Letras de
Ilhus encontram-se seguras referncias a um sarau dedicado ao estudo do problema); nem por
no ter obtido espao nos suplementos e revistas, desvanecendo-se em discusses orais; nem por
tudo isso o curioso e por vezes cido debate pode deixar de merecer ateno e interesse, quando
se narra a histria de Dona Flor e de seus dois maridos, na qual Vadinho  personagem
importante, heri situado em primeiro plano.
     Heri? Ou ser ele o vilo, o bandido responsvel pelos sofrimentos da mocinha, no caso
Dona Flor, esposa dedicada e fiel? Esse j  outro problema, desligado da questo literria a
preocupar poetas e prosadores; talvez at mais difcil e grave, e ficar a vosso cargo dar-lhe
resposta, se obstinada pacincia vos conduzir at o fim destas modestas pginas.
     Da elegia, sim, no havia dvidas, era Vadinho heri indiscutvel, "jamais outro vir to ntimo
das estrelas, dos dados e das putas, mgico jogral", badalavam os versos, numa louvao sem
tamanho. E se o poema - a exemplo da polmica - no obteve espao nas folhas literrias, no foi
por falta de merecimento. Um certo Odorico Tavares, poeta federal pairando acima dos disse-
que-disse dos vates estaduais  ademais todos eles comendo em sua mo, de rdea curta, pois o
dspota controlava dois jornais e uma estao de rdio - ao ler cpia datilografada da elegia,
lastimou:
     - Pena no se poder publicar...
     - Se no fosse annimo... - considerou outro poeta, Carlos Eduardo.
     Esse Carlos Eduardo, moo tirado a bonito, entendido em antiguidades, era scio do Tavares
num negcio, um tanto escuso, de santos antigos. Os sub-literatos mais frustrados e os gnios
juvenis mais veementes, aqueles sem nenhuma esperana de estampar seus nomes no suplemento
dominical de Odorico, acusavam-no e a Carlos Eduardo de receptadores de velhas imagens de
santos, afanadas nas igrejas por um grupo de gatunos especializados, sob a chefia de um tipo de
reputao duvidosa, um cochichado Mrio Cravo, alis amigo e companheiro de Vadinho. Magro
e bigodudo, vivia o astucioso Cravo s voltas com peas de automveis, chapas de ferro,
mquinas avariadas, a entortar e a remendar toda aquela tralha, atribuindo valor artstico ao
resultado, sob os aplausos dos dois poetas e de outros entendidos, unnimes em rotularem aquele
ferro velho de escultura moderna e em apontarem o biltre como revelao de artista notvel e
revolucionrio. Eis outro problema cuja discusso no cabe nessas pginas, o do valor real de
mestre Cravo, no vamos aqui lhe analisar a obra. Adiantemos apenas, como matria de
informao, o fato de ter a crtica posteriormente consagrado seu trabalho, objeto, inclusive, de
estudos de foliculrios estrangeiros. Naquele tempo, no entanto, no era ele ainda artista
conceituado, apenas comeava, e se j possua certa notoriedade, devia-a sobretudo  sua
discutvel atuao nas sacristias e altares.
     O prprio Vadinho, segundo consta, participara, em ocasio de extrema penria, de sigilosa
peregrinao noturna a vetusta igreja do Recncavo, romaria organizada pelo hertico Mrio
Cravo. O saque da igreja deu o que falar, pois uma das peas surrupiadas, um So Benedito, era
atribuda a Frei Agostinho da Piedade, e os frades botaram a boca no mundo. Hoje a imagem
valiosa encontra-se num museu do sul, a acreditar-se nos maldizentes sub-literatos, por obra e
graa dos dois ento magros scios de musa lrica e devoto comrcio.
     Naquela manh, antes do almoo, conversavam na redao, falando de santos e de quadros,
quando Carlos Eduardo tirou do bolso cpia da elegia e a deu a ler ao poeta Odorico.
     Lastimando no poder public-la, - "no por causa do anonimato, meteramos um
pseudnimo qualquer...", mas por causa dos palavres - Tavares repetiu: "uma pena...", e releu
em voz alta mais um verso:
"Esto de luto os jogadores e as negras da Bahia"

    Perguntou ao amigo:
    - Descobriste logo o autor, no?
    - Tu pensas que seja dele? Pareceu-me, porm...
     - Est na cara... Ouve: "Um momento de silncio em todas as roletas, bandeiras a meio pau
nos mastros dos castelos, bundas em desespero, a soluar".
    - E capaz...
    - E capaz, no. E, com certeza. - riu: - Velho sem-vergonha...
     Aquela certeza no a possuam os meios literrios. A elegia foi atribuda a diversos poetas,
vates conhecidos ou jovens estreantes. Deram-na como de Sosgenes Costa, de Carvalho Filho,
de Alves Ribeiro, de Hlio Simes, de Eurico Alves. Muitos indicaram Robato como o mais
provvel autor. No a declamava ele, entusiasmado, rolando a voz rica de modulaes?

"Com ele partiu a madrugada cavalgando a lua"

      No podiam entender como Robato recitaria versos de outro, gesto pouco habitual naqueles
meios; esqueciam-se da natureza generosa do sonetista, de sua capacidade de admirar e aplaudir
obra alheia.
      Pode-se inclusive marcar o incio do sucesso da elegia e da polmica por ela suscitada a partir
da alegre noite no castelo de Carla, a "gorda Carla", competente profissional aportada da Itlia,
cuja cultura extra limitava do metier (no qual, alis, "excelia" segundo Nestor Duarte, cidado de
renomada inteligncia e viajado, um conhecedor), lida em D'Anunzzio, doida por umas rimas.
"Romntica como uma vaca", assim a classificava o bigodudo Cravo, com quem ela andara
metida uns tempos. Carla no podia passar sem uma paixo dramtica e navegava de bomio em
bomio, suspirando e gemendo, dilacerada de cimes, com seus tremendos olhos azuis, os seios
de prima-dona, as coxas espantosas. Vadinho, igualmente, lhe merecera as boas graas e uns
trocados, se bem ela preferisse os poetas, versejando ela prpria na "doce lngua de Dante com
muito estro e inspirao", como adulava Robato.
      Todas as quintas-feiras  noite, Carla reunia uma espcie de salo literrio em seus amplos
aposentos. Compareciam poetas e artistas, bomios, algumas figuras gradas, como o
desembargador Airosa, e as raparigas do castelo prontas a aplaudir os versos e a rir das anedotas.
Serviam bebidas e docinhos.
      Carla presidia o soire, reclinada num div repleto de coxins e almofadas, vestindo tnica
grega ou pedrarias, ateniense de figurino ou egpcia de Hollywood, recm sada de uma pera. Os
poetas declamavam, trocavam frases de esprito, epigramas, cruzavam-se trocadilhos, o
desembargador sentenciava um axioma preparado durante a semana, num duro labor. O
momento culminante da tertlia e acontecia quando a Dona da casa, a grande Carla, alava-se por
entre os travesseiros, toda aquela tonelada de carne branca recoberta de pedrarias falsa, e, num fio
de voz, extravagante em mulher to monumental, declamava, em aucarados versos italianos, seu
amor pelo ltimo eleito. Enquanto isto, o artista Cravo e outros materialistas grosseiros
aproveitavam-se da semi-obscuridade reinante na sala - a luz velada para assim, na meia sombra,
melhor ouvir-se e sentir-se a poesia - e, sem respeitar ambiente de to alta espiritualidade, de to
excelsos sentimentos, bolinavam descarados as raparigas, tratando de obter-lhes favores gratuitos,
lesando a caixa do castelo, uns calhordas.
     Os saraus terminavam sempre decaindo da poesia para a anedota pornogrfica, no fim da
noite. Brilhavam ento Vadinho, Giovanni, Mirando, Carlinhos Mascarenhas, e, sobretudo Lev,
arquiteto em comeo de carreira, filho de imigrantes, um galalau comprido como uma girafa,
dono de inesgotvel repertrio, bom narrador. Carregava um sobrenome russo impronuncivel,
as raparigas haviam-no apelidado de Lev Lngua de Prata, devido talvez s anedotas. Talvez.
      Num desses "elegantes encontros da inteligncia e da sensibilidade", declamou Robato, com
sua voz trmula, a elegia  morte de Vadinho, introduzindo-a com algumas palavras comovidas
sobre o desaparecido, amigo de todos os freqentadores daquele delicioso antro do amor e da.
poesia . Referiu-se de passagem ao fato de ter o autor preferido as nvoas do anonimato ao sol
da publicidade e da glria . Ele, Robato, recebera cpia do poema das mos de um oficial da
Polcia Militar, capito Crisstomo, tambm fraterno amigo de Vadinho. No soubera, no
entanto, o militar dar-lhe informao precisa sobre a identidade do poeta.
     Muitos atriburam os versos ao prprio Robato, mas, ante sua recusa sistemtica em aceit-los,
andaram apontando como autor quanto poeta versejava na cidade, especialmente aqueles de
condio noturna e de bomia conhecida. Houve, porm, quem jamais acreditasse nas negativas
de Robato, levando-as  conta de modstia, e persistiram em seu nome. Ainda hoje h quem
pense serem de sua lavra as estrofes da elegia.
     O debate azedou-se a ponto de, em certa ocasio, romper os limites da literatura e da
civilidade e descambar num conflito a bofetes, quando o poeta Clvis Amorim, lngua viperina
solta numa boca de epigramas, a mamar permanente e fedorento charuto do Mercado Modlo,
negou ao bardo Hermes Clmaco qualquer possibilidade de ser autor dos debatidos versos,
faltando-lhe para tanto gnio e gramtica.
     - De Clmaco? No diga besteira... Aquele, com muito esforo, obra uma quadrinha em sete
slabas. Um poeta endefluxado...
    Por cmulo do azar, o poeta Clmaco surgia na porta do botequim, com seu eterno traje negro,
a capa de borracha e o guarda-chuva, tambm eternos. Levantou o guarda- chuva e arremeteu,
em clera:
     - Endefluxado  a puta que o pariu...
    Atracaram-se, entre xingas e sopapos, com vantagens evidentes para o Amorim, melhor
versejador e atleta mais robusto.
     Curioso tambm e digno de relato o sucedido com um fulano, autor de dois magros cadernos
de versos, a quem algumas pessoas menos avisadas conferiram a autoria do poema. Primeiro ele a
negou com firmeza, depois, como perseverassem, foi menos pertinaz em suas negativas e, por
fim, reagia de maneira to confusa e tmida que a negativa parecia acanhada afirmao.
     " dele, no h dvida", diziam, ao v-lo esfregar as mos, baixando os olhos, a sorrir num
murmrio:
     - Que parecem versos meus, isso parecem. Mas, no so...
     Negou sempre, mas, ao mesmo tempo, no admitiu jamais atribussem a outrem as discutidas
estrofes. Se o faziam, desdobrava-se a provar a impossibilidade de tal hiptese. E se algum
obstinado persistisse a argumentar, resmungava definitivo e misterioso:
     - Ora, quer dizer a mim?... Tenho razes para saber...
     E, quando a ouvia declamar, acompanhava atentamente o recitativo, corrigindo-o se alguma
palavra era trocada, ciumento do poema, zeloso como de obra sua. S mais tarde, com a
revelao do nome do verdadeiro autor, veio ele a despir-se da glria indevida. Passou ento, e
imediatamente, a dizer horrores da elegia, negando-lhe qualquer mrito ou beleza - "poesia
prostibular e estercorria".
     Em meio a tanta discusso, a elegia fez sua carreira, lida e decorada, dita nas mesas dos bares
pela madrugada, quando a cachaa desatava os sentimentos mais nobres. Os declamadores
mudavam-lhe adjetivos e verbos, por vezes baralhavam ou engoliam estrofes. Mas, correta ou
deturpada, molhada de cachaa, cada no cho dos cabars, l ia ela fazendo o elogio de Vadinho,
sua louvao.
     Quem quer que a houvesse composto refletia um sentimento geral naquele submundo onde
Vadinho se movimentara desde a adolescncia e do qual terminou sendo uma espcie de smbolo.
A elegia foi o ponto mais alto no desparrame de louvores ao moo jogador. Se lhe fosse dado
ouvir tanta palavra de elogio e de saudade, Vadinho no acreditaria. Em vida jamais fora alvo de
encmios e loas, muito ao contrrio: viviam a lhe martelar os ouvidos com repreenses e
conselhos, sermes a propsito de sua m vida e de seus maus sentimentos.
     Alis, a indulgncia para com seus malfeitos, para com essa exibio pblica de suas
pretendidas qualidades, a transformarem-no em heri de poema e em figura quase lendria, durou
pouco tempo. Uma semana aps sua morte j as coisas comeavam a ser repostas em seus
lugares, a opinio das classes conservadoras, responsveis pela moral e pela decncia, passou a
manifestar-se pela boca das comadres e das vizinhas, tentando sobrepor-se ao anrquico e
dissolvente panegrico estabelecido pela subversiva ral dos castelos e cassinos, na criminosa
tentativa de solapar os costumes e o regime.
     Criava-se assim novo e apaixonante problema, como se j no bastasse o da lavra dos versos.
De referncia a este ltimo, provas foram prometidas da verdadeira identidade do autor, por fim
agora revelada e para sempre inscrita no livro de ouro das letras ptrias.
     Quando, anos depois da morte de Vadinho, o poeta Odorico recebeu seu exemplar das
"Elegias Impuras" - um dos trs nicos oferecidos de graa pelo poeta -, magnfica edio de
luxo, tiragem reduzida a cem volumes autografados, ilustrada com xilogravuras de Calasans Neto,
voltou-se para Carlos Eduardo, estendendo-lhe o livro precioso.
     Estavam os dois amigos sentados na mesma sala de redao na qual, num dia distante, juntos
haviam lido e discutido a elegia. Apenas agora eram senhores gordos e respeitveis - e ricos,
muito ricos, proprietrios de colees e de imveis.
     Odorico recordou:
     - Eu no te disse naquela ocasio? Era dele. - e concluiu com o mesmo sorriso e com as
mesmas palavras de outrora; - Velho sem-vergonha...
     Tambm Carlos Eduardo riu seu riso cordial, de homem realizado e tranqilo, e admirou a
edio primorosa. Na capa, em letras cavadas na madeira, o nome do poeta: Godofredo Filho.
Devagar, foi passando as pginas, a interrogar-se (com certa inveja): "Que ruas e ladeiras
esconsas, que obscuras sendas de crepsculo, que negras olorosas grutas, haviam juntos
descoberto e amado o poeta ilustre e o pobre vagabundo, a ponto de entre eles desabrochar a
rara flor da amizade?" Devagar, a refletir nesses enigmas, Carlos Eduardo tocava o papel como se
acariciasse suave epiderme de mulher, quem sabe pele negra, noturno veludo? A quarta elegia, das
cinco a comporem o volume,  a dedicada  morte de Vadinho, "a ficha azul esquecida no
tapete".
     Resolveu-se assim um problema, como prometido fora. Outro, porm, surge e se impe, e
quem sabe ser possvel encontrar-lhe soluo? A vossa perspiccia fica ele entregue, esse
mistrio de Vadinho.
     Quem era Vadinho? Qual sua verdadeira fisionomia? Quais suas exatas propores? Era
banhada de sol ou coberta de sombra sua face de homem? Quem era ele, o jogral da elegia, o
porreta da frase de Paranagu Ventura, ou o desprezvel malandro, o mordedor incorrigvel, o
mau marido na voz da vizinhana, das amizades de Dona Flor? Quem melhor o conhecera e
melhor agora o definia: as piedosas freqentadoras da missa das seis na Igreja de Santa Tereza ou
os irrecuperveis habitus do Tabaris, a bola girando na roleta, o baralho e os dados, a ltima
parada"?

II

              DO TEMPO INICIAL DA VIUVEZ, TEMPO DO NOJO, DO LUTO
FECHADO, COM AS MEMRIAS DE AMBIES E ENGANOS, DE NAMORO E
CASAMENTO, DA VIDA MATRIMONIAL DE VADINHO E DONA FLOR, COM
FICHAS E DADOS E A DURA ESPERA AGORA SEM ESPERANA (E A
INCOMODA PRESENA DE DONA ROZILDA)

(com Edgard Coco ao violino, Caymmi ao violo e o doutor Walter da Silveira com sua flauta
encantada)

ESCOLA DE CULINRIA SABOR E ARTE

RECEITA DE DONA FLOR: MOQUECA DE SIRI MOLE

     Aula terica: INGREDIENTES (para 8 pessoas):     uma xcara de leite de cco, puro, sem
gua; uma xcara de azeite de dend; um quilo de siri mole. Para o molho: trs dentes de alho; sal
ao gosto; o suco de um limo; coentro; salsa; cebolinha verde; duas cebolas; meia xcara de azeite
doce; um pimento; meio quilo de tomates.Para depois: quatro tomates; uma cebola; um
pimento.

Aula prtica:

Ralem duas cebolas, amassem o alho no pilo; cebola e alho no empestam, no, senhoras, so
frutos da terra, perfumados.
Piquem o coentro bem picado, a salsa, alguns tomates, a cebolinha e meio pimento.
Misturem tudo em azeite doce e a parte ponham esse molho de aromas suculento.
(essas tolas acham a cebola fedorenta, que sabem elas dos odores puros? Vadinho gostava de
comer cebola crua e seu beijo ardia).

Lavem os siris inteiros em gua de limo, lavem bastante, mais um pouco ainda, para tirar o sujo
sem lhes tirar porm a maresia. E agora a temper-los: um a um no molho mergulhando, depois
na frigideira colocando um a um, os siris com seu tempero. Espalhem o resto do molho por cima
dos siris bem devagar que esse prato  muito delicado. (ai, era o prato preferido de Vadinho!)

Tomem de quatro tomates escolhidos, um pimento, uma cebola, tudo por cima e em rodelas
coloquem para dar um toque de beleza. No abafado por duas horas deixem a tomar gosto.
Levem depois a frigideira ao fogo. (l ele mesmo comprar o siri mole, possua fregus antigo, no
Mercado...)

Quando estiver quase cozido e s ento juntem o leite de cco e no finzinho o azeite de dend,
pouco antes de tirar do fogo. (Ia provar o molho a todo instante, gosto mais apurado ningum
tinha).

Ai est esse prato fino, requintado, da melhor cozinha, quem o fizer pode gabar-se com razo de
ser cozinheira de mo cheia. Mas, se no tiver
competncia,  melhor no se meter nem todo mundo nasce artista do fogo. (Era o prato
predileto de Vadinho nunca mais em minha mesa o servirei. Seus dentes mordiam o siri mole,
seus lbios amarelos do dend. Ai, nunca mais seus lbios, sua lngua, nunca mais sua ardida boca
de cebola crua!)

1

      Ora, na missa de stimo dia, oficiada por Dom Clemente Nigra na Igreja de Santa Tereza,
envolta a nave esplndida numa luz matinal azulada e transparente, chegada do mar defronte,
como se o templo fora um navio prestes a largar - a simpatia e a solidariedade expressas em
comentrios sussurrados, dirigiam-se a Dona Flor, ajoelhada  na primeira fila ante o altar, toda
em negro, mantilha de rendas emprestada por Dona Norma escondendo-lhe os cabelos e as
lgrimas, um tero entre os dedos. Mas os cochichos no a lastimavam por haver perdido o
marido e, sim, por t-lo possudo. Dobrada no genuflexrio, nada ouvia Dona Flor, como se
ningum mais estivesse  no santurio, apenas ela, o padre e a ausncia de Vadinho.
     Um rumor de beatas, de velhas ratas de sacristia, de ranosas inimigas da graa e do riso, se
elevava junto com o incenso, num murmrio cido:
     - No valia nem um vintm de reza, o renegado.
     - Se ela no fosse uma santa, em vez de missa dava era uma festa Com dana e tudo...
     - Para ela foi uma carta de alforria . .
     No altar, celebrando pela alma de Vadinho, Dom Clemente, macerado de viglias sobre livros
antigos, sentia na atmosfera mgica da manh apenas despertada certas perturbaes, auras
malficas como se um demnio qualquer, Lcifer ou Exu, mais provavelmente Exu, andasse
solto pela nave. Por que no deixavam Vadinho em paz, no lhe permitiam descansar. Bem o
conhecera Dom Clemente: Vadinho gostava de vir conversar no ptio do convento, sentava-se
sobre a muralha, contando histrias nem sempre as mais condizentes com aquelas venerandas
paredes, mas ouvidas com ateno pelo frade, curioso e solidrio com toda a experincia humana.
     Havia no corredor, entre a nave e a sacristia, uma espcie de altar, e nele um anjo talhado em
madeira, escultura annima e popular talvez do sculo XVII, e era como se o artista houvesse
tomado Vadinho de modelo; a mesma fisionomia inocente e desavergonhada, a mesma
insolncia, idntica ternura. Estava ele ajoelhado ante a imagem, bem mais recente e barroca, de
uma Santa Clara, e para ela estendia as mos. Certa ocasio Dom Clemente levara Vadinho a ver
o altar e o anjo, queria saber se o bomio dar-se-ia conta da parecena. Vadinho ps-se a rir
apenas enxergou as imagens.
    - Por qu ris assim? - perguntou-lhe o frade.
    - Que Deus me perdoe, padre... Mas no parece que o anjo est fretando a santa?
    - Est o que? Que termos so esses, Vadinho?
    - Desculpe, Dom Clemente, mas  que esse anjo tem uma cara manjada de gigol... Nem
parece anjo... Espie o olho dele... olho de frete . .
     Voltando-se no altar para dar a bno, as mos levantadas, o sacerdote viu as beatas a
resmungarem: ali estava a perturbao, o maligno, Ah! bocas de lama e maldade, Ah! fedidas e
azedas donzelices, mesquinhas e cpidas solteironas, e a comand-las Dona Rozilda, "Deus que
as perdoe, pois infinita  sua bondade!"
     - A pobrezinha sofreu na mo dele. Comeu o po que o diabo amassou...
     - Porque quis. No por falta de conselho meu... No fosse to assanhada, tivesse me ouvido...
Fiz o que estava em minhas mos...
     Perorava assim Dona Rozilda, me de Dona Flor, nascida para madrasta, tentando com
denodo cumprir sua vocao.
     - Mas ela estava com o bicho carpinteiro, estava de pito aceso, Deus me livre, no quis ouvir
nada, se revoltou... E encontrou quem apoiasse, casa para se esconder...
     Disse e olhou para o lado onde rezava Dorita, sua irm, ajoelhada Completou:
     - Mandar dizer missa por aquele traste  jogar dinheiro fora,  s para encher o bandulho do
frade...
     Don Clemente tomou do turbulo e lanou incenso contra o ftido hlito do demnio a
respirar pela boca das beatas. Desceu do altar, parou ante Dona Flor, colocou-lhe a mo afetuosa
sobre o ombro, disse para ser ouvido pelo coro sinistro das velhas peonhentas:
     - Mesmo os anjos transviados tm seu assento ao lado de Deus, em sua glria.
     - Anjo... T'esconjuro... Era um demnio do inferno...rosnou Dona Rozilda.
     Don Clemente, o dorso um pouco curvado, atravessou a nave, a caminho da sacristia. No
corredor, deteve-se  a contemplar aquela estranha imagem onde o artista desconhecido fixara a
um s tempo a graa e o cinismo. Levado por que sentimentos o fizera, que espcie de
mensagem desejara transmitir? Possudo pelas paixes humanas, o anjo devorava com olhos
devassos a pobre santa. Olhos de frete, como dissera Vadinho em sua linguagem pitoresca,
sorriso indecente, face deslavada, sem compostura. Igual a Vadinho, tanta parecena jamais se
vira. No exagerara ele, Dom Clemente, no fizera uma afirmao precipitada ao colocar
Vadinho ao lado de Deus, em sua glria?
     Aproximou-se da janela rasgada na pedra, fitou o ptio do convento. Ali Vadinho costumava
sentar-se sobre a muralha, a seus ps o mar cortado de saveiros. Vadinho dizia:
    - Padre, se Deus quisesse mostrar mesmo sua capacidade, fazia o 17 dar doze vezes seguidas.
Isso  que era um milagre retado. A eu chegava e enchia essa Igreja toda de flores...
    - Deus no se mete em jogo, meu filho...
    - Ento, padre, ele no sabe o que  bom e o que  ruim. Aquela agonia de ver a bolinha
girando, girando na roleta, a gente arriscando a ltima ficha, o corao disparado...
    E num tom de confidncia, num segredo s dele e do sacerdote:
    - Como Deus no vai saber, padre?
     No trio, Dona Rozilda elevava a voz:
     - Dinheiro jogado fora... No h missa que salve o desgraado. Deus  justo!
     Dona Flor, o xale a esconder-lhe a dolorosa face, surgia, ao fundo, apoiava-se em Dona Gisa e
em Dona Norma. Na claridade azul da manh, a Igreja parecia um barco de pedra a navegar.

2

      S na tera-feira de Carnaval,  noite, a notcia da morte de Vadinho alcanara Nazareth das
Farinhas onde Dona Rozilda habitava em companhia do filho casado e funcionrio da Estrada de
Ferro, amargurando a vida da nora, escrava a seu mando ditatorial. Sem perder tempo,
transportou-se para a Bahia na quarta-feira de cinzas, um dia parecido com ela, a acreditar-se em
outro genro seu, Antnio Morais: "Aquilo no  uma mulher,  uma quarta-feira de cinzas,
termina com a alegria de qualquer um". O desejo de situar a maior distncia possvel entre sua
casa e sua sogra era, sem dvida, um dos motivos por que esse Morais residia, h vrios anos,
num subrbio do Rio de Janeiro. Hbil mecnico, aceitou o convite de um amigo e fora tentar a
vida no sul, onde prosperara. Recusava-se a voltar  Bahia mesmo a passeio enquanto "a megera
empestasse o ambiente".
     Dona Rozilda, no entanto, no detestava Antnio Morais como no detestava tampouco a
nora. Detestava, sim, a Vadinho, e jamais perdoara a Flor aquele casamento, resultado de vil
conspirao contra sua autoridade e suas decises. No casamento de Morais com Roslia, a filha
mais velha, se no fizera gosto, tampouco dificultara o namoro, no opusera objees ao
noivado. No se dava bem com ele ou com a nora, porque a natureza de Dona Rozilda era
mesmo consagrada a infernar o prximo. Quando no estava contrariando algum, sentia-se
vazia e infeliz.
     Com Vadinho era diferente: tinha-lhe averso desde os tempos do namoro com Flor, quando
descobrira a rede de logros e engodos em que a enleara o indesejvel pretendente. Tomara-lhe
dio para sempre, no podia ouvir-lhe sequer o nome. "Houvesse polcia nessa terra e aquele
canalha estaria na cadeia", repetia, se lhe falavam no genro, se lhe pediam notcias do valdevinos
ou mandavam-lhe lembranas.
     Quando visitava Dona Flor, de raro em raro, era para infernar-lhe o dia, no tendo outro
assunto seno as trampolinagens de Vadinho, sua existncia libertina, sua vergonhosa crnica,
escndalo quotidiano e permanente.
     Ainda da amurada do navio desatava a boca de azedumes, aos gritos para Dona Norma no
cais da Bahia na a esper-la, a pedido de Dona Flor:
    - Enfim o excomungado bateu as botas, hein!
     O paquete estava atracando, repleto de uma impaciente populao de viajantes atravancados
de pacotes, de cestas, de sacolas, de embrulhos os mais diversos, contendo frutas, farinha de
mandioca, inhame, e aipim, carne de sol, chuchu e abboras. Dona Rozilda desembarcava a
vociferar:
    - Levou a breca, j devia ter estourado h muito tempo!
     Dona Norma sentia-se derrotada, Dona Rozilda possua aquela capacidade de deix-la sem
ao, um desanimo completo. Amanhecera a prestativa vizinha no pequeno cais, transpirando
consolao no rosto bondoso, pronta para animar uma sogra em luto e em lgrimas, para em
dueto lastimarem a precariedade das coisas desse mundo: hoje se est vivo e saltitante, amanh
num caixo de defuntos. Recolheria as lamrias de Dona Rozilda, servir-lhe-ia o lenitivo da
resignao  vontade de Deus, ele sabe o que faz! juntas debateriam, a me e a amiga ntima, a
propsito da nova condio de Dona Flor, viva, s no mundo e ainda to jovem. Para isso viera
Dona Norma preparada: gestos, palavras, atitudes, e tudo sincero e sentido, no havia jamais em
sua maneira de ser e agir a menor parcela de representao. Dona Norma sentia-se um pouco
responsvel por todo mundo, era a providncia do bairro, uma espcie de pronto socorro das
imediaes. De toda a vizinhana acudiam  porta de sua casa - a melhor casa da rua, s a dos
argentinos da fbrica de cermica, a dos Bernabs, podia com ela comparar-se, talvez um pouco
mais luxuosa -, vinham por emprstimos, do sal e da pimenta  loua para almoos e jantares e a
peas de vesturio para festas:
    - Dona Norma, mame mandou perguntar se a senhora podia emprestar uma xcara de farinha
do reino que  para um bolo que ela est fazendo. Depois manda pagar...
     Era Aninha, a filha mais jovem do Dr. Ives, vizinho prximo, cuja esposa, Dona Emina,
cantava canes rabes acompanhando-se ao piano.
    - Mas, menina, sua me no foi ao mercado ontem? Eta! mulher mais esquecida... Uma xcara
basta? Diga a ela que, se quiser mais, mande buscar...
     Ou bem era o moleque da residncia de Dona Amlia, com sua voz esganiada:
    - Dona Norma, a patroa mandou pedir a gravata preta de Seu Sampaio, a de lao de borboleta,
que a de seu Ruas a traa roeu...
    Quando no aparecia Dona Risoleta, dramtica, com seu ar de macerada:
    - Norminha, acuda pelo amor de Deus...
    - O que , mulher?
    - Um bbado se plantou na porta de casa, no h jeito de sair, o que  que eu vou fazer?
    L ia Dona Norma, reconhecia sorridente:
    - Ora,  Bastio Cachaa, gente minha... Vambora, Bastio, saia da, v tirar uma soneca na
garagem l de casa...
    E assim o dia inteiro, bilhetes pedindo dinheiro emprestado, chamado urgente para acudir um
doido, atender um enfermo, e os fregueses das injees - Dona Norma fazia concorrncia
gratuita aos mdicos e s farmcias, sem falar nos veterinrios pois todas as gatas das cercanias
vinham dar cria nos fundos de sua casa, ali no lhes faltando jamais assistncia e alimento.
Distribua amostras de remdios  fornecidas pelo Dr. Ives -, cortava vestidos e moldes era
diplomada em corte e costura -, escrevia cartas para o pessoal domstico, dava conselhos, ouvia
lamentaes, secundava projetos matrimoniais, chocava namoros, resolvia os mais diferentes
problemas, sempre alvoroada, levando Z Sampaio a concluir:
     -  uma caga voando, no tem pacincia nem para sentar no aparelho... - e metia o dedo
grande na boca, resignado.
     Preparara-se a boa vizinha para acolher uma lastimosa Dona Rozilda, em seu peito a abrigar e
confortar. E a outra lhe saa com aquele contra-senso absurdo, como se a morte do genro fosse
notcia festiva. L vinha ela descendo a escada, numa das mos o clssico embrulho de farinha de
Nazareth, bem torrada e olorosa, alm de uma cesta onde se movia indcil uma corda de
caranguejos adquirida a bordo; na outra a sombrinha e a maleta. Ainda bem, pensou Dona
Norma, no era a mala grande indicativa de demora, era o pequeno ba de madeira das viagens
rpidas, uns poucos dias e at outra. Adiantou-se para ajud-la e para dar-lhe o cerimonioso
abrao de psames, por nada no mundo deixaria de cumprir o triste dever das condolncias.
    - Meus psames...
     - Psames? A mim? No, minha cara, no desperdice sua civilidade. Por mim, j podia ter
esticado h muito tempo, no sinto a falta. Agora posso bater no peito e dizer de novo que na
minha famlia no tem desclassificado nenhum. E que vergonha, hein? Escolheu para morrer no
meio do carnaval, vestido de mscara... de propsito...
     Parava ante Dona Norma, descansava a maleta, a cesta e o pacote no cho para melhor
examinar a outra, medi-la de alto a baixo, e dizer-lhe, num elogio velhaco:
     - Pois, sim senhora... No  para lhe gabar mas vosmic engordou um bocado... Est
bonitona, moderna, gorda de fazer gosto benza-te Deus e te livre de mau-olhado...
     Ajeitava a cesta de onde os caranguejos tentavam fugir, persistia renitente:
     - Assim  que eu gosto: mulher que no liga para besteiras de moda
. Essas que andam por a fazendo regime para emagrecer, termina tudo tsica... Vosmic...
     - No diga isso, Dona Rozilda. E eu que pensei que estava mais magra... Fique sabendo que
estou gramando um regime daqueles brabos . . . Cortei o jantar, tem um ms que no sei o gosto
de feijo...
    Dona Rozilda voltou a consider-la com olho crtico:
     - Pois no parece...
     Ajudada por Dona Norma, recuperou os embrulhos; embicavam para o Elevador Lacerda,
Dona Rozilda a matracar:
    - E seu Sampaio? Sempre metido na cama? Nunca vi homem mais sem graa. Parece um
cachorro velho...
    Dona Norma no gostou da comparao, sorriu num protesto:
    -  o gnio dele que  assim mesmo.... Esmorecido...
    Dona Rozilda no era mulher de desculpar as fraquezas humanas:
     - T'esconjuro... Um marido enganjento como o seu deve ser um castigo. O meu... o finado
Gil... Bem, no vou dizer que valesse grande coisa, no era nenhum santo... Mas, em comparao
com o seu . . . Ah! minha filha, eu lhe digo: se fosse eu no tolerava no... Um homem que no
sai, no vai a parte nenhuma, emburrado, dentro de casa . . .
     Dona Norma tentava repor a conversa na sua trilha lgica: afinal Dona Rozilda perdera um
genro por isso viajara  Capital, sobre to palpitante e dramtico assunto deviam discorrer, para
tanto estava Dona Norma preparada:
    - Flor anda muito triste e abatida. Sentiu demais...
     - Porque  uma pamonha, uma toleirona. Sempre foi, nem parece minha filha. Saiu ao pai,
vosmic no conheceu o finado Gil. No  para me elevar, no, mas o homem da casa era eu. Ele
no piava nem mugia, quem resolvia tudo era essa sua criada. Flor puxou a ele, saiu molengas,
sem vontade; seno, como ia agentar tanto tempo o tal de marido que arranjou?
     Dona Norma considerou para si mesmo que, se o finado Gil no fosse ele tambm um
banana, um molengas sem vontade, certamente no teria suportado por muito tempo tal esposa,
e lastimou a sorte do pai de Dona Flor. E a de Dona Flor, agora ameaada de constantes visitas
da me, capaz at - quem sabe? - de vir residir com a filha viva, corrompendo a atmosfera
cordial do Sodr e redondezas.
     No tempo de Vadinho, quando Dona Rozilda aparecia era s carreiras, em rpidas passagens,
o indispensvel para falar mal do genro e empreender o caminho de volta antes do maldito surgir
com suas graolas de mau gosto. Porque com Vadinho, Dona Rozilda nunca levara vantagem,
jamais o dominara, nem sequer conseguia deix-lo nervoso e irritado. Apenas a enxergava a
cochichar, era tomado de riso, demonstrando a maior satisfao, como se a sogra fosse sua visita
preferida, o pulha:
     - Olhe quem est a: minha santa sogrinha, minha segunda me, esse corao de ouro, essa
pomba sem fel. E a linguinha, como vai, bem afiada? Sente aqui, minha santa, junto de seu
genrinho querido vamos vasculhar o lixo da Bahia...
     E ria aquela sua risada sonora e alegre de homem ladino e satisfeito com a vida: se tanto ttulo
a vencer e tanta dvida espalhada, tanta apertura de dinheiro e tanta urgncia de numerrio para
as apostas no conseguiam entristec-lo nem exasper-lo, como poderia Dona Rozilda alimentar
esperanas? Por isso o odiava, e pelo que ele lhe fizera nos primeiros tempos do namoro.
     Numa rabanada raivosa abandonava o campo de batalha, tangida pelo riso de Vadinho, ia
vingar-se em Dona Flor, acusando-a rua a fora, em agitados comcios:
    - Nunca mais ponho os ps nessa casa, filha amaldioada! fique com o cachorro de seu marido,
deixe que ele insulte sua me, esquea o leite que mamou... Vou embora antes que ele me bata...
No sou igual a voc que gosta de apanhar...
     Com a risada de Vadinho a persegui-la pelas esquinas, estourando nos becos, gaitada de mofa
- Dona Rozilda perdia a cabea. Uma vez a perdeu por completo; esquecida de sua condio de
senhora viva e recatada, deteve-se na rua cheia de gente e, voltando-se para a janela onde o
genro se torcia de rir, descascou-lhe,  com o brao nu, uma penca, seno todo um cacho de
bananas. Acompanhava o gesto grosseiro com pragas e insultos, a voz estrangulada:
    - Tome, seu sujo, seu indecente, tome e meta...
     Escandalizavam-se os passantes, o grave professor Epaminondas, a pulcra Dona Gisa:
    - Mulher mais sem compostura... - criticava o professor.
    -  uma histrica... - definia a professora.
     Apesar de bem conhecer Dona Rozilda, testemunha que fora daquele e de outros furores,
familiar de seu carter difcil, de seu congnito azedume, ainda assim, na fila do Elevador, tornava
Dona Norma a surpreender-se.  Nunca imaginara pudesse perdurar a quizlia entre a sogra e o
genro mais alm da morte, no concedendo Dona Rozilda ao finado sequer uma palavra de
lamentao, mesmo vazia de sentimento, puramente formal, da boca para fora. Nem isso:
     - At o ar que se respira aqui ficou mais leve depois que o desgraado esticou a canela...
    Dona Norma no pde conter-se:
    - Puxa! A senhora tinha mesmo raiva de Vadinho, hein?
     - Oxente! E no era para ter? Um vagabundo sem eira nem beira, pau-d'gua, jogador, no
valia de nada... E se meteu na minha famlia, virou a cabea de minha filha, tirou a desinfeliz de
casa pra viver s custas dela...
     Jogador, cachaceiro, vagabundo, mau marido, era tudo verdade, considerou, pensativa, Dona
Norma. Como odiar, no entanto, mais alm da morte? No se deve, no carrego dos defuntos,
varrer e enterrar os ressentimentos e as discrdias? No era essa a opinio de Dona Rozilda:
    - Me chamava de velha xereta, nunca me respeitou, ria nas minhas bochechas... Me enganou
quando me conheceu, me fez de boba, me arrastou na rua da amargura... Por que hei de me
esquecer, s porque est morto no cemitrio? S por isso?

3

     Ao partir desta para melhor, o relembrado Gil, o tal molengas sem vontade, deixou a famlia
em srias aperturas, em precria situao. No seu caso no se tratava apenas de uma frase feita -
"partiu desta para melhor" -, de um lugar-comum; e, sim da expresso da verdade. Fosse o que
fosse a esper-lo nos mistrios do alm - paraso de luz, de msica e anjos luminosos; tenebroso
inferno com caldeires a ferver; o mido limbo; as peregrinaes pelos crculos siderais; ou o
nada, o no ser apenas - qualquer coisa seria melhor se comparada  vida em comum com Dona
Rozilda.
     Magro e silencioso, cada dia mais magro e mais silencioso, seu Gil sustentava sua tribo com
modestas representaes comerciais, produtos de reduzida aceitao, parco lucro apenas
suficiente para as despesas: a gororoba diria, o aluguel do primeiro andar na Ladeira do Alvo, as
roupas dos meninos, os arrotos de burguesia de Dona Rozilda com seus caprichos de grandeza, a
ambio de conviver com famlias importantes, de penetrar nos crculos de gente apatacada.
Embirrava Dona Rozilda com a maioria dos vizinhos, desprotegidos da sorte - balconistas de
lojas e armazns, empregados de escritrio, caixeiros e costureiras. Desprezava essa gentalha
incapaz de esconder sua pobreza; dava-se ares, carregada de bazfia, atenciosa apenas com alguns
habitantes da Ladeira, as "famlias de representao" como repetia irada ao finado Gil quando o
pegava em flagrante chupitando uma cervejinha na pouco recomendvel companhia de Cazuza
Funil, bicheiro e facadista, metido a filsofo e um dos mais discutveis locatrios do Alvo. Funil
no era nome de famlia, ser necessrio esclarecer? Apenas significativo apoio, caracterizando-
lhe a goela sempre aberta, a sede insacivel.
     Por que Gil no freqentava o Dr. Carlos Passos, mdico de clientela, o engenheiro Vale,
mandachuva na Secretaria de Viao, o telegrafista Peixoto, senhor de idade, s vsperas da
aposentadoria, tendo alcanado o cume da carreira postal, o jornalista Nacife, ainda moo mas
arrecadando um dinheirinho aprecivel com "O Lojista Moderno", publicao dedicada, a
acreditar-se em seu expediente, " intransigente defesa do comrcio baiano", todos eles
igualmente vizinhos na Ladeira, os "de representao"? O parvo do marido no sabia sequer
escolher suas amizades; quando no estava com Funil no "Ponto Fino", na Baixa dos Sapateiros,
metia-se na casa de Antenor Lima, a jogar gamo ou damas, talvez a nica alegria verdadeira de
sua vida. Antenor Lima, comerciante estabelecido no Taboo e um dos mais destacados fregueses
de Gil, mereceria classificar-se na lista dos vizinhos representativos, no fosse sua pblica e
notria mancebia com a negra Juventina, inicialmente sua cozinheira. Instalada agora na janela da
casa prpria do lojista, com empregada para varrer e arrumar, insolente e respondona, seus bate-
bocas com Dona Rozilda fizeram poca na Ladeira do Alvo. Pois bem: no passeio desse
rebotalho sentava-se Gil, todo cheio de salamaleques, tratando a ordinria como se ela fosse
senhora casada no padre e no juiz.
     De nada adiantavam os esforos de Dona Rozilda na direo das amizades influentes: a
famlia Costa, descendente de velho poltico, Dona de imensa roa no Matatu - o poltico virara
at nome de rua e o neto Nilson era banqueiro e industrial; os Marinho Falco, de Feira de
Sant'Ana, em cujo armazm Gil fizera seu aprendizado quando jovem  fora seu Joo Marinho
quem lhe emprestara dinheiro para iniciar-se na capital; o Dr. Lus Henrique Dias Tavares,
diretor de repartio, um cabea de ouro, assinava artigos nos jornais, nome sonoro a rolar em
sua boca com um gosto de parentesco: " meu compadre, batizou o meu Heitor".
    Ao citar tais relaes de categoria, espinafrando as de Gil, interrogava dramtica os
interlocutores, a vizinhana, a ladeira, a cidade e o mundo: que mal fizera ela a Deus para merecer
o castigo daquele esposo, incapaz de dar-lhe padro de vida condigno,  altura de sua linhagem e
de seu meio? Tudo quanto era representante comercial prosperava, ampliando freguesia e
escritrio, vendo crescer o montante mensal das vendas, conseguindo novas e valiosas
corretagens. Muitos compravam casa prpria, quando nada terreno onde mais tarde construir.
Alguns davam-se at ao luxo do automvel, como um conhecido deles, Rosalvo Medeiros,
alagoano arribado de Macei h poucos anos, as mos uma na frente, outra atrs, ambas agora na
direo de um Studebaker. To lorde ficara esse Rosalvo a ponto de, certo dia, indo pela rua
Chile no reconhecer Dona Rozilda e quase a atropelar, quando ela, pedestre e amvel, atirou-se
na frente do carro na nsia de cumprimentar o prspero colega do marido. No s o sujeito lhe
metera um susto medonho com o rudo da buzina desatada como ainda a xingara, gritando-lhe
desaforos:
     - Quer morrer, piolho-de-cobra?
     Em trs ou quatro anos, com produtos farmacuticos, lbia e simpatia, esse grosseiro
obtivera automvel, era scio do Bahiano de Tnis, ntimo de polticos e ricaos, um fidalgo,
meus senhores, cheio de empfia, o rei na barriga! Dona Rozilda rangia os dentes, e o toleiro do
Gil?
    Ah! Gil vegetava a p ou de bonde, com suas amostras de atilhos, suspensrios, colarinhos e
punhos duros, especialista em produtos fora de moda, reduzido a uma pequena freguesia de lojas
suburbanas, de antiquados armarinhos. No saa disso, marcando passo a vida inteira. Ningum
acreditava em sua capacidade, nem ele prprio.
     Um dia cansou-se de tanta queixa e reclamao, de tanto se esforar sem resultado nem
alegria. Porto, cunhado de sua mulher, marido de Lita, irm de Rozilda, dava ele tambm um
murro safado para viver, ensinando desenho e matemtica a rapazes num estabelecimento
estadual para artesos, nas lonjuras de Paripe. De trem, todos os dias, de manh cedinho,
levantando-se com o sol, regressando ao fim da tarde. Mas aos domingos, saa pelas ruas da
cidade com uma caixa de tintas e pincis a pintar coloridos casarios e tirava daquela ocupao
tanta alegria a ponto de jamais ter sido visto de mau humor ou melanclico. Tambm casara-se
com Lita e no com Rozilda, e Lita, o oposto da irm, era uma santa mulher, cuja boca jamais se
abrira para falar mau de vivente ou criatura.
    Gil nem mesmo no jogo de damas ou de gamo obtinha progressos, e Antenor Lima s o
aceitava de parceiro quando outro mais forte no aparecia; quanto a seu Zeca Serra, campeo da
Ladeira, nem assim, nem para matar o tempo - no tinha graa disputar com tabuleiro to
medocre, descuidado e desatento. E ainda por cima Dona Rozilda exigira sua definitiva ruptura
com Cazuza Funil, quando o amigo - muito por baixo, recm sado do xilindr, perseguido e
processado como contraventor - mais carecia de solidariedade. E ele, Gil, calhorda completo,
cortava esquinas para evit-lo, submisso s ordens da esposa.
     Concluiu de nada adiantar sua sacrificada labuta, aproveitou uns dias de inverno mais mido
para adquirir uma pneumonia barata - "nem sequer uma pneumonia dupla", ironizou Dr. Carlos
Passos - e emigrou para o astral. Silenciosamente, numa tosse discreta e tmida. Fosse outro e
poderia ter escapado, ter vencido a doena, pouco mais do que uma gripe. Gil, porm, estava
cansado, to cansado! no se dispunha a esperar doena sria e grave. Alm do mais, no tinha
iluses: doena de qualidade, importante, molstia da moda, cara, falada nos jornais, no chegaria
para ele, o melhor era mesmo contentar-se com sua mesquinha pneumonia. Assim o fez e, sem se
despedir, faltou com o corpo, descansou.

4

     De h muito Dona Rozilda controlava com mo de ferro o parco dinheiro das comisses,
entregando semanalmente ao representante comercial os estritos nqueis para o bonde e para o
mao de cigarros Aromticos - um mao cada dois dias. Pois, ainda assim, o dinheiro
economizado mal deu para as despesas do enterro, das roupas de luto,para os dias de nojo.
Comisses a receber das ltimas vendas, quase no existiam, uma ridicularia, e Dona Rozilda viu-
se com o filho rapazola e ginasiano e as duas filhas mocinhas - Flor apenas adolescente - e sem
fonte de renda.
     Nem por ser ela quem era, agre e desabrida, de convivncia desagradvel e difcil, nem por
isso devem-se negar ou esconder suas qualidades positivas, sua deciso e fora de vontade, e tudo
quanto fez para completar a criao dos filhos e para manter-se pelo menos na posio onde a
deixara a morte do marido, sem rolar Ladeira do Alvo abaixo para os cantos de rua ou para os
srdidos quartos dos casares do Pelourinho.
    Agarrou-se ao sobrado com toda sua violenta obstinao. Mudar-se dali para moradia mais
barata significava o trmino de todas as suas esperanas de ascenso social. Precisava manter
Heitor nos estudos at o fim do curso secundrio, empreg-lo depois, e casar as meninas, cas-las
bem. Para isso era preciso no descer, no deixar-se arrastar pela pobreza sem mscara, exposta e
despudorada, sem pejo nem vergonha. Ela, Dona Rozilda, sentia vergonha da pobreza, Ah! muita
vergonha, como de um delito a merecer castigo.
    Tinha de permanecer no andar da Ladeira do Alvo, custasse o que custasse. Assim explicou ao
cunhado quando ele viera emprestar-lhe as economias de Dona Lita (pagas depois por Dona
Rozilda, tosto a tosto, diga-se em sua honra). Nem casa de preo razovel no fim do mundo da
Plataforma, nem poro habitvel na Lapinha, nem quarto e sala sublocados nas Portas do Carmo;
manteve-se plantada na Ladeira do Alvo, no sobrado de aluguel relativamente elevado, sobretudo
para quem como ela, no dispunha de posses, nem muitas nem poucas.
     Dali, das sacadas amplas do primeiro andar, podia olhar o futuro com confiana: nem tudo
estava perdido. Modificaria os planos anteriores sem desistir de suas pretenses. Se de imediato
cedesse, largando a casa bem posta, mobiliada, com tapetes e cortinas, indo para um cortio
qualquer, j no lhe seriam permitidas sequer esperanas e iluses. Veria Heitor atrs de um
balco de secos e molhados, quando muito de uma loja, caixeirinho a vida inteira; veria as
meninas com idntico destino, se no fossem terminar garonetes de bares ou cafs, no frete dos
patres e dos fregueses, caminho direto para a zona, para o horror das ruas de mulheres-damas.
Dali, do sobrado, podia resistir a todas essas ameaas. Abandon-lo era como render-se sem luta.
     Por isso recusou oferta de emprego de balconista para Heitor, arranjado por Antenor Lima.
Assim como no admitiu sequer discutir com Roslia, quando a filha lhe apareceu disposta a
trabalhar, como uma espcie de recepcionista e secretria, na "Foto Elegante", florescente
estabelecimento da Baixa dos Sapateiros, onde Andrs Gutirrez, espanhol moreno e de
bigodinho recortado, explorava a arte fotogrfica em suas mais diversas modalidades: desde os
instantneos trs por quatro, para carteiras de identidade e profissionais ("entrega em vinte e
quatro horas"), at as "incomparveis ampliaes coloridas, verdadeiras maravilhas", passando
pelos retratos dos mais diversos tamanhos e pelos flagrantes de batizados, matrimnios, primeiras
comunhes e outros festivos eventos, dignos da amarelecida eternidade dos lbuns familiares.
Onde houvesse uma fotografia a fazer, l surgia Andrs Gutirrez com sua mquina, seu
ajudante, um chins sem idade de to velho, encarquilhado e suspeito. Rumores circulavam -
haviam chegado aos ouvidos de Dona Rozilda, sempre aguados para esses falatrios - sobre
Andrs, sua "Foto Elegante", seu ajudante e a amplitude do negcio. Diziam ser de sua produo
certos postais vendidos pelo chins em envelopes fechados, supra-sumo da arte naturalista, "nus
artsticos" de garantido sucesso. Para tais fotos, segundo as comadres, posavam mocinhas pobres
e fceis, em troca de uns magros mil-ris. De passagem, usufrua delas certamente Andrs, e
quem sabe? o chins; as beatas contavam horrores a propsito do atelier de fotografia. No  de
admirar-se ter Dona Rozilda corrido com a filha, quando ela, entusiasmada e ingnua, lhe revelou
a oferta do espanhol:
    - Se me falar nisso outra vez, te arranco o couro, te dou uma surra de criar bicho...
    A Andrs ameaou com cadeia, atirando-lhe s fuas todo seu crculo de relaes de prestgio:
fosse se meter com sua filha e veria o resultado, galego porco de uma figa, com suas imundcies,
sua devassido; ela, Dona Rozilda, iria  polcia...
    Andrs, tambm ele de cabelo na venta, espanhol de maus bofes revidara no mesmo diapaso.
Comeou dizendo que galego era o chifrudo pai de Dona Rozilda: ento ele, condodo com a
situao da famlia aps a morte de seu Gil, homem educado e bom, merecedor de melhor
esposa, vinha oferecer um emprego  moa, a quem mal conhecia, no nico intuito de ajud-la, e
a paga que obtinha era essa vaca histrica a gritar nas portas de seu estabelecimento, ameaando
deus e o mundo, inventando histrias, calnias miserveis? Se ela no silenciasse aquela latrina
que usava como boca, que fosse se estourar nos infernos e depressa, quem chamaria as
autoridades seria ele, cidado estabelecido, cumpridor das leis, em dia com os impostos, ele,
andaluz de boa cepa, e aquela bruxa a xing-lo de galego... Indiferente  disputa o chins limpava
com um fsforo as unhas compridas como garras, unhas que, segundo as ms lnguas...
     Verdade ou no aquelas excitantes histrias, Dona Rozilda no criara as filhas, no as educara,
prendadas e gentis, para o bico de nenhum Andrs Gutirrez, andaluz, galego ou chins, pouco
se lhe dava . . . As filhas eram agora sua alavanca para mudar o rumo do destino, sua escada para
subir, para elevar-se. Recusou outros empregos, mais bem intencionados, para Roslia e Flor, no
queria as moas expostas ao pblico e ao perigo. Lugar de donzela  no lar, sua meta o
casamento, assim pensava Dona Rozilda. Mandar as filhas para balco de armarinho, bilheteria de
cinema, sala de espera de consultrio mdico ou dentrio, era entregar-se, confessar a pobreza,
exibi-la, chaga mais repulsiva e pestilenta! Poria as meninas a trabalhar, sim, mas em casa, nas
prendas domsticas por elas acumuladas, tendo em vista noivo e marido. Se antes, prendas e
matrimnio eram detalhes importantes nos planos de Dona Rozilda, agora transformavam-se na
pea fundamental de seus projetos.
     Enquanto Gil fora vivo, Dona Rozilda planejara formar o filho, fazer dele mdico, advogado
ou engenheiro, e, apoiada no canudo de doutor, no diploma da Faculdade, ascender s elites,
brilhar em meio aos poderosos do mundo. O anel de grau a resplandecer no dedo de Heitor seria
sua chave para abrir as portas da gente da alta, desse mundo fechado e distante da Vitria, do
Canela, da Graa. Ao lado disso, e em conseqncia, os bons casamentos das meninas, com
colegas do filho, doutores de linhagem e de futuro.
     A morte de Gil tornava impraticvel aquele plano a longo prazo: Heitor ainda estava no
ginsio, faltando-lhe dois anos para terminar o secundrio - se atrasara, andara sendo reprovado
nos exames. Como sustent-lo durante cinco ou seis anos na Faculdade, estudos demorados e
caros? Com esforo e sacrifcio poderia mant-lo  no colgio  cursava ele o Ginsio da Bahia,
estabelecimento estadual e gratuito  at concluir o ginsio. Possuindo curso secundrio
completo, ser-lhe-ia possvel escapar aos mseros empregos no comrcio, a vida toda marcando
passo, de metro na mo. Talvez conseguisse lugar num banco ou, por que no?, uma sinecura
oficial, emprego pblico, com garantias e direitos, gratificaes e aumentos, promoes, abonos e
outros adicionais. Para tanto Dona Rozilda contava com suas relaes influentes.
    No contava mais no entanto, com o ttulo de doutor - o anel de formatura a rebrilhar,
esmeralda, rubi ou safira - para atingir as sonhadas alturas. Uma lstima, no tinha jeito a dar,
mais uma vez o bosta do marido arruinara seus projetos com aquela morte idiota.
     J no mais podia ele, porm, arruinar seus reformulados planos, amadurecidos nos dias de
nojo. Nesses novos projetos a chave mestra, a abrir as portas do conforto e do bem estar, era o
matrimnio, o de Roslia e o de Flor. Cas-las ("coloc-las", dizia Dona Rozilda) o melhor
possvel, com moos de nome, rebentos de famlias distintas, filhos de coronis fazendeiros, ou
com senhores do comrcio  de preferncia do atacadista -, estabelecidos, com dinheiro e crdito
nos Bancos. Se era esta a meta a alcanar, como expor as meninas em empregos vagabundos,
como exibi-las pobretonas, cuja graa e juventude mal vestidas iriam despertar nos ricos e
importantes apenas os baixos instintos, os pecaminosos desejos, merecendo-lhes propostas,
certamente, mas outras que no as honestas de noivado e casamento?
     Dona Rozilda queria as filhas em casa, recatadas, ajudando-a, com o trabalho e com o
comportamento, a manter aquela aparncia de conforto, a afivelar aquela mscara de gente seno
opulenta pelo menos remediada e de boa educao. Quando as moas saam para visitas a
famlias conhecidas, para matins dominicais, para alguma festinha em casa amiga, iam nos
trinques, bem vestidas, no ilusrio aspecto de herdeiras de fino trato. Dona Rozilda era
econmica, contando os vintns na tentativa de equilibrar as finanas domsticas e seguir adiante,
mas no tolerava desmazelo das filhas no vestir, nem mesmo na intimidade do lar. Exigia-as
impecveis, dignas de acolher a qualquer momento o prncipe encantado quando ele de repente
surgisse. Para isso Dona Rozilda no media esforo.
     Certa vez Roslia foi convidada para uma dancinha no aniversrio da menina mais velha do
Dr. Joo Falco, um grado: palacete, lustres de cristal, talheres de prata, garons a rigor. Os
outros convivas, tudo gente fina, podre de rica, da melhor sociedade, uma lordeza, s vendo. Pois
bem: Roslia fez sensao, era a mais bem apresentada, a mais chique, a ponto de a louvar Dona
Detinha, a bondosa anfitrioa:
     - A mais linda de todas... Roslia, um mimo, uma boneca...
    Parecia, sim, a mais rica e aristocrtica. No entanto, l estavam as meninas mais afortunadas e
mais nobres da nobreza local, sangue azul de bacharis e mdicos, de funcionrios e banqueiros,
de lojistas e comerciantes. Com sua tez mate de cabo-verde, suave e plida, era a branca mais
autntica entre todas aquelas finssimas brancas baianas- apuradas em todos os tons do moreno;
aqui entre ns, que ningum nos oua mestias da mais fina e bela mulataria!
     Ningum, ao v-la assim to elegante, diria ter sido aquele vestido, o mais louvado da festa,
obra dela prpria e de Dona Rozilda, o vestido e tudo mais, inclusive a transformao de um
velho par de sapatos numa obra-prima de cetim. Entre as prendas de Roslia, era a costura a mais
destacada, cortava e cosia, bordava e tricotava.
     Sim, eram elas, as meninas, com suas prendas, sob a frrea direo de Dona Rozilda os
autores daquele milagre de sobrevivncia: Heitor no colgio, a concluir o ginsio, o aluguel do
primeiro andar pago em dia, assim como as prestaes do rdio e do novo fogo, e ainda sendo
postos de parte uns midos para a concluso dos enxovais, para os vestidos de casamento, os
vus, as grinaldas, pois lenis e fronhas, camisolas e combinaes iam-se pouco a pouco
acumulando nos bas.
     Eram elas, as meninas. Roslia na mquina a pedalar, costurando para fora, cortando vestidos,
bordando blusas finas. Flor, a princpio na preparao de bandejas de salgados e doces para
festinhas familiares, pequenas comemoraes: aniversrios, primeiras comunhes. Se era a
costura o forte de Roslia, era a cozinha o fraco da menina mais moa: nascera com a cincia do
ponto exato, com o dom dos temperos. Desde pequena fazia bolos e quitutes, sempre rondando
o fogo, aprendendo os mistrios da arte suprema com a tia Lita, uma exigente. Tio porto no
possua outro vcio, alm da pintura dominical, seno os bons pratos. Era um freqentador de
carurus e sarapatis, perdido por uma feijoada ou um cozido de muita verdura. Das bandejas de
pastis e empadas, das encomendas de almoos, partiria Flor para receitas e aulas e, por fim, para
a Escola de Culinria.
     Uma na mquina, no corte e na costura, outra na cozinha, no forno e no fogo, Dona Rozilda
ao leme, iam atravessando. Modestamente, mediocremente,  espera dos cavaleiros andantes a
surgirem numa festa ou num passeio, cobertos de dinheiro e ttulos. O primeiro arrebatando
Roslia, o segundo conduzindo Flor, ambos ao som da Marcha Nupcial, para o altar e para o
mundo alegre dos poderosos. Primeiro Roslia, era a mais velha.
     Obstinada, Dona Rozilda espreitava o dobrar das esquinas, aguardando esse genro de ouro e
prata, cravejado de diamantes. Por vezes um desnimo a invadia, e se no acontecesse o prncipe
encantado? Era tempo dele surgir, impossvel esperar a vida inteira, as moas atingiam a inquieta
idade do homem. Roslia vinte anos desdobrados em suspiros na janela, fartos do pedal da
mquina de costura, reclamava urgente esse duque, esse conde, esse baro, - quando se propunha
ele a resgat-la? To larga demora, to cansativa espera - no se visse Roslia de sbito no fundo
do barraco, solteirona, empedernida donzela, com aquele fedor a azedo das virgens encruadas,
ao qual se referia sorrindo o bom tio porto a mangar dos pruridos aristocrticos da cunhada.
     De quando em quando, Roslia o antevia, ao ansiado pretendente: nas festas de dana,
vasqueiras; nos passeios  casa da tia, no Rio Vermelho; em matins de cinema ou ao volante de
uma baratinha, todo de branco num domingo de regatas, acadmico trocista ou estudioso
sobraando grossos volumes de cincia ou curvado no malabarismo de um tango argentino de
todo capricho; romntico ao som de uma serenata pela noite.
     Dona Rozilda tambm esperava, ia crescendo em impacincia: quando, quando surgiria ele,
esse anunciado genro, esse milionrio, esse lorde, esse fidalgo, esse doutor de borla e de capelo,
esse atacadista da Cidade Baixa, esse fazendeiro de cacau ou de tabaco, esse dono de loja ou
mesmo de armarinho, em ltimo caso esse suado gringo de armazns de secos e molhados,
quando?

5

     Tanto tempo esperaram, semanas, meses e anos, to bem postas e arranjadas, e nenhum
fidalgo apareceu; nem rapaz aristocrata da Barra ou da Graa, nem filho de coronel do cacau,
nenhum senhor do alto comrcio, sequer galego enriquecido no duro labor dos armazns e
padarias. Quem chegou foi Antnio Morais com sua oficina de mecnico, sua competncia
autodidata, seu honrado macaco negro de graxa. Chegou na hora certa e por isso foi bem
recebido. J Roslia chorava lgrimas de Vitalina condenada  solido e  beatice, Dona Rozilda
no teve foras para reagir. No era o genro antevisto nas longas viglias de trabalho no pedal da
mquina ou no calor do fogo. No mais podia prender, porm, em consideraes e argumentos
ou na ira ameaadora, o fustigado mpeto de Roslia, cujos vinte (e tantos) anos sadios ansiavam
por marido.
     Ao demais, se Antnio Morais no era rico nem importante, pelo menos no era empregado
de patro nenhum, tinha sua pequena oficina afreguesada, ganhava com que sustentar mulher e
filhos. Dona Rozilda curvou-se ante o destino, meio a pulso mas curvou-se, que jeito?
     Naquele tempo j Heitor conseguira colocao na Estrada de Ferro de Nazareth, por
intermdio de seu padrinho, Dr. Lus Henrique, e fora viver na cidade do Recncavo, vindo 
Capital raramente. Tinha futuro no emprego, Dona Rozilda no precisava preocupar-se com ele.
Tambm Flor comeara a dar cursos de cozinha a moas e senhoras, ganhando dinheiro e fama
de professora competente. Agora ela carregava com a maior parte das despesas da casa, mesmo
porque Roslia, amedrontada com o correr do tempo, despendia seus ganhos em enfeitar-se, em
vestidos e sapatos, perfumes e rendas.
     Antnio Morais reparara em Roslia na matin do Cinema Olmpia, num dia de palco,
quando, alm dos dois filmes e do seriado, seu Mota, o empresrio, exibia artistas de passagem na
Bahia, restos de mambembes desfeitos em excurses pelo interior, famintas estrelas de embaada
luz. Enquanto "Mirabel, o sonho sensual de Varsvia", polaca venervel, cansada de guerra, das
ribaltas e dos leitos dos castelos, rebolava uma antiga bunda emurchecida para delrio da
crianada ali a educar-se, Antnio Morais divisou em cadeiras prximas Dona Rozilda e as duas
filhas: Roslia na excitada espera, Flor desabrochando nos peitos e nas ancas.
     No mais teve olhos o mecnico para o consumido bamboleio do "sonho de Varsvia". O
petulante olhar de Roslia cruzou com sua mirada splice. Na sada, o moo acompanhou, a
prudente distncia, me e filhas, localizando a moradia burguesa da Ladeira do Alvo. Roslia
apareceu por um instante na sacada, deixou um sorriso a esvoaar.
     No outro dia, aps a janta, Antnio Morais penava ladeira acima ladeira abaixo, estagiando na
calada fronteira ao sobrado. Da janela, Roslia espreitava, animadora. O mecnico subia e
descia, os olhos postos na sacada alta, assoviando modinhas. Da a pouco, Roslia, escoltada por
Flor, surgiu ao p da escada. Num passo de urubu malandro, Morais encostou.
     Dona Rozilda, sempre alerta, ainda na matin reparara no namoro. E, ao ver Roslia
esfogueada e indcil, saiu a tomar informaes sobre o sujeito; Antenor Lima o conhecia,
forneceu notcias concretas e favorveis: mecnico de mo-cheia, oficina prpria, nos Gals, um
monstro no trabalho. Menino de nove anos, Antnio Morais perdera pai e me num desastre de
marinete, ficara solto nas ruas e em vez de juntar-se aos capites da areia e sair para a aventura da
vagabundagem e da m vida, metera-se na oficina de P de Pilo, um negro maior que a Catedral,
mecnico e boa praa. Na oficina, o molecote fazia de um tudo, pau para toda obra, esperto
como ele s. Sem ordenado fixo mas com o direito de ali dormir, sem falar nas gorjetas, algumas
gordas. Sozinho aprendera a ler e a escrever, com P de Pilo aprendera o ofcio, e ainda jovem
comeara a trabalhar por sua conta e risco, cobrando uns biscates. Tinha as mos maneiras e a
cabea viva: os motores de automvel no guardavam segredos para sua curiosidade. No era
nenhum doutor, certamente, nem rapaz de posses. Mas poucos mecnicos podiam competir com
ele. Ganhava seu dinheiro seguro, daria um marido de primeira, que diabo a mais pretendia
Roslia se no era nenhuma princesa nem possua roa de cacau? - perguntava o malcriado Lima
a enganjenta e resmungona vizinha.
     Outros conhecidos confirmaram essa extensa crnica do comerciante, e Dona Rozilda, aps
aconselhar-se com seu compadre, doutor Lus Henrique, um Ruy Barbosa de sabedoria -
conselhos inestimveis - e de muito pesar os prs e os contras, decidiu a favor do mecnico.
     No era, repetia, o genro dos seus sonhos, o prncipe de sangue nobre e arcas de ouro. Sangue
nobre s o herdara Morais de um ancestral distante, Obitik, prncipe de tribo africana aportado
escravo na Bahia, sangue azul a misturar-se com o sangue plebeu de degradados lusitanos e de
holandeses mercenrios. Resultou da mistura um pardavasco claro de sorriso fcil, simptico
moreno. Quanto a arcas de ouro, o p-de-meia com as economias do mecnico no lhe permitia
sequer montar casa imediatamente. Mas Roslia trancara-se em sua babada paixo, no aceitava
discutir sobre as obscuras origens, o honrado ofcio e as magras poupanas do rapaz, e, ante essa
Roslia espinhosa, de resposta insolente e fcil calundu, Dona Rozilda baixou a cabea. E, assim,
na quinta ou sexta apario noturna de Morais - todo engomado em branco, o chapu quebrado
sobre o olho, os sapatos de duas cores, irresistvel! -, ela o interpelou.
     Estavam os dois amorosos num enleio, olhos nos olhos, as mos dadas, falando bobagens,
quando, das sombras da escadaria, Dona Rozilda irrompeu inesperada e inquisidora, dura voz
terrorista:
    - Roslia, minha filha, quer me apresentar ao cavalheiro?
    Feitas s apresentaes, Roslia engrolando as palavras, Morais todo sem jeito, Dona Rozilda
foi logo arremetendo, sem nenhuma cerimnia nem considerao:
     - Filha minha no namora em p de escada nem em canto de rua, no sai sozinha para passear
com namorado, no crio filha para divertimento de gaiato nenhum...
    - Mas, eu...
     - Quem quiser conversar com filha minha tem de declarar antes suas intenes.
     Antnio Morais afirmou a pureza matrimonial de suas mais recnditas intenes, no era
moleque para abusar das filhas dos outros. Respondeu com presteza e modstia ao minucioso
interrogatrio, Dona Rozilda comprovando informes, sobretudo os referentes aos ingressos da
oficina.
     Foi o mecnico aprovado e admitida oficialmente sua presena noturna  porta do sobrado,
junto  qual, a partir daquela conferncia, Roslia o esperava sentada numa cadeira. Da janela,
Dona Rozilda, no controle da moral familiar; filha sua no era para o desfrute de nenhum vadio.
Assim, quando Morais adiantava a mo terna para a terna mo da moa, ouvia-se o repreensivo
pigarro de Dona Rozilda caindo l de cima:
    - Roslia!
     Com isso apressou o noivado, Morais ansioso de maior liberdade, de intimidade menos
vigiada. Noivo, passou a freqentar a casa, a sair com Roslia aos domingos para a matin,
levando Flor de contrapeso, com ordens terminantes de vigiar e controlar os enamorados, de
impedir beijos e ternuras; Dona Rozilda exigia o mximo respeito. Mas Flor no nascera para tira
de policia; compreensiva e solidria, voltava s costas para a irm e o futuro cunhado, absorvia-se
no filme, a mastigar confeitos, deixando em paz o casal e sua urgncia, suas bocas e mos
atarefadas.
     Durante namoro e noivado, Dona Rozilda mostrou-se to amvel quanto lhe era possvel,
escondeu as salincias mais speras de sua natureza. Necessitava casar as filhas, Roslia chegara
ao limite da idade; sobravam moas em busca de marido, minguavam rapazes dispostos ao
matrimnio. rdua batalha, essa de casar filhas, Dona Rozilda bem o sabia. Suas conhecidas,
quase todas consideravam o mecnico um bom partido. Uma delas, inclusive, uma Dona Elvira,
me de trs encardidas e remelentas donzelas, destinadas ao definitivo celibato, pusera as trs
bruacas a cercarem o pretendente, desfeitas em sorrisos e olhares prometedores, s faltavam
arrast-lo para a cama, lambisgias desenxabidas e audaciosas. Ao demais, era Morais  trabalhador
e morigerado, no seria difcil  sogra comand-lo, dirigi-lo  sua vontade, aps o casamento.
Nisso se enganou, o genro iria surpreend-la.
     Assim, a completa verdade sobre Rozilda, o arteso s a veio conhecer depois de casado.
Haviam decidido habitar todos no primeiro andar da Ladeira do Alvo, soluo econmica e
sentimental, pois gastariam menos e continuariam juntos, e outra coisa no demonstravam querer
Morais e Dona Rozilda seno continuarem para sempre juntos. Roslia resistira a esses planos
temerrios, "quem casa quer casa", recordava ela, mas como fazer frente a essa lua de mel da me
e do noivo?
    No durou seis meses a lua-de-mel, desfez-se a combinao, pois, como informou o genro aos
conhecidos: "S Cristo agentaria morar com Dona Rozilda e ainda assim no era certeza,
precisava experimentar para ver se o Nazareno tinha bastante competncia. Pois talvez nem ele
suportasse".
     Mudaram-se para o fim do mundo do Cabula, quase zona rural. Morais preferia enfrentar
aquele bonde comprido e lento, viagem de nunca acabar, descarrilhando a toda hora, atrasado
para sempre; preferia sair pela madrugada para chegar a tempo na oficina situada nas imediaes
da Ladeira dos Gals; meter-se naqueles matos esconsos onde sibilavam venenosas cobras
cascavis e onde os exus dos muitos candombls da redondeza andavam soltos pelos caminhos
fazendo misrias, a tolerar o convvio quotidiano da sogra. Antes as cascavis e os exus.
     No primeiro andar da Ladeira do Alvo ficaram apenas Flor adolescente, apurando em moa
bonita - delicado rosto, seios altos e altaneiras ancas -, e Dona Rozilda, uma Dona Rozilda cada
vez mais agre, limitada agora s graas e s prendas daquela filha, seus derradeiros trunfos na
batalha pela ascenso social, batalha tantas vezes perdida.
     No perdera, no entanto, sua resistncia, no se abalara sua firme vontade de subir, de galgar
os degraus a conduzi-la ao mundo dos ricos. Nas suas noites fatigadas de insnia (dormia pouco,
ficava a ruminar projetos) decidira no entregar a caula a nenhum outro Morais. Destinava Flor
a melhor partido, a rapaz de qualidade, a branco fino, a doutor formado ou a comerciante forte.
Defenderia com unhas e dentes aquela ltima trincheira, no se repetiria o acontecido com
Roslia. No s Flor era muito mais dcil e cordata como no receava ficar solteirona, no tinha
conversa de casamento, no se levantava contra a me quando esta lhe proibia engraar-se  com
empregadinhos de escritrio, caixeiros de armarinho, galegos de balco de padaria. Obedecia sem
resmungos, no se revoltava aos berros, no se trancava no quarto ameaando suicdio, num
calundu daqueles, como o fazia Roslia quando Dona Rozilda, zelosa de seu futuro, lhe
interditava qualquer reles namorico. Resultado: casara com aquele mequetrefe do Morais, um z-
ningum, nem sequer caixeiro, um simples arteso, um operrio, que horror! Socialmente ainda
menos importante do que elas. Podia ser um colosso no trabalho, podia ganhar dinheiro, ser bom
marido, alegre camarada: a verdade, porm,  que a filha, em vez de subir, descera na escala
social; assim, pelo menos, amargava Dona Rozilda, destinada a outras alturas. Com Flor era
diferente, no iria repetir-se o equvoco.
     Enquanto Dona Rozilda forjava planos, Flor fazia-se conhecida professora de culinria,
especialmente de cozinha baiana. Nascera com o dom dos temperos, desde menina s voltas com
receitas e molhos, aprendendo quitutes, gastando sal e acar. De h muito recebia encomendas
de pratos baianos, constantemente chamada a ajudar em vataps e efs, em moquecas e xinxins,
inclusive em famosos carurus de Cosme e Damio como o da casa de sua tia Lita e o de Dona
Dorothy Alves, onde se reuniam dezenas de convidados e ainda sobrava comida para outros
tantos. Carurus anuais, promessas feitas aos santos mabaas, aos ibejs. Com o tempo seu
renome foi-se espalhando, vinham lhe pedir receitas, levavam-na  casa de gente rica para ensinar
o ponto e o tempero desse e daquele prato mais difcil. Dona Detinha Falco, Dona Lgia Oliva,
Dona Laurita Tavares, Dona Ivany Silveira, outras senhoras "de representao", de cuja amizade
tanto se gabava Dona Rozilda, recomendavam-na a amigas, Flor no tinha mos a medir. Foi
uma dessas senhoras esnobes e endinheiradas quem lhe deu a idia da escola, pois, tendo-lhe
pedido receitas tericas e demonstraes prticas, fez questo, ao pagar-lhe o trabalho, de
esclarecer que estava remunerando a tima professora e boa amiga, e no gratificando uma
cozinheira. Sutilezas gentis de Dona Lusa Silveira, sergipana fidalga toda cheia de astcias e no-
me-toques.
     A srio, com escola montada, Flor s comeou a lecionar depois da partida de Roslia e
Morais para o Rio de Janeiro. O mecnico concluiu no ser suficiente  distncia entre os altos do
Cabula e a Ladeira do Alvo, quis colocar entre sua casa e a sogra o prprio mar-oceano, tomara
sagrada averso a Dona Rozilda, "a megera", como dizia: "aquilo  peste, fome e guerra!"
     Logo prosperou a escola, at senhoras do Canela e do Garcia, mesmo da Barra, vieram
desvendar os mistrios do azeite doce e do azeite de dend; uma das primeiras foi Dona Mag
Paternostro, ricaa cheia de relaes, entusistica propagandista dos dotes de Flor.
    O tempo foi passando, corriam os anos, Flor no tinha pressa em arranjar noivo, agora era
Dona Rozilda quem comeava a preocupar-se, afinal a filha caula j no era menina. Flor
encolhia os ombros, interessada apenas na escola. O irmo, numa de suas vindas de Nazareth,
desenhara um cartaz com tinta de cor - elogiavam muito seu jeito para o desenho -, pendurara
sob a sacada:

ESCOLA DE CULINRIA SABOR E ARTE

     Heitor lera nos jornais extenso noticirio sobre uma escola "Saber e Arte", experincia de um
fulano vindo dos Estados Unidos, um tal de Ansio Teixeira. Com a mudana de uma letra no
ttulo em moda, adaptou-o aos interesses da irm. Ao lado das letras caprichadas, colher, garfo e
faca cruzados em gracioso trip, completavam a obra do artista (se fosse hoje j podia Heitor ir
pensando numa exposio individual e na venda de uns quadros a bom preo, mas era naqueles
tempos, e o funcionrio da Ferrovia contentou-se com os elogios da irm, da me e de certa
aluna de Flor, uma de olhos molhados, que atendia por Celeste).
    As aulas de culinria davam o necessrio para o sustento da casa, as parcas despesas de me e
filha, e tambm para guardar algum dinheiro, tendo em vista os gastos de um futuro matrimnio.
Mas, sobretudo, enchiam o tempo de Flor, libertavam-na um pouco de Dona Rozilda a repetir-
lhe quanto sacrifcio lhe custara criar e educar os filhos, criar e educar aquela filha caula, e de
como lhe era necessrio encontrar marido rico que as arrancasse dali, da Ladeira do Alvo e do
fogo, para as delcias da Barra, da Graa, da Vitria.
     Flor, porm no parecia preocupada com namoro ou noivado. Nas festinhas, danava com
uns e com outros, ouvia os galanteios, sorria agradecida, no ia alm disso. No correspondeu
nem mesmo aos apaixonados apelos de um doutorando em medicina, um paraense alegre,
festeiro e almofadinha. No lhe deu corda, apesar da excitao de Dona Rozilda: finalmente um
estudante, e quase doutor, aspirava  mo de sua filha.
     - No gosto dele... - declarou Flor, peremptria. - Feio como o co...
     No houve conselho nem bronca de uma Dona Rozilda em fria que a fizesse mudar de
opinio. A me entrou em pnico: iria repetir-se o caso de Roslia, revelando-se Flor igual  irm,
obstinada, disposta a resolver por conta prpria sobre noivo e casamento? Quando pensava ter
na filha mais moa a repetio da natureza do finado Gil, curvada  sua vontade, l saa ela a
antipatizar com o doutorzinho s vsperas do diploma, filho de pai latifundirio no Par, dono de
navios e ilhas, de seringais, matas de castanheiros, tribos de ndios selvagens e rios imensos.
Recamado de ouro. Dona Rozilda partira a informar-se e, na volta, aps ouvir alguns conhecidos,
j se fazia na Amaznia a reinar sobre lguas de terra, a mandar e desmandar em caboclos e
ndios. Finalmente aparecera o prncipe encantado, no fora intil sua espera, nem seu sacrifcio
mal empregado.  Num navio do rio Amazonas aportaria ela nas soberbas casas da Barra, nos
trancados palacetes da Graa, os donos a cortej-la em salamaleques e adulaes.
     Flor sorria com seu delicado rosto redondo, cor de mate, sorria com as formosas covinhas das
faces, com os olhos surpresos, repetia com sua voz cansada, voz de dengo e de madorna:
    - No gosto dele... E feio como a necessidade...
     "Que diabo ela pensava?", Dona Rozilda subia a serra. Flor estava agindo como se casamento
fosse questo de gostar ou no gostar, como se houvesse homem feio e bonito, como se
pretendente igual a Pedro Borges andasse sobrando pela Ladeira do Alvo.
     - O amor vem com a convivncia, minha condessa de titica, com os interesses em comum,
com os filhos. Basta que no haja antipatia. Voc tem raiva dele?
     - Eu? No, Deus me livre. Ele  at bonzinho. Mas s caso com o homem que eu ame... Esse
Pedro  um bicho de feio... Flor devorava romances da Biblioteca das Moas, apetecia-lhe rapaz
pobre e bonito, atrevido e loiro.
     Espumava Dona Rozilda de raiva e excitao; a voz esganiada cruzando a rua, transmitindo
os ecos da disputa a todos os vizinhos:
     - Feio! Onde j se viu homem feio ou bonito? A beleza do homem, desgraada, no est na
cara, est  no carter, na sua posio social, em suas posses. Onde j se viu homem rico ser feio?
     Quanto a ela, no trocava o feioso Borges (e at no era to horrvel assim, um tipo alto e
forte, a cara um pouco espinhosa,  verdade) por toda essa caterva de moleques atrevidos e
insolentes do Rio Vermelho, sem tosto no bolso, sem onde cair mortos, uns vagabundos. O
doutor Borges - antecipava-lhe o ttulo - era moo de bem, via-se logo em seus modos, de famlia
distinta do Par, distinta e podre de rica. Ela, Dona Rozilda, tinha sabido: a residncia deles em
Belm era um palcio, s de criados mais de uma dzia. Uma dzia, ouviu, filha ruim, caprichosa
e tola, ftua e absurda. Todos os pisos de mrmore, de mrmore as escadarias. Estendia as mos,
teatral:
    - Onde j se viu homem rico ser feio?
     Flor sorria, as covinhas do rosto eram uma lindeza, no tinha pressa em casar. Tapava a boca
da me:
     - A senhora fala como se eu fosse mulher-dama para medir os homens pelo dinheiro... No
gosto dele, se acabou...
     A luta entre Dona Rozilda, irritada e irritante, num nervosismo de doente, e Flor, serena como
se nada estivesse acontecendo, peleja da qual Pedro Borges era objetivo e prmio, atingiu o pice
quando das festas de formatura no fim daquele ano. O doutorando as convidara para o
ato solene e para o baile.
     Para o ato solene, no salo nobre da Faculdade, Dona Rozilda vestiu-se de sogra, toda armada
em tafet, majestosa como um peru de roda, a rir at pelos babados das mangas, um pente de
danarina espanhola espetado no coque. No baile de formatura, Flor resplandecia em rendas e
fils, no teve descanso. No falhou uma s contra dana, tantos os cavalheiros a solicitarem-na.
Mas, nem assim concedeu esperanas ao recm formado.
     Nem mesmo quando ele, em vsperas de partir para a Amaznia longnqua, veio visit-las,
trazendo o pai para melhor impressionar. Chamava-se Ricardo o grado paraense, um gigante,
vozeiro de trovoada, os dedos pejados de jias - Dona Rozilda quase desmaia ao fitar tanta
pedra preciosa. Havia um carbonado sem tamanho, valia pelo menos cinqenta contos de ris, ai,
meu Deus!
     O velho falou de suas terras, dos ndios mansos e da borracha, das histrias do rio Amazonas.
Falou tambm de sua alegria ao ver o filho doutor, de canudo de mdico. S lhe faltava agora v-
lo casado, com moa direita, modesta e sincera, no fazia questo de dinheiro, dinheiro ele
juntara bastante - movia os dedos, os brilhantes faiscavam, iluminando a sala. Queria nora que lhe
desse netos e netas para encherem de bulha e calor aquela austera casa de mrmore, em Belm,
onde o velho Ricardo, vivo, vivera solitrio os anos de Faculdade de Pedro. Falava e olhava para
Flor como  espera de uma palavra, de um gesto, de um sorriso: se aquilo no era introduo
para um pedido de casamento, ento Dona Rozilda era uma ignorante de tais coisas. Tremia ela
de emoo de nsia, chegara a hora abenoada, jamais estivera to perto de seus objetivos, fitava
a bobela da filha esperando seu acordo tmido porm firme. Mas Flor apenas disse com sua voz
de madorna:
     - No vai faltar moa bonita e direita para casar com Pedro, ele bem merece. Eu s queria que
fosse aqui, na Bahia, que era para eu preparar o banquete do casamento.
     Pedro Borges recolheu sem ressentimentos a aliana de ouro j adquirida, o velho Ricardo
pigarreou, mudou de assunto. Dona Rozilda sentiu-se mal, ofegante, o corao descarrilhando.
Saiu da sala num repente indignado, temia ter uma coisa, desejou ver a filha morta e enterrada, a
ingrata, a bestalhona, a idiota, inimiga da prpria me, amaldioada! Como se atrevia ela a recusar
a mo do doutor  agora realmente doutor -, do moo rico, do herdeiro das ilhas, dos rios e dos
ndios, dos mrmores todos, dos faiscantes anis, ai, como se atrevia a infeliz bastarda?
     Ah! que muro de dio e inimizade, de imperdovel incompreenso, intransponvel de rancor,
no se ergueria entre me e filha, juntas para sempre e para sempre separadas, se naquele comeo
de ano, logo aps a partida do desprezado Borges, no houvesse surgido Vadinho! Ah!, diante
dos ttulos, da posio e da fortuna de Vadinho - pelo prprio Vadinho e por alguns de seus
amigos fora Dona Rozilda amplamente informada  no passava o paraense de um pobreto,
com todo o mrmore de seu palcio e seus doze criados; de um indigente, com toda sua terra e
toda sua gua.

6

     Numa breve e polida curvatura, Mirando, o rosto resplandecente de simpatia, pediu licena,
sentou-se ao lado de Dona Rozilda. As cadeiras de palhinha circundavam a sala, encostadas 
parede. O estudante crnico ("perseverante", corrigia ele, se lhe recordavam seus sete anos de
Escola de Agronomia) estendeu as pernas, ajustou cuidadoso o vinco das calas, analisando os
pares no tango argentino caprichado, figuraes difceis, passos quase acrobticos, sorriu
aprovativo: nenhum danarino podia comparar-se a Vadinho, nenhum com sua classe, benza-te
Deus e te livre do mau olhado, t'esconjuro! Mirando era supersticioso. Mulato claro e pachola,
de seus vinte e oito anos de idade, a mais popular figura dos castelos e das casas de jogo da Bahia.
     Sentindo o olhar de Dona Rozilda a acompanhar o seu, para ela voltou-se, abrindo ainda mais
o cativante sorriso; a examin-la com olho crtico e apreciador. "Bucho definitivo, sem serventia",
concluiu com pesar. No devido  idade. H muito Mirando inscrevera em seu cdigo de
procedimento com as mulheres um pargrafo afirmando jamais a nenhuma dever-se desprezar
por madura ou velha, caso contrrio podia-se cair em erros fatais. Mulheres j alm dos cinqenta
ainda por vezes mantinham rara e admirvel forma e juventude, capazes de surpreendentes
performances, de recordes imprevisveis.  Ele o sabia por viva experincia, e ainda agora, ao fitar
as runas de Dona Rozilda, recordava-se do esplendor crepuscular de Clia Maria Pia dos
Wanderleys e Prata, todos esses nomes para designar uma tampinha desse tamanho, senhora da
alta sociedade, mulherzinha espevitada, levada da breca. Com mais de sessenta anos confessados,
e a pr florestas de chifres no marido e nos amantes, insacivel. Com netas balzaquianas e
bisnetas casadoiras, e ela a fazer caridade - e que caridade! era rdega e magnnima fmea a
jovens estudantes necessitados. Mirando semicerrou os olhos: para no ver a vizinha, carcaa
sem recurso nem escapatria, e tambm para melhor recordar o uterino e inesquecvel furor de
Clia Maria Pra dos Wanderleys e Prata e as notas de cinqenta e cem mil- ris que ela, grata, rica
e esperdiada, lhe enfiava s escondidas no bolso do palet. Ah! bons tempos aqueles, Mirando
a iniciar-se nos estudos e nos mistrios da vida, calouro de agronomia, cascabulho da noite, e
Maria Pia dos Wanderleys gastava legtimo perfume francs nas rugas do pescoo e nos baixios.
     Reabriu os olhos para a sala, a sentir nas narinas a fragrncia da inolvidvel tatarav; a seu
lado, o xaveco com cara de bruxa argao vil, pelancas nas bochechas, coque nos cabelos -
continuava a fit-lo com seus olhos midos. Era um espantalho, devia feder sob as anguas, um
aftim de carne passada; Mirando aspirou rpido as sobras do perfume francs na memria
distante - Ah! nobre Wanderley, onde andars agora, septuagenria? A velha na cadeira, que
estrepe mais sem misericrdia!
     Educado, porm, como se honrava de ser, o permanente estudante de agronomia no deixou
de sorrir para Dona Rozilda. Uma bruaca, uma catraia, resto de peixe seco e salgado, intil para
qualquer ao ou pensamento lbrico, nem assim deixava de merecer respeito e ateno: exausta
me de famlia, pelo jeito viva; e Mirando era, no fundo, um moralista extraviado nas casas de
tavolagem. Ao demais, chegara seu momento de euforia.
     - Festinha animada, no acha? - perguntou a Dona Rozilda iniciando o histrico dilogo.
     Era sempre assim, em cada um de seus freqentes pileques. Primeiro tinha aquela fase de
esfuziante jbilo. Parecia-lhe o mundo perfeito e bom, a vida alegre e fcil, e naquela hora
Mirando tudo podia compreender e estimar, estabelecia-se entre ele e as demais criaturas um
clima de comunho total, mesmo entre ele e a fedida arraia-mijona, sua vizinha de cadeira. Ficava
delicado, conversador, a imaginao extravasando, sem limites. A figura do estudante pobre,
"perptuo estudante e perpetuamente sequioso", imagem por ele criada e da qual vivia, cedia
lugar ao homem moo, importante e vitorioso, promovido a engenheiro agrnomo, quando no
a livre docente da Escola, enumerando vantagens, galgando cargos e conquistando  mulheres.
Danava-se a contar histrias, e como as contava! Era um mestre da narrativa oral, criador de
tipos e de suspense, um clssico da boa prosa.
    Se a bebedeira se prolongava, no entanto, ao fim da noite esse otimismo e essa euforia se
esfumavam, e, ao trmino da esbrnia, envolvia-se Mirando em lstima e lamento, a flagelar-se,
lancinante, em impiedosa autocrtica, recordando a esposa vtima de sua degradao, os quatro
filhos sem comida, toda a famlia ameaada de despejo, e ele ali, nos antros de jogo e nos
prostbulos. "Sou um miservel, um crpula, um canalha", alardeava um Mirando pungente, com
remorsos e sem malcia, um moralista. Mas essa segunda e lamentosa fase s de raro em raro
acontecia, s em ocasies de porres monumentais.
     As vinte e trs e trinta, porm, na casa em festa do major Pergentino Pimentel, aposentado da
Polcia Militar do Estado, encontrava-se Mirando contente com o mundo, disposto a cordial e
proveitoso intercmbio de idias com Dona Rozilda. Acabara de comer e beber a tripa forra na
sala de jantar, provando todos os pratos, repetindo alguns deles. Num esperdcio de comida, ali
se exibiam os quitutes baianos, vatap e ef, abar e caruru, moquecas de siri mole, de camaro,
de peixe, acaraj e aca, galinha de xinxim e arroz de hauss, alm de montes de frangos, perus
assados, pernis de porco, postas de peixe frito para algum ignorante que no apreciasse o azeite
de dend (pois como considerava Mirando de boca cheia e com desprezo, h todo tipo de bruto
nesse mundo, sujeitos capazes de qualquer ignomnia). Toda essa comilana regada a alu, a
cachaa, a cerveja, a vinho portugus. O Major realizava sua festa h mais de dez anos,
cumprindo severa obrigao de candombl, desde quando os orixs haviam-lhe salvo a esposa
ameaada de morte com pedras nos rins. No media despesa, juntando dinheiro o ano todo para
gast-lo satisfeito naquela noite. Mirando se atolara, garfo respeitvel e copo mais ainda. Agora,
empanzinado, afrontado de tanto comer e beber, s mesmo um bom cavaco para ajudar a
digesto.
     Na sala, os pares desdobravam-se no tango argentino, ao piano Joozinho Navarro. Dizendo-
se Joozinho Navarro, para os entendedores j se disse tudo, no havia pianista mais requisitado
na Bahia, e certa gente, como um juiz de nome Coqueijo muito entendido em msica, ligava o
rdio s para ouvi-lo a dedilhar, num programa de canes populares. E, pela madrugada, no
Tabaris, no era seu piano o motivo da maior animao? Festa particular dificilmente o obtinha,
no lhe sobrando tempo para tais amadorismos. Indefectvel, porm, na brincadeira em casa do
Major, a quem Joozinho no podia enfonar, era-lhe devedor de gentilezas antigas.
     Mirando olhava complacente os danarinos, aplaudia com a cabea a execuo de Joozinho
- batuta! - sorrindo para a vizinha, constatando a absoluta ausncia de qualquer outro penetra,
alm dele e de Vadinho. Nenhum outro heri! - penetrar na festa do Major Tiririca (como os
moleques do Rio Vermelho haviam apelidado o bravo Pergentino) era proeza impossvel, motivo
de apostas e desafios. Mirando considerava-se realizado: finalmente haviam conseguido, ele e
Vadinho, furar a barreira estabelecida pelo Major e obter que a pesada porta de carvalho, trancada
a chave, nica passagem a abrir-se para os convidados e s para os convidados - todos eles rostos
familiares aos donos da casa, amizades de longa data - obter que se abrisse para ele e para
Vadinho e lhes desse entrada. E no s isso; sendo os dois acolhidos aos abraos pelo Major e
por Dona Aurora, sua esposa, ainda mais ciosa da qualidade e identidade dos convivas, que o
marido. L fora, no sereno animadssimo, os gabirus amargaram a derrota ao v-los penetrar,
aps breve troca de palavras com o Major Tiririca, cruzando a intransponvel soleira por entre
ruidosas exclamaes de Dona Aurora. Como o haviam conseguido?
     Mirando suspirou de bucho farto, num sorriso beato. L ia Vadinho pela sala, a bailar, a
dama linda em seus braos, morena rechonchuda, servida de carnes - e quem gosta de ossos 
cachorro -, com uns olhos de azeite e uma pele cobreada, cor de ch, formosa de ancas e de
seios.
     - Pedao de descaminho, perdio de morena! - louvou Mirando, apontando a moa a danar
com o amigo.
     O estupor ps-se em guarda, alteou o busto seco, ganiu com voz batalhadora:
    -  minha filha...
    Mirando nem se alterava:
     - Pois receba meus parabns, minha senhora. V-se logo que  moa direita, de famlia. O meu
amigo...
    - O moo que est danando com ela  seu amigo?
     - Se  meu amigo? Intimo, minha senhora, fraterno...
    - E quem  ele, eu poderia saber?
     Mirando endireitou-se na cadeira, puxou do bolso o leno perfumado, enxugou umas gotas
de suor na testa larga, cada vez mais sorridente e feliz: nada havia de que ele tanto gostasse como
de armar uma patranha, uma histria bem divertida.
     - Permita-me que antes eu me apresente: doutor Jos Rodrigues de Miranda, engenheiro
agrnomo, requisitado no Gabinete do Delegado Auxiliar... - estendia a mo, cordialssimo.
     Num ltimo assomo de desconfiana, Dona Rozilda mediu o interlocutor com um olhar
hostil. Mas a fisionomia pachola e o franco sorriso de Mirando apagavam qualquer suspeita,
rompiam qualquer resistncia, desarmavam e conquistavam qualquer adversrio, mesmo maligno
e ranheta como Dona Rozilda.

7

PARNTESIS COM CHIMBO E COM RITA DE CHIMBO

     Naquele dia, ao fim da tarde, quando maior o mormao, uma atmosfera espessa, de cimento
armado, estando Vadinho e Mirando em So Pedro, no Bar Alameda, a tomar as primeiras
cachaas do dia, discutindo planos para a noite de festa no Rio Vermelho, eis que na porta do
botequim viram surgir  afogueada face de Chimbo, aquele parente importante de Vadinho, na
ocasio comissionado como Delegado Auxiliar, ou seja, a segunda pessoa da polcia.
     Escrivo de casamentos e filho de prestigioso poltico governista, sem respeito pela tradicional
austeridade do pai, sem ligar para as convenincias, esse distante primo de Vadinho, Guimares
dos legtimos e ricos, era um estrina, folgazo inveterado, bom no trago, nos dados e nas putas -
para tudo dizer: um porra-louca. Ultimamente um pouco retrado, forando sua natureza
espontnea, em ateno ao cargo. Cargo no qual, por isso mesmo, pouco duraria, preferindo sua
liberdade s posies, no a trocava pela merc mais alta, por ttulo algum.
     J anteriormente desistira do Governo de Belmonte, cidade de seu nascimento, onde fora
empossado intendente pelo Pai, senador e feudal,aps um simulacro de eleio. Abandonou
posto e ttulo, deveres e vantagens, era demasiado o preo a pagar. No se contentavam os
belmontenses com suas reais qualidades administrativas, exigiam de seu governador ilibados
costumes, em intolervel abuso.
     Fora um zunzunzum dos diabos, um escndalo sem medida, s porque ele, audaz e
progressista, importara da Bahia algumas amenas raparigas, no desejo de romper a monotonia da
pequena cidade e sua solido. Fizera vir Rita de Chimbo prestigiosa animadora da noite no
Tabaris. De Chimbo apelidada devido a antigo e persistente rabicho a uni-los, xod cantado em
prosa e verso pelos bomios. Brigavam, xingavam-se, separavam-se, para sempre e dias depois
faziam as pazes, permaneciam em seu idlio, enrabichados. Por isso juntara Rita a seu nome o
apelido de seu amor, assim como a noiva adota o sobrenome do noivo no ato do matrimnio. Ao
sab-lo intendente, senhor de barao e cutelo a exercer direito de vida e morte sobre indefesa
populao, exigiu, em mensagem telegrfica, compartir de sua autoridade. Que prazer no mundo
se pode comparar ao do mando, ao do poder? Queria sabore-lo a voluptuosa Rita. Chimbo
solitrio nas noites de Belmonte, longas de nada por fazer, vazias de um tudo, escutou a splica
ardente, mandou buscar a rapariga.
     Chimbo intendente, rei em sua cidade, Rita de Chimbo no podia nesse imprio desembarcar
como uma qualquer, era a favorita, a concubina real. Eis por que convidou para seu cortejo trs
beldades, diversas entre si mas excelentes as trs: Zuleika Marrom, mulata de capricho e deboche,
suas ancas de saracoteio fechavam as ruas, atropelavam os pedestres. Amlia Fentes, enigmtica
peruana de voz macia, com tendncias msticas, e Zizi Culhudinha, uma espiga de milho, frgil e
doirada, sapeca como ela s. Essa restrita e formosa caravana, pesa dize-lo!, no teve em
Belmonte a entusistica acolhida a que fazia jus; ao contrrio, foi alvo de aberta hostilidade por
parte das senhoras e mesmo de cavalheiros. Se excetuarmos certos grupos sociais - os imberbes
estudantes, os escassos noctvagos, os cachaceiros em geral - e alguns indivduos, cabe afirmar
ter-se  mantido a populao arredia e suspeitosa.
     Depois, Rita de Chimbo foi vista  meia noite, na sacada da Intendncia, bbada de cair, a
saudar a cidade com sua inesgotvel coleo de nomes sujos. Circulavam notcias espantosas: o
velho Abrao, comerciante e av, arrastava-se ridculo aos ps de Zuleika Marrom, dilapidando o
patrimnio dos netos em bacanais com a barreg. Bereco, rapaz at ento direito e casto,
funcionrio dos Correios, presidente das Obras Pias, apaixonara-se por Amlia Fentes,
descobrira suas razes de pureza e religiosidade, oferecia-lhe aliana de noivado, levando sua
preconceituosa famlia ao desespero. Culminou o escndalo quando a Culhudinha fez-se  bem
amada de todos os colegiais, seu sonho e sua rainha, sua bandeira de luta e seu pulcro ideal. L ia
ela toda loira nas noites de Belmonte, cercada de meninos e o poeta Sosgenes Costa dedicava-lhe
sonetos. Oh! Ignomnia!
     At o chibungo do vigrio, padre arrogante de fala esganiada, pregara contra Chimbo,
catilinria veemente contra sua escandalosa incontinncia. Classificara as diletas raparigas de "lixo
do meretrcio metropolitano", de "asseclas do demnio", coitadinhas das meninas! Sermo
incendirio, a igreja repleta na missa dominical, e o reverendo a acusar Chimbo de estar
transformando a pacata Belmonte em Sodoma e Gomorra, os lares arruinados, desfeitas as
famlias, urbe infeliz  qual acontecera a desgraa de to depravado Intendente, esse "Nero em
ceroulas". Chimbo possua senso de humor e riu da virulncia do padre. Choraram as raparigas,
Rita de Chimbo clamou vingana, e Miguel Turco, rabe exaltado e secretrio da Intendncia,
incondicional dos Guimares e chaleira notrio, props-se execut-la: mandariam dois cabras de
confiana ensinar boas maneiras ao subversivo vigrio, chegando-lhe a batina ao corpo.
     Chimbo enxugou as lgrimas de Rita, agradeceu a dedicao do srio, gratificou os dois
capangas, dois criminosos de morte, foragidos de Ilhus. Sob aparente nonchalana, era Chimbo
homem prudente e hbil, no lhe faltava treita poltica. Imagine-se a reao do velho Senador se
ele entrasse em guerra com a Igreja, surrando-lhe um cura para desagravar mulheres-damas! Ao
demais, o padre tinha suas razes para tamanha birra. Ao trat-lo de "Nero em ceroulas", queria
referir-se  noite em que, trajando apenas listradas cuecas, tivera o ilustre Intendente de assim
atravessar a cidade pois o vigrio vinha de surpreend-lo em avanado idlio com a cndida
Maricota, estimvel domstica a assegurar os servios de cama e mesa do sacerdote, sua ovelha
favorita.
     No restou a Chimbo outro caminho seno reunir as ofendidas hspedes, dar o brao a Rita
de Chimbo, e embarcar com elas num navio da Baiana. Renunciou assim do cargo, s honrarias, e
 polpuda comisso do jogo do bicho. Ento ficou Belmonte de sua capacidade administrativa e
da lhaneza das beldades da capital. Da eficiente administrao de Chimbo davam testemunho a
restaurada ponte de desembarque, a ampliao do Grupo Escolar e os consertos no muro do
cemitrio; das raparigas, a fugidia viso continuou por muito tempo a perturbar o sono de
Belmonte.
     Recolheu-se Chimbo ao anonimato do rendoso lugar de serventurio da justia, onde
ningum lhe vigiava os passos. Reintegrou-se na vida noturna, do Tabaris (onde Rita de Chimbo
voltara a reinar) ao Place, do Abaixadinho  casa de Trs Duques, do castelo de Carla ao de
Helena Beija Flor. Da festa da noite e do cargo polpudo e andino - escrivo de casamentos,
juramentado - retirava-o de quando em quando o pai Senador para us-lo em suas manobras
polticas, entregando-lhe posies e honrarias por outros ambicionados, no por ele, Chimbo,
desejoso apenas de viver livre, a l vont.
     Chimbo estimava Vadinho, no s pelo distante e esprio parentesco, como tambm devido
s qualidades do jovem companheiro de roletas e cabars. Assim, ouvindo certa ocasio algum
tachar Vadinho de vagabundo, sem ofcio nem meio de vida, arranjou-lhe modesto emprego de
fiscal de jardins da Prefeitura, pois "um Guimares deve ter posio definida na sociedade".
    - Nenhum Guimares  um vagabundo...
     Contradies desse simptico Chimbo, to pouco preso a convenes e protocolos e, ao
mesmo tempo, com profundo sentimento de famlia, zeloso da poderosa cl dos Guimares.
     Pois, naquela tarde, Vadinho e Mirando encontraram Chimbo em So Pedro, quando o
Delegado Auxiliar dirigia-se  Chefatura de Polcia. Um Chimbo aporrinhado da vida, metido em
roupa escura e quente, de cerimnia, roupa de enterro ou matrimnio - colarinho de ponta
virada, plastro, colete, polainas, bengala de casto de ouro - um Chimbo a rigor naquele dia
escaldante de fevereiro, o mormao a asfixiar, cancula mortal, as bocas vidas por uma cerveja
bem gelada.
     - S uma bramota polar pode nos salvar a vida...  disse Vadinho, abraando o parente e
protetor.
     Chimbo arrenegou da sorte, em plstica e forte lngua, dando nomes, num azedume: "merda
de vida mais escrota aquela, emprego mais filho da puta aquele, obrigado a acompanhar o
Governador a todos os cantos, a todas as cerimnias, a todas essas merdolncias e porcarias . . ."
No o viam assim fantasiado de comendador portugus? Naquela noite tinha de comparecer, por
fora do cargo,  instalao solene de um congresso cientfico - Congresso Nacional de
Obstetrcia -, na Faculdade de Medicina, com discursos e teses, debates e pareceres sobre partos e
abortos, paulificao monumental. Chimbo emborcava rpido seu copo de cerveja, tentando
aplacar calor e raiva, seu pai com aquela eterna mania de utiliz-lo na poltica...
     E ainda por cima - imaginassem eles a urucubaca! - o tal Congresso decidia instalar-se logo na
noite da festa do Major Pergentino, o Major Tiririca, do Rio Vermelho, certamente eles sabiam de
quem se tratava. Fizera um favor ao militar, soltara um desordeiro a seu pedido, e agora o Major
no o largava, querendo a todo custo obsequi-lo, preparando-lhe grossa homenagem. A festa de
Tiririca, segundo diziam, era de arromba, valia a pena, nela comia-se e bebia-se  farta. E ele,
Chimbo, convidado de honra, imaginem a pagodeira !
    - Em vez disso vou ter  de ouvir mdico falando em parto... Meu pai me arranja cada
prebenda...
     Como convencer o Senador a deix-lo em paz, em seu canto, se o velho era um strapa ante o
qual at o Governador tremia? Brilharam os olhos de Vadinho, sorriu Mirando. Chimbo acabava
de abrir-lhes as portas da glria e da casa do Major.

8

      noite, diante da residncia em festa, os dois embusteiros apostaram com outros valdevinos:
penetrariam no baile e nele seriam recebidos como se fossem convidados de honra. Penetraram e
foram recebidos com todas as honras, tratados a velas de libra, pois Vadinho fez-se reconhecer
pelo Major e por Dona Aurora como sobrinho do impedido Delegado Auxiliar enquanto
empossava Mirando no inexistente cargo de secretrio particular de Chimbo.
    - Doutor Airton Guimares, meu tio, teve de acompanhar o Governador ao Congresso de
Obstetrcia. Mas, como fazia questo de no faltar ao seu convite, mandou-me a mim e ao seu
Secretrio, doutor Miranda, para represent-lo. Eu sou o doutor Waldomiro Guimares...
     O Major confessou-se comovido com a gentileza do Delegado, a oferecer-lhe desculpas, a
fazer-se representar. Lastimava no t-lo na festa, seu desejo seria homenage-lo, mas recebiam,
ele e sua esposa, de braos abertos, o representante de seu estimado amigo. Estendia a mo para
Vadinho quando Mirando, em xtase e desbragado, corrigiu e ps todas as coisas em seus
lugares:
    - Perdoe-me, Major, a intromisso: representante do Doutor Delegado Auxiliar  a minha
modesta pessoa, eu doutor Jos Rodrigues de Miranda, livre docente da Escola de Agronomia,
requisitado pelo doutor Airton... O meu amigo doutor Waldomiro, se bem sobrinho do
Delegado, no o representa e, sim, ao Senhor Governador...
     - Ao Governador? - exclamou o Major, embargado com tanta honra.
     - Sim - encarrilhou Vadinho - quando o Governador ouvira o Delegado Auxiliar pedir a seu
Secretrio e a seu sobrinho que fossem  festa do Major, lhe ordenara (pois servia no Gabinete de
Sua Excelncia) abraar "seu bom amigo Pergentino e cumprimentar sua digna esposa".
     O Major e Dona Aurora, empanzinados de vaidade, abriam passagem, faziam apresentaes,
mandavam encher os copos, preparar os pratos, tudo era pouco para Vadinho e Mirando.
     L fora, embasbacados, os colegas de maroteira no podiam crer nos prprios olhos. Que
patifaria teriam inventado os dois cnicos para serem assim recebidos? No havia memria de
penetra algum ter conseguido atravessar os batentes da porta do Major, para quem era uma
questo de honra manter a festa nos limites estritos dos seus convidados, seus amigos, que lhe
garantiam a decncia e o renome. Jurando por seus gloriosos gales, gabava-se: "Penetra, em
minha festa, s passando sobre meu cadver!" E os penetras mais exmios da cidade, capazes de
penetrar - e tendo penetrado - em festas de todo fechadas e imponentes, guardadas pela polcia,
at em festas no Palcio do Governo e na casa do doutor Clemente Mariano, festas ao lado das
quais a do Major era simples assustado, dancinha de pobre, forrobod de bairro, arrasta-p, esses
penetras famosos, todos eles, fracassaram em suas tentativas, cada ano renovadas, de penetrar na
festa do Major. Nenhum alcanara transpor os defendidos umbrais.
     Nenhum,  exagero. dio Gantois, estudante astucioso, em comparsaria com outro no
menos moleque, o j anteriormente referido Lev Lngua de Prata, na ocasio ainda acadmico,
conseguiram os dois, certa feita, penetrar e por meia hora, mais ou menos, manter-se na festa
para serem logo depois expulsos a safanes e sopapos, o musculoso dio em luta corporal com
os convidados, o galalau do Lev trocando pontaps com o Major.
     Como triunfaram e, logo aps o triunfo, to lamentavelmente fracassaram? Se bem seja outra
histria, vale a pena cont-la para assim ainda mais valorizar-se o feito de Vadinho e Mirando.
Por aquele tempo havia aportado  Bahia, com muito reclame nas gazetas, para dois nicos
espetculos no Conservatrio, um extravagante concertista a manejar instrumento ainda mais
singular: um serrote, to melodioso quanto o mais afinado piano. Tratava-se de um russo, de
nome estrambtico, o "russo do serrote mgico", como anunciavam os cartazes de propaganda e
as notcias nos jornais. dio possua velho serrote de carpina, e Lev, filho de russo, o nome
estrambtico. Doidos os dois por uma boa molecagem, embrulharam o serrote em papel pardo,
engoliram umas cachaas para animar, apresentaram-se na porta do Major como o russo do
serrote e seu empresrio.
     O Major Tiririca possua um sexto sentido quando se tratava de penetras: percebia-os no ar, 
distncia. Bateu os olhos em Lev e dio e uma voz interior deu-lhe o alarma. Mas j os
convidados, ao anncio da presena do "russo do serrote mgico", saudavam entusiasmados a
possibilidade de ouvi-lo tocar. Em silncio, curtido de dvidas, o Major abriu a porta, permitindo
a entrada aos dois malandrins. Ficou, porm, a vigi-los. Encostaram eles o serrote atrs de um
mvel, o Major comprovou a avidez com que se dirigiam  sala de jantar, a pressa em comer e
beber. Trocando um olhar com Dona Aurora, a quem igualmente toda aquela encenao no
parecia l muito catlica, exigiu ento o Major, apoiado pela totalidade dos convidados ansiosos,
imediata demonstrao musical. Primeiro o concerto, depois a pitana. Por mais tentasse dio,
com um converse tapeativo, adiar o momento do desastre, no o conseguiu, no obteve prazo
nem apelao.
     Ao demais, por qualquer estranha metamorfose, Lev sentira-se de sbito inspirado, vivia seu
papel de forma to realista a ponto de considerar-se o verdadeiro russo dos concertos. Assim,
sem mais se fazer rogar, tomou do velho serrote, entre palmas e bravos. Foi to perfeito -
curvada em ngulo sua magra e comprida anatomia, a cabeleira desfeita, os olhos no astral, um
autntico maestro - que a todos enganou, fazendo vacilar mesmo o Major e Dona Aurora,
enquanto  no feriu, com uma colher de caf, o bojo do serrote. Mas apenas lhe aplicou o
primeiro golpe e - como depois dio contaria - todos os presentes, sem exceo, compreenderam
tratar-se de uma farsa. S Lev persistia, cada vez mais autntico e possudo, a vibrar colheradas
no serrote, sem que o Major, esposa e convidados demonstrassem a menor simpatia por tanto
empenho e arte.
     O Major adiantou-se, seguido por alguns amigos, os mais sensveis a tais brincadeiras de mau
gosto. A travessia do corredor, a caminho da porta da rua, foi longa e pica, verdadeiramente
inesquecvel, dio e Lev a recordariam vida a fora. Pescoes, pontaps, esbarros e quedas. Dona
Aurora desejava arrancar os olhos dos dois rapazes, o Major contentou-se com atir-los  rua, em
meio ao povo do sereno (e em cima dos corpos cados jogaram o serrote cada vez menos
sonoro).
     Com Vadinho e Mirando nada disso sucedera, nem o Major nem Dona Aurora tiveram a
mais leve suspeita. Comeram e beberam do bom e do melhor, Vadinho arrastando o p de valsa
pela sala, Mirando a interrogar-se se devia ou no erguer, em nome de Chimbo, um brinde ao
Major e a Dona Aurora. Sorria na cadeira, ouvindo Dona Rozilda perguntar quem era o moo
danarino, cavalheiro de sua filha. Para obter maior efeito, respondeu com outra pergunta:
     - O Major no lhe apresentou?
    - No. Eu estava l dentro, no vi quando ele chegou.
     - Pois, estimada senhora, tenho o prazer de lhe informar. Trata-se do doutor Waldomiro
Guimares, sobrinho do doutor Airton Guimares, Delegado Auxiliar, neto do Senador...
     - No me diga que  do Senador Guimares, esse to falado...
     - Desse mesmo, minha distinta. O mandachuva, o bamba, o bambamb, o Deus-Menino da
poltica, esse mesmo, meu padrinho...
    - Seu padrinho?
    - De crisma. E av de Vadinho...
    - Vadinho?
    -  o apelido dele, de menino.  o neto preferido do Senador.
     -  estudante?
     - No j lhe disse que  doutor? Formado, minha senhora, advogado. Oficial de Gabinete do
Governador, alto funcionrio municipal, fiscal...
     - Fiscal do consumo? - aquela informao excedia os sonhos mais temerrios de Dona
Rozilda.
     - Fiscal de jogo, minha ilustrssima, - e em voz cochichada: -  a fiscalizao que deixa mais,
uma fortuna por ms, sem falar nos agrados, uma fichinha aqui outra acol... E, agora, ainda por
cima, encarrapitado no Gabinete do Governador...
    Sentia-se generoso:
     - A senhora no tem algum parente pobre que deseje empregar? Se tiver,  s dizer, dar o
nome... - respirou fundo, contente consigo mesmo, prosseguiu indmito: - Est vendo ele ali,
danando? Pois no se admire se na prxima eleio ele sair deputado...
    - To novo ainda...
     - O que  que a senhora quer? Nasceu em bero de ouro, encontrou o prato feito, seu
caminho  de rosas. - Mirando sentia-se um poeta nessa noite de glria, improvisaria um
discurso monumental, arrancando lgrimas  prpria Dona Aurora, a fera do Rio Vermelho.
     Dona Rozilda apertou os olhos midos, uma chama de ambio, amarela, a brilhar em sua
frente. Joozinho Navarro arrematava o tango nuns floreios caprichados, Vadinho e Flor sorriam
um para o outro. Dona Rozilda estremeceu de emoo: jamais vira assim a face da filha, e bem a
conhecia. E o rapaz - perguntava-se ela -, fora ele tambm atingido e para sempre marcado?
Havia na face de Vadinho um ar de inocncia, uma candura, tal sinceridade; Dona Rozilda sentiu-
se comovida. Ah! Milagroso Senhor do Bonfim, seria aquele o genro rico e importante que os
cus lhe destinaram? Ainda mais rico e importante do que o paraense Pedro Borges, com suas
lguas de terra e de rio, suas dzias de empregados. Um genro neto de Senador, ntimo do
governo, ele prprio governo: "ai, minha Nossa Senhora da Capistia, valei-me! Concedei-me,
meu Senhor do Bonfim, a graa desse milagre e acompanharei descala a procisso da lavagem,
levando flores e uma quartinha de gua pura."
     O Major aproximava-se, Dona Rozilda agradeceu a Mirando, dirigiu-se ao dono da casa,
apontou o grupo formado por Vadinho e Flor, Dona Lita e porto, num canto da sala. Mirando
observou a manobra da velha lambisgia, fez um esforo, ps-se tambm de p, foi por uma
cerveja. Dona Rozilda pedia ao major:
    - Major, me apresente quele moo...
     - No conhece? Pois  um parente do doutor Airton Guimares, o Delegado Auxiliar, meu
amigo do peito... - sorria vaidoso, acrescentando: - Para os ntimos, Chimbo... Ele mesmo me
disse: "Pergentino, trate-me de Chimbo, somos amigos ou no?" Homem sem besteira, direito...
Me fez um favorzo... - falava para todos, alardeando sua amizade com o Delegado.
    Dona Rozilda apertava a mo do jovem, Flor esclarecia:
     - Minha me, doutor Waldomiro...
    - Vadinho para os amigos...
     - Doutor Waldomiro vive  sombra do nosso eminente chefe, o Governador. Trabalha em seu
gabinete...
    - O Governador gosta muito do senhor, Major. Ainda hoje me disse: "D um abrao em meu
amigo Pergentino, amigo do peito..."
    O Major chegava a ficar vexado de felicidade:
    - Obrigado, doutor...
     Porto, a quem tal intimidade palaciana deixava um pouco tmido, comentou:
    - Muita responsabilidade... Mas tambm muita importncia...
    Vadinho fazia-se modesto:
    - Tolice... Nem sei se vou continuar no Palcio...
    - E por qu? - quis saber Dona Lita.
    - Meu av - confidenciou Vadinho -, o Senador...
    - O Senador Guimares... - rezou baixo Dona Rozilda.
    Sorriu-lhe Vadinho, uma aura de candura a circundar-lhe o rosto, sorriu melanclico para Flor,
to linda:
    - Meu av quer que eu v para o Rio, oferece-me um lugar...
    - E o senhor vai aceitar? - morria Flor nos olhos de azeite.
    - Nada me prende aqui... Ningum... Sou to sozinho...
    Suspirava Flor:
    - To sozinha...
     Da sala de jantar reclamavam o Major, ele no tinha momento de descanso, a atender seus
convidados, perfeito anfitrio. Algum apareceu logo depois batendo palmas, rogando silncio, o
doutor Miranda ia saudar os donos da casa. Ouviu-se o estouro de uma garrafa de champanha
sendo aberta, a rolha subindo para o teto.
    Vadinho e Flor andaram sorridentes para o discurso, "discurso de Mirando, alertou Vadinho,
no  coisa que se perca". Dona Rozilda, o corao aos saltos, comentou para Dona Lita e Thales
porto ao ver os jovens partindo para o definitivo idlio:
    - No  um par perfeito? No parecem nascidos um para o outro? Se Deus quiser...
    - Oxente, mulher! Conheceram-se hoje e vosmic j est armando casamento? - Lita balanou
a cabea, sua irm estava ficando mesmo doida, com aquela mania de noivo rico para a filha.
     Dona Rozilda empinou o busto seco, fitou a pessimista, com arrogncia. Da sala de jantar
chegava, redonda, encharcada de cerveja, a voz do orador, em seu brinde de saudao. Para l
encaminhou-se a viva, toda coberta de esperanas. Palmas saudavam uma frase feliz de
Mirando, ele prosseguia impvido:
    - "Nas pginas imortais da Histria, senhoras e senhores, ficar gravado em fulgentes letras de
ouro o nome honrado do Major Pergentino, cidado de virtudes exponenciais (a voz ficava
vibrando no ar ao dizer a palavra bonita), e o nome de sua nobilssima esposa, esse ornamento da
sociedade da Boa Terra, Dona Aurora, anjo... Sim, meu senhores e minhas senhoras, anjo de
impolutas (e repetia, a voz cantante, "impolutas") qualidades, esposa dedicada, virgem de
bronze...
    No centro da sala, Mirando, o penetra, o brao erguido a empunhar a taa de champanha,
dominava convidados e donos da casa, todos presos  sua eloqncia. O Major sorria beato; a
dedicada esposa, a virgem de bronze, baixava os olhos, comovida, jamais sua festa alcanara as
alturas daquele triunfo.
    -... "Dona Aurora, ser amorvel, santa, santssima criatura..."
    As lgrimas queimavam os olhos da santa criatura.

9

     O namoro de Flor e Vadinho desembocou direto no casamento, pois noivado no houve,
como logo adiante se constatar, exibindo-se causa e razo dessa anomalia a romper os
procedimentos habituais e consagrados em todas as famlias que se prezam. Namoro, alis,
dividido em duas etapas distintas, perfeitamente delimitadas, cada uma delas com suas
caractersticas prprias. A primeira, plcida e risonha, toda azul e rosa, um cu aberto, verdadeira
festa, a concrdia universal. A segunda, confusa e perseguida, clandestina, cor do vitrolo e do
dio, o inferno na terra, a malquerena, a repugnncia, a guerra declarada. Durante a primeira
fase, Dona Rozilda esteve irreconhecvel de tanta gentileza e compreenso; colaborou ativa e
devotada para o sucesso do idlio. Viu-se depois Dona Rozilda a espumar abominao, rancor e
vingana - espetculo talvez pitoresco mas pouco agradvel -, disposta a empregar todos os
recursos para impedir o matrimonio da filha com aquele tipo imundo "verme, pstula, poa de
pus". Toda essa podrido - "verme, pstula,  poa de pus" - era Vadinho, antes o mais perfeito
rapaz solteiro da Bahia, o pretendente ideal, belo e simptico, corao generoso, prola de meo,
impoluto carter, adamantino.
     No ledo engano nascido da emaranhada novela posta de p por Mirando na festa do Major
Tiririca, confirmada e desenvolvida graas a imprevistas circunstncias, permanecera feliz Dona
Rozilda cerca de dois meses, dois memorveis meses quando calcou sob o taco dos sapatos toda
a Ladeira do Alvo e adjacncias, da negra Juventina com seus ares de senhora at o doutor Carlos
Passos com a sua prspera clientela. Exibia influncia, intimidade nos crculos governamentais,
nas altas esferas, intimidade com o Poder, personificado em Vadinho. E exibia sobretudo o moo
namorado da filha, com sua elegncia cafajeste, sua lbia, sua conversa bonita, sua prosopopia.
Vadinho se lhe afigurava um Deus-Menino, era tudo para ela. E para ele tudo era pouco, Dona
Rozilda agitava-se num af de agradar, de cativar o rapaz, de amarr-lo.
     Para manter Dona Rozilda enleada em cegueira assim completa, concorreu grandemente
curioso qiproqu. Entre as amigas de Flor, sua colega de escola, havia uma pobre Clia, alm de
pobre, aleijada, com uma perna defeituosa, manca. As duras penas, "roendo beira de penico ,
como resumia Dona Rozilda, cursou a Escola Normal e diplomou-se professora. Candidata a um
lugar no ensino primrio estadual, lutava h meses para obt-lo, sem conseguir sequer ser
recebida pelo Diretor de Educao. Dona Rozilda tinha-lhe estima e a protegia. Talvez porque,
sendo a moa to infeliz e humilde, a seu lado ela e Flor pareciam umas ricaas. Atenta, escutava
a manca queixar-se da vida e dos grandes do mundo, dizendo horrores dos funcionrios, e
revelando particulares srdidos daqueles "vampiros da educao", como sibilava por entre os
dentes escuros e podres. Ali s obtinham nomeao as oferecidas, dispostas a aceitar convites
para passeios  noite em Amaralina, Pituba, Itapo, para festinhas ntimas, umas casteleiras! Moa
direita no tinha chance, mofava nas cadeiras de couro da ante-sala. De tanto nelas mofar, Clia
constitura-se picante repositrio de malignas anedotas sobre funcionrios, chefes de seo, sem
falar no Diretor do Ensino, invisvel personagem sobre o qual, no entanto, a rejeitada postulante
tudo sabia: os hbitos, os bens, as preferncias, a esposa, os filhos, a rapariga; nada lhe escapava.
Jamais, porm, conseguira ser por ele recebida e expor seu triste caso.
      Ora, logo nos dias iniciais do namoro, certa noite, a professora em desespero - o prazo para
as nomeaes de novas mestras esgotava-se naquela semana - deparou com Vadinho em casa de
Flor e a ele foi apresentada. Dona Rozilda gostaria de ver a moa empregada e gostaria mais
ainda de afirmar perante a vizinhana o prestgio do rapaz, do pretendente a genro, dispondo de
empregos e vagas, mandando na administrao do Estado. Prestgio a ser utilizado por ela, Dona
Rozilda, a seu bel-prazer.
     Estava, sem dvida, a viva enleada numa rede de enganos sobre a personalidade do gabiru a
rondar sua filha, mas no cometia erro quando, ao descrever para os conhecidos aquele carter
sem jaa, elogiava-lhe o bom corao: para Vadinho todo sofrimento era injusto e odioso. Assim,
apenas Dona Rozilda lhe contou a histria de Clia, dramatizando detalhes, valorizando-lhe o
aleijo ("mesmo se quisesse no podia aceitar os licenciosos convites dos canalhas da repartio,
no tinha alicerces para tanto"), ampliando as injustias, multiplicando a fome da moa e de seus
cinco irmos, da me reumtica e do pai guarda-noturno, logo Vadinho simpatizou com a nobre
causa e fez-se seu campeo. Decidido realmente a falar sobre o assunto com seus conhecidos de
jogo, alguns dos quais tinham certa influencia - jurou veemente a Dona Rozilda e a Flor exigir do
Diretor do Ensino no dia seguinte pela manh, na hora do despacho com o Governador, a
imediata nomeao da professora. No passaria do dia seguinte: retornasse Clia  Diretora pela
tarde e procurasse o titular, nomeao e posse eram favas contadas.
    - Pode deixar comigo...
    - Pode deixar com ele... - repetia Dona Rozilda.
     Flor nada disse, apenas sorriu, no lhe importando, se Vadinho gozava ou no de tanto
prestgio, preferindo at fosse ele menos influente e por conseqncia menos ocupado. Passava
dias sem aparecer, sem vir conversar ao p da escada, e, quando vinha, trazia a face
estremunhada, sonolenta, das noites em claro a despachar com o Governo.
     Tomou Vadinho nome completo da candidata e os demais dados necessrios. Novamente
Clia escreveu aquela fria literatura num pedao de papel e sem esperanas: muitas vezes j o
havia feito. Tantos pedidos e recomendaes e nenhuma conseqncia. Por que aquele
almofadinha enxerido, com um ar velhaco, de deboche, um p-rapado certamente, por que logo
ele iria lhe obter o emprego? At o padre Barbosa lhe dera um carto para o Diretor, e, se o padre
nada conseguira, quanto mais esse tal namorado de Flor; quem perdera prestgio para esse tipo
achar? Boa bisca no era ele, via-se logo na cara tresnoitada. Clia acumulara ceticismo e
amargura a arrastar a perna cambaia pelas salas hostis da Diretoria de Educao. A felicidade dos
outros no a enternecia, nem mesmo a daqueles raros desejosos de ajud-la, penalizados de sua
sorte. Seu corao estava seco e rido e, ao rabiscar os nomes do pai e da me, a data de
nascimento e o ano de formatura, fazia-o certa de perder tempo e esforo, aquele biltre no ia
tomar nenhuma providncia, ela estava farta desses pinias emproados: promessas fceis e mais
nada. Mas, que jeito? Dona Rozilda estava toda cada pelo gabola, doutor Waldomiro para c
doutor Waldomiro para l, e ela, Clia, ia filar o jantar da velha fogueteira. Quanto ao sujeitinho
bastava olhar para a cara dele e logo se via qual o seu desiderato: comer os tampos de Flor e
quebrar no beco, sumir num adeus e nunca mais.
     Era Clia injusta com Vadinho, pois para servi-la fez o rapaz naquela noite o roteiro completo
das casas de jogo, numa dupla urucubaca: perdeu quanto tinha no bolso e no deparou com um
s conhecido importante a quem expusesse o pequeno drama da professora e pedisse por ela.
Nem Giovanni Guimares, nem Mirabeau Sampaio, nem seu xar Waldomiro Lins, nenhum
deles apareceu, como se todas as suas relaes influentes houvessem entrado em recesso,
abandonando a roleta, o bacar, o grande e pequeno, a ronda, o vinte-e-um. Demorou-se
Vadinho noite a fora, e a figura mais ilustre a aparecer foi Mirando, com quem terminou indo
cear um sarapatel de arromba em casa de Andreza, filha de Oxun e comadre do estudante de
agronomia.
    - A Zinha  mesmo caipora... - comentou Vadinho, relatando o caso a Mirando, a caminho do
barraco da negra de Oxun. - Zambeta, mirrada, e ainda por cima, com esse azar...
     Mirando aconselhava Vadinho a no se amofinar: h gente assim, amigada com o caiporismo,
no adianta se querer acudir. Ao demais, a preocupao tira o apetite, e o sarapatel de Andreza
era um monumento, louvado at pelo doutor Godofredo Filho, com toda sua autoridade. No dia
seguinte, Vadinho trataria do embeleco. Afinal a maante j esperara tanto, no era um dia a mais
ou a menos que a levaria ao suicdio. Quanto ao sarapatel de sua comadre Andreza, como foi
mesmo a frase; a frase, no, o verso de mestre Godofredo?
     E quem encontraram  mesa da filha de santo seno o prprio poeta Godofredo, a fazer
honra a comida de Andreza, sem regatear elogios ao tempero e  cozinheira, pedao real de
negra, palmeira imperial, brisa matutina, proa de barco. Andreza sorria com toda sua prospia e
realeza, machucava pimentas para o molho.
    - E olhe quem est a! - saudou Mirando - Meu imortal, meu mestre, considere-me de joelhos
ante sua intelectualidade.
    - De joelhos estamos todos diante desse sarapatel divino - riu o poeta, apertando as mos aos
dois rapazes.
     Sentaram-se e Andreza logo constatou a face preocupada de Vadinho. Ele sempre to alegre e
pcaro, cheio de astcia e trfego, e, que lhe acontecera para assim sombrear o rosto, melanclico.
Conte, meu santo, lave a alma, bote os dissabores pra fora. Andreza, de amarelo, colares nos
braos e no pescoo, era a prpria Oxun se desfazendo em dengue e formosura. Conte, meu
branco, no fique jururu, sua negra est aqui para lhe ouvir e consolar.
     Na mesa, a toalha cheirando a patchuli, o cho perfumado de folhas de pitanga, entre o
sarapatel e a pura cachaa de Santo Amaro. Vadinho desfiou o rosrio de desditas da professora
primria, uma infeliz. Sentada  cabeceira, a negra Andreza sentia-se comovida com o relato,
apertava com a mo o seio arfante - coitadinha da moa com seu aleijo e sua fome, com seu
desejo de trabalhar e sem emprego! Ser que God, cujo nome saa nas gazetas, ele prprio alto
funcionrio, no podia dar uma palavra, se mexer pela pobrezinha? Tremiam os lbios de
Andreza ao suplicar, Vadinho tinha razo, como sentir-se alegre quando algum sofria assim, to
dura vida? Por que quisera escutar essa feia histria? No poderia novamente sorrir enquanto no
soubesse a moa nomeada. O poeta Godofredo prometeu interceder, quem sabe talvez obtivesse
algo, quando ficara ela de voltar  Diretoria? No dia seguinte... No, naquela mesma tarde, pois j
era quase manh, assim lhe ordenara Vadinho. Pois que ela fosse, Godofredo ia ver... No
esclareceu ser parente prximo e amigo ntimo do Diretor de Educao, pedido seu era ordem
executada. No gostava o poeta de exibir-se, mesmo seus poemas s de raro em raro os
publicava. Queria apenas devolver o sorriso de Andreza, sem seu sorriso era triste  noite e o
mundo deserto e frio.
     Assim, quando na tarde seguinte, Clia, pessimista porm persistente, arrastou sua perna
capenga escada acima e penetrou na ante-sala do gabinete do Diretor de Educao, qual no foi
sua surpresa ao ser saudada com nsia e calor pelo secretrio de Sua Excelncia, antes seco e
rspido:
     - Dona Clia, eu estava esperando pela senhora. Meus parabns, sua nomeao j saiu, j foi
assinada...
    - Hein? - estremeceu a professorinha - o qu?
    Cada vez mais gentil, o secretrio tornou-se confidencial:
     - O que estou lhe dizendo... A primeira coisa que o Diretor fez ao chegar... Algum muito
elevado deu ordens, certamente. Foi uma das ltimas vagas e estavam todas reservadas... Quer
um conselho? V logo se apresentar, no perca tempo.
     Apresentou-se, tomou posse, reuniu a magra famlia e foi ao primeiro andar do Alvo
agradecer. "Algum muito elevado", contou; e Dona Rozilda repetia as palavras rolando-as na
lngua, saborosa, enchia a boca com elas, tinham um gosto de poder. Vibrava de contentamento:
no esperara nomeao to rpida, resultado to fulminante. Com aquela urgncia, to depressa,
s mesmo ordens diretas do Governador. Do Governador minha filha, e no de outro, Vadinho
mandava e desmandava no governo.
    A notcia fez seu curso na ladeira, e quando Vadinho apareceu  noite, na esperana de ficar a
ss, com Flor, no escuro da escada, foi saudado pela vizinhana numa quase manifestao de
apreo. Surpreendeu-se  com os agradecimentos, abraos e louvores, Dona Rozilda num exagero
histrico. O rapaz passara o dia dormindo e quase esquecera as desventuras da inexeqvel
candidata. "Oh!, disse, no  nada, nada me devem, por favor!"
     O poeta cumprira a promessa, feita mais a Andreza do que a ele, Vadinho. Mas, como explicar
a verdade, desfazer o enredo? Jamais Dona Rozilda e seus vizinhos, jamais a amarga professora e
sua gente mirrada e encardida, cor de sujo, ali junta para lhe agradecer, jamais compreenderiam os
intrincados caminhos por onde o mundo e os homens andam, jamais acreditariam dever Clia sua
nomeao a uma negra cozinheira, muito mais pobre que ela, alegre num casebre de madeira na
fmbria do mar de gua de Meninos, a fornecer almoos a saveiristas e a carregadores, a negra
Andreza de Oxun.
     A fama correu e os pedidos choveram. Implorando nomeao de professora primria
somaram-se oito em menos de uma semana. De motorneiro de bonde a fiscal de rendas no
houve cargo sem candidato a adular Dona Rozilda, sem bater palmas na porta do sobrado na
Ladeira do Alvo. At o emprego de sacristo na igreja da Conceio da Praia, a vagar segundo
constava mas ainda no era certo, at esse lhe vieram pedir. Nem se Vadinho fosse ao mesmo
tempo Governador e Arcebispo, nem assim daria abasto.

10

     Tocava Dona Rozilda os cimos do poder, sentia o gosto sem igual da fama; Vadinho tocava
os seios rijos de Flor no escuro da escada, sentia o gosto sem igual da boca medrosa e sedenta da
moa, mordia-lhe os lbios. Revelava-lhe um mundo apenas suspeitado de prazeres proibidos,
ganhando a cada noite de namoro uma parcela de sua resistncia e de seu corpo, de seu pudor, de
sua oculta emoo. O desejo a consumia numa fogueira de altas labaredas, ardiam brasas em seu
ventre, mas Flor buscava conter-se e coibir-se. Sentindo-se,  entretanto, dia a dia menos senhora
de sua prpria vontade, de recusa frgil, de relutncia dbil, submissa escrava do rapaz audacioso,
que j se apoderara de quase todo o seu corpo queimado de uma febre sem remdio, ai, sem
remdio.
     Insolente Vadinho! No lhe declarara amor, no fizera praa de sentimentos apaixonados, no
lhe pedira sequer autorizao para namor-la. Em vez de frases poticas, de termos alambicados,
ela ouvia duvidosos conceitos, insinuaes mal-intencionadas. Subindo a Ladeira do Alvo, na
pista de Flor (cujo retorno da casa de tia Lita, no Rio Vermelho, dera-se dias aps a festa de
Pergentino), o petulante, ao ler o anncio da Escola de Culinria, murmurou-lhe ao ouvido, num
sussurro romntico de quem lhe fizesse inocente galanteio:
    - Escola de Culinria Sabor e Arte... - repetiu - Sabor e Arte .
 . - baixou a voz, o bigodinho roando a orelha da moa: Ah! Quero saborear-te... - no apenas
um trocadilho de mau gosto mas tambm franco aviso de suas intenes, deslavada plataforma,
claro programa de namoro.
     Flor nunca tivera um namorado assim, to diferente dos outros, nem imaginara namorar
daquele jeito. Como no o mandou imediatamente embora?
     No era Flor uma dessas debochadas janeleiras, de idlio escandaloso nos cantos de rua, nos
ps de escada, no esconso das portas. Jamais gaiato algum fora alm de tmido beijo, Pedro
Borges apenas aflorou-lhe a face, ela no admitia intimidades. Bastava o atrevido estender a mo
na ousadia de toc-la, e Flor enchia-se de indignao e o expulsava, como a guardar-se por inteiro
para aquele a quem realmente amasse. A esse, sim, nada recusaria, e esse era Vadinho; eis porque
no o despachou como aos outros, sem grosseria nem escndalo mas firme e inflexvel.
     No o repeliu sequer da primeira vez e, no entanto, conheciam-se apenas h algumas horas,
pois foi no domingo do Bando Anunciador, no dia seguinte ao da festa em casa do Major
Tiririca. Em companhia de amigas, viera Flor apreciar os blocos, Vadinho apareceu e encostou.
As outras afastaram-se, entre risinhos, certamente chegara a hora da indispensvel declarao
(declarao mais ou menos veemente e florida conforme o temperamento e a veia do
pretendente; alguns mais timoratos preferiam faz-la em carta, utilizando, quando necessrio, a
ajuda do "Secretrio dos Amantes"). Elas vinham mesmo comentando o chamego do rapaz: no
largara Flor sozinha na festa, seu par constante. Ia agora declarar-se, era um momento grave:
cabia  moa logo conceder o sim ou pedir tempo para melhor reflexo, em geral vinte e quatro
horas. Flor anunciara s amigas seu propsito de deixar Vadinho padecer uns dias mas as outras
duvidaram, teria ela coragem para tanto?
     No abriu ele a boca para fazer declarao alguma, a conversa girou divertida em torno de
motivos diversos, um doidivanas esse Vadinho! Dois animados blocos carnavalescos, em desafio,
juntos se encontraram no oito da Igreja de Sant'Ana e, aproveitando-se do atropelo estabelecido
quando o povo acorreu e ali se comprimiu, Vadinho a apertou contra si, abraando-a por detrs,
cobrindo-lhe os seios com as mos, beijando-lhe sfrego o cangote. Ela estremeceu apenas,
semicerrou os olhos, deixou-o fazer, quase morta de medo e de alegria.
     Os dias iniciais desse namoro sem declarao formal e sem formal consentimento, foram
inesquecveis. Todos os anos no vero, na oportunidade das festas do bairro, costumava Flor
passar uns tempos com os tios, aos quais era muito afeioada. No ms de fevereiro a Escola de
Culinria no funcionava.
     Vinha para a procisso do presente a Yemanj, a dois de fevereiro, quando os saveiros cortam
as ondas carregados de flores e ddivas para Dona Janana, me das guas, da tempestade, da
pesca, da vida e da morte no mar. Ofertava-lhe um pente, um frasco de perfume, um anel de
fantasia. Yemanj habita no Rio Vermelho, seu peji ergue-se numa ponta de terra sobre o oceano.
     Em companhia das moas do bairro, divertia-se em intenso e festivo programa: pela manh
banho de mar; passeios  tarde no Farol da Barra e em Amaralina, por vezes iam at a Pituba; a
organizao e os ensaios da prancha de carnaval - alegre trabalheira; piqueniques em Itapo, em
casa do doutor Natal, mdico amigo de tio porto, ou na Lagoa do Abaet, com violas e cantigas;
batalhas de confete.  noite circulavam no Largo de Sant'Ana ou na Mariquita, por entre as
barracas coloridas, quando no havia dana programada em residncia de famlia amiga ou elas
prprias no invadiam e ocupavam uma sala de visitas, improvisando um assustado.
     A casa de porto, florida de trepadeiras e accias, ficava na Ladeira do Papagaio, e aos
domingos, invarivel, o tio saa com outro amante da pintura, residente no Largo, um senhor
sergipano, acanhado como ele s, um certo Jos de Dome; saam a desenhar casarios e paisagens.
Uns dois anos antes, quando da partida de Roslia e Antnio Morais para o Rio, Flor, sozinha e
triste, chegara a sentir uma vaga inclinao pelo pintor, j homem maduro, de seus quarenta anos
se bem aparentasse menos, caboclo rijo e seco. Propusera-lhe ele um dia, vencendo a extrema
timidez, pintar-lhe o retrato e o iniciara, numa tela de ocres e amarelos lancinantes onde a cor
mate de Flor ressaltava transfigurada. "Negcio de maluco, um disparate, alis esse fulano  leso",
definiu Dona Rozilda, que em matria de arte no ia alm do cromo das folhinhas, ao ver aquela
exploso de tinta e luz. Nunca chegaria Jos de Dome a concluir o retrato, no entanto. No
houvera tempo, Flor retornara  Ladeira do Alvo, e, se bem prometesse vir pousar aos domingos,
jamais o fez; tampouco ela entendia a pintura do sergipano. Simpatizava, sim, com seu sorriso e
sua solido. Mas aquele sentimento nem chegara a ser namoro, pois no se pode chamar namoro
aos longos silncios e aos breves sorrisos das horas de pose. No passara de efmera inclinao a
durar apenas os dias de veraneio, incapaz sequer de romper o acanhamento do artista. Ao voltar
ao Rio Vermelho, Flor reencontrou o amigo do tio com a mesma cordialidade, mas fora
quebrado o encanto daquelas frias anteriores, era como se nada houvesse acontecido entre eles.
Quanto ao retrato por acabar est at hoje na parede do atelier do pintor, no terceiro andar, de
um velho sobrado, na esquina do Largo de Sant'Ana; quem quiser pode v-lo,  s tomar
coragem e subir as carunchosas escadas.
     To diferente com Vadinho... Como se irrefrevel avalanche a arrastasse, ele a dominou e
decidiu de seu destino. Flor compreendeu, ao fim daqueles perfeitos e rpidos dias do Rio
Vermelho, no lhe ser mais possvel viver sem a graa, a alegria, a louca presena do rapaz. Fez
quanto ele lhe pediu: nas festinhas no danou com nenhum outro, de mos dadas com ele por
entre a quermesse do Largo, desceu  praia escura para no negrume da noite melhor se beijarem,
como ele sugeriu; sentindo num arrepio a mo de carcias a subir por baixo de seu vestido,
acendendo-lhe as coxas e as ancas. Dona Rozilda, quem jamais poderia imagin-la assim
democrtica, de tamanha liberalidade? Fechava os olhos aos evidentes abusos daquele namoro
to sem controle e desassuntado, a ponto de tia Lita, pouco afeita a carrancismos, no entanto
estranhar e advertir:
     - Voc no acha, Rozilda, que Flor est dando corda demais a esse moo? Saem juntos por
toda  parte como se fossem noivos, nem parece que se conheceram noutro dia...
    Dona Rozilda reagia brava, em tom de briga:
     - No sei que diabo voc e o seu marido tm contra Vadinho... S porque o rapaz  rico e
ocupa posio de destaque,  um zunzunzum contra ele, no sei porque vocs tomaram esse
abuso dele... Com a porcaria desse pobreto metido a pintor vocs ficaram infludos at demais,
se dependesse de vocs faziam o casamento  na hora, como se eu fosse dar minha filha a esse
vira-bosta. Com Vadinho vocs s pensam- maldade. No vejo nada demais que ele namore com
Flor, ela j est em tempo de casar, e quando o Senhor do Bonfim, ouvindo minhas preces, envia
um partido como esse, voc e porto fazem uma zoada medonha, a achar isso e aquilo ... Me
deixe, mulher, se assunte...
     - Eu no acho nada, minha santa, se assunte voc. Estava s falando... Porque voc  toda
cheia de melindres, toda no-me-toques. Basta ver qualquer moa passeando sozinha com um
rapaz e logo diz que  uma perdida... E agora mudou da gua pro fogo, largou a menina de mo...
    - Tu acha ela uma perdida?  isso que tu acha? Diga logo...
    - Se assunte, Rozilda, tu sabe que eu no disse isso...
    Dona Rozilda encerrava a discusso:
    - Eu sei o que estou fazendo, a filha  minha e, assim Deus ajude, ainda este ano eles se
casam...
    - Possa ser, queira Deus...
    - Possa ser? Vai ser e com certeza... No me venha com cantiga de sotaque, vocs tm  m
vontade com Vadinho...
    No, ningum demonstrava m vontade com Vadinho, ele a todos seduziu com sua lbia e sua
fantasia, primeiro aos conhecidos do Rio Vermelho, depois aos da Ladeira do Alvo. Dona Lita e
porto j lhe haviam tomado amizade e bem o desejavam para marido de Flor. Quanto a Dona
Rozilda, parecia viver exclusivamente para satisfazer-lhe as vontades, adivinhar-lhe os caprichos.
    Capricho mesmo, ele tinha apenas um: estar a ss com Flor, toma-la nos braos, vencer sua
resistncia e pudiccia, ir-se apossando dela pouco a pouco, a cada encontro. Amarrando-a nas
cordas do desejo mas amarrando-se ele tambm, preso a esses olhos de azeite e espanto, a esse
corpo fremente e arisco, vido de vontade, contido de pudor. Preso sobretudo  mansido de
Flor,  atmosfera domstica, ao ambiente de lar prprio da graa simples da moa, de sua quieta
beleza, atmosfera a exercer poderoso fascnio sobre Vadinho.
    Jamais vivera ele vida de famlia, no chegara a conhecer a me morta de parto, e o pai cedo
desaparecera de sua existncia. Produto de ocasional ligao entre o primognito de pequenos
burgueses remediados e a copeira da casa, dele ocupara-se o pai, o tal parente longe dos
Guimares, enquanto solteiro. Mas, ao fazer um casamento afortunado, tratou de livrar-se do
bastardo a quem sua esposa, devota ignorante, consagrava um santo horror - "filho do pecado!"
Internou-o num colgio de padres onde, aos trancos e barrancos, Vadinho chegou ao ltimo ano
do curso secundrio, no o tendo concludo por haver-se apaixonado, num domingo de visitas,
pela me de um colega, distinta quarentona, mulher de comerciante da Cidade Baixa, considerada
naquele tempo a mais fcil puta da alta sociedade da capital - paixo devoradora e correspondida.
     Paixo romntica, tambm. A preclara punha-lhe olhos langorosos, suspirava, Vadinho a
rond-la no ptio das visitas do colgio, triste como uma priso, lgubre priso de meninos. Ela
lhe dava chocolates e biscoitos, do embrulho trazido para o filho. Vadinho ofertou-lhe uma
orqudea s escondidas, roubada  estufa do jardim dos padres. Num dia de sada (o primeiro
domingo do ms e Vadinho jamais saa, ningum o vinha buscar, no tinha para onde ir) ela
levou-o a almoar em sua casa, palacete no Largo da Graa, apresentando-o ao marido:
    - Colega de Zezito, rfo, no tem famlia...
     Zezito era meio debilide, criava pres e nos domingos de sada todo seu tempo era pouco
para atender, no poro da casa, aos pequenos roedores. O comerciante a roncar a sesta, Vadinho
viu-se arrastado a um quarto de costura, envolto em beijos e carinhos, possudo. "Meu menino,
meu colegial, meu aluno, sou tua professora, ai, meu donzelo e, consciente de sua condio de
mestra, ela lhe ensinava - e, como ensinava! Cresceu a paixo, insacivel e brutal. Ela desfeita em
ais e juras - nunca amara ningum, repetia-lhe cnica e tranqila, Vadinho era seu primeiro
amante, e nada no mundo almejava seno partir com ele para viverem os dois aquele grande
amor, ocultos num recanto qualquer. Pena estar ele interno num colgio...
     - Se eu sasse do colgio voc vinha mesmo viver comigo?
    Fugiu do colgio, apareceu no princpio da noite para busca-la, para libert-la do "bestial
burgus" que tanto a fazia sofrer e a humilhava possuindo-a. Obtivera msero quarto numa
penso de ltima ordem, comprara po, mortadela (adorava mortadela), uma zurrapa  vendida
como vinho e um buqu de flores. Ainda lhe sobraram alguns mil-ris, os colegas mais ntimos, a
par do caso solidrios, haviam-se reunido para financiar-lhe a fuga e o amor. Para eles, Vadinho
era um retado.
     A prezada senhora quase morre de susto quando ele lhe invadiu o lar onde o marido na outra
sala palitava os dentes e lia jornais. Vadinho endoidara com certeza - disse ela, indignada. No era
uma aventureira para largar casa, esposo e filho, seu conforto e seu conceito na sociedade, para ir
viver amsia de uma criana, na misria e na desonra. Vadinho no tinha juzo, voltasse para o
colgio, talvez nem se houvessem dado conta de sua escapula, e no prximo domingo de visitas,
Ah! ela lhe prometia...
    No quis Vadinho ouvir a promessa, estava possesso de ira e de vexame, fora ludibriado. Sem
levar em conta a proximidade dos cornos do comerciante, agarrou a madame pelos cabelos
longos e oxigenados, aplicou-lhe uns tabefes na cara, gritou-lhe nomes, num esbregue de
tamanhas propores a ponto de reunir, em animada assistncia, no apenas o esposo e os
criados, mas tambm os vizinhos do elegante Largo da Graa. Segundo o testemunho ulterior de
Vadinho, naquele dia se fizera homem, e homem para sempre escarmentado.
     Pela mo desse escndalo penetrou Vadinho na vida noturna da cidade, rapazola de dezessete
anos, ao qual se afeioara Anacreon, batoteiro afamado, carteador de fino estilo. Ningum
melhor para revelar ao moo inexperiente as sutilezas e as finuras da ronda, do vinte-e-um, do
bacar, do pquer, para introduzi-lo na dialtica das mesas de roleta e na mstica dos dados, pois
Anacreon no era apenas competente, era tambm um corao leal, de frente para a vida, um
tanto quixotesco. Com o pai teve Vadinho breve encontro no qual se recusou a volver ao
internato, recusando-lhe em troca o salafrrio Guimares a beno e qualquer ajuda financeira,
"no tinha recursos para sustentar desordeiros". Com a riqueza da mulher ficara somtico e
moralista. Alis, nessa altura da vida, quando seu nome era citado nas colunas sociais, passara a
conceber srias dvidas a respeito da paternidade de Vadinho. Seria mesmo seu filho? A falecida
Valdete acusava-o, entre beijos, de t-la  deflorado e engravidado. Mas ser documento a merecer
crdito a palavra de uma domstica? Jamais conhecera outro homem, alm dele, segundo
depunham suas amigas chorosas, junto ao corpo. Mas a palavra dessas outras amas, sem eira nem
beira, pode constituir prova seja l do que for? Tudo aquilo sucedera h tanto tempo, confusas
memrias da juventude, numa adolescncia falta de responsabilidade, insensata. Talvez fosse seu
filho, talvez no o fosse, quem podia vir de pblico prov-lo, onde estava a certeza? Certeza
mesmo era ser Vadinho filho da puta e um filho da puta dos piores: ainda menino e querendo
"estuprar honesta senhora, bondosa me de um colega, em cujo lar fera recebido como filho..."
Esse pai de Vadinho era um Guimares  da "banda podre", como o classificara Chimbo, no lhe
coubera o mpeto e a generosidade da famlia.
     Desde ento no mais provara Vadinho o perfume de um sentimento familiar, no mais tivera
um interesse complexo e profundo. Sua vida sentimental, numerosa e diversa, pois as mltiplas
amantes variavam na idade, na posio social e na cor, decorrera em grande parte nos castelos e
cabars, em xods com raparigas, amigaes, alm de umas poucas aventuras com mulheres
casadas; sem que nenhum desses laos tivesse a fora do amor. Nunca um enrabichamento o fez
sentir a vida plena e luminosa, jamais uma ausncia feminina, uma briga, o trmino de um caso, o
tornou gris, vazio e suicida. Partia para outro corpo de mulher como mudava de mesa na sala de
jogo quando o dezessete, seu nmero, fazia-lhe falseta.
    O encontro com Flor, na festa do Major, veio reacender-lhe de sbito aquela necessidade
antiga de lar, de vida de famlia, mesa posta, cama de lenis limpos. Ele no tinha sequer
endereo estvel, mudando de penso barata a cada ms por falta de pagamento. Como esbanjar
dinheiro em aluguel quando sobrava to pouco para o jogo?
     Flor trazia um novo sabor  sua vida, uma quietude, uma placidez, um gosto de ternuras
familiares:
     - Gosto de voc porque voc  mansa como um bichinho, meu bem...
     De tal forma seduzido por ela, a ponto de suportar-lhe a me, velha mais terrvel e
paulificante, ridcula e desfrutvel. Amava a singeleza da moa, sua mansido, sua alegria
sossegada, e sua compostura. Lutando diariamente para derrubar-lhe a resistncia e romper-lhe a
castidade, sentia-se, no entanto contente e orgulhoso com ela ser assim recatada e sria. Porque
s a ele competia domar esse recato, reduzir a prazer quela pudiccia. Os amigos de Vadinho
descobriam um brilho em seus olhos, acontecendo-lhe ficar parado ante a roleta, esquecido de
depositar a ficha, sonhador.
     E os ntimos, como Mirando, j no se surpreenderam quando, pelo carnaval, o viram
integrando a prancha dos "Alegres Gazeteiros", prancha organizada pelas famlias do Rio
Vermelho, decorao do tio porto, moas e rapazes fantasiados de vendedores de jornal,
mercando o "Dirio da Bahia" e " Tarde", o "Dirio de Notcias" e "O Imparcial". Um carnaval
de confete e mame-sacode, de serpentina e canes, onde lana-perfume era para consumir nas
namoradas e no para aspirar-se, um carnaval sem cachaa. O oposto dos carnavais de Vadinho,
que emendavam do sbado  tera-feira num porre s. Integrando blocos de mascarados, s
voltas com as raparigas, a sambar no meio da rua, a bebida a l vont. Caindo de bbedo nos fins
das noites num fovoco qualquer da zona; assim nos quatro dias.
     "Olhe quem vai ali, naquela prancha, de pandeiro na mo,  Vadinho saindo em prancha,
quem diria!", admiravam-se passantes habituados a v-lo em deboche completo na folia do
carnaval. L estava Vadinho, ao lado de Flor, a cobri-la de confetes e ternura.
     Nada disso o impedia, no entanto, de chafurdar na mais baixa gandaia, de ingerir uma cachaa
absurda, aps ter-se despedido de Flor,  meia-noite. Saa direto para o Tabaris, o Meia-Luz, o
Floz. Na segunda-feira pretextou trabalho urgente em Palcio, foi-se as dez da noite, no podia
chegar tarde ao grande baile da Gafieira do Pinguelo onde Andreza e outras reais crioulas
fantasiavam-se de damas da corte de Maria Antonieta, gastando cetins e veludos, alvas cabeleiras
de algodo.
     Nem mesmo no momento de paixo mais alta, de maior doura familiar, de pensamentos
mais domsticos, Vadinho imaginou sequer mudar sua vida, modific-la, adquirir novos hbitos,
regenerar-se. Mirando ameaava faz-lo, de quando em vez:
    - Seu mano, vou me regenerar... De amanh em diante... Vadinho jamais falou nisso.
Apaixonado por Flor, projetando casar-se com ela, mas nem assim disposto a fugir a seus solenes
compromissos, a seu quotidiano de jogo e malandragem, de bebedeiras e arruaas, de cassinos e
castelos.

11

     Mar de rosas, francos horizontes, azul cerleo, a paz do mundo e sua doura, Flor e Vadinho
enamorados. De sbito, a borrasca, o temporal, cu de chumbo, guerra sem quartel, a
abominao, Flor e Vadinho proibidos.
     Um tanto encafifado por sentir-se com culpa nos acontecimentos - no fora ele quem
comeara a montar aquele castelo de cartas, incapaz de resistir ao sopro da menor sindicncia? -,
Mirando, moralista com fumaas de filsofo, considerou:
     - A est... Que garantia a gente tem? Nenhuma... At motor de caminho, quando se conserta,
tem garantia de seis meses... A gente, quando pensa que est instalado na vida, que as coisas
finalmente se acertaram, a emboceta tudo, o santo cai do andor e vira lixo...
     No opinar de Mirando, Vadinho cara do andor, o santo virara lixo, os restos espalhados nos
monturos, e no havia remendo capaz de restaurar o conceito do demissionrio oficial de
gabinete ante Dona Rozilda. Conceito alis igualmente comprometido junto a Flor, como haveria
ela de ainda aceitar o potoqueiro que a engabelara? Mirando conhecia essas pessoas mansas e
suaves: quando abusadas em sua confiana, crescem em obstinado orgulho, no voltam atrs.
     - Quando empombam, empombam de vez... - conclua pessimista.
     Vil, ordinrio, abjeto, infame sujeito! Dona Rozilda achava a lngua pobre de expresses
suficientemente varonis e vigorosas para rotular to baixo espcime humano - ainda na vspera o
pretendente ideal, santo no andor todo enfeitado de elogios. Sua filha podia casar at com um
soldado de polcia, at com um criminoso de morte, de sentena passada no jri, cumprindo pena
na cadeia, jamais com o miservel canalha. Recolhendo pelas imediaes do Alvo essas cruas
opinies, Mirando balanara a cabea pesaroso e realista: se Vadinho pensava em prosseguir o
namoro  porque no entendia nada de mulheres. Sempre to ladino, agora cego pela paixo, no
se dava conta da realidade: desbundara tudo. Mirando, aflito reclamou um novo trago no Bar
Triunfo: para suportar tanta comoo.
     A Vadinho pouco importava restaurar seu conceito ante Dona Rozilda, aplacar sua fria,
velha levada dos diabos, bruaca intolervel, um purgante. No admitia, porm, romper com Flor,
perder seu riso manso, sua quieta ternura, seu machucado suspiro. Ao contrrio, agora decidira
casar-se com ela. Afinal, em tudo aquilo, s havia de srio o carinho, a compreenso, o bem-
querer, aquele amor dos dois; o resto no passava de tola brincadeira. De quem gostava Flor:
dele, Vadinho, de sua pessoa, ou do cargo inventado, da posio que no exercia, do dinheiro que
no tinha?
     Naquela histria s uma coisa o desgostava: haver sido desmascarado por Clia, sua protegida,
aquela perneta agora professora pblica devido  sua interferncia. Era ela a fazer todo o fuzu, a
desenrolar o novelo, a denunci-lo a Dona Rozilda. Chegara ofegante ao primeiro andar, numa
excitao tamanha a ponto de quase perder a voz. Num tal contentamento, s se vendo.
     "Algum muito elevado"? Jamais subira o vigarista sequer as escadas do Palcio, o nico
palcio que ele conhecia, e a esse conhecia bem, era o Place, antro de jogo e perdio, assim de
mulher-dama... Prestgio? S se fosse nas ruas do meretrcio mais baixo, junto as casteleiras e aos
escroques... Oficial de Gabinete do Governador? Se ele se atrevesse a entrar no gabinete do
Governador seria tomado preso, metido no xadrez. Sua nomeao de professora? Era melhor
nem pensar nisso, quem sabe dos estrupcios e tratantadas postos em prtica pelo patife?
     E como fora Clia, insignificante professora primria, descobrir toda aquela rede de enganos,
pondo a claro todos os detalhes da farsa, no deixando persistir uma sombra sequer de dvida,
um pode-ser-quem-sabe ao qual se agarrasse Dona Rozilda, nufraga no mar da porca existncia?
Por que tamanho empenho em desmascarar e denunciar o trapaceiro, o barato sedutor?
    Vadinho se surpreendeu, magoado:
     - Logo quem... No fiz mal nenhum a essa moa, ao contrrio...
     Por isso mesmo, talvez. Quando Vadinho lhe arranjou o emprego, Clia sentiu-se ao mesmo
tempo grata e ofendida. No fundo, no lhe perdoava ter-se enganado a seu respeito, no ser ele o
gigol pressentido por seu faro de azedume e maldade: a existncia reles fizera-a invejosa e ruim.
A cada dia, menos grata e mais ofendida aquele indivduo no tinha jeito de prestar... Por acaso,
deram-lhe uma pista e ela tanto futucara, tanto xeretara at descobrir em todas as mincias a teia
de mentiras iniciada por Mirando em casa do Major e por cujo crescimento era mais responsvel
a vida do que o prprio Vadinho. Refeitos os captulos daquele imaginoso folhetim, Clia sentiu-
se realizada: no a enganavam assim facilmente, tinha olho e faro, para tape-la  fazia-se
necessrio mais do que emprego, nomeao e posse. Satisfeita, feliz com sua torpeza, nem lhe
pesava a perna manca ao subir a escada do primeiro andar onde Dona Rozilda e Flor costuravam
peas do enxoval. "No passava o almofadinha de um msero gigol, ela Clia, jamais tivera
dvidas". Resplandecia seu encardido semblante, poucas vezes se sentira assim alegre, muita
gente ia chorar naquele dia, arrenegar o diabo, ranger os dentes. E existe no mundo algo to
esplndido e excitante, espetculo comparvel ao do sofrimento alheio? Para Clia no existia
nada igual. Jamais um homem olhara para seu corpo com olhos de desejo, jamais algum lhe
sorrira com amor, e as crianas da escola tinham-lhe medo, fugiam dela.
     Dona Rozilda, em faniquito, propunha-se a matar e a morrer, gemia por um copo com gua.
Flor no lhe deu importncia, no ouviu seus ais, ocupada com Clia:
    - Puxe daqui, sinh cachorra, no volte mais...
    - Eu, Flor? Voc est falando srio? Por qu?
      - Mesmo que ele fosse o que voc diz, voc no podia vir fuxicar, ele lhe empregou... Voc
devia era esconder o que soubesse contra ele, estava morrendo de fome e ele lhe arranjou o
lugar...
      - E eu sei l se foi ele... Quem viu ele arranjar? Pra mim, foi  carta do padre Barbosa...
      Flor quase no elevava a voz mas suas palavras cuspiam nojo e desprezo:
     - Puxe daqui antes que eu lhe ensine a no se meter na vida dos outros, cadela vagabunda...
     - Pois fique com ele, que lhe faa bom proveito, tu nasceu mesmo pra descarada...
      Baixou a escada a clamar contra a ingratido humana.
      Guerra, sim, que outro nome, que outra designao usar?, e guerra sem misericrdia - a
guerra entre Dona Rozilda e Flor teve comeo ali mesmo, naquela mesma hora. Ao rudo da
porta batendo na cara de Clia, Dona Rozilda recolheu seus melindres, desistiu do desmaio,
clamou, pela professora, queria continuar a conversar sobre Vadinho, remexendo na ferida:
    - Clia! Clia! No vs embora...
    Flor disse, a voz pesada:
    - Botei ela pra fora...
     - Ela veio fazer um favor e voc enxota ela, em vez de agradecer.
    - Essa fuxiqueira nunca mais me pe os ps aqui...
     - Desde quando tu manda nesta casa?
    - Se ela entrar, eu saio...
     Mirando acertara ao descrever o baixo crdito de Vadinho junto a Dona Rozilda. Errou,
porm, e por completo, quanto  reao de Flor. No ficara contente,  claro tivera um
desaponto: Vadinho mais sem jeito, para que essas mentiras? Em nenhum momento, entretanto,
pensou em romper com ele, em terminar o namoro. Amava-o, pouco lhe importando seu ofcio
ou emprego, sua posio na sociedade, sua importncia na poltica.
     Assim lhe disse quando, naquela noite, num desafio impudente s ordens de Dona Rozilda,
foi conversar com o namorado numa esquina prxima. Ouviu e aceitou suas explicaes,
derramou algumas lgrimas, a cham-lo de "maluco, sem juzo, meu doido lindo". Pela primeira
vez Vadinho lhe falou de amor, de como esfomeado e sequioso a queria e desejava - e para
esposa a queria e desejava. E isso para Flor valeu todo o aborrecimento, a mgoa dele lhe ter
mentido e enrolado sem necessidade.
     Teriam de esperar com pacincia, disse-lhe Flor. Pelo menos os dez meses que faltavam para
os seus vinte-e-um anos era ainda menor, sob o mando materno, e nem pensasse Vadinho em
obter o impossvel consentimento de Dona Rozilda. Nunca vira a me to exaltada e em fria.
Mesmo os encontros no iam ser fceis, tinham de estudar a melhor maneira de se avistarem sem
que a velha suspeitasse. O namoro  aquele namoro com tantas facilidades, to bem aceito e
apadrinhado por Dona Rozilda - passara aos subterrneos da ilegalidade, estava proibido em
definitivo, a cotao de Vadinho na Ladeira do Alvo no valia a poeira da rua. Vadinho enxugou-
lhe as lgrimas com beijos, ali mesmo na esquina, sem ligar aos passantes.
     Bufando, Dona Rozilda a aguardava de taca na mo, pedao de couro cru para exemplar
animais e filhos desobedientes. No era usada h muito, quem dela fizera gasto fora Heitor,
relapso estudante. Roslia levara suas tacadas, Flor algumas surras quando menina. Suspensa na
parede da sala de jantar, a primitiva chibata agora valia apenas como smbolo cruel da autoridade
materna, cado em desuso. Quando Flor transps a porta, Dona Rozilda ergueu a taca, a primeira
chicotada a atingiu no colo e no pescoo deixando-lhe um lanho vermelho, marca de guerra a
perdurar por mais de uma semana.
     Apanhou sem chorar, defendendo o rosto com as mos, reafirmando seu amor. "Comigo viva
tu no casa com ele", rugia Dona Rozilda. No outro dia, Flor quase no pde levantar-se, o
corpo todo dodo, o lapo roxo no pescoo. A Ladeira em peso comentava os acontecimentos, a
negra Juventina, soberana em sua janela, a distribuir  detalhes, doutor Carlos Passos criticando os
mtodos educacionais de Dona Rozilda, se bem no lhe negasse razo para desgosto e zanga.
     Vadinho compareceu na hora costumeira; todo o primeiro andar mantinha-se fechado, a
sacada vazia, a porta da escada de ferrolho e tranca. A janela do quarto de Flor dava sobre a rua
transversal, por entre as venezianas fugiam rsteas de luz. Logo houve quem contasse da surra da
vspera, segundo as comadres, Flor suspirava presa no quarto, de chave passada.
     Vadinho concordou com a negra Juventina quando a amsia de Antenor Lima definiu Dona
Rozilda com justeza e literatura: "uma hiena bestial,  o que ela , seu Vadinho"; ouviu as notcias
em silncio, disse at logo, foi-se embora.
     Para volver depois de meia noite e abrir todas as janelas das redondezas, acordar a ladeira e as
ruas prximas com a mais maviosa serenata, to maviosa e apaixonada como muito poucas at
hoje se fizeram nessa ou em qualquer outra cidade. Quem a escutou guarda sua lembrana
imperecvel nos ouvidos e no corao.
     Tambm, pudera! Vadinho reunira para Flor o melhor de quanto existia. Trouxera o magrelo
Carlinhos Mascarenhas, o cavaquinho de ouro; fora busc-lo no castelo de Carla, no aconchegado
leito de Marianinha Pentelhuda. Ao violino, via-se a figura popular de Edgard Coc, o non-plus-
ultra, igual s no Rio de Janeiro ou nas estranjas. Soprava a flauta - e com que dignidade e
maestria! - o bacharel em direito Walter da Silveira; Vadinho o arrancara de cima dos livros, pois,
recm formado, preparava-se a fundo para concurso de magistrado; em breve, escolhido
meritssimo juiz, no mais exibiria em pblico sua insigne flauta, privando as massas de celestial
deleite. Quanto ao violo, dedilhava-o um moo querido de toda a gente por sua educao e
alegria, seu jeito modesto e ao mesmo tempo fidalgo, sua competncia no beber, sua finura de
trato, e sua msica: a qualidade nica de seu violo, dele e de mais ningum, e sua voz de mistrio
e picardia. Um retado. Aparecera ultimamente a tocar e a cantar no rdio, e j o sucesso o
cercava. Repetia-se seu nome, Dorival Caymmi, e os ntimos exaltavam suas composies
inditas; no dia em que fossem divulgadas, o moreno ficaria clebre. De Vadinho era amigo do
peito, juntos haviam tomado os primeiros tragos e varado as primeiras madrugadas. Traziam de
reserva a Jenner Augusto, plido cantor de cabar, e de quebra a Mirando, j bbado.
     Ao p da ladeira, detiveram-se por uns minutos; o violino de Edgard Coc soluou os
primeiros acordes, dilacerantes. Entraram a seguir o cavaquinho, a flauta, o violo - e Caymmi
abriu o eco, soltou a voz em dueto com Vadinho, cujos gorjeios no valiam l grande coisa.
Grande era sua causa, sua paixo proibida: o desejo de desagravar a namorada, curar suas
tristezas, apaziguar seu sono, trazer-lhe o consolo da msica, prova de seu amor:

    "Noite alta, cu risonho a quietude  quase um sonho e o luar cai .sobre a mata qual
uma chuva de prata de rarssimo esplendor... S tu dormes, no escutas o teu cantor...

     A modinha de Cndido das Neves subia a ladeira mais depressa do que eles, apareciam
cabeas curiosas, demoravam-se  janela presas ao fascnio da msica,  voz de Caymmi. A negra
Juventina batia palmas aplaudindo, era do partido de Flor e de Vadinho e doida por serenatas.
Alguns despertavam com raiva, na idia de protestar, mas a doura da cano os vencia,
adormeciam ouvindo o chamado de amor. Doutor Carlos Passos foi um desses: saltou da cama
numa sanha assassina; seu dia era trabalhoso, comeava no hospital as seis da manh e por vezes
s volvia a casa as nove da noite. Mas entre o quarto e a janela foi-se aplacando  sua ira e
trauteava a melodia ao debruar-se no beiral para ouvir mais cmodo.

"Lua manda tua luz prateada despertar a minha amada...

     Estavam parados agora em baixo da luz de um poste, bem na esquina fronteira ao sobrado.
Vadinho destacara-se, um pouco do grupo para melhor situar-se sob o foco eltrico e mais
facilmente ser visto por Flor. Os sons da flauta do doutor Silveira subiam pela parede os ais do
cavaquinho penetravam na sacada, o violino de Edgard Coc abria as janelas do quarto da moa,
ia arranc-la da cama num estremecimento. "Deus do Cu,  Vadinho!" Correu para a janela,
suspendeu a veneziana, l estava ele sob a luz, os loiros cabelos, os braos estendidos para o alto:

"Quero matar meus desejos, sufoc-la com meus beijos..."

    Alguns noctvagos juntavam-se a escutar, Cazuza Funil sara vestido num velho pijama, atrado
pela msica e pela possibilidade de alguma garrafa em mo dos seresteiros.
    Na sacada do primeiro andar, surgindo da escurido, apareceu Dona Rozilda, sua clera cortou
a msica e o poema:
    - Vadios! Vagabundos!
    Mais alta a cano, a voz de Caymmi subia para as estrelas:

"Canto... e a mulher que eu amo tanto ainda me est dormindo...

     Onde encontrara Flor aquela rosa de to vermelha quase negra? Vadinho a recolhia no ar,
noite romntica de namorados, no cu a lua amarela e um perfume de alecrim, toda a ladeira a
cantar em coro para Flor presa em seu quarto:

"L no alto a lua esquiva est no cu to pensativa e as estrelas to serenas...

     Desembocava Dona Rozilda na porta da rua, escancarando-a, desfeito o coque, envolta numa
bata enxovalhada e em dio. Varou para o grupo, num desvario de fria:
    - Fora, fora daqui! - gritava em desespero - Chamo a polcia, dou queixa na delegacia,
cachorros!
    To inesperada e violenta apario - por instantes eles perderam o aprumo, sustiveram o canto.
Dona Rozilda ergueu-se vitoriosa na rua em silncio:
    - Fora! Cambada de cachorros, fora!
     Mas foi s um instante. Logo a flauta do doutor Silveira fez ouvir um som como um riso de
mofa, como o assovio de um moleque, musiquinha mais de deboche e de sotaque:

Iai me deixe subir nessa ladeira...

     Ento todos viram Vadinho adiantar-se em direo a sua futura sogra e diante dela, ao som da
flauta, executar com perfeio e Donaire, num catado de ps e num gingo de corpo, o passo do
siri-bocta, o difcil e famoso passo do siri-bocta. Sufocada, em pnico, sem voz, Dona Rozilda
recolheu suas ltimas foras, o suficiente para correr escadas acima.
     A serenata reconquistou a noite e a rua, prosseguiu rumo  madrugada. Noctvagos mais ou
menos bbados reforaram o coro, o guarda-noturno surgiu em sua ronda e foi ficando por ali, a
escutar e aplaudir. A garrafa pressentida por Cazuza Funil apareceu, o repertrio era vasto.
Cantaram Vadinho e Caymmi, cantou Jenner Augusto, cantou doutor Walter com voz profunda
de baixo, cantou o guarda-noturno, seu sonho era cantar na Rdio. Cantava a rua inteira na
serenata de Flor. Flor reclinada em sua alta janela, vestida de babados e rendas, coberta de luar.
L embaixo, Vadinho, galante cavalheiro na mo a rosa de to vermelha quase negra, rosa de seu
amor.

12

      No lar e no carinho de tia Lita e de seu marido Thales porto, no Rio Vermelho, procurou e
obteve abrigo a perseguida Flor, quando fugiu de casa para desposar Vadinho.
      Porto ainda vacilara: no queria encrencas com Dona Rozilda, mulher de cabelo na venta e
ousada; era homem de bom viver. Tranqilo em seu canto, corri seu pequeno emprego e sua
mania de pintura. A cunhada j o acusara, e a Dona Lita, de se oporem os dois ao namoro da
sobrinha, isso quando, nas frias, ela enxergava em Vadinho um poo de virtudes, um deus me
acuda, um Jesus-Menino, s lhe faltando, para santo de igreja, o resplendor. Uma tola metida 
sabichona, enganjenta, cheia de birras e calundus: eis, Dona Rozilda; porto no queria embelco
com mulher to confusa e petulante. Mas, que fazer, se Flor aparecera descabelada e em prantos,
trazendo de escolta um Vadinho srio e solene, muito cnscio de suas responsabilidades?
Vinham confessar o irremedivel; ele tinha lhe tirado os tampos, comido o cabao, necessitavam
casar. Quisesse ou no Dona Rozilda, com ou sem maioridade, tinham de casar, Flor deixara de
ser moa donzela e s o matrimnio lhe restituiria a honra agora no bucho de Vadinho.
     Flor, num pranto deslavado, pedia perdo aos tios. Se a tanto chegara, desprezando os rgidos
princpios familiares, rompendo o medo e o pudor, entregando sua virgindade ao pertinaz fiscal
de jardins, a nica culpada verdadeira era Dona Rozilda, com suas artimanhas, sua intransigncia,
a proibir-lhe qualquer contato com o namorado, aferrolhando-a dentro de casa, como se ela,
mulher feita, quase de maior pouco faltava, fosse uma criana. At bater lhe batera, quem
suportaria tanto carrancismo? Afinal Vadinho no era nenhum celerado, nenhum facnora,
foragido da justia ou cangaceiro do grupo de Lampio; nem ela Flor, tinha quinze anos, inocente
de tudo, sem nada saber da vida. E as despesas da casa, no era Flor quem as assegurava,
pagando aluguel e comida? A me pouco contribua, sem Roslia o atelier de costura se reduzira a
uma ou outra encomenda. Em compensao, desenvolvera-se a escola de culinria dela viviam
me e filha. Por que ento se arrogava Dona Rozilda o direito de resolver sozinha, de condenar
sem apelao? Recusando-se a ouvir pessoas sensatas como tia Lita, seu Antenor Lima e o
prprio doutor Luis Henrique, padrinho de Heitor, cuja opinio sempre acatara antes. Dessa vez
repelira seus conselhos com veemncia. Thales porto sacudia a cabea: a parenta perdera de todo
a tramontana.
     Nem Flor nem Vadinho podiam suportar tal situao. Para o rapaz o caso se transformara em
definitiva e emocionante parada. Como na roleta ou nos dados, de frente para o azar. Um desejo
de Flor o possua por completo, da cabea aos ps, turvando-lhe o juzo, como se no existisse
outra mulher no mundo, como se ela - com seu corpo rechonchudo e suas bochechas redondas -
fosse a mais bela e apetecvel fmea da Bahia, nica capaz de saciar sua fome e sua sede, de
conter sua solido. "No, nunca, jamais, enquanto eu tiver vida", repetia Dona Rozilda repelindo
as renovadas propostas de casamento de Vadinho, transmitidas por parentes e amigos.
     A prpria tia Lita tinha intervindo dias antes, como lembrava Flor. A outra sara com quatro
pedras nas mos e uma ladainha de pragas:
     - Enquanto Deus me der vida e sade esse canalha no casa com minha filha. No que ela
merea esse cuidado,  uma sonsa, uma ingrata, nasceu para sujeitinha. Mas eu no consinto,
enquanto estiver na minha dependncia. Prefiro ver ela morta do que casada com esse
vagabundo. . .
     Lita quisera argumentar, convencer a irm, romper aquela parede de dio: o amor fazia
milagres, por que no admitir a regenerao de Vadinho? Dona Rozilda rosnava acusadora:
     - Basta o desgosto que voc deu  famlia, quando casou com porto. Depois ele consertou,
mas se no consertasse? Se continuasse na descarao a vida toda? - pronunciava "descarao"
com todas as letras, tornando a palavra ainda mais pesada de vcio e de culpa.
     Referia-se ao passado de porto, cuja mocidade decorrera no Rio de Janeiro, no meio teatral,
com excurses pelo interior do pas, varando cidades, cenarista e coregrafo de mambembes,
tendo sido tambm, por fora das circunstncias, ator e ponto, diretor e figurinista. Depois do
casamento, assentara a cabea, obtivera colocao na Bahia. De sua vida na ribalta restaram
apenas um lbum de recortes e um punhado de anedotas. No perdia ocasio de exibir o lbum e
de contar as anedotas.
    - E no deu certo? - reagia Dona Lita, no fundo orgulhosa do passado bomio do marido. -
Voc sabe de casamento mais feliz? Ademais no tenho nenhuma vergonha do trabalho dele no
teatro. No estava roubando ningum, nem enganando, nem deflorando donzelas...
    - E como havia de deflorar, se era tudo umas meretrizes, tudo de fiof arrombado. Onde ele ia
arranjar donzelice pra comer? Vontade no havia de lhe faltar, boa bisca ele no era...
     Amigueira e bondosa, sob certos aspectos o contrrio da irm, Dona Lita no suportava, no
entanto, insultos ao esposo e, se a esporeavam, subia-lhe o sangue s narinas:
    - A senhora faa o favor de meter sua lngua no rabo e no falar mal de meu marido, no vim
aqui para ouvir desaforo seu...
      Dona Rozilda, obediente, enfiava a lngua no rabo, a resmungar desculpas. Dona Lita era a
nica pessoa no mundo por quem nutria estima e respeito, com ela jamais brigava.
     - Vim aqui porque quero bem a Flor, como se ela fosse minha filha . . . Por que diabo voc
no deixa a menina casar, ela gosta do rapaz e ele est cado por ela. Por que ele no  um todo
poderoso como voc se meteu na cabea?
     - No meti nada na cabea, voc est cansada de saber, eles abusaram de mim, os miserveis. -
A lembrana do monstruoso debique a enfurecia. - E sabe de uma coisa?  melhor a gente dar
essa conversa por finda. Com aquele traste ela no casa enquanto estiver sob minha guarda.
Depois dos vinte-e-um anos, se ainda quiser, pode ir embora e se desgraar. Antes, eu no deixo
e acabou-se.
    - Tu t procurando sarna pra se coar... Tu vai ver...
     E assim era, pois, ante o fracasso dessa derradeira embaixatriz, Flor resolveu atender  voz da
razo. Ou seja: aos cochichados argumentos de Vadinho a tentar convenc-la da nica soluo
prtica, vivel, possvel, e, ao mesmo tempo, deliciosa, terna e doce prova de amor e confiana.
Convencida, precipitou-se a atender: abriu as coxas e deixou que ele a comesse como h muito
lhe pedia e suplicava. Para referir toda a verdade, sem escamotear detalhes (nem mesmo
escamoteando-os na simptica inteno de manter ntegros aos olhos do pblico a inocncia e o
recato de nossa herona, fazendo-a ingnua vtima de irresistvel Don Juan), deve-se dizer que
Flor estava doidinha para dar, para dar e dar-se, entregar-se por inteira, um fogo a queimar-lhe as
entranhas e o pudor, desatinada labareda.
     Um amigo endinheirado, Mrio Portugal, solteiro e estrina naquele tempo, emprestou a
Vadinho oculta casinhola para os lados de Itapo. A virao desatava os cabelos lisos e negros de
Flor, punha-lhe o sol azulados reflexos. No marulho das ondas e no embalo do vento, Vadinho
arrancou-lhe a roupa, pea a pea, beijo a beijo. A lhe dizer, rindo enquanto a despia e dela se
apoderava:
     - No sei vadiar nem coberto de lenol quanto mais vestido com roupa. Tu tem vergonha de
qu, meu bem? A gente no vai se casar, no  para isso mesmo? E mesmo que no fosse, a
vadiao  coisa de Deus, foi ele quem mandou que se vadiasse. "Vo vadiar por a, meus filhos,
vo fazer nenm" que ele disse e foi das coisas mais direitas que ele fez.
     - Tesconjuro, Vadinho, no seja herege... - Flor enrolava-se numa colcha vermelha. Tudo
naquele quarto era excitante; quadros de mulheres nuas nas paredes, reprodues de desenhos
onde faunos perseguiam e violentavam ninfas, um espelho imenso em frente ao leito, o tal Mrio
era um lorde, criara uma atmosfera pecaminosa, perfumes na penteadeira, bebidas no gelo. Flor
sentia um frio no ventre.
    - Se ele quisesse que a gente no vadiasse, fazia logo o povo todo capado e os meninos
nasciam rfos de pai e me... No seja tola, deixa essa coberta...
     Suspendeu o trapo vermelho, Flor desabrochou na brancura do lenol, Vadinho teve uma
exclamao de alegre surpresa:
     - Mas tu  pelada, meu bem, quase pelada... Que coisa doida e mais linda...
    - Vadinho...
     Com o seu corpo cobriu-lhe o pudor, ela cerrou os olhos. Rompeu a aleluia sobre o mar de
Itapo, a brisa veio pelos ais de amor, e, num silncio de peixes e sereias, a voz estrangulada de
Flor em aleluia; no mar e na terra aleluia, no cu e no inferno aleluia!
     Na manh daquele dia Flor sara a ajudar Dona Mag Paternostro, aquela ricaa sua antiga
aluna, num almoo de aniversrio, regabofe para mais de cinqenta pessoas e ainda mesas de
doces e salgados pela tarde. Dali partiu para encontrar-se com Vadinho e aconteceu o que tinha
de acontecer. Dona Rozilda a fazia no fogo de Dona Mag, ela estava empernada com Vadinho
em Itapo.
     Daquele dia em diante a vida de Flor foi inventar pretextos para voltar com Vadinho 
casinhola da praia. Recorria  amigas e a alunas: "Se mame perguntar se eu sa com voc, diga
que sim". Diziam, todas lhe tinham afeio e muitas simpatizavam ativamente com sua causa.
Aps a aula, uma delas anunciava:
     - Vou levar Flor comigo  matin, a pobre precisa esquecer...
     Parecia estar esquecendo, rejubilava-se Dona Rozilda. Nos ltimos dias Flor j no mantinha a
cara to amarrada, desistira de ficar metida no quarto  espera de v-lo surgir na rua - ao cafajeste
para ento assumir ostensiva a janela, em franca provocao. O no-sei-que-diga demorava-se a
tirar prosa no passeio da negra Juventina. Aquela peste e outras descaradas da vizinhana serviam
de espoleta para o namoro, de leva e traz, Dona Rozilda as tinha de olho, um dia lhe pagariam
com juros. Flor atirava bilhetes a Vadinho, beijos com a ponta dos dedos. At Dona Rozilda
perder a cabea e explodir em desaforos contra a filha e o tratante, o patife a rir na esquina.
     Nos ltimos dias, no entanto, Dona Rozilda sentira prenncios de mudanas. A atitude de
Flor j no era a mesma, j no cantava modinhas tristes, no tinha na boca o tempo todo o
asqueroso apelido do namorado, e ele deixara de mostrar-se na rua. Reaparecera o sorriso de
Flor, voltara a dar bom dia e boa tarde, a responder quando Dona Rozilda lhe dirigia a palavra.
     Na Baixa dos Sapateiros a eventual amiga recomendava despedindo-se:
    - Juzo, hein! - e ria cmplice.
     Riam-se tambm Flor e Vadinho, enfiavam-se num txi - sempre o mesmo, pertencia ao
Cigano, chofer de praa e velho companheiro de Vadinho -, a toda velocidade no rumo de
Itapo, as mos agarradas, roubando-se beijos pelo caminho. Cigano ia busc-los de volta ao
crepsculo, vinham sem pressa,  cabea de Flor repousando no ombro de Vadinho, os negros
cabelos ao sabor da brisa, e uma lassido, uma ternura - o desejo de continuarem juntos, por que
se despediam?
     Vadinho, numa exigncia crescente reclamava, passar uma noite inteira com ela, no mais lhe
bastando t-la a seu lado e possu-la; queria adormecer em sua respirao, dormir em seu sono.
Tambm Flor desejava essa noite completa, essa posse mais alm dos limites do relgio, da hora
contada e cada vez menor para seu anseio.
     - Mas... - disse-lhe uma tarde quando ele novamente reclamou - . . . se eu passar a noite fora
no posso mais voltar para casa...
     - E para que voltar? A gente se amarra e acabou-se. Tu  que no quis ainda botar tudo em
pratos limpos... No sei por qu.
    - E onde vou ficar at o casamento?
     Fixaram-se em tia Lita e tio porto, a casa do Rio Vermelho era um segundo lar para Flor.
Tendo assim resolvido, ela, no dia seguinte, aps a aula, trancou-se no quarto e arrumou seus
terns, encheu duas malas e um ba. Depois fechou a porta, ps a chave na bolsa e saiu dizendo
que ia at o Mercado de Yans, na Baixa dos Sapateiros. Ali, Vadinho a esperava com o txi, mais
uma vez Cigano os conduziu mas, dessa vez, s na manh seguinte retornou a busc-los.
     A uma conhecida, vinda por novidades e costuras, Dona Rozilda contou:
     - Flor saiu para fazer compras, volta j. Felizmente no fala mais do tipo, anda menos
assanhada...
    - Acaba esquecendo...  sempre assim...
    - Tem de esquecer, queira ou no queira...
     A visita demorou-se, a conversar, Dona Rozilda contando coisas de uma famlia recente na
ladeira, uma gente de Amargosa.
     - Bem, Flor est tardando, vou embora. Lembranas para ela.
     Sozinha, Dona Rozilda  espera. Primeiro levemente em dvida, logo inquieta, pela noite
sabendo de certeza absoluta que Flor perdera o juzo e fugira de casa. Forou com um canivete a
fechadura do quarto, viu as malas feitas, o ba repleto. A fingida estivera a engan-la,
comportando-se como se houvesse rompido com o canalha, para poder sair desatinada a
desgraar-se.  Dona Rozilda ficou de luz acesa a noite toda, a taca ao alcance da mo. Ah! se ela
tivesse a audcia de voltar . . .
     Quando, no outro dia, antes do almoo, a irm e o cunhado apareceram, Porto todo cheio de
dedos, ela fez uma cena daquelas, arrancando os cabelos, fora de si:
    - No quero saber de nada... Aqui no entra mulher-dama, lugar de puta  em castelo...
    Dona Lita subiu nos azeites:
    - Faa o favor de me respeitar. Flor est em minha casa e minha casa no  castelo. Se voc
no se importa com a felicidade de sua filha, isso  com voc. Eu e Thales se importamos e
muito. Vim aqui para lhe dizer que Flor vai se casar. Se voc quiser, o casamento sai daqui, tudo
direito e em ordem como deve ser. Se voc no quiser, sai de minha casa e com muito gosto.
    - Rapariga no casa, se ajunta...
     - Escuta, mulher...
     De nada adiantaram a dialtica de tia Lita e a silenciosa presena de tio porto. No assistiria
nem daria seu acordo ao casamento, conseguissem autorizao com o juiz, se quisessem,
revelando toda a bandalheira, exibindo a desonra da ingrata. No contassem com ela para
encobrir a patifaria, para tapar o rombo da descarada.
    No dia seguinte viajou para Nazareth, onde o filho a recebeu sem entusiasmo. Ele prprio,
Heitor, pensava em casar-se e s no o fizera ainda por no lhe permitir o ordenado.
    Disposto a faz-lo, no entanto, apenas fosse promovido e pudesse economizar alguns mil-ris.
J tinha noiva em vista: uma ex-aluna de Flor, aquela de olhos molhados, que atendia por Celeste.


13

     Indo correr no Sodr uma casa anunciada para alugar, Flor deparou com outra ex-aluna sua,
dama de realce, esposa de comerciante da Cidade Baixa, Dona Norma Sampaio, pessoa muito
alegre e novidadeira, bonitona, de cuja bondade natural e generoso corao j se deu notcia
anterior. Residia ela nas vizinhanas.
     A casa estava na medida das necessidades de Flor, para morada e escola, sendo, ao demais, de
aluguel relativamente barato. Pois ento se considerasse desde logo inquilina, garantiu-lhe Dona
Norma; o proprietrio do imvel era seu conhecido, dar-lhe-ia a preferncia, com certeza.
Deixasse a seu cuidado, no precisava preocupar-se.
     Foi Dona Norma de muito conforto e consolo em todo aquele transe. Apoderou-se dos
diversos problemas da moa e concorreu para a soluo de todos eles, a todos deu jeito.
     Para comear, levantou-lhe a moral abatida. De quanto se passara Flor lhe fez minucioso
relato. Dona Norma saboreava os detalhes, no lhe viessem com histria contada s carreiras,
pulando pedaos. Flor sofria com a impresso que o mundo inteiro tivera conhecimento de seu
mau passo ("mau passo" era a expresso usada por tia Lita, delicadamente), como se ela trouxesse
o estigma da mentira estampado no rosto: mulher sem-vergonha, conhecedora de homem e a
bancar moa solteira.
     - Ora, menina, deixe de ser tola... Quem  que sabe que voc deu? Quatro ou cinco pessoas,
meia dzia, se muito e acabou-se... Se voc quiser, pode at casar de vu e grinalda e quem  que
vai reclamar? Sua me viajou: ela, sim, era capaz de vir fazer escndalo na porta da igreja...
     Flor no podia ocultar a vergonha, agira mal, mas no tivera outro jeito. Para Dona Norma
todo aquele horror reduzia-se a nada:
     - Isso de dar um pouquinho antes de casar sucede a trs por dois e com gente muito boa,
minha cara...
     Desfiava vasto e curioso noticirio, consoladores exemplos. A filha do doutor Fulano, aquele
da Faculdade, no dera a um amigo do noivo s vsperas do casamento, rompendo o
compromisso, fugindo  com o outro, casando com ele s pressas. E atualmente no era a nata da
sociedade, com o nome nos jornais: "Dona Fulana recebeu os amigos... etcetera e tal...". E aquela
outra fulaninha, filha do Desembargador, no foi pegada dando ao noivo - essa pelo menos dava
ao prprio noivo - por detrs do Farol da Barra? O guarda os surpreendeu em flagrante, s no
levou os dois para a delegacia porque o diligente cavalheiro soltara gorjeta alta. Mas exibira a
meio mundo a calcinha da sapeca, alis uma lindeza de rendas negras. Nem por isso, com todo
esse desfile de roupa ntima, ela deixou de casar de vu e grinalda, um vestido por sinal belssimo,
a fulana tinha gosto e dinheiro. E aquela outra sicrana - o pai um mata-mouros que nem Dona
Rozilda, trazendo as filhas num cortado, esbregues medonhos, presas em casa - surpreendida em
Ondina, nos matos, a dar a um homem casado, a um compadre de seus pais? Casara depois com
um pobre diabo e agora dava quanto podia, "quanto mais melhor" era seu lema; dava a solteiros e
casados, a conhecidos e indiferentes, a ricos e pobres. "Muita gente, minha filha, s no d antes
de casar porque no sabe que  to bom ou porque o noivo no pede. Afinal, antes ou depois,
que diferena faz me diga?"
      No apenas minimizou sua falta, devolvendo-lhe o nimo, como a assistiu e dirigiu nas
compras indispensveis para tornar a casa habitvel, mveis e utenslios. Inclusive a cama de
ferro, com as cabeceiras e os ps trabalhados, adquirida em segunda mo a Jorge Tarrapp,
leiloeiro com loja de antiguidades e velharias  rua Ruy Barbosa e, como no podia deixar de ser,
amigo de Dona Norma. Um bom sujeito, esse Jorge, srio alto e vermelho, quase apoplctico; ao
saber do prximo casamento de Flor, ofereceu-lhe de quebra e presente meia dzia de clices
para licor. Dona Norma concorreu com um par de toalhas de banho e de rosto, toalhas
alagoanas, de primeira. E lhe cedeu, pelo preo antigo de custo ou seja quase de graa,
sensacional colcha de cetim azul-hortnsia com ramos de glicnias, estampados em lils, um
monumento de chique. Dona Norma a levara em seu pomposo enxoval pea de resistncia,
presento de uns tios residentes no Rio. Pois bem; o manaco do Z Sampaio tomara birra da
colcha, segundo ele o lindo azul-hortnsia era um roxo funreo e aquele trapo s servia para
cobrir esquifes. Por causa da maldita colcha quase brigam na prpria noite do casamento. No
fosse Dona Norma estar morta de curiosidade pelo que se iria passar, e teria reagido aos
resmungos e as malcriaes de Z Sampaio. No se conformara ele enquanto a coberta no foi
guardada e para sempre. Nunca mais teve uso, nova em folha, na Rua Chile custava um
dinheiro.
     Por falar em colcha, a contribuio nica de Vadinho para o enxoval constou de colorida
colcha de retalhos. Obra coletiva das raparigas do castelo de Incia, todas elas admiradoras do
noivo, a comear pela nobre Incia, mulata de cara picada de bexiga, a mais jovem casteleira da
Bahia, nem por isso menos experiente. De quando em quando Vadinho aportava em seu leito,
nele em xod se demorando dias e semanas.
     No lhe cabia culpa de comparecer com to pequena quota no total desses interminveis
gastos onde as economias de Flor, economias de anos de trabalho, se consumiam rpidas. Muito
desejara Vadinho arcar com todas as despesas ou com a maior parte, para tanto muito esforo
despendera. Nunca os amigos o haviam visto assim nervoso e persistente nas mesas de roleta,
mas o dezessete seu nmero - andava escasso, era como se houvesse sido retirado da numerao.
Tentou igualmente no grande e no pequeno, na ronda e no bacar; a sorte estava arredia contra
ele, urucubaca das midas. Esforou-se a ponto de j no ter a quem morder e esfaquear,  a quem
pedir emprstimo, obrigado a recorrer  prpria noiva, afanando-lhe uma pelega de cem.
      - No  possvel que o azar continue hoje, meu bem. Vou amanhecer aqui com uma carroa
de dinheiro, tu compra meia Bahia sem esquecer uma dzia de champanha para o dia do casrio.
     No trouxe nem dinheiro nem champanha, estava mesmo azarado, at quando iria durar a
m-sorte?
     Assim, s houve champanha no casamento civil, realizado em casa dos tios. Thales porto
abriu uma garrafa e o juiz brindou com os nubentes e a famlia. Tambm o ato religioso foi
simples e rpido, compareceram apenas algumas amigas ntimas de Flor e seu Antenor Lima,
alm de tia Lita e tio Parto (e Dona Norma,  claro). Dona Mag Paternostro, a milionria, no
pde vir mas mandou pela manh uma bateria de cozinha, esse sim, um presente til. De parte de
Vadinho, apenas o Diretor do Departamento de Parques e Jardins da Prefeitura - a quem o
relapso funcionrio, aproveitando o matrimnio como pretexto, esfaqueara, assim como aos
colegas -, Mirando e esposa, senhora magra e loira, avelhantada, e Chimbo. A presena do
Delegado Auxiliar levou Thales Porto a comentar para Dona Lita: nem tudo era balela na histria
tramada pelos capadcios para debicar de Dona Rozilda. O parentesco de Vadinho com o
importante Guimares, isso pelo menos no era inveno.
     Celebrou a cerimnia religiosa Dom Clemente, capelo de Santa Tereza, graas a um pedido
de Dona Norma. Vadinho exibia sua vistosa elegncia de cabar, Flor toda em azul e em sorrisos,
os olhos baixos. Dona Norma no conseguira convenc-la a ir de branco, com vu e grinalda, a
boba no tivera coragem. As alianas foram as de Mirando, emprestadas na hora. Na vspera, no
Tabaris, haviam feito uma coleta e juntado o dinheiro necessrio para Vadinho pagar as alianas
j escolhidas na joalheria de Renot. Meia hora mais tarde Vadinho perdeu at o ltimo tosto em
casa de Trs Duques. Ainda assim poderia t-las obtido fiado, se as tivesse ido buscar. O
joalheiro, se bem com fama de esperto, no conseguia resistir  lbia de Vadinho, por mais de
uma vez lhe emprestara dinheiro. Tresnoitado, porm, o noivo dormira toda a manh, saindo s
carreiras para o Rio Vermelho no txi do Cigano.
     Quando j deixavam a igreja, surgiu o banqueiro Celestino empunhando um ramalhete de
violetas. Foi apresentado a Flor - Dona Flor, a partir de agora, como compete a uma senhora
casada. Beijou-lhe a mo, desculpou-se pelo atraso, acabara de saber, nem tivera  tempo de
comprar uma lembrana. Passou discreto uma cdula a Vadinho, os convidados, a comear por
Chimbo e Dom Clemente, vinham pressurosos cumprimentar o mandachuva portugus.
      Os recm-casados despediram-se no ptio do convento, apenas Dona Norma os
acompanhou at a nova residncia em cuja fachada j fora suspensa  tabuleta da Escola de
Culinria Sabor e Arte. Na porta de casa, Dona Flor convidou a vizinha:
    - Entre pra conversar um pouquinho...
    Dona Norma riu, maliciosa:
    - S se eu fosse bronca... - apontou as nuvens escuras no mar. - Est chegando a noite,  hora
de dormir...
    Vadinho concordava:
    - Falou pouco e disse tudo, vizinha. Alis, para esse assunto eu tenho disposio a qualquer
hora, com sol ou de noite, no fao diferena e no cobro extraordinrio... - abraou Dona Flor
pela cintura, saiu andando com ela pelo corredor e, numa pressa, a ia desabotoando e despindo.
     No quarto, derrubou-a em cima da colcha azul-hortnsia, arrancava-lhe combinao e cala.
Dona Flor nua, estendida no leito, as primeiras sombras de crepsculo caindo-lhe sobre os seios
erguidos.
     - T'esconjuro! - disse Vadinho - Essa coberta que tu arranjou, meu bem, parece mortalha de
defunto. Tira isso da cama, minha peladinha, traz aquela de retalhos, em cima dela tu vai parecer
ainda mais porreta. Essa, a gente guarda pra botar no prego, deve dar um dinheiro...
     Sobre a colorida colcha de retalhos, muda em seu recato, coberta apenas com a meia sombra
de crepsculo, Dona Flor finalmente casada. Dona Flor com seu marido Vadinho; ela mesma o
escolhera sem dar ouvidos aos conselhos das pessoas experientes, contra a expressa vontade de
sua me, e, mesmo antes de casar-se, a ele se entregara sabedora de quem ele era. Podia estar a
fazer uma loucura, mas, se no a fizesse, no tinha motivo para viver. Um fogo a consumia,
vindo da boca de Vadinho, de seu hlito, e seus dedos queimavam-lhe a carne como chamas.
Agora, casados, com todo o direito ele a despia, e a seu lado, no leito de ferro, a olhava a sorrir.
Seu marido bonito, penugem doirada a cobrir-lhe braos e pernas, mata de pelos loiros no peito,
a cicatriz da navalhada no ombro esquerdo. Estendida junto a ele, Dona Flor parecia uma negra,
negra e pelada. Nua por dentro tambm, amargando de desejo, fremente, com pressa, muita
pressa, como se Vadinho lhe despisse a alma. Ele dizia coisas, maluquices.
     Vadiaram at no mais poder, quando ela ento puxou a colcha, se cobriu, adormeceu.
Vadinho sorria e lhe catava cafun, Vadinho seu marido. Belo e msculo, terno e bom.
     Pela madrugada Dona Flor acordou, o despertador  cabeceira marcava duas horas da manh.
Vadinho no estava na cama, Dona Flor ps-se de p, saiu a procur-lo pela casa. Vadinho
sumira, fora arriscar com certeza os cobres dados pelo banqueiro. Na prpria noite de npcias,
era demais. Dona Flor chorou suas primeiras lgrimas  de casada, rolando no colcho, roda de
desgosto, rangendo os dentes de desejo.

14

     Sete anos decorreram entre aquelas primeiras lgrimas choradas por Dona Flor na noite de
npcias e as da aflita manh de domingo gordo quando Vadinho caiu sem vida em meio a um
samba de roda, entre fantasias e mscaras. E, como bem disse Dona Gisa - senhora de bem dizer
as coisas, adrede e com exato a propsito - ao ver o corpo do moo estendido nas pedras do
Largo Dois de Julho, j de todo e para sempre morto: a esposa chorara naqueles sete anos por
seus insignificantes pecados e pelos do marido - pesada carga de culpas e malfeitos - e ainda
sobravam lgrimas. Lgrimas de vergonha e sofrimento, de dor e humilhao.
     Derramadas sobretudo  noite. Noites ermas da presena de Vadinho, noites insones de
espera, longas de passar como se a aurora recuasse para os limites do inferno. Por vezes a chuva
cantava seu acalanto nos telhados, o frio a pedir corpo de homem, quentura de um peito com
mata de plos, abrigo em braos fortes. Dona Flor em viglia, impossvel adormecer; o desejo de
t-lo a seu lado era uma ferida exposta. Estremecia em arrepios, num desconforto de tristeza,
naquela cama cheia apenas de nsia e de abandono.
     Com Vadinho presente - Ah! com Vadinho presente nem frio nem tristeza. Dele vinha um
calor alegre a subir das pernas para o rosto de Dona Flor e a noite se abria em jbilo. Dona Flor
sentia-se agasalhada e festiva, um pouco irresponsvel como se houvesse bebido um copo de
vinho ou um clice de licor. A presena noturna de Vadinho a embriagava, vinho de buqu
inebriante, como resistir  seduo de sua boca de palavras e lngua? Eram noites de exaltado
mpeto, fericas noites de aleluia.
     Escassas, porm, essas noites em que o tinha sem sair aps o jantar, estirado no sof, a cabea
em seu colo, a ouvir o rdio, a contar-lhe histrias, a mo indiscreta a cutuc-la, a bulir com ela,
tentando-a; e logo cedo no leito de ferro, na longa cavalgada. Aconteciam de raro em raro.
Quando ele, num enjo repentino e imprevisvel,  abandonava por trs quatro dias, por toda uma
semana, a estroinice, a baderna, a cachaa e o jogo e permanecia em casa. Dormindo a maior
parte do tempo, futucando nos armrios, abusando as alunas, exigindo Dona Flor para vadiar a
qualquer hora, mesmo nas mais imprprias e indiscretas. Dias curtos e cheios esses, com o
doidivanas a remexer em tudo, o riso trfego a ressoar pelo corredor, na janela em prosa com os
vizinhos, ouvindo ralhos de Dona Norma, em longos bolodrios com Dona Gisa, enchendo de
movimento e alegria o lar e a rua. Contadas a dedo essas noites inteiras de vertigem e euforia, de
riso incontido e ccegas, cafuns, cariciosas palavras e o baque dos corpos desatados no leito de
ferro. "Meu doce de cco, minha flor de manjerico, sal de minha vida, minha quirica pelada, tua
xoxota  meu favo de mel", que ele dizia, ai as coisas que ele dizia, nem te conto, seu mano!
      Repetidas em infindvel rosrio as noites de espera, essas sim. Dona Flor dormia
sobressaltada, acordando ao menor rudo; ou de todo sem dormir, encostada em ira e dor nos
travesseiros at adivinhar-lhe o passo ainda distante e ouvir a chave na fechadura. Pela maneira
como a porta era aberta ela sabia da altura da cachaa e do resultado do jogo. Fechava os olhos, a
fingir-se adormecida.
      Por vezes ele chegava pela madrugada e ela o recolhia em sua ternura, agasalhava seu sono
tardio. O rosto fatigado, um sorriso vencido, ele se enrolava como um novelo na concha de seu
corpo. Dona Flor engolia as lgrimas para Vadinho no se dar conta do choro e da tristeza: ele j
tinha muito com que se amofinar, os nervos rotos na emoo da batalha contra a m sorte.
Quase sempre bebido, vrias vezes bbado, adormecia de imediato, no sem antes correr-lhe a
mo numa carcia e murmurar: "Minha negra pelada, hoje me enterrei mas amanh tiro a forra..."
Dona Flor continuava em viglia e em desejo, sentindo o corpo de Vadinho contra o seu a
estremecer no sonho, persistindo em jogar e ainda perdendo. A dormir, repetia nmeros na
danao da roleta: "dezessete, dezoito, vinte, vinte e trs", seus quatro nmeros fatais. Ou
reclamava com raiva: "deu gata". Flor seguia as variaes de seu sonho, e o via a apostar na "lebre
francesa", melhor dito no "grande e pequeno", o banqueiro levando as fichas de todo mundo,
pois dera gata. Ela acabara por conhecer toda a nomenclatura, a gria, a louca matemtica e a
secreta seduo das arapucas do jogo. E, assim, pela madrugada, ela o protegia contra o mundo,
contra as fichas e os dados, contra os crupis, contra o azar. Cobria-o com seu corpo e o
acalentava; assim dormido Vadinho era uma criana loira, um menino grande.
     Sucedia tambm ele no vir, prosseguindo a espera dia a fora, prolongando-se na noite
seguinte, j apodrecida em humilhao. Ao v-la silenciosa e triste, as alunas evitavam as
perguntas molestas para no desatar confusas lgrimas de pejo. Entre si, comentavam em speras
crticas  conduta e m vida do trampolineiro. Como tinha coragem de fazer chorar to boa
esposa? Mas, bastava ele surgir com sua voz matreira, suas lrias, sua velhacaria, e elas, quase
todas, se derretiam assanhadas, uma coceira no rabo e no chibiu.
     Durante o dia, Vadinho multiplicava-se em esforo e correria, por vezes em desespero, para
arranjar numerrio para o jogo: em mesa de roleta no tem fiado, ficha s se vende  vista.
Rondava pelos Bancos, zanzando em torno aos gerentes e subgerentes, para garantir o desconto
de uma promissria; cheio de astcias ao dobrar e convencer hipotticos avalistas para esse
prometido desconto, ou para arrancar quase  fora e a juros absurdos umas centenas de mil-ris
das unhas somticas de um agiota. Capaz de levar uma tarde inteira junto a um sovina qualquer,
daqueles difceis na queda, tinha certa satisfao em venc-los, vendo-os finalmente tomar da
caneta e apor a assinatura na letra promissria, sem foras para maior resistncia. Avalizar um
ttulo ou dar o dinheiro, era a mesma coisa. Alis, alguns mais prticos, assim resolviam o
assunto: Vadinho aparecia com uma letra de um conto de ris a pedir aval, a vtima soltava-lhe
uma nota de cem ou de duzentos para se ver livre. Porque seno, corria o perigo de assinar e,
trinta ou sessenta dias depois, encontrar-se s voltas com um ttulo vencido e sem pagamento.
Perigo srio porque Vadinho no dava sopa a ningum. Para resistir  sua lbia era preciso mais
do que avareza, era preciso ser um zarro de inabalveis convices ideolgicas, um insensvel aos
dramas da vida, um fantico, um sectrio sem corao. Como o italiano Guilherme Ricci, da
Ladeira do Taboo, de lendria canguinhez. Impvido, levou anos resistindo a Vadinho.
     Outro a resistir com brilho foi o livreiro Deneval Chaves, naquele tempo ainda simples
gerente de livraria, no o ricao de hoje. Mas um dia Vadinho colou-se a ele pela manh,
almoaram juntos, entraram pela tarde, a aperre-lo seis horas seguidas, tempo controlado por
Mirando em seu autntico relgio suo. Tonto, os ouvidos cansados, rendeu-se o esperto
Deneval:
     - Vadinho, eu lhe juro que esta  a primeira letra que eu avalizo em minha vida...
     - Pois comea bem, meu velho, no podia comear melhor. E uma estria de primeira ordem,
agora  s continuar. Alis, quem avaliza uma vez ttulo meu no pra mais, toma gosto...
     Saiu correndo para o Banco, deixando o gordo gerente de boca aberta, adernado sobre o
balco de livros, jururu, sem ainda entender a razo do gesto louco, de autgrafo absurdo.
     Nos tempos em que o jogo funcionava  tarde e  noite no Tabaris, Vadinho nem vinha
jantar. Comia uma besteira qualquer, um acaraj, um abar, um sanduche, indo cear alta
madrugada, quando a ltima porta se fechava na derradeira arapuca... Os mais renitentes - ele,
Giovanni, Anacreon, Mirabeau Sampaio, Meia Poro, o negro Arigof, elegante como um
prncipe de romance russo - saam em grupo para a Rampa do Mercado, as Sete Portas, a casa de
Andreza, para um frege-moscas qualquer onde houvesse um caruru de folhas, um vatap de
peixe, cerveja gelada, cachaa pura.
     Quando por acaso vinha jantar, era para sair logo depois, antes das nove, sempre apressado.
Frustrando as esperanas de Dona Flor de v-lo chegar da rua como os maridos das demais
chegavam do trabalho; indo pr-se  vontade, vestir o pijama, ler os jornais, comentar os fatos,
convid-la talvez para uma visita ou para um cinema. Quanto tempo ela passava sem ir ao
cinema? Era preciso que Dona Norma a arrastasse  matin, pois com Vadinho era to raro e
inesperado -, decorriam meses sem sarem juntos. Nunca deixou de lhe perguntar, no entanto, ao
v-lo despir o palet e afrouxar o n da gravata:
    - Hoje tu no sai mais, no ?
    Vadinho sorria antes de responder:
    - Saio mas volto logo, meu bem. No demora nada, tenho um compromisso mas  rpido... -
resposta tambm invarivel.
     Certas vezes chegava antes do jantar mas com outro objetivo. Nos dias de total derrota:
quando, ao cair da tarde, nada havia obtido, fracasso absoluto em todas as tentativas; falho o
palpite do bicho, insensvel os gerentes dos Bancos, sumidos os avalistas, ningum para morder.
Nesses dias de caiporismo sem jeito vinha para casa azucrinado. Ele, sempre to gluto, amando
saborear os quitutes de Dona Flor, suas receitas sem igual, nessas tardes comia em silncio,
inquieto, e comia pouco, s carreiras, sem ligar  comida. Lanava olhares sorrateiros  esposa
como a medir-lhe o humor, sua receptividade. Porque vinha para lhe pedir dinheiro, sempre
emprestado,  claro, com formais promessas de pagamentos, todas at hoje por cumprir. E ela
terminava entregando-lhe algum, por bem ou por mal; em certas ocasies em doloroso e mesmo
srdido constrangimento. Eram os dias do pior Vadinho, quando ele se vestia de bruta irritao,
quando seu encanto e graa davam lugar a uma cruel estupidez.
     Dona Flor sabia, antes mesmo dele pronunciar uma s palavra, de suas intenes malss. Ele
chegava molesto do fracasso na rua, um surdo enfado a marcar-lhe o rosto. Naqueles anos ela
aprender a conhec-lo nos mnimos detalhes, desde o peso e a cadncia de seu passo at o brilho
matreiro de seus olhos quando os punha numa fmea qualquer, nas rumorosas alunas, no decote
de Dona Gisa, ou, indo com Dona Flor pela rua, em quantas encontrava, a despi-las mas ou
menos conforme mais ou menos elas o merecessem por bonitas ou feias.
    Distribua-se Vadinho no correr da tarde em busca de fundos para as apostas, vinha ou no
jantar, carinhoso ou brusco, e, com a noite, novamente rumava para seu torvo destino.
    Torvo? No se aplicavam  natureza de Vadinho nem cabiam em sua realidade adjetivos assim
to solenes e lgubres. Destino noturno, sim, mas torvo no. Em Vadinho no assentavam as
sombras  e os negrumes, as angstias e os dramas to ao sabor das virtuosas campanhas contra o
jogo. No lhe tremiam as mos ao depositar as fichas nem uivava de remorso pela madrugada.
     Uma agonia, sem dvida, quando a bola girava na roleta, o corao apertado em ansiedade,
mas uma agonia gostosa. Jamais lhe ocorreu o vislumbre sequer de uma idia suicida; nunca o
nobre remordimento a devorar-lhe o peito; nunca a voz trgica da conscincia a acus-lo; imune a
toda essa espantosa srie de horrores a infelicitar a vida dos desgraados que se deixam jugular ao
vcio da batota. E uma lstima, porm, que fazer, se era assim? Impossvel apresentar Vadinho
sob to simptica luz: como jogador acorrentado  sina irrevogvel odiando-se a si mesmo,
querendo libertar-se e sem poder, a remir-se com um tiro nas tmporas  sada do cassino.
    Era um destino tenso e rude, um destino de macho, isso certamente. Nenhum frouxo
agentaria aquela batalha a cada noite e a cada instante da noite, mas nunca Vadinho fizera do
emocionante embate uma catstrofe de crimes e remorsos, infortnio sinistro  irremedivel.
Sinistro? Era variado e divertido seu destino. Irremedivel? Sempre havia algum para lhe
emprestar dinheiro; incrvel como tanta gente se decidia a faz-lo. Quem sabe, faziam-no para
assim arriscar-se no jogo sem ir aos cassinos proibidos, s espeluncas mal-afamadas? Destino de
fundas e exultantes emoes.
     Como naquela noite de agosto de incio to ruim: ele tentando afanar o dinheiro de Dona
Flor, ela resistindo, era o dinheiro das despesas, e a discusso, os desaforos, as queixas, os gritos e
os insultos. Soltara finalmente trinta mseros mil-ris e com eles Vadinho iniciou a gloriosa
marcha. No Abaixadinho os dados rolavam na "lebre francesa". Vadinho colocou dez mil-ris no
grande - s apostava no grande - e o chorrilho teve comeo. Deu grande, acredite-se ou no,
quatorze vezes seguidas e Vadinho mantendo as apostas, rodeado por uma nervosa aglomerao
de jogadores e meretrizes, disposto a sustentar o grande at o fim dos sculos. Ao saber,
Mirando veio correndo como um doido da outra sala onde jogava ronda, e gritou-lhe:
     - Pare pelo amor de seus filhos, que a sorte vai virar.
     Vadinho no tinha filhos e no ia parar, mas Mirando que os tinha, metera as mos nas fichas
e as retirara ele prprio, empurrando Vadinho, levando-o dali. Com razo, pois deu o pequeno e
depois deu gata, novamente o pequeno e gata outra vez, enquanto Vadinho saa a contragosto e
opulento.
     Naquela noite, os bolsos abarrotados, recordando Dona Flor a lhe dizer, em prantos, "voc
no presta mesmo, no vale nada e no gosta nem um pingo de mim", ele desejou chegar em casa
ainda cedo e com um presente, mas um presente de arromba, no uma pinia qualquer. Um
colar, um anel, uma pulseira, uma jia de valor. Onde, porm, adquiri-la, se o comrcio estava
fechado? Quem sabe, opinou Mirando, conseguiria ele um troo vistoso com uma quenga da
zona? Mulheres-damas por vezes recebem valiosas ddivas; quando enxodozadas com um
coronel do cacau ou fazendeiro do serto aproveitam-se para encher seu p-de-meia, algumas at
deixam de fazer a vida, estabelecendo-se com sales de beleza ou armarinhos. Mirando conhecia
duas que terminaram por se casar e deram em senhoras honestssimas.
     Saram a procurar, correram ceca e meca, de cabar em cabar, de castelo em castelo, de
penso em penso, e aonde chegavam iam baixando cerveja, vermute e conhaque para quem
quisessem beber, as despesas por conta do Vadinho. Expuseram e revolveram os pobres enfeites
de dezenas de raparigas, no encontravam seno quinquilharias, metal cromado, vidro colorido,
lato - e a noite a avanar.
     "Quero chegar cedo, fazer uma surpresa completa", Vadinho com pressa, vexado,
antegozando a cara de Dona Flor ao v-lo antes da meia noite, de presente na mo. S faltava
encontrar mimo de valia, de encher o olho, no aquelas bugigangas de mascate. Foram encontr-
lo finalmente na Ladeira de So Miguel, no buduar - como dizia pernstico Mirando - de
Madame Claudette, acabada cortes sobrevivendo  custa de mnima clientela de colegiais, que a
freqentavam devido  sua nacionalidade francesa e a propalados requintes, tudo muito
parisiense e a baixo preo.
     Colar de turquesas de um azul realmente to formoso a ponto de Vadinho e Mirando
sentirem o impacto dessa beleza ilustre e seu fascnio. Todo em ouro trabalhado; a velha
marafona o apertava entre os dedos como a defend-lo.  Era uma jia de famlia, segredava, ela a
trouxera da Europa, fora usada por sua me e por sua av, tinha um duplo valor. S mesmo
muito dinheiro podia lev-la a desfazer-se daquela preciosidade, recordao de um mundo
perdido na Lorraine e na infncia. S por muito, muito dinheiro; "l petit Vadinho, l pauvre"
nunca tocara quantia to grande e, se um dia a obtivesse, no a iria gastar em adorno de mulher.
Quando fizera Vadinho caso de dinheiro, Madame? Mesmo limpo, no miser, a nenhum, sem
tosto furado, nem assim dava valor ao dinheiro, e se o buscava em insensato af era para jog-lo
fora na roleta. Arrancava num mpeto as cdulas dos bolsos cheios. Quase ficam vazios: os
olhinhos de Madame Claudette se incendiar de cobia atrs da mscara de p de arroz e creme,
aquela mmia fremia  vista das notas de cem e de duzentos.
    O txi do Cigano o deixou na porta de casa s onze e quarenta, antes da meia noite, como ele
queria. Dona Flor apenas teve tempo de fechar os olhos e ressonar de leve e j Vadinho estava
no quarto, arrancando o lenol a esconder o corpo da esposa, pondo-lhe fulguraes de turquesas
entre os seios tmidos, a rir numa gaitada:
    - E tu que no queria me emprestar dinheiro, sinh tola... - esparzia as cdulas pela cama, ainda
lhe sobrara para mais de dois contos de ris.
    Como dizer "torvo destino" para quem era assim alegre jogador, a sorrir na sorte e no azar,
cheio da alegria de viver?
     Torvo destino talvez na opinio de Dona Flor, de seu ponto de vista, de seu posto de
observao ou, para melhor esclarecer, de seu posto de espera. Torvo para Dona Flor, no leito a
esperar.
    A espera-lo durante sete anos, uma vida. Dona Flor chorou muitas lgrimas naqueles anos,
vadiou tambm muita vadiao; os doces momentos de ternura e posse buscando compensar as
noites amargas de ausncia e humilhao. Um dia, Dona Gisa com sua fumaas de psicologia,
psicanlise, psicografia e outras invencionices norte-americanas, explicou-lhe ser ela, Dona Flor,
casada com um excepcional  no excepcional no sentido em que Dona Flor ouvia o termo,
como sinnimo de grande, de maior, de melhor de todo; nada disso. Excepcional significando
diferente, fora do normal, algum que no cabia nas medidas habituais nem se podia prender nos
limites de um quotidiano medocre e montono. Era Dona Flor capaz de entend-lo e de ser feliz
com ele? Tretas de Dona Gisa, boa amiga sem dvida, porm uma letrada dos seiscentos
demnios, a cabea cheia de caraminholas e a lngua de aperreio.
     Dona Flor desejava ser como todo mundo, seu marido como os demais maridos. No tinha
ele um emprego na Municipalidade, obtido por seu parente rico, doutor Airton Guimares,
apelidado Chimbo? Ela o queria vindo do emprego para casa, os jornais sob o brao. um
embrulho com biscoitos ou cocadas, de abars e acarajs. Jantando na hora exata como os outros,
saindo em certas noites com ela, a passeio, de brao dado, gozando a brisa e a lua. Amoroso, no
leito a vadiar. A vadiar antes de dormir, ainda cedo, e nos dias certos de vadiao.
     Como era  que no podia ser: Vadinho sem hora de chegar, dormindo freqentemente na
rua, com certeza no leito das vagabundas, de antigos e renovados xods; querendo vadiar e
vadiando em horas tardias e as mais absurdas, em qualquer dia sem determinao, sem relgio
nem almanaque. No havia horrio nem sistema, tampouco hbito estabelecido ou tcita
conveno, um costume dos dois, nada. Era aquela anarquia sem cabimento, ele na rua todas as
noites sem lhe dar notcia, ela no leito de ferro roendo a dor de cotovelo, aguda dor de corno e
uma dor no peito, uma aflio. Por que todas as outras mulheres casadas faziam jus aos seus
maridos, s ela no? Por que no era Vadinho como todos os demais, com a vida regulada e em
ordem, sem os sobressaltos, os cochichos, os fuxicos, a infindvel espera? Por qu?
     Tudo aquilo - a espera, o jogo, a cachaa, as noites fora de casa, os gritos, a violncia, a vilania
-, tornou- se tudo um hbito com o passar do tempo, mas Dona Flor ainda no se acostumara
inteiramente e morreria sem se acostumar.
     Alis, quem morreu foi ele, Vadinho, no carnaval. Da por diante, Ah! da por diante o desejo
j no teve sequer direito  espera,  expectativa,  nsia. A ausncia de Vadinho adquirira outra
dimenso. Tambm o sofrimento, outro era seu peso. No mais adiantava a Dona Flor ficar de
ouvidos atentos a cada rudo na calada, o corao sfrego, a latir. Agora sem espera e sem
esperana, de nada servia atentar  cadncia dos passos, dos passos dos bbados sobretudo, ao
barulho sutil da chave na fechadura, ao som de uma cano perdida, de uma toada na distncia.
     Sim, de uma toada na distncia. Porque houvera noites, durante aqueles sete anos de
casamento e espera, em que Vadinho veio acord-la em serenata, com violo e cavaquinho,
violino e flauta, trompete e bandolim, a repetir aquela outra inesquecvel serenata da Ladeira do
Alvo, quando ela acabara de saber da verdadeira condio de seu amor: pobre, sem vintm,
funcionrio chinfrim, picareta e facadista, cachaceiro, libertino e jogador.


15

     Agora, estendida no leito de ferro, Dona Flor buscava no ouvir o matraquear de Dona
Rozilda na porta da rua, em animada palestra com Dona Norma, para melhor recolher na
memria perdida, na distncia do tempo, as vozes dos cantores, o ritmo dos instrumentos, aquela
emocionante serenata da Ladeira do Alvo; para encher suas horas e conter seu corao nessas
noites no mais de espera pois ele morrera, seu marido. Contava agora to-somente com um
mundo de lembranas, nele recolhida, refugiada em recordaes, cinzas com que apagar a brasa
do desejo vivo. Como se houvesse erguido um muro de clausura, a separ-la do cochicho e do
mexerico, das conversas  e dos comentrios, de quanto perturbasse sua viuvez recente, aquela
nova realidade de ausncia. Nos tempos iniciais do nojo, movia-se apenas na dor e na nsia, na
necessidade e na impossibilidade de t-lo ali, a seu lado. Impossvel para sempre e nunca mais.
     Abafando, sob a msica e o canto recordados, a voz e o escrnio de Dona Rozilda, abrigava-
se, Dona Flor nas lembranas do passado: naquela noite chegara  janela com os primeiros
acordes. Doa-lhe o corpo, o couro cru fizera-lhe um lanho no pescoo, ela era um trapo, um
trapo batido e aviltado. Vadinho subia a ladeira a cantar, os braos erguidos para o alto.
Reconheceu os demais: a voz inconfundvel e inigualvel de Caymmi, Jenner Augusto mais plido
ainda sob a lua, e, a acompanh-lo nos instrumentos e no coro, Carlinhos Mascarenhas, Edgard
Coc, doutor Walter da Silveira e Mirando. Fora buscar correndo aquela rosa escura e rara,
colhida na vspera no jardim de tia Lita. Tudo andava revolto em sua vida, numa barafunda, em
completo descontrole, ela prpria submetida  frrea autoridade de Dona Rozilda. A msica lhe
dera foras e coragem. De repente se sentiu satisfeita por no passar Vadinho de reles
serventurio municipal, lotado em msero emprego, e no lhe importava fosse ele irrecupervel
jogador.
     Com a lembrana de noites assim, de luar e ternura, Dona Flor, insone, tenta aplacar a dor e o
desespero de saber que nunca mais Vadinho vir tocar e acender as brasas de seu corpo. Na noite
longa de espera, no voltar a ouvir na rua a sua voz desafinada, em outras serenatas.
     Acontecia quando Vadinho, tendo excedido todos os limites noites seguidas sem dormir em
casa ou como naquela vez em que, ainda recm-casados, jogara o dinheiro do aluguel e nada lhe
dissera, fazendo-a passar por caloteira -, queria fazer as pazes, pois Dona Flor, nessas ocasies,
deixava de se dirigir a ele, desconhecendo sua presena, como se no tivesse marido. Inquieto,
Vadinho rondava suas saias, com palavras aduladoras, convites e provocaes para excit-la e
conduzi-la a vadiar. Nas trincheiras da mgoa e do vexame, resistia Dona Flor.
     Vadinho apelava para as grandes cartadas: ir com ela ao cinema, acompanh-la a pagar visita
h tanto tempo devida a Dona Mag ou ao padrinho de Heitor, doutor Lus Henrique. Ou bem
organizava uma serenata, vinha acalentar seu sono, deslumbrando a rua. No mais trazia, no
entanto, a Dorival Caymmi com o mistrio de sua voz nem ao doutor Walter da Silveira. Caymmi
emigrara para o Rio, fazia programas na rdio carioca e gravava discos, cantores de renome
lanavam seus sambas, suas modinhas praieiras. Doutor Walter, nem falar: juiz no interior, a
flauta encantada ninando apenas o sono dos filhos pequenos, uma coorte de meninos e meninas,
um por ano quando no dois numa nica barriga. No era fcil, nesses levianos tempos de
irreflexo e desatino, encontrar quem cumprisse seus deveres - todos os seus deveres sem
exceo  com tamanho senso de responsabilidade quanto o zeloso e culto magistrado.
     Agora tambm j no viria, e nunca mais, ai nunca mais!, Vadinho. Nem sua voz, nem seu riso
de deboche, nem sua mo corrida, sua mata de pelos loiros, seu atrevido bigode, nem seu sono de
fichas e paradas. Dona Flor j no tinha sequer a espera dolorosa. O que no se dispunha a pagar
para novamente caber-lhe o direito ao sofrimento de aguard-lo,  agonia de escutar o silncio
noturno da rua pacata, de sentir o passo do marido, incerto no peso da cachaa!
     De nada adiantava rogasse Dona Norma a Dona Rozilda, na porta da frente, apelando para
sua compreenso:
     - Quanto menos se fale em Vadinho, melhor, mais fcil ela esquecer. Flor ainda est muito
sentida, para que ficar lembrando as ruindades dele, azucrinando a pobre?
     No adiantava. Dona Rozilda tinha vindo mesmo com a inteno de azucrinar; no conhecia
outra maneira de distribuir consolo. Como estancar aquelas lgrimas imerecidas, seno
vomitando cobras e lagartos contra o finado? J antes dissera e repetira: aquela no era morte
para choro e, sim, para foguetrio. Na conversa noturna, alardeava mais uma vez sua opinio
quase aos gritos, pouco lhe importando quem a ouvisse.
     No adiantava tampouco, porque Dona Flor, no rudo ou no silncio, no consegue esquecer.
Nem os mal- feitos, as ruindades, quanto mais e principalmente as horas boas e a gentil presena,
as doidas palavras do perdido e sua fora de homem a possu-la, e sua fragilidade de homem a
acolher-se em seu corpo, a proteger-se  em sua ternura.
     Sofrimento quase mrbido, doentio, amargo desinteresse pela existncia. Em esforo
quotidiano, no entanto, Dona Flor procurava superar o vazio interior, conter as lgrimas, ir
adiante. Depois da missa de stimo dia, reabrira a escola de culinria. As alunas retornaram, a
princpio evitando as troas habituais, as piadas maliciosas, as anedotas, as gargalhadas de
entremeio com as receitas, a criarem a atmosfera cordial e simptica das aulas em torno aos
foges de lenha e de carvo. No durou mais de dois ou trs dias esse cenrio de luto, a alegre
normalidade se impunha, e a prpria Dona Flor gostava que assim fosse: distraia-se, rompia o
crculo de cinzas.
     Retornaram todas, exceto a pequena Ieda com sua cara de gata arisca e seu desvendado
segredo. Receio de enfrent-la, a ela, Dona Flor, ou de enfrentar a casa rf da graa de Vadinho,
de seu riso, de suas astcias, de sua insolncia?
     No que concerne a Dona Flor, podia vir, j no lhe importa saber nem discutir, muito menos
acusar. S uma coisa tem vontade de por em pratos limpos: estaria de barriga, a fingida, prenha
dele, grvida de filho seu?
     Dona Flor jamais pegara menino, mas sabia ser culpa sua e no do marido. A doutora
Lourdes Burgos, sua mdica, lhe explicara, e o doutor Jair havia confirmado e proposto ligeira
operao capaz de torn-la fecunda, quem sabe? Medrosa, Dona Flor furtou-se  cirurgia: ao
demais, doutor Jair no lhe dera certeza absoluta de sucesso. Assim, nas trampolinagens do
marido o que mais a preocupava era o receio dele arranjar um filho por a, na rua ao deus-dar.
     Dona Flor no conseguira esclarecer jamais se Vadinho o desejava ou no, a esse filho. O
receio do hospital e do bisturi teria impedido uma conversa mais franca, teria contido Dona Flor
em perguntas mais ou menos formais? Ela prpria no sabia. Que por vrias vezes o interrogara,
era certo:
    - Tu no sente falta de um filho?
     Talvez porque Vadinho a soubesse estril e temerosa da operao, talvez por isso escondesse
sua vontade de uma criana em travessuras na casa, menina de loiras melenas onduladas como as
dele, menino de negros cabelos e de pele cobreada como os dela. Uma vez, ouvindo-o enaltecer o
encanto de um corneta gordo e rosado, um bitelo, prmio de robustez infantil a exibir-se no
cromo de uma folhinha de ano, disps-se ela a enfrentar o assunto perturbador:
     - Se voc tem mesmo vontade de ter um filho, eu arrisco a operao. Doutor Jair disse que 
possvel que d certo. S no pode  garantir...
     Ele escutava como distante, meio perdido num sonho, e no respondia logo, levando-a a
altear a voz quase com raiva, para arranc-lo daquele devaneio:
     - Se no der certo, pacincia... Pelo menos ningum pode dizer que tu queria um filho e eu
no fiz tudo para ter... Ponho o medo de lado,  s voc dizer - as ltimas palavras saam
molhadas em lgrimas, mastigadas em soluos.
     Eis que ele nunca suportara v-la chorar: acariciava-lhe a face de mgoa, sorria para alegr-la:
     - Tola, tolona... Que mania  essa de querer bulir na bichochota? Deixa tua quiriquinha em
paz, meu bem, no vou deixar que voc mexa na peladinha pra de repente ela ficar toda frouxa
ou torta por dentro... Deixa pra l essa histria de filho...
     E, como se quisesse apagar a conversa, envolvia-a nos braos, arrastando-a para o quarto, para
a vadiao sem finalmente lhe dizer se ansiava ou no por esse filho que ela no podia lhe dar,
esse filho to fcil de fazer noutra qualquer. Com a intempestiva posse, destrua o tempo de
perguntas e respostas, embaciava a presena da inexistente criana erguida entre eles, at
desvanec-la por completo.
     Gostar de meninos, Ah! como ele gostava... E a garotada o preferia a qualquer brinquedo,
proclamando-lhe  o nome, correndo para ele. Junto s crianas, Vadinho era seu igual como se
tivesse a sua mesma idade e infinita pacincia. Mirando lhes dera de afilhado, a ele e a Dona
Flor, o mais moo de seus quatro moleques, o qual, desde pequenino, era louco pelo padrinho:
apenas o via e escancarava a boca enorme, de sapo, acenando com as mos, a arrancar-se dos
braos da me para os de Vadinho. Brincavam os dois durante horas, Vadinho a imitar urros de
animais ferozes, a saltar feito um canguru, a rir feliz. Como no havia de desejar um filho quem
era assim doido por crianas? No o confessava jamais, no entanto; talvez para no obrig-la ao
sacrifcio incerto da interveno cirrgica.
     Dona Flor, no leito de viva, sente uma incmoda picada de remorso. Afinal podia ter
tentado a operao apesar do visvel pessimismo  do casal de mdicos. Deixara-se influenciar,
quem sabe?, pela opinio de Dona Gisa, compartilhada por outros vizinhos e at pelos tios, uma
Dona Gisa muito culta a lhe expor teorias sobre hereditariedade para a consolar quando ela se
acusava de estril e intil. A prpria tia Lita, to bondosa, sempre cheia de desculpas para as
andanas de Vadinho, lhe dissera por mais de uma vez:
     - H males que vm para bem, minha filha. E se tu botasse no mundo um menino que sasse a
Vadinho, assim sem conserto? Tu j pensou? Deus sabe o que faz...
    Thales porto vinha em apoio da esposa:
     -  isso mesmo, Lita tem razo. Pra viver feliz no  preciso ter filho. Veja a gente... Nunca
tivemos menino...
     Realmente viviam felizes, dedicados um ao outro, porto com seus quadros domingueiros,
Dona Lita com as flores de seu jardim e com seu gato curuzu, velho e gordo, rosnando em
mimos e dengos de filho nico.
     Tanta gente a cerc-la com o mesmo propsito confortador, nesses pareceres Dona Flor
cultivava seu medo, seu medo e - por que no dize-lo? - seu egosmo.
     No leito de ferro, entre a cida voz de Dona Rozilda e a doce msica da serenata, a viva d-
se conta de que, em verdade, no existira somente o medo da operao. Se o desejo de um filho
fosse nela to forte como em Vadinho, certamente teria encontrado coragem para enfrentar
mdico e hospital. Ela, porm, Dona Flor, no vivia na nsia de um filho, de criana a encher a
casa de bulcio e riso. Vivia a pensar em Vadinho, isso sim, era a sua criana, a ele queria em casa
seu marido e seu filho, seu "menino grande".
     Na porta da rua, assevera Dona Norma sentenciosa e amiga:
    - Ela precisa esquecer,  tudo que ela precisa. E ainda to moa, pode refazer sua vida...
     - Casou com esse miservel porque quis... - a voz de Dona Rozilda.
     - Se Vadinho no prestava, mais um motivo para no falar nele, para que viver bulindo no
caixo do finado? A gente precisa  distrair a pobre, no deixar tempo para recordao, tem a
escola mas no chega, ela precisa sair, se divertir, precisa esquecer...
     Sobre os resmungos de Dona Rozilda, a bondade de Dona Norma:
    - Se ela tivesse um filho, pelo menos...
     A frase chega aos ouvidos de Dona Flor, "se ela tivesse um filho, pelo menos...". Sim, seria
bem mais fcil... No estaria to s, to vazia, to sem razo de viver. Na rua, nas vizinhanas, na
missa e na bno, no mercado e na feira, sob a batuta de Dona Rozilda, entre as amigas e as
conhecidas, elevava-se o coro de maldies  memria de Vadinho, um nem sei que diga de to
ruim. Dona Flor tranca os ouvidos para no ouvir seno a antiga serenata. No leito de ferro,
sozinha com a ausncia para nunca mais de seu marido. Sem um filho para a consolar.
     Em meio a tudo quanto sucedera naqueles sete anos, nada tanto a assustara como a notcia de
ser filho de Vadinho o menino parido por Dionsia, mulata estabelecida nas proximidades do
Terreiro. Sempre temera a notcia de um filho dele, nascido de outra, capaz de lev-lo embora.
Quando chegava a seu conhecimento um caso de Vadinho, xod com visos de ligao duradoura,
aventura mais alm das noites dormidas nos castelos, seu corao se apertava no temor de uma
gravidez, de uma criana a nascer, os braos estendidos para Vadinho.
      Das mulheres no tinha medo, apenas cimes: "tudo xixica para passar o tempo", que ele lhe
dizia no para se desculpar mas para Dona Flor compreender e no temer. Mas, se surgisse um
menino? Contra um filho seria impossvel lutar, impossvel qualquer esperana. Ficava como
louca, inquieta e perdida, quando Dona Dinor era quase sempre Dona Dinor, como conseguia
ela ser to informada? - lhe trazia, entre rodeios e lamentaes, o nome da cuja e os detalhes,
alguns at ntimos e salafrrios. Tremia no pavor de uma criana, de um menino, desse filho que
ela no lhe dera por no poder e tambm, Ah! tambm, por no querer.
     Imagine-se sua agitao, o impacto recebido quando um dia Dona Dinor se acercou para
contar-lhe a "ltima de Vadinho". Dele, segundo a intrigante, houvera filho uma tal de Dionsia,
mulata com fama de grande boniteza, ora modelo de pintores (pousara para um troca-tintas
modernista, um nomeado Caryb que, com desplante e acinte  sociedade, a retratara vestida de
rainha), ora capital e adorno do democrtico e afreguesado castelo de Luciana Paca, na zona de
maior movimento.
     Dona Dinor vinha contar de pura bondade, no por esprito de intriga ou de fuxico, no era
dessas. Cumpria pesarosa sua obrigao de amiga, para que a pobrezinha da Dona Flor, to boa e
to distinta, no ficasse na ignorncia, os demais rindo dela pelas costas...
    - Foi arranjar filho logo com uma mundana...
     Dizia "mundana" para no servir-se de substantivo mais forte. Dona Dinor era a delicadeza
em pessoa e tinha horror a magoar, a ferir quem quer que fosse, mesmo a mulher perdida e sem-
vergonha, prenha de homem casado, pegando barriga com marido de outra. "No sou dessas que
adoram fuxicar, no fao mal a ningum", afirmava Dona Dinor e havia quem acreditasse.
     Na cama de viva, emudecidos os ltimos acordes da serenata, perdidas a voz dos cantores e a
rosa negra, Dona Flor estremece ao recordar aqueles dias de tamanho susto e dura deciso. De
que no era capaz para no perder Vadinho, para conserv-lo a seu lado, para t-lo mesmo assim,
jogador e mulherengo, com rapariga de casa posta, fazendo filho por a, na rua, ao deus-dar. Do
que seria capaz, ela o mostrou ento.

16


    Quando as duas mulheres saram da elegante missa das onze na Igreja de So Francisco, num
domingo lavado de junho, manh luminosa e fresca, e, em passo decidido, atravessaram o
Terreiro de Jesus em direo ao labirinto das estreitas ruas antigas do Pelourinho, moleques
cantavam um samba de roda batendo o ritmo em latas vazias de goiabada

 mulher do balaio grande! O do balaio grande! bom balaio! 

    Voltou-se Dona Norma para a companheira, a resmungar:
    - Esses fedelhos, por que no vo mexer com a traseira da me deles?...
    Talvez no passasse de simples coincidncia, no houvessem os moleques em suas farturas se
inspirado; mesmo assim Dona Norma, por via das dvidas, lanou terrvel olhar em direo aos
ousados. Olhar que de imediato se adoou, ao descobrir um pequenino de seus trs anos, vestido
de farrapos, o rosto imundo de remela e ranho, a sambar no meio da roda:
     - Repare que gracinha, Flor, que coisa mais linda aquele sata-nazinho que est danando...
     Dona Flor considerou a malta de crianas andrajosas. Muitas outras disseminavam-se pela
praa de intensa vida popular, misturando-se aos fotgrafos de lambe-lambe, tentando roubar
frutas nos cestos de laranjas, limas, tangerinas, umbus e sapotis. Aplaudiam um camel a mercar
milagrosos produtos farmacuticos, uma cobra enrolada ao pescoo, repelente gravata. Pediam
esmolas nas portas das cinco Igrejas do Largo, quase assaltando os fiis ricos. Trocavam
deboches com sonolentas rameiras, em geral muito jovens, em ronda pelo jardim na expectativa
de um apressado fregus matinal. Multido de meninos rotos e atrevidos, os filhos das mulheres
da zona, sem pai e sem lar. Viviam no abandono, soltos nos becos, em breve seriam capites da
areia, conheceriam os corredores da polcia.
     Dona Flor estremeceu. Viera para levar uma daquelas crianas, uma recm-nascida, para assim
garantir-se  contra ela e sua me. Mas, vendo os meninos soltos na Praa do Terreiro, seu corao
se encheu de piedade, de um sentimento nobre e puro; naquela hora, se pudesse, adotaria todos
eles, no apenas o filho de Vadinho. Alis, o filho de Vadinho no necessitava dela para escapar
quela vida. Vadinho no o abandonaria jamais, no era de sua natureza largar uma criana ao
desamparo, quanto mais rebento seu, nascido de seu sangue. Em vez de negar a paternidade, ele a
proclamaria, dela fazendo praa, encantado e orgulhoso.
     Sempre o soubera Dona Flor, de cincia certa, de um saber sem dvidas, apesar dos silncios
e das reticncias do marido: um filho para Vadinho seria o maior dos acontecimentos, a
verdadeira sorte grande, a parada sem exemplo, o estouro da banca. Por isso ela tanto se afligira
com a notcia trazida por Dona Dinor. Era o perigo maior, a temida ameaa. Afinal, Vadinho j
lhe pertencia to pouco. dominado pelo jogo e pela boemia, que sobras lhe restariam se um filho
se erguesse entre eles, a cham-lo de um beco esconso, de um canto de rua, do leito de uma
vagabunda? Esse filho que ela no lhe dera.
     Ao ter a notcia, ficou desesperada, num padecimento to grande a ponto da prpria Dona
Norma perder a cabea. De ordinrio to executiva, encontrando soluo para todos os inmeros
problemas que lhe propunham a cada momento, ela tambm no atinava com sada nem acerto,
confusa e aflita.
     - E se tu dissesse a ele que est grvida? - nada de melhor lhe
ocorrera seno essa pobre mentira.
    - De que adianta? Vai terminar descobrindo,  pior...
     Foi Dona Gisa quem encontrou decifrao para a charada, recurso no s honroso como
prtico, proposta capaz de resolver tudo e muito mais, quem sabe? A gringa era uma retada
nesses assuntos de psicologia e outras metafsicas, at o professor Epaminondas Souza Pinto
tirava-lhe o chapu, "mulher de muita erudio", e o professor Epaminondas Souza Pinto no era
um qualquer, jamais errara na colocao de um s pronome e ditava (gratuitamente) regras
gramaticais no semanrio de Paulo Nacife, folha de pouca circulao mas prspera em anncios.
     Quando puseram Dona Gisa a par dos acontecimentos - Dona Flor em agonia, Dona Norma
perdida -, ela logo os destrinchou e instruiu as amigas em seu portugus arrevesado. Se Vadinho
tanto desejava um filho, a ponto de ir faze-lo na rua, em mulher-dama, pois era Dona Flor estril,
no podendo conceber; se esse filho nascido de outra podia levar Vadinho embora para sempre -
ento s cabia a Dona Flor um recurso para garantir o marido e o lar: trazer para casa esse filho
bastardo de Vadinho e fazer-se me dele, criando-o como se o houvesse parido.
     E por que no? Por que gritava assim Dona Flor, praguejando igual a uma norte-americana
milionria - a comparao era de Dona Gisa, espantada ante a reao da vizinha - jurando que
isso jamais, jamais o filho da outra, da cachorra, da puta sem-vergonha? Por que esse escndalo,
se uma das coisas mais admirveis do Brasil era, segundo a opinio da gringa, a capacidade de
compreender e conviver? To comum mulheres casadas criarem filhos esprios dos maridos, ela
mesma conhecia alguns casos tanto entre gente pobre como entre gente rica. Ali junto, na rua,
Dona Abigail no criava a filha do esposo com uma sujeita e no o fazia com o mesmo terno
amor reservado aos quatros filhos de seu ventre? Uma beleza, e que beleza!, por essas coisas
Dona Gisa gostava do Brasil e se naturalizara brasileira.
     Que culpa tinha o menino que pecado cometera? Por que deixar pobre criana, sangue de
Vadinho, seu marido, exposta a uma vida de privaes, subalimentada, crescendo na fome e no
vicio, rato dos esgotos do Pelourinho, sem direito  educao e aos bens da vida? E, ao demais,
no temia Dona Flor - e com razo - ficasse Vadinho preso  me da criana, para estar junto do
filho, de seu filho? Se ela, Dona Flor, o fosse buscar e o tomasse para criar como filho seu, que
prova de amor mais convincente? Aquela criana, nascida de outra, seria o elo a ligar para sempre
Vadinho e Flor, sem mais nenhum receio nem ameaa.
    E, quem sabe, quem sabe, minha prezada, com esse filho em casa, crescendo e educando-se
sadio e lindo no carinho de Dona Flor, sendo para Vadinho permanente alegria mas tambm
permanente responsabilidade, quem sabe no mudaria o malandro seu gnero de vida, largando
de vez o jogo e a estroinice, tomando jeito e vergonha? Era bem possvel, sobravam exemplos.
    Sobravam, sim, apoiou Dona Norma, entusiasta, "Eta gringa danada de sabida!" Dona Norma
imediatamente citara nomes e endereos. Quem mais viciado no jogo e na cachaa do que doutor
Ccero Arajo, um de Santo Amaro da Purificao? A pobre esposa, Dona Pequena, sofria as
penas do inferno. Um dia ela pegou barriga e nem o menino nascera, j doutor Ccero virara o
cidado mais exemplar. E seu Manuel Lima, doido por uma rapariga... Bem..., esse, em verdade,
no precisara de filho, endireitara com o casamento, marido mais correto no existia...
    Dona Gisa dava o conceito da charada: aquele filho, no qual Dona Flor enxergava ameaa to
violenta  estabilidade de seu lar, poderia se transformar, num passe de mgica, em sua segurana,
na garantia de seu amor, e, de quebra, ainda era capaz de regenerar Vadinho. Uma pena, alis,
pensou Dona Gisa; regenerado, Vadinho ia perder todo interesse, aquele suspeito mistrio,
aquela graa dissoluta.
    Abriram-se os olhos de Dona Flor, entendeu. Iluminou-se de alegria, atirando-se nos braos da
amiga, a agradecer. Traaram demorados planos, detalhe por detalhe. No era fcil, muito ao
contrrio. No fosse o apoio de Dona Norma, talvez Dona Flor no tivesse reunido suficiente
coragem para se dirigir  zona das mulheres perdidas, s ruas do "baixo meretrcio" to
amedrontadoramente citadas nas crnicas policiais das gazetas, para se tocar, feito uma doida, em
busca da tal Dionsia e lhe exigir o filho recm-nascido, toma-lo em definitivo, lev-lo para
sempre, com escritura pblica, estabelecida em cartrio, com firmas reconhecidas e testemunhas
idneas. Dona Norma, solcita e fraternal, prontificou-se a acompanh-la e a animou. Curiosa
tambm, deve-se dizer; h muito desejava oportunidade para espiar uma rua de prostituio, a
morada das marafonas, sua vida srdida. Nunca encontrara antes pretexto vlido para a proibida
excurso.
    Como deixar a pobre Flor aventurar-se sozinha naqueles ameaadores labirintos? - perguntou
ela a Z Sampaio; quando o marido, no assombro da notcia, ainda a tentara dissuadir.
    - No sou mocinha tola, sou mulher de maior e de respeito, ningum vai se atrever a tirar
prosa comigo. - E revelava os amadurecidos planos a Z Sampaio vencido, incapaz de resistir ao
mpeto vital da esposa: - A gente vai domingo de manh. Vou como se fosse visitar meu afilhado,
o neto de Joo Alves. Depois peo a Joo que acompanhe a gente  casa da fulana. E, Joo, voc
sabe,  mestre de capoeira...
     E assim o fizeram. No domingo ouviram missa na Igreja de So Francisco (Dona Flor levara
uma vela enfeitada de flores, promessa para tudo correr bem), depois atravessaram o Terreiro e
foram encontrar o negro Joo Alves em sua banca de engraxate, no passeio da Faculdade de
Medicina. Estava cercado de crianas, e tanto o negrinho de carapinha, quanto os diversos
mulatos mais escuros ou mais claros, assim como o loiro de cabelos de trigo, todos o tratavam de
av. Eram todos seus netos, aqueles meninos e os demais, soltos no ddalo de ruas entre o
Terreiro de Jesus e a Baixa dos Sapateiros. O negro Joo Alves jamais tivera filhos nem com sua
mulher nem com outras mas arranjava madrinhas para seus netos, comida, roupas velhas e at
cartas de abc. Vivia num poro ali perto, com seus resmungos, suas mandingas, sua aparente
brabeza, suas m-criaes, alguns dos netos, e o poro abria sobre um vale plantado de verde, de
seu buraco o negro Joo Alves comandava as cores e a luz da Bahia.
    - Oxente!, quem est a, bons olhos lhe vejam, minha comadre Dona Norma... E como vai seu
Z Sampaio? Diga a ele que vou aparecer na loja um dia desses para buscar uns sapatos pros
meninos...
    Os moleques cercavam as duas amigas, Dona Norma viera preparada, em sua mo surgiu um
saco de caramelos. Joo Alves soltou um assovio, alguns meninos apareceram correndo e entre
eles um cafuzo de uns quatro a cinco anos. O negro acariciou-lhe a cabea:
     - Pea a beno a tua madrinha, seu coisa-ruim...
    Dona Norma deu-lhe a beno e um nquel de dez tostes, enquanto o negro queria saber que
bons ventos haviam trazido sua comadre at ali.
    - Pois, meu compadre,  que tenho um favor a lhe pedir, coisa de muita delicadeza.
    - Coisa delicada no  pra minhas mos, sou meio rude como vosmic bem sabe...
    - Quero dizer: coisa muito reservada, para ficar em segredo.
     - A est certo, que no sou linguarudo nem mexeriqueiro. Pode desatar a lngua, comadre...
    - O compadre conhece por aqui uma tal de Dionsia? No sei bem mas ouvi dizer que mora
nessas redondezas.
    - E vosmic tem algum trato com ela?
    - Eu propriamente no, meu compadre.  essa minha amiga que tem um assunto a ver com
ela...
     Joo Alves mediu Dona Flor de alto a baixo.
    - Ela tem um assunto a ver com Dionsia de Oxossi?
     - Capaz seja a mesma... Ouo dizer que  bonitona.
     Joo Alves coou a carapinha:
    - Bonitona? Me adisculpe, minha comadre, mas dobre a lngua. Bonitona qualquer branca pode
ser, mas mulata da competncia de Dionsia tem poucas no mundo, acho que nem meia dzia e
isso escarafunchando muito...
    - Uma que teve filho recentemente...
     - Pois ento  ela mesma, t de menino novo, nem voltou ainda a trabalhar...
    Pela primeira vez, Dona Flor abriu a boca, querendo saber:
     - Em que ela se ocupa?
     Novamente Joo Alves a mediu com os olhos e com certo desprezo ante ignorncia to
grande:
     - Pois em trabalho de meretriz, que  o ofcio dela,
     Dona moa.     Dona Norma retomou o fio da conversa:
    - E meu compadre se d com ela, sabe onde ela mora?
     - Pois no havia de me dar, comadre? Mora aqui rente, no Maciel.
     - Meu compadre vai nos levar l, minha amiga quer conversar com ela, resolver um assunto...
     Joo Alves mais uma vez considerou longamente Dona Flor, coava a cabea como se
encontrasse tudo aquilo suspeito e duvidoso:
     - Por que ela no vai sozinha, comadre? Eu mostro a casa...
     - Meu compadre, seja cavalheiro. Vai largar duas senhoras nessas ruas, desacompanhadas?
Passa um abusado, se mete com a gente...
     Ningum apelava inutilmente para o cavalheirismo de Joo Alves:
    - Pois vou com vosmics mas lhe agaranto que ningum ia tirar graa, aqui  tudo gente
respeitosa...
     Levantou-se, entregou a cadeira de engraxate ao cuidado dos netos, era um negro esguio e
slido, passado dos cinqenta, a carapinha comeando a embranquecer; trazia um colar de orix
ao pescoo, contas vermelhas e brancas de Xang, e apenas os olhos estriados denotavam a
intimidade da cachaa. Ao pr-se de p, quis saber:
    - Minha comadre Dona Norma e que assunto  esse que a mocinha aqui - dizia mocinha numa
voz de debique - quer tratar com Di?
    - Nada de ruim pra ela, meu compadre...
    - Mesmo porque, se fosse de malvadeza, com todo respeito que lhe sou devedor, eu no ia
junto, comadre... Tambm no adiantava porque o santo dela  forte. - Tocava o cho com a
ponta dos dedos, saudando orix: - Ok Aro Oxssi! No tem despacho nem eb que faa mal a
ela, o feitio vira contra quem mandar fazer...
    - Quando  que voc me leva a uma macumba, meu compadre? Tenho uma vontade danada de
assistir a um candombl... essa era outra curiosidade antiga de Dona Norma.
    Assim praticando sobre encantados e terreiros de santo, entraram pelo meretrcio adentro. Por
ser manh de domingo - a farra de sbado estendendo-se pela madrugada - quase no havia
movimento nas ruas. Apenas uma ou outra mulher sentada  porta ou debruada  janela, mais
para ver o dia claro do que para fretar homem. Um silncio e um sossego, poder-se-ia dizer uma
paz dominical; Dona Norma sentiu-se lograda, precisava vir em hora de azfama.  Nessa manh
sonolenta, no fazia diferena de um bairro familiar. Tambm a casa de Dionsia era logo no
comeo do Maciel, apenas haviam cruzado os limites da zona.
     Subiram as escadas de vacilantes degraus, um rato enorme passou por elas no escuro, em
correria. Palavras e frases confundiam-se nos andares, algum cantava modinha de tristezas com
uma pequena voz. Quando atingiram o patamar do terceiro piso, o cheiro de alfazema queimada
em defumadores de barro os alcanou, anunciando a existncia de criana nova. Desembocaram
num corredor; ao fundo, a porta do quarto da rapariga.
     Joo Alves bateu com o n dos dedos.
    - Quem ? - perguntou uma voz morna e descansada.
     -  de paz, Di... Sou eu, Joo Alves, e tem duas excelncias comigo querendo falar com voc.
Uma eu conheo  minha comadre Norma, gente de bem, merecedora...
     - Pois vo entrando e desculpando o desarranjo, ainda nem tive tempo de arrumar o quarto...
     Entraram atrs do negro. Na pea estreita, uma cama de casal, um armrio capenga, um
lavatrio de ferro com bacia e balde de esmalte, um urinol ao p do leito, tudo muito asseado. Na
parede, um espelho partido e uma estampa do Senhor do Bonfim com fitas bentas penduradas.
Uma janela abrindo sobre os fundos do sobrado, por ela penetravam a claridade e a modinha
triste.
     Reclinada nos travesseiros, meio coberta com um lenol, vestida com uma bata de rendas cujo
decote lhe exibia os seios pejados, a mulata Dionsia de Oxssi sorria cordial para as
surpreendentes visitas. Na curva de seu brao, no calor de seu peito, o filho adormecido. Uma
criana grada, de um moreno carregado. Sob uma cadeira, um defumador queimava alfazema,
perfumando peas de roupas do recm-nascido colocadas sobre a palhinha do assento. Alm da
cadeira, dois caixes de querosene cobertos com papel de seda faziam a vez de tamboretes. No
ngulo da parede ao fundo, o peji com as armas de Oxssi, o arco e a flecha, o eruker, uma
estampa de So Jorge a matar o drago, uma pedra verde, fetiche talvez de Yemanj, e um colar
de contas, azul-turquesa.
    - Seu Joo - ordenou a mulata com sua voz descansada -, faa o favor, tire essas roupinhas da
cadeira, ponha no armrio,  pro nenm mudar depois do banho. D a cadeira a essa moa...
apontava Dona Norma, voltando-se depois para Dona Flor, a explicar-lhe num sorriso: - a
senhora, que  mais moderna, vai desculpando, tem mesmo de sentar no caixo.
     Da cama, reclinada, presidia ela os arranjos no quarto, a movimentao do engraxate a arrastar
a cadeira e os caixes, tranqila e sorridente, nem sequer curiosa do motivo daquelas
intempestivas visitas. Quem a visse assim, to calma a ordenar, compreenderia por que o pintor
Caryb a retratara vestida de rainha, num trono de afox.
    Dona Norma, na dianteira do negro, arrebanhou camisola e fralda, ps tudo no armrio e, ao
faz-lo, dera balano completo nos vestidos, nas blusas, nos sapatos e sandlias da mulata.
    - Puxe um caixo para vosmic tambm, seu Joo, e tome assento.
    - Fico mesmo de p, Di, assim estou bem.
    - Maneira certa de se conversar  na maciota e sentado, seu Joo, de p e com pressa no ajuda
o entendimento.
    O negro, porm, preferiu encostar-se  janela, voltado para a manh cada vez mais luminosa.
Um resto de cano entrava quarto adentro, vinha morrer plangente na cama de Dionsia.

"Nas cadeias de teu amor, escravizada serva, meu senhor!"

     Sentadas Dona Norma e Dona Flor, fez-se um breve silncio mas logo Dionsia o encheu
com sua voz macia. Desenvolveu-se para o lado do dia to bonito, queixando-se de ainda no
poder sair rua a fora:
     - No sei ficar em casa quando a chuva lava a cara do dia e ele reluz novo em folha, todo
faceiro...
     Dona Norma tambm no; e assim foram as duas falando do sol e da chuva e das noites de
luar em Itapo, ou no Cabula, e nem se sabe como desembarcaram em Recife, onde habitava uma
irm de Dona Norma, casada com um engenheiro pernambucano, e onde Di residira alguns
meses:
     - Para mais de sete meses, fui atrs de um clandestino, um que me alumbrou a vista, um
desatinado. Me largou por l...
     Onde no chegariam as duas, a que distantes portos, nesse dilogo sem compromisso nem
conseqncia - a conversa pelo prazer da conversa -, se Dona Flor, ouvindo o carrilho de uma
igreja do Terreiro anunciar a hora do meio dia, no se alarmasse, interrompendo a amvel prtica:
     - Norminha, assim a gente vai demorar muito...
     - Por mim no me atrapalha,  um prazer... - disse Dionsia.
     - Noutra ocasio a gente vem com mais tempo - prometeu Dona Norma. - Hoje a gente veio
com um propsito...
     - Estou ouvindo...
     - Essa minha amiga, Dona Flor, no tem filho nem pode ter. E coisa mesmo de conformao,
enfim...
     - Sei como . Tem o oveiro virado, no ?
     - Mais ou menos...
     - Mas pode desvirar. Marildes, uma conhecida minha, desvirou.
     - Com Flor no tem jeito, o mdico j disse.
     - Mdico? - riu uma risada divertida, de pouco caso. - Mdico s sabe dizer palavra bonita e
ter caligrafia ruim. Se a Dona moa a procurar Paizinho, ele d jeito em dois tempos. Que  que
acha, seu Joo?
    Joo Alves apoiou:
    - Paizinho? Faz uns passes na barriga dela,  filho todo ano.
     Dona Norma resolveu desconhecer o novo assunto, evitar o feiticeiro com toda sua fama, sua
reputao de babala. Pousara o olhar na criancinha adormecida. No seria melhor, primeiro,
tirar a limpo, saber se era realmente filho de Vadinho? Pois, to escura assim, no parecia. Mas
Dona Flor precipitava a conversa, elevando a voz naquela obstinada deciso dos tmidos:
     - Vim aqui para falar um assunto srio, para lhe fazer uma proposta e ver se a gente chega a
um acordo.
     - Pois fale, Dona moa, que de meu lado fao de meu melhor para lhe atender.
     - O menino... - disse Dona Flor e ficou sem saber como prosseguir.
    Dona Norma retomou a palavra:
    - Voc teve o menino faz dias, no ?
    Dionsia olhou o filho, sorriu numa alegre confirmao.
     - Pois minha amiga veio aqui lhe conversar... No v que ela fez uma promessa quando esteve
 morte: seu primeiro filho seria padre, se Senhor do Bonfim ajudasse e ela ficasse boa. - Dona
Norma ia devagar, aquela histria, armada na vspera, nunca lhe agradara inteiramente. - Pois
Deus atendeu e ela sarou, coisa de milagre.
     A mulata ouvira curiosa de descobrir o elo a ligar a doena da moa e o milagre do Senhor do
Bonfim ao seu menino. Dona Norma apressou o recado, tarefa mais incmoda:
    - Mas no tendo tido filho, que fazer para cumprir a promessa? S adotando uma criana,
criando como filho para botar depois no Seminrio a estudar... Ela soube de seu menino,
escolheu ele...
     Dionsia sorriu mansamente, no era um elogio ao seu filho? Dona Norma tomou o sorriso
por acordo, esclareceu:
    - Ela quer adotar o menino mas adotar mesmo, com papel passado no cartrio, tudo legal e
para sempre. Para lev-lo e cri-lo como filho.
     Ficou Dionsia parada, em silncio, olhos semicerrados. Teria entendido as palavras de Dona
Norma ou escutava apenas a cano distante?

"Quisera em teus braos morrer, antes morrer do que viver assim..."

     "Antes morrer", murmurou para si mesma e quando reabriu os olhos a cordialidade anterior
tinha desaparecido, uma nova atmosfera nascia de seu olhar de vidro, da linha cavada em sua
boca.
     - E por qu? - perguntou sem levantar a voz. - Por que escolheu o meu menino? Por que logo
o meu?
     Devia ser implacvel, desumano sofrimento, pensou Dona Norma. Que me deseja separar-se
de seu filho? Mesmo pobre, sem recursos, vivendo na misria, mesmo assim era como rasgar o
corao.
    - Algum falou de seu menino, que era forte e bonito... E que voc no tinha meios para
educ-lo...
     No fosse para o bem da criana, no se tratasse do filho de
Vadinho com todas as implicaes que isso significava e Dona Norma no estaria ali, de
intermediria para tal proposta, arrancando as palavras da garganta. Mas seria mesmo filho de
Vadinho? Mulher de barriga suja, essa Dionsia. O menino sara ainda mais escuro do que ela,
onde os cabelos loiros de Vadinho? Dona Norma fazia novo esforo: para o menino era melhor,
teria o futuro assegurado:
    - O Terreiro est cheio de meninos, as ruas por aqui, e meu compadre Joo Alves cheio de
netos inventados, eu mesma sou madrinha de um. Tudo passando fome, tudo na imundcie,
pedindo esmolas, at roubando... Minha amiga no  nenhuma milionria mas tem de que viver e
pode dar ao pobrezinho outro conforto, outra vida. Ele no vai passar fome nem terminar na
cadeia, vai estudar pra padre e celebrar missa...
     Como se ouvisse e entendesse o sermo de Dona Norma, a criancinha acordara
choramingando. Dionsia abriu a bata, libertou o seio e, acomodando o infante, deu-lhe de
mamar. Escutava a visita em silncio, como se pesasse cada um de seus argumentos. Dona
Norma traava-lhe o quadro do futuro do filho, cercado de conforto e de carinho, nada lhe
faltando. Para a me era um sacrifcio,  certo, mas s uma egosta condenaria o filho  fome, a
uma vida miservel, quando uma pessoa bondosa se dispunha... Dona Flor era bonssima,
impossvel encontrar criatura melhor...
     Dionsia ajeitou o seio na boca do menino quase saciado. Ao responder, voltava-se para a
janela onde ficara o negro Joo Alves, a ele se dirigia como se as duas mulheres no merecessem
dilogo:
    - Tu t vendo, seu Joo, como  que tratam os pobres? Essa que est a - com o lbio apontava
Dona Flor - no sendo mulher para parir menino e querendo pagar promessa, procurou saber
onde tinha nascido algum por derradeiro e soube que Dionsia de Oxssi, quenga de muita sade
e de mais pobreza, tinha tido um. A disse pra amiga: vamos l, buscar... Ela at vai agradecer, a
peste ruim... Dona Norma tentou interromper:
    - No seja injusta... No...
     Implacvel, a voz descansada da mulata, amarga de calor e gelo:
     - Mas nem teve coragem de falar ela mesma, pediu aqui para a Dona sua comadre dar o
recado, vir de advogada. "Vamos l buscar o menino de Di,  um bitelo de grande e de bonito,
vai dar um padre de categoria. A me t morrendo  mngua e d dado para toda a vida, de papel
passado, e ainda fica contente de se ver livre do encargo. E se no quiser dar  porque no presta,
 um traste ruim, s serve mesmo pra meretriz". Foi assim que ela falou, seu Joo, vosmic ouviu.
Porque ela pensa que pobre no tem sentimento, pensa que a gente, porque  rapariga e vive
nessa vida atroz, perdeu at o direito de criar os filhos...
    Dona Norma ainda buscava esclarecer:
     - No diga isso...
     O menino terminou de mamar, arrotava farto, Dionsia punha-se de p com seu filho ao
brao. Erguida em toda sua beleza e em fria, rainha em toda sua majestade. Enquanto falava,
movia-se a cuidar da criana, a limp-la na bacia de esmalte, mudando-lhe a fralda, pondo-lhe
talco e vestindo-a com a camisola perfumada de alfazema.
     - Mas erraram o endereo, sou muito mulher para criar meu filho, fazer dele homem de
respeito, no preciso de esmola de ningum. Pode no vir a ser padre de batina, pode dar at para
ladro, tudo pode suceder. Mas quem vai criar ele sou eu e como bem entender. Vai ser o bamba
da zona, com ele ningum vai tirar cantiga de sotaque, e no vou dar ele pra ricaa nenhuma que
no quis ter o trabalho de parir...
     Riu para a criana e lhe falou, docemente:
    - Sem esquecer que oc tem pai pra cuidar de oc...
     Foi a que Dona Flor explodiu, quase gritando, inesperada e disposta, com a fora do
desespero:
     - S que o pai dele  meu marido... No quero seu filho, quero o filho de meu marido... Voc
no tinha direito de ter filho com ele, se meteu com ele porque quis, direito a filho dele s quem
tem sou eu...
    Dionsia vacilou como se houvesse recebido um tapa na cara:
     - Quer dizer que  casada com ele...? Casada mesmo?
     Tendo explodido e aliviado seu corao repleto de mgoa, Dona Flor retornava  sua timidez,
explicando em voz baixa e sem esperana:
     - Casada h trs anos... Desculpe, foi s por isso que pensei em criar o menino como se fosse
meu filho, j que eu no pude dar um filho a ele... Mas agora eu vi que a senhora tem razo, quem
deve criar o menino  a senhora, que  me dele... Depois, o que  que adiantava? Vim porque
gosto demais de meu marido e tive medo dele ir embora por via do menino. Por isso vim. O
resto  tudo mentira. Mas depois de lhe ver me dei conta que, com filho ou sem filho, ele no vai
nunca largar  senhora...
     - No sou senhora nenhuma, sou mulher-da-vida e mais nada. Mas juro pela sade de meu
filho que no sabia que ele era casado. Se soubesse no ia ter filho dele, nem pensar em me
amigar com ele, em deixar a vida para botar casa e morar com ele como marido e mulher...
     Acabara de vestir o menino. Dona Norma recolhia a toalha, a atmosfera fizera-se menos
densa. Dona Flor murmurou:
    - Juro que Vadinho  meu marido, todo mundo sabe...
     - Vadinho nunca me disse nada... - Di recebia a camisola das mos de Dona Norma, deitava
a criana na cama para vesti-la. Por que ele no me disse? Por que enganar assim? - ficou
pensativa, agora a raiva havia desaparecido e ela dirigia-se a Dona Flor com toda a cortesia, quase
com respeito. - Todo mundo sabe do casamento,  foi o que a senhora me disse... Possa ser... Mas
como ningum nunca me falou? E eu que conheo a gente dele, toda, at a me...
    - A me de Vadinho? A me dele  morta...
    - Conheo a me, sim, e a av... Conheo o irmo, Roque, um que  carpina de profisso...
     - Ento no  o meu Vadinho... - riu Dona Flor e ria e ria apalermada de contentamento. -
Oh! que maluquice, que coisa mais tola e mais linda... Norminha,  outro Vadinho! "tou com
vontade de chorar..."
     Tambm Dionsia de Oxssi largara o menino em cima da cama e saiu pelo quarto a danar,
dana de iaw em roda de orix, arrastando o negro Joo Alves para com ela, ante peji, saudar e
agradecer a Oxssi - Ok, meu pai, aro ok !
     - No  o meu Vadinho, meu Vadinho no  casado, mulher para ele s Dionsia, sua mulata
Di...
     De repente parou, olhando para Dona Flor (Dona Norma tomara do menino e o ninava em
seus braos):
    - No me diga que a senhora  a mulher do xar...
    - Que xar?
     - Meu Vadinho e ele s se tratam assim, de xar, pois so Vadinho os dois. S que o meu 
Vadinho de Valdemar e o dele nem sei de que  ... Um que  perdido pelo... - no completou a
frase.
     Quem a completou foi Dona Flor:
     -...pelo jogo... Pois  esse mesmo, Vadinho de Waldomiro, o meu Vadinho...
     - E foram lhe dizer que eu tinha tido filho dele... Que gente mais ruim...
     A porta foi aberta e nela apareceu um negro macio e jovem, um riso de dentes brancos a lhe
rasgar a boca, uns olhos de domingo:
     - Para todo mundo bom dia...
     Ainda danando veio a mulata Dionsia de Oxssi e nele repousou de todo aquele susto, de
toda aquela raiva. Estendeu os braos, Dona Norma deu-lhe a criana e ela a colocou nas mos
de seu homem, do Pai.
     - Esse  meu Vadinho, chofer de caminho, pai de meu filho - mostrava Dona Norma e Dona
Flor. - Aquela ali  comadre de seu Joo e a outra, tu sabe quem ?
     - E como houvera de saber?
     - Pois  a mulher do outro Vadinho, daquele...
     - Do xar?
     - Dele mesmo... Ela veio aqui pensando que o menino era filho dele, do marido dela, veio
para buscar, queria criar o nosso bichinho, ia fazer dele padre de batina... - riu seu riso desatado,
concluiu com a voz ainda mais descansada: - Como  mesmo o seu nome? Flor? Pois vai ser
minha comadre, vai batizar meu menino... Veio buscar um filho, filho no posso dar que s
tenho um, mas posso lhe dar um afilhado...
     - Minha comadre Dona Flor... - disse o chofer de caminho.
     Tomando do menino, Dionsia o entregou a Dona Flor. Pssaros cortavam o cu, voando,
iam pousar nos beirais do Arcebispado.

17

     Nos primeiros tempos de viuvez, tempos de nojo, de luto fechado, permaneceu Dona Flor
em preto e em silencio, numa espcie de devaneio, nem sonho nem pesadelo, entre o crescente
murmrio das comadres e as memrias dos sete anos de casamento. As comadres eram dez, eram
cem, eram mil, numa solidariedade rumorosa e constante; l vinham elas no rastro de Dona
Rozilda a cerc-la numa corte de mexericos, as vozes erguidas num coral de acusaes a Vadinho,
Dona Rozilda de solista, tendo como sua imediata Dona Dinor, idnticas na lngua de
vituprios.
     Dona Flor, trancada em sua aflio e anseio, flua em meio quele mundo de lembranas,
recordando os momentos de riso e as horas de amargura, querendo reter a imagem de Vadinho,
sua sombra ainda esparsa na casa, densa no quarto de dormir e vadiar.
     Finalmente, que desejavam todas elas, as inmeras comadres? As vizinhas, as conhecidas, as
alunas, as amigas, sua me viajando de Nazareth para fazer-lhe companhia naquele transe, e at
pessoas estranhas, como uma circunspecta Dona Enaide, relao de Dona Norma? Essa digna
senhora se abalara do Xame-Xame, onde morava - como se no tivesse marido e filhos,
obrigaes domsticas para vir, toda gentil, expor malfeitos de Vadinho, a pretexto de visita de
psames. Que desejavam elas? Que pretendiam, ao reavivar cicatrizadas feridas, ao reacender
essas extintas fogueiras de sofrimento? Por que lhe confidenciava Dona Enaide, como se lhe
emprestasse solidariedade, conhecer de perto aquela fatal Noemia, hoje senhora gorda e casada (o
marido escrevia aos jornais), mas conservando ainda entre seus papis um retrato de Vadinho?
     Dona Flor vivia com as boas e as ms recordaes, todas elas a ajudavam a carregar o nojo, a
transpor aquele tempo gris de desespero e ausncia, um deserto de cinzas. Mesmo ao rever
lembranas e imagens to detestveis como a da ex-aluna com seu riso zombeteiro e sua cnica
impudncia, mesmo ao ferir-se novamente em tais espinhos, ao rememorar aquelas humilhaes
sentia uma espcie de agre consolo, como se lembranas e imagens, espinhos e humilhaes, tudo
quanto vivera com ele fosse lenitivo para esse sofrimento, esse de agora, sem medida e sem jeito.
Porque, afinal, quem sara vitoriosa, quem vencera a parada, quem ficara com ele? Por quem se
decidira Vadinho, quando Dona Flor, um dia, tendo chegado ao derradeiro limite, lhe dera um
ultimatum: ou ela ou a outra? As duas, no; fosse embora com a tipa se quisesse (a imunda
espalhava aos quatros cantos a notcia de seu prximo acasalamento com Vadinho), mas fosse
quanto antes, decidisse logo... E o que acontecera, que deciso ele tomara?
    Nomia viera aprender arte culinria, estava s vsperas de casar-se e o noivo exigia esposa
com teoria e prtica de temperos. Era um esnobe esse noivo, um janota metido a entendedor de
cinema e literatura, todo cheio de si e de pretensa erudio, citando autores e arrotando crticas,
um jovem gnio brilhando ao sol da glria em porta de livraria. Porque lhe parecia bem, quisera
Nomia senhora da arte do vatap e do caruru, "quero v-la proletarizada, essa burguesa..." Ela
achou a idia divertida e inscreveu-se na Escola Sabor e Arte.
     Filha de tradicional famlia da Graa, rica, elegante, achava batuta ser noiva de intelectual to
rafin, mais batuta ainda no entanto lhe parecia Vadinho com seu ar cafajeste e seus olhos
sonolentos. Quando se deram conta - a famlia ilustre e o talentoso pretendente -, Nomia estava
aprendendo era descarao, e da grande, com Vadinho, no castelo de Amarildes. Foi um fuzu
dos diabos, ameaando transformar-se em magnfico escndalo. Felizmente prevaleceu a alta
civilidade do noivo sobre sua momentnea vicissitude; contornou a situao com jeito e
diplomacia, no ia perder, por mero preconceito, aquela boca rica, aquele ba de ouro. No
bastara, porm, sua boa vontade, sua compreensiva colaborao, pois a dita cuja no queria dar
por terminada a "inconseqente aventura", considerando-se bem servida em matria de cama.
Que se danassem noivo e famlia, Nomia queria era fugir com Vadinho, arribar com ele.
Vadinho  que no quis. Quando a gangorra caiu e a pagodeira se tornou assunto de maledicncia
pblica, quando Dona Flor, num daqueles seus arrancos violentos e raros, exigiu uma deciso
imediata, ou ela ou a outra, ele restituiu a moa ao noivo, esteta agora ainda mais esnobe e
atraente, pois ao talento e  erudio somara os cornos, um noivo supimpa, outro assim era difcil
de obter.
     "Tudo xixica para passar o tempo", lhe dissera Vadinho, quando no extremo da aflio, Dona
Flor o enfrentou e exigiu se definisse de uma vez por todas. Nunca pensara em ir-se com a tal
Nomia, pura pabulagem da sapeca; alm de puta, mentirosa de marca.
     Que mais queriam as comadres? Dona Rozilda, Dona Dinor, aquela Dona Enaide a sair de
seus cmodos do Xame-Xame, todas as demais, dezenas, centenas e milhares de comadres no
coro infame das lamentaes e dos libelos, que mais queriam? Por que recordar esse incidente
como prova da infelicidade conjugal de Dona Flor, prova de que Vadinho era o pior dos
maridos? Ao contrrio, eis a prova mais completa de seu amor, de como ele a preferia a qualquer
outra. No tinha a tal Nomia riqueza e elegncia, palacete na Graa, talo de cheque, conta
aberta no Banco - Vadinho jogara alto naquele interregno -, automvel com chofer, curso de
ginsio e rudimentos de francs, toda nos trinques e perfumes, vestidos e sapatos vindos do Rio?
Com quem ficara ele, a quem preferira quando obrigado a escolher? De nada valera o talo de
cheques nem o conforto do automvel a lev-lo e traze-lo pra cima e pra baixo, nem os vestidos
do Rio, os perfumes de Paris, o requinte das expresses: mon cheri, mon petit coc, merde,
quelle merde; a lc de parler... como se diz no francs da Bahia.
     Vadinho no levara em conta nem o cabao comido, nem as splicas: "voc me deve minha
honra", nem as ameaas: "voc vai ver, meu pai vai lhe perseguir, lhe meter na cadeia", nada o
fizera sequer vacilar na hora da escolha. "Como tu pde pensar um absurdo desses, que eu havia
de te largar pra viver com aquela porqueira...? Pendurou a gabola nos chifres do noivo, foi para a
cama com Dona Flor, Ah! que noite de pazes e perdo! Tudo xixica para passar o tempo,
permanente s tu, Flor, minha Flor de manjerico....
     Para as comadres, Vadinho fora o pior de quantos maridos ruins existiram no mundo, Dona
Flor a mais infeliz das esposas. No lhe cabia direito a chorar, a lastimar-se, devia estar dando
graas a Deus que a livrara em tempo de tamanha provao. Sem dvida Dona Flor era a
bondade em pessoa, e s mesmo Dona Rozilda podia querer que ela se alegrasse, desse festa pela
morte sbita de Vadinho. Ruim como tudo, ele fora, no entanto, seu marido. Mas esse exagero de
sentimento, esse luto fechado, esse nojo mais alm de toda aparncia, mais alm de todo o
cerimonial obrigatrio nos ritos da viuvez, essa face parada e perdida, esses olhos voltados para
dentro de si ou a fitarem para l do horizonte, a fitarem o infinito, o nada, tudo isso era
inaceitvel para as comadres.
     Numa nica coisa estavam todas de acordo, de Dona Rozilda a Dona Norma, de Dona
Dinor a Dona Gisa, as verdadeiras amigas e as simples fuxiqueiras: Dona Flor precisava
esquecer, e quanto antes, aqueles anos desgraados, precisava apagar a imagem de Vadinho de
sua vida, como se ele nunca houvesse existido. Para elas o tempo do nojo estava durando
demasiado e por isso a cercavam para lhe provar - com fatos - ter sido ela beneficiria da
misericrdia divina.
     A prpria tia Lita, sempre disposta a desculpar Vadinho, no escondia no entanto sua
surpresa:
    - Nunca pensei que ela sentisse dessa forma...
    Dona Norma tambm se admirava:
     - Pelo jeito no vai esquecer nunca... Quanto mais o tempo passa, mais ela sofre...
     Dona Gisa, plantada em seus conhecimentos de psicologia, discordava das pessimistas:
    -  natural... Ainda vai durar uns dias mas depois termina, ela esquece, volta a viver...
    - E isso, sim... - Dona Dinor era da mesma opinio. - Com o tempo ela vai se dar conta que
foi Deus quem olhou por ela...
     Dividiam-se, porm, quanto  forma de melhor ajud-la. Dona Norma, forte do apoio de
Dona Gisa, propunha o silncio em torno do nome de Vadinho. As demais, sob o comando
frreo de Dona Rozilda - e Dona Dinor era o sargento dessa aguerrida tropa -, abriam a boca de
intrigas, xingas e lamentos, para convenc-la de que por fim podia pensar em viver uma vida
tranqila e feliz, de paz, conforto e segurana. De qualquer maneira, no silncio de piedade ou no
ruidoso libelo, ela devia encontrar os caminhos do esquecimento. Era to moa ainda, tinha a
existncia inteira em sua frente...
    - Se ela quiser, no fica viva muito tempo... - profetizava Dona Dinor, que, em matria de
falar da vida alheia, possua um sexto sentido, um dom divinatrio, uma espcie de vidncia.
Alis, em sua casa (herana de um comendador espanhol), de robe e em transe, Dona Dinor
botava cartas e previa o futuro, consultando uma bola de cristal.
     Por que, perguntava-se Dona Flor, no vinha nenhuma delas lhe recordar jamais um bem-
feito de Vadinho? Afinal, em meio s incontveis tratantices, vez por outra prevaleciam em seus
atos a graa, a generosidade, o senso de justia, o amor. Por que ento s mediam Vadinho com
o metro da ruindade, s o pesavam numa balana de maldies? Sempre fora assim, alis.
Quando ele era vivo, sucediam-se as xeretas, vidas de transmitir notcias desagradveis, de
lastimar Dona Flor, coitada! merecedora de marido direito e bom, capaz de oferecer-lhe trato e
considerao. Nunca, porm, acontecera comadre s pressas, abandonando seus cmodos, seus
que-fazeres e seus lazeres, para vir, sfrega e vibrante, lhe anunciar boa ao de Vadinho:
     - Flor, repare, mas no diga que eu contei... Vadinho ganhou no bicho e deu o dinheiro todo a
Norma pra ela comprar um presente de aniversrio para voc... O aniversrio ainda est longe, eu
sei, mas ele teve medo de gastar o dinheiro, quis logo garantir o presente...
     Assim sucedera certa ocasio, todas as comadres o sabiam e s Dona Norma tinha o
compromisso de guardar segredo. No entanto, no fosse ela romper a jura, incapaz de to longa
mudez, mais de vinte dias, Dona Flor nunca viria a tomar conhecimento do gesto. As outras
trancaram as bocas, quem se incomoda em transmitir alvissareiras novas? Para isso no h
urgncia nem sofreguido, ningum sai correndo rua a fora. S para as ms notcias. Para lev-las,
sobram os arautos, no falta quem se d aos maiores incmodos, quem largue trabalho,
interrompa descanso, quem se sacrifique. Dar uma notcia ruim, coisa mais emocionante!
     No fosse o puro acaso e Dona Flor teria ido embora naquela tarde em que Vadinho desceu
ao fundo de sua ignomnia, desnudou-se em baixeza; chegara a arrumar as malas. Havia sempre
um quarto  sua disposio em casa dos tios, no Rio Vermelho. Por um quase nada no se foi de
vez, no definitivo rompimento. No entanto, a rua estava cheia de comadres, atradas pelos gritos
e pelo choro, e todas viram quando o Cigano chegou e todas o escutaram falar com a voz
trmula, foram testemunhas da reao de Vadinho.
     Alguma delas contou a cena a Dona Flor, repetiu-lhe as palavras de Cigano? Pois sim, que
esperana! Nem uma s para remdio, como se nada houvessem visto e ouvido. Ao contrrio,
todas as xeretas apoiavam sua deciso, reconheciam-lhe motivos de sobra para romper de uma
vez e para sempre com o canalha. Algumas at ajudavam na preparao das malas.

18

     Quando Vadinho apareceu naquela tarde, Dona Flor imaginou em seguida o motivo da
inopinada presena. Quanto mais assuntava em suas maneiras, mais se convencia: nunca estivera
to discreto com as alunas, quase escondido num canto da sala, deixando-as concluir tranqilas,
na cozinha, a aula prtica, um bolo de aniversrio. As moas, componentes de turma nova, riam
numa curiosidade sem disfarces, do desejo de conhecer o falado marido da professora, com sua
fama singular:  sua maneira Vadinho era clebre. Finda a aula, quando, entre exclamaes de
elogio, foram servidas fatias de bolo e clices de licor de cacau - especialidade da casa, orgulho de
Dona Flor, cuja competncia em licores de ovo e de frutas corria parelha com a fama de seu
tempero -, com uma ponta de jactncia, um ar vaidoso, ela apresentou:
    - Vadinho, meu marido...
     Nenhuma piada, nenhuma frase de duplo sentido, nem um piscar de olhos. Vadinho
mantinha-se srio e quase triste; Dona Flor conhecia o significado daquela expresso e tinha-lhe
medo. Ah! se pudesse reter as alunas pela tarde e pela noite, prolongando a conversa, mesmo
com o perigo do valdevinos por as mangas de fora, sair com suas ousadias. Ah! se pudesse evitar
o colquio, vis--vis com um Vadinho incapaz de fit-la de frente, dobrado ao peso de suas
piores intenes... Mas as alunas, moas e senhoras de intensa vida social, churupitavam o licor s
carreiras, despediam-se.
     Na vspera, Dona Lgia Oliva mandara lhe pagar - regiamente  os doces e salgados, uma
encomenda enorme, para a recepo em honra de uns lordes de So Paulo. Desde o casamento,
Dona Flor circunscrevera-se  lida com a Escola, recusando encomendas. Abria, no entanto,
algumas excees, para pessoas de sua estima: "de Dona Lgia sou devota", disse ao assumir
empreitada de tal monta.
     Esses dinheiros extraordinrios, quase sempre recebidos na ausncia de Vadinho, Dona Flor
os reservava para as despesas inesperadas, uma compra maior, uma doena, qualquer preciso.
Acontecia-lhe, inclusive, juntar alguns contos de ris, bolo de notas oculto em esconderijos pela
casa. Economias para a aquisio de utenslios domsticos, de presentes de aniversrio, para as
mensalidades da mquina de costura, e consumidas, em grande parte, em emprstimos a
Vadinho, aos cem e duzentos mil-ris...
     Por azar, Vadinho encontrava-se escornado na sala quando o doutor Zitelmann Oliva se deu
ao incomodo (ele, to ocupado com seus oito cargos, todos de realce e importncia) de vir
pessoalmente a casa deles para pagar:
    - Estou com esse dinheiro no bolso h trs dias... Ligia hoje s faltou me bater quando
descobriu que eu ainda no tinha efetuado o pagamento-....
     - Ora, doutor, no se preocupe... Que bobagem...
     - Ento, seu Vadinho - pilheriava o figuro -, o que  que voc faz para que sua mulher fique
cada vez mais moa e mais bonita?  conhecia Dona Flor de menina e de h muito conhecia
Vadinho, que de quando em quando, tentava mord-lo (com parcos resultados, alis, doutor
Zitelmann era duro na queda).
     - Boa vida, doutor, a boa vida que ela leva. Casada com um marido como eu, que no d dor
de cabea, no d preocupaes... Vive a l godaa, descansada, feliz da vida... - ria seu riso
despreocupado, to contente!, Dona Flor ria tambm de tamanho descaramento do marido.
     Vadinho no lhe pedira dinheiro naquele dia. Com certeza ganhara na vspera, ainda tinha
alguma reserva. Mas, quando ele apareceu de sbito na tarde seguinte, com aqueles olhos baixos,
o rosto srio, quase triste, ela adivinhou de logo o motivo a traze-lo: vinha pelo dinheiro.
Enquanto as alunas sorviam o licor, saboreavam o bolo, lacres, com olhares furtivos para o
moo quieto, Dona Flor, em silncio, o corao sufocado, fez uma jura a si mesma, numa
resoluo terminante. No lhe daria aquele dinheiro, nem todo nem uma pequena parcela, um
real sequer. Destinava-o  compra de um novo aparelho de rdio. Ouvir rdio, eis o passatempo
preferido de Dona Flor, sua maior distrao: doida por sambas e canes, tangos e boleros, pelos
programas cmicos, e, sobretudo, pelas novelas radiofnicas. Juntas, a ouvi-las, ela, Dona
Norma, Dona Dinor e outras vizinhas, trmulas e vibrantes com o destino da condessa
apaixonada pelo engenheiro pobre. Exceo, s Dona Gisa, num desprezo de erudita por to
baixa literatura.
     O rdio, parte de sua bagagem de solteira, antiquado e gasto, s dava despesas, encrencando
todos os dias, falhando nos momentos mais dramticos, mudo na cena mais emocionante.
Consertos e mais consertos, inteis e caros. Dessa vez a deciso de Dona Flor era irrevogvel:
no abriria mo de suas economias, sucedesse o que sucedesse. Afinal, tinha de colocar um
paradeiro quele abuso.
     Foram-se as alunas numa revoada de risos e um tanto quanto desiludidas: era aquele
sorumbtico sujeito num canto a cismar, o to falado marido da professora, com fama de
perigoso, de irresistvel, o do caso com Nomia Fagundes da Silva? Francamente, no lhes
parecera digno de cobia, muito aqum da insolente legenda. Dona Flor encontrou-se a ss com
Vadinho, vis--vis com o seu medo, a boca amarga, opresso o corao. Erguendo-se num
esforo, ele dirigiu-se  mesa, encheu um clice de licor:
    - Esse troo  gostoso mas pega que  uma beleza, d um pileque medonho, uma ressaca
horrvel... Dor de cabea maior s com licor de jenipapo...
    Queria parecer despreocupado, veio para junto dela, oferecendo-lhe uma gota de seu clice,
amvel e terno:
    - Prove, meu bem...
    Mas Dona Flor recusava, como recusava-se  carcia da mo ao descer do cangote, no caminho
dos seios pela abertura da blusa. Hipocrisia, nada alm de hipocrisia, carcias para romper minha
resistncia, impossibilitar-me  negativa, carcias para minha fraqueza de mulher. Juntou todas as
foras, agravos antigos, a pequena reivindicao de um rdio novo, ps-se de p, vexada de
desgosto:
     - Por que no diz logo a que veio? Ou pensa que no sei?
     Srio e triste, o rosto de Vadinho; vinha porque tinha de vir, porque nada conseguira em parte
alguma, mas no vinha contente, de peito aberto e riso solto, Ah! se pudesse no vir!
     Tambm ele sabia o destino que Dona Flor pensara dar quele dinheiro. Seu Edgard Vitrola
ainda no aparecera, pois o antigo aparelho continuava na sala como Vadinho constatou logo ao
abrir a porta. Mas podia aparecer a qualquer momento com a oitava maravilha do mundo,
beleza de mvel em pau marfim e metal cromado, ltima palavra em maquinaria, em ondas e
faixas, em quiloates e voltagens, capaz de captar as mais longnquas emissoras, as do Japo e as da
Austrlia, as de Addis-Abeba e as de Hong-Kong, sem esquecer os subversivos programas de
Moscou, tanto mais proibidos quanto mais procurados. Dona Flor mandara recado urgente a seu
Edgard, por intermdio de Camafeu, tocador de berimbau e companheiro inseparvel do Vitrola.
     Primeiro no bonde, com seu palpite e sua vergonha, depois a p pela rua, viera Vadinho
partido em dois. Um na pressa de chegar antes do vendedor de rdios, nunca um palpite o
possura assim; o outro no desejo de chegar tarde, aps seu Edgard, no mais encontrando nem o
rdio velho nem os cobres pagos por Dona Lgia, dinheiro ganho por sua mulher  custa de
trabalho e de suor: atravessara a noite junto ao forno, aps um dia sem descanso. Partido em
dois, no bonde; vindo pela rua, entrando em casa, abrindo a porta: partido em dois. Se seu
Edgard no tivesse passado, que sinal mais certo da infalibilidade do palpite? Mas, se j
encontrasse o novo aparelho, ficaria em casa aquela noite, ao lado de Dona Flor, estreando-o
ouvindo msica, rindo com as piadas. Partido em dois, dividido pelo meio, assim viera Vadinho.
     Por que seu Edgard no passara antes? Agora no tinha mais remdio.
     - Tu pensa que  s por interesse que eu te agrado?
     - S por interesse e nada mais...
     Apenas interesse, vil interesse; retesava-se Dona Flor:
     - Por que no fala logo?
     Um muro os separava naquela hora do crepsculo, quando a tristeza irrompe do horizonte em
cinza e em vermelho, quando cada coisa e cada vivente morre um pouco no morrer do dia.
     - J que  assim que tu quer, no vou perder mais tempo. Tu vai me emprestar nem que seja
duzentos mil-ris.
     - Nem um tosto... Tu no vai ver nem um tosto... Como tu ainda tem coragem de falar em
emprstimo? Quando  que tu j pagou nem que fosse um vintm? Esse dinheiro s sai de minha
mo para a de seu Edgard.
     - Juro que te pago amanh, hoje estou precisando de verdade,  caso de vida ou morte. Juro
que amanh compro eu mesmo um rdio para voc e tudo mais que tu quiser... Pelo menos cem
mil ris...
     - Nem um tosto...
     - Tem pacincia, meu bem, s essa vez...
     - Nem um tosto... - repetia como se no soubesse dizer outra coisa.
     - Ouve...
     - Nem um tosto...
     - Toma cuidado, no brinca comigo, porque, se no for por bem, vai ser por mal...
     Disse e olhou em torno como a localizar o esconderijo. Eis que Dona Flor perdeu a cabea e,
em desespero, se atirou para o velho aparelho de rdio; junto s gastas vlvulas ocultara o
dinheiro. Vadinho a seguira, ela porm j segurava as cdulas, desafiando-o aos berros:
    - Esse tu no vai gastar no jogo. S se me matar...
    Os gritos cortavam a tarde, as comadres em alerta saam  rua:
     -  Vadinho tomando o dinheiro de Flor, coitadinha...
     - Co mais tenebroso! Co das trevas!
     Vadinho partiu para Dona Flor, os olhos cegos, a cabea vazia, o dio a cobrir-lhe o
entendimento, dio de fazer o que estava fazendo. Tomando-a pelos pulsos, bradou-lhe:
    - Larga essa merda!
     Foi ela quem bateu primeiro: arrancando-se dele e no querendo deixar-se agarrar novamente,
socou-lhe o peito com os punhos fechados, com a mo aberta atingiu-lhe o rosto. "Sua puta, tu
me paga!", disse Vadinho, enquanto Dona Flor gritava: "me deixa; desgraado, no me bata, me
mate logo,  melhor". Ento ele a empurrou, ela caiu por cima de umas cadeiras, gritando:
"assassino, miservel"; e ele a esbofeteou. Uma, duas, quatro bofetadas. O estalo dos tapas
levantou, na rua, o coro de revolta e lstima das comadres. Dona Norma abriu a porta, foi
entrando sem pedir licena:
    - Ou voc pra com isso, Vadinho, ou eu chamo a polcia.
     Vadinho nem parecia v-la: l estava ele com o dinheiro na mo e um ar perdido, o cabelo
revolto, olhando num espanto para onde Dona Flor jazia cada, a gemer baixinho, num choro
manso. Dona Norma correu a ampar-la. Vadinho saiu porta afora, as notas apertadas  entre os
dedos. As vizinhas arredaram do passeio, era como se vissem o prprio demnio dos infernos.
    Naquele mesmo instante, o txi de Cigano freou junto  porta. Reconhecendo-o, Vadinho
sorriu, porque aquela coincidncia era mais uma prova da infalibilidade do palpite. Ia pela rua
bem do seu quando tivera aquela certeza, mas uma certeza total e absoluta, sem perigo de engano
ou urucubaca, certeza de que nessa tarde e nessa noite ele iria estourar todas as bancas de jogo da
cidade, uma por uma, comeando pelas roletas do Tabaris, terminando no antro escuso de
Paranagu Ventura. Uma certeza a crescer dentro dele, a domin-lo, exigindo ao, obrigando-o a
desdobrar-se em intil peregrinao  cata de numerrio, a partir, por fim e a contragosto, em
busca do dinheiro de Dona Flor.
     Ao esbofete-la, porm, ficara vazio at dessa certeza, fora-se o palpite, todo ele oco por
dentro, sem saber o destino a dar quele dinheiro, como se tudo houvesse sido intil. Mas, na
rua, ante o txi do Cigano a surgir num milagre - pois Vadinho tinha pressa de iniciar ainda
no turno vespertino a maratona do sculo, novamente se tranqilizou. Mais uma prova
indiscutvel de fora do palpite, Vadinho sentia um calor nas mos, uma urgncia de partir.
Agora, apenas as mesas de roleta, a bolinha a girar, o crupi, 0 17, as paradas, o olhar nervoso de
Mirando  sua esquerda como de hbito, as fichas, apenas o jogo existia para ele. Quis entrar no
txi mas o Cigano saltara entre as vizinhas em alvoroo. Um rastro de lgrimas nos olhos do
chofer, a voz espessa:
     - Vadinho, meu irmozinho, minha velha morreu, minha mezinha... Eu soube na rua, estou
vindo agora de casa... No vi ela morrer, diz que ela chamou por mim quando deu a dor...
     De comeo Vadinho nem prestara ateno s palavras do amigo, mas logo entendeu e apertou
o brao do Cigano. Que estava ele inventando, que histria mais maluca?
    - Quem morreu? Dona Agnla? Tu est doido?
     - Nem faz trs horas. Minha velha, Vadinho...
     Muitas vezes em solteiro, e mesmo depois de casado, inclusive em companhia de Dona Flor,
fora ele comer a feijoada dominical de Dona
Agnla, naquele fim de linha de Brotas. Gordssima e cordial, ela o tratava como filho, numa
fraqueza pelo moo jogador, perdoando-lhe a vida de deboches. No era ele uma rplica, at nos
cabelos loiros, do finado Anbal Cardeal, batoteiro insigne, seu amsio e pai do Cigano?
    - Igualzinho ao outro... Dois perdidos...
     Novamente sentiu-se Vadinho sem ar e sem ao, dia mais nojento, dia mais sem jeito:
primeiro Flor com aquela teimosia da desgraa, agora o Cigano a conduzir nas dobras do
crepsculo e a atirar no passeio o cadver de Dona Agnla...
    - Mas, como se deu? Ela estava doente?
     - Nunca vi ela doente, que me lembre. Hoje, quando sa, depois do almoo, deixei ela no
tanque, lavando roupa. Cantando, contente que s vendo... Tu no v que hoje foi o dia de pagar
a ltima letra do carro, a gente tinha o dinheiro certinho. De manh a gente ficou os dois,
contando, ela e eu... Ela me entregou o que tinha juntado nesse ms, tudo em nota de dez
tostes, dois mil-ris. Tava alegre porque agora o carro era meu de verdade - fez uma pausa
esforando-se para no chorar
-: Diz que de repente deu uma dor l nela, no peito. Que foi s o tempo de dizer meu nome e
caiu morta... O que me di  que eu no estava l, estava pagando a letra do carro... Isidro, aquele
do botequim,  que veio me avisar, na praa... Fui correndo... Ah!, meu irmozinho ela estava
toda fria, os olhos esbugalhados... Agora eu vim porque estou sem um vintm, o dinheiro foi
todo no pagamento do carro... O meu e o dela, de minha velha...
    Sua voz quase em surdina, escutariam as comadres? Mesmo as comadres morriam um pouco
na agonia do sol, esbatidas na sombra quando Vadinho entregou ao Cigano aquele sujo dinheiro
de violncia e seu lmpido palpite de vitria.
    -  tudo que tenho...
    - Tu vem comigo? Tem muito que fazer...
     - No houvera de ir?
     Livres da presena de Vadinho, as comadres entravam-lhe casa adentro: no quarto Dona Flor
e as malas, Dona Norma tentando demov-la. As xeretas no compreendiam as razes de Dona
Norma. Razo s Dona Flor a possua, carradas de razo. Um coro de cochichos:
    - Oh! vida mais injusta, como se pode martirizar assim...
     - Ela devia era largar ele de uma vez...
    - Atrever-se a bater... Que horror!
     Jamais Dona Flor acreditou no terem elas escutado a conversa do Cigano, seu anncio de
morte. No fosse seu Vivaldo, o da funerria, e Dona Flor no teria sabido do falecimento de
Dona Agnla nem de como Vadinho empregara o dinheiro. Seu Vivaldo passou por acaso:
aproveitando estar nas imediaes, veio trazer a receita de certo prato de bacalhau, de origem
catal, delcia saboreada em pantagrulico almoo em casa dos Taboadas, em cuja mesa nunca
serviram menos de oito ou dez pratos, um esbanjamento. Ao enxergar Dona Flor de olhos
midos, comentou a triste nova: pobre Dona Agnla. Vinha de saber, encontrara Vadinho e o
Cigano, ia fornecer o esquife praticamente sem lucro. Dona Agnla merecia: uma escrava no
trabalho e sempre jovial, pessoa tima. Seu Vivaldo fora uma vez, com Vadinho, honrar-lhe a
feijoada...
     S ento Dona Dinor e as outras comadres ligaram palavras e gestos, o dinheiro mudando de
mos nas sombras do crepsculo. Assim o disseram, pelo menos; acredite quem quiser.
     Despediu-se seu Vivaldo com o compromisso de vir provar o prato espanhol, a receita
custara-lhe esforo e propina: tivera de corromper a ama dos Taboadas, Dona Antonieta era
ciosa de seus segredos culinrios.
     Dona Flor conhecera Dona Agnla naqueles inesquecveis dias finais do namoro, s vsperas
do casamento, quando passava as tardes com Vadinho na casinha clandestina de Itapo. O
estrina dono da casa, durante o dia ocupado com seus negcios de fumo, para as mulheres
reservava as noites, as horas mortas da madrugada. Sucedeu, porm, de passagem pela Bahia,
uma carioca sensacional, com apenas uma tarde livre. Vadinho recebeu um recado para no
utilizar naquele dia o discreto endereo.
    No txi, discutiram aonde ir. Ela refugou o cinema, a matin de indiscreta bolinagem; a um
castelo ele no podia levar sua futura esposa. Visitar tia Lita, no Rio Vermelho? E se Dona
Rozilda aparecesse por l? Cigano props irem ver Dona Agnla, que j demonstrara desejo de
conhecer a noiva de Vadinho. Passaram a tarde com a gorda lavadeira, a conversar e a tomar caf,
Vadinho num assanhamento de beijos, Dona Flor toda acanhada. Dona Agnla encantou-se com
a moa, fez-lhe um discurso de alerta e compaixo:
     - Vai casar com esse maluco... Deus que lhe proteja e lhe d pacincia que muito vai precisar.
Jogador  a pior nao do mundo, minha filha. Vivi para mais de dez anos com um, igualzinho a
esse da... De cabelo loiro como ele, branco de olho azul... Perdido pelo jogo, punha tudo fora.
At um medalho que minha me me deixou, o maluco vendeu para enterrar o dinheiro no vcio.
Perdia tudo e ainda ficava brabo, vinha gritar comigo, me dar pancada...
     - Lhe dava pancada? - a voz tensa de Dona Flor...
     - Quando bebia demais, at bater ele me batia - . . Mas s quando bebia demais...
     - E a senhora suportava? Isso eu no admito... De nenhum homem... - Dona Flor estremecia
de revoltas s ao pensar: Nunca hei de admitir.
     Dona Agnla sorriu compreensiva e experiente; Dona Flor era ainda to menina, nem
comeara a viver:
     - Que  que eu podia fazer se eu gostava dele, se era minha sina? Ia largar ele sozinho nessa
vida agoniada, sem ter quem cuidar dele? Era chofer como Cigano, s que trabalhava para os
outros, de comisso. Nunca juntou dinheiro para dar de entrada num carro, o desperdiado. O
que eu juntava, ele perdia, tomava nem que fosse a pulso. Morreu de desastre, tudo que deixou
foi o filho pequeno para eu criar... - olhava Dona Flor com afeto e pena: - mas, vou lhe dizer uma
coisa, minha filha... Se ele me aparecesse de novo eu me juntava com ele outra vez. Morreu;
nunca mais eu quis saber de outro homem, e olhe que no me faltou proposta at de casamento.
Eu gostava dele, que  que eu podia fazer, me diga, minha filha, se era minha sina?
     "Era minha sina, eu gostava dele..." Que  que Dona Flor podia fazer? "Me diga, Norminha,
que  que eu posso fazer?" Esvaziar as malas, vestir-se de negro para ir ao velrio de Dona
Agnla. "Que  que eu posso fazer se  minha sina, se eu gosto dele?"
     Dona Norma a acompanharia, sim. Era chegada Dona Norma a um bom velrio. Com
lgrimas, soluos, flores roxas, velas acesas, cerimoniosos abraos de psames, oraes, histrias
e lembranas, anedotas e risos, um caf bem quente, uns biscoitos, um trago pela madrugada;
nada igual a uma sentinela.
    - Mudo o vestido num minuto...
     "Que posso fazer, me diga, Norminha, se ele  minha sina? Largar ele por a, sozinho, sem ter
quem cuide dele? Que posso fazer, me diga, se eu sou doida por ele e sem ele no saberia viver?"

19

     Sem ele no sabe viver, no pode viver. Como acostumar-se, se outra  a luz do dia envolto
em cinza, num crepsculo metlico onde vivos e mortos se confundem nas mesmas lembranas.
Tantas imagens e figuras em derredor de Vadinho, tanto riso e tanto choro, um bulcio, um calor,
o tilintar das fichas e a voz do crupi. S no fundo da memria a vida se afirma, plena, com a luz
da manh e as estrelas noturnas; afirma-se vitoriosa sobre esse crepsculo em coma, no estertor
da morte.
     Insone no leito de ferro, no abandono e na ausncia, Dona Flor parte na rota do acontecido,
portos de bonana, mar de tempestades. Rene momentos esparsos, nomes, palavras, o som de
uma breve melodia, refaz o calendrio. Deseja romper a cintura de ao desse crepsculo, mais
alm esto o dia de trabalho e a noite de descanso, a vida de viver ... No esse viver num tempo
de gris de nojo, no esse vegetar num asfixiante pntano de lama, essa sua vida sem Vadinho.
Como sair desse vulo de morte, como atravessar a porta estreita desse tempo nu? Sem ele
no sabe viver...
     Por vezes Vadinho fora to ruim como decretavam as comadres, Dona Rozilda, Dona
Dinor, s demais carpideiras. Em outras ocasies, porm, faziam-lhe injustias, acusando-o sem
motivo. Ela prpria, Dona Flor, assim agira por mais de uma vez.
     Um dia, por exemplo, ele viajara as pressas, Dona Flor soubera no ltimo momento e
imaginou o pior, considerando-o perdido para sempre. No acreditava fosse ele voltar do Rio de
Janeiro, com suas luzes fericas, suas avenidas fervilhantes, os cassinos, centenas de mulheres
 disposio. Quantas vezes no ouvira Vadinho proclamar: "um dia me toco para o Rio, l  que
 vida, nunca mais volto..."?
     Pura maluquice, aquela viagem. Necessitado de numerrio, Mirando inventara uma caravana
de estudantes de agronomia com o fim de "visitar os centros de estudo do Rio de Janeiro"
durante as frias. Percorreu o comrcio em companhia de cinco colegas, tomando dinheiro de
meio mundo com um Livro de Ouro. Foram mordidos banqueiros, industriais, empresrios,
lojistas, comerciantes os mais diversos, polticos do governo e da oposio. Ao fim de alguns
dias, haviam recolhido considervel maquia e criado um problema: nas cortesias aos polticos, por
trs vezes, em sinceros preitos de homenagem, mudaram o nome da Embaixada. Dos trs nomes
ilustres, por qual agora optar? Mirando propunha uma soluo extremamente simples: dividir
entre eles o dinheiro recolhido e dissolver a caravana ali mesmo, dando os centros de estudo por
visitados. Mas os cinco colegas, unnimes, discordaram: queriam fazer a viagem, conhecer o Rio
(dispondo-se inclusive, se houvesse ocasio propcia, a visitar a Escola de Agronomia, percorrer-
lhe as dependncias).
    Obtidas passagens de favor, requisitadas pela Secretaria de Agricultura do Estado - pela quarta
vez a caravana mudava de nome, em honra ao generoso Secretrio de Estado -, no dia do
embarque, quase na hora do navio partir, houve uma defeco, um dos seis picaretas tremiam de
febre palustre, o mdico proibira-lhe a viagem, quando j no tinham tempo de convidar outro
estudante para a vaga, nem de vender, a baixo preo, a passagem intil.
    Vadinho acompanhara Mirando ao cais, ouvia a discusso. Foi quando o outro lhe perguntou,
de repente:
    - Por que voc no vem, no aproveita a passagem?
    - No sou estudante...
     - Ora, senhor... Por isso no, fica sendo... S que tem de andar depressa, o navio sai daqui a
duas horas...
     O tempo de correr at em casa, juntar umas cuecas e umas camisas, o terno azul de casimira,
enquanto Mirando, amigo para qualquer sacrifcio, arrostava com as lgrimas de Dona Flor.
     Nunca mais ele voltaria, ela tinha certeza. No era to palerma a ponto de acreditar naquela
histria absurda de Embaixada Estudantil, de viagem de estudos. Se Vadinho no era estudante
de coisa nenhuma, como fazer parte de uma caravana de universitrios? O nico estudo de
Vadinho era o do Livro dos Palpites com completa interpretao dos sonhos e dos pesadelos,
indispensvel a quem quisesse ganhar no jogo do bicho. Partia sem dvida na esteira de uma
vagabunda qualquer para o abismo de depravao do Rio de Janeiro. Quanto mais jurava
Mirando, pela sagrada memria de sua Me, pela sade de seus filhos, mais ctica Dona Flor,
aquela histria no lhe merecia crdito. Por que vinha Mirando, seu compadre, fazer tal papelo,
causar-lhe tamanho desgosto, zombando de seus sentimentos, com mentira to reles? Se no lhe
dispensava considerao e estima, por que ento a convidara para madrinha do menino? Se
Vadinho queria abandon-la, ir-se embora com qualquer marafona, mudar-se para o Rio, pelo
menos agisse como homem, viesse em pessoa, falando a verdade, no mandasse o compadre com
aquele conto da carochinha para abusar de sua amizade e lhe passar diploma de idiota. "Mas,
comadre, se  verdade, a pura verdade...? Juro que daqui a um ms a gente volta". Para que essa
comdia toda? Nunca mais Vadinho voltaria, ela tinha certeza.
     Voltou, no entanto, na data prevista, com a caravana - de cuja existncia j se convencera
Dona Flor, pois o filho mais velho de Dona Sinh Terra, sua aluna, participava da excurso e,
numa carta, referia-se a Vadinho, "um companheiro batuta". No s voltou, como lhe trouxe um
rgio corte de seda, tecido estrangeiro, bonito e caro. Sinal de sorte na roleta, pensara Dona Flor,
e de que Vadinho no a esquecera durante os passeios, as festas, as novidades do Rio, as noites
de jogatina e farra. "Como havia de esquecer voc, meu bem, se eu s fui para fazer favor aos
rapazes, a embaixada no podia ficar incompleta". Chegara usando colete, muito carioca, todo
bem falante. Fizera relaes, citava nomes: o cantor Slvio Caldas, Beatriz Costa, estrela de teatro.
     A Slvio fora apresentado por Caymmi, no Cassino da Urca, onde o seresteiro cumpria
contrato. Vadinho rasgava-lhe elogios  simplicidade,  modstia. "Nem parece que  ele, de to
igual; voc vai ver quando ele vier aqui. Me disse que vem em maro e eu prometi que tu ia fazer
um almoo pra ele, com tudo que  prato baiano. Ele  metido a entender de cozinha". Com que
prazer cozinharia Dona Flor esse almoo, se um dia surgisse to remota oportunidade; era
admiradora entusiasta do cantor, escutando-o ao rdio, a voz to brasileira!
     Envolta no corte de seda a escorregar-lhe pelos ombros, a cobri-la e descobri-la, na alegria do
retorno de Vadinho, desfolhada em risos e suspiros, Dona Flor no leito com o marido a vadiar.
Uma ponta de remorso a fazer mais doce aquele amor: ela o julgara mais agressiva e injusta,
duvidando dele, de "seu estudante mais querido..."
     Do que jamais Dona Flor tomou conhecimento foi do esforo despendido por Mirando para
arrancar Vadinho dos braos de Josi, e p-lo no navio, de regresso. Josi era leme de guerra da
lusa Josefina, corista da Companhia Portuguesa de Revistas Beatriz Costa, perdida de paixo pelo
meo baiano (e vice-versa). Conheceram-se quando a Embaixada Acadmica, tendo obtido
entradas grtis, para o Teatro Repblica, foi aos bastidores aps o espetculo, cumprimentar
Beatriz, suas artistas, suas coristas. Vadinho bateu o olho em Josi ainda em trajes de varina, Josi
mediu o falso estudante de alto a baixo, riram um para o outro, meia hora depois ceavam juntos
iscas de bacalhau numa tasca das vizinhanas. Josi pagou a despesa, aquela primeira e todas as
demais, at ele viajar. Com o tempo dividido entre a portuguesa e os cassinos, Vadinho esqueceu
por completo data do embarque, hora da partida, regresso  Bahia. Mirando teve de usar de
energia e sentimento:
     - Me bastou ver minha comadre chorando uma vez, outra no quero ver ... Se eu chegar l
sem voc, o que  que minha comadre no vai dizer?
     Disso nunca teve notcias Dona Flor, como jamais soube da verdadeira origem do corte de
seda francesa; no fora comprada no Rio e, sim, ganho a bordo, ao pquer, na vspera da
chegada do navio a Salvador, quando os membros da caravana, j de todo sem dinheiro,
arriscavam ao baralho os presentes e as lembranas cariocas. De um dos estudantes, Vadinho
ganhara a seda, de outro um par de reluzentes sapatos de verniz e uma gravata borboleta de
bolinhas azuis, muito em moda. Contra essas utilidades apostara magnfica foto de Josi, grande e
colorida, com vidro e moldura doirada, onde a saloia se exibia numa cena de teatro, de calola e
porta-seio, a perna erguida, perdio de cachopa! Numa letra trabalhosa ela escrevera: "A meu
baianinho adorado, sua saudosa Josi". Retrato finalmente adquirido, aps longa barganha, por um
outro companheiro de viagem, jovem advogado desejoso de causar inveja aos amigos, com a
narrao e as provas de sensacionais conquistas metropolitanas. Foi assim que Josi financiou
tambm o desembarque de Vadinho e concorreu para a alegria de Dona Flor. Dona Flor a vadiar
nos braos do marido, o corte de seda a escond-la e a exibi-la, rolando afinal aos ps da cama.
     Como viver sem ele? Asfixiada de ausncia, debatendo-se na nvoa, presa em correntes, como
transpor os limites do desejo impossvel? Como reencontrar a luz do sol, o calor do dia a brisa
matutina, a virao da tarde e as estrelas do cu, a face do povo? No, sem ele no sabia viver e o
recolhia ento naquela bruma de tristezas, risos e emoes, em seu mundo sempre surpreendente.
     Podiam as comadres recordar os maus momentos, as cidas disputas, as calhordagens em
matria de dinheiro, as noites sem vir em casa, na bebedeira, quem sabe com mulheres, a loucura
do jogo. Mas por que no abriam a boca de pragas para lembrar os dias exaltantes da estada de
Slvio Caldas na Bahia, quando Dona Flor no tivera um minuto de descanso, tampouco de
tristeza? Uma semana perfeita, nem um pormenor destoante, Dona Flor guarda memria de cada
detalhe, uma riqueza de alegria, uma festa. Por assim dizer, naquela semana ela foi uma espcie de
rainha de todo o agitado bairro; do Cabea ao Largo Dois de Julho, do Areal de Cima ao Areal de
Baixo, do Sodr a Santa Tereza, da Preguia ao Mirante dos Aflitos. Sua casa cheia, gente
importante, mas importante de verdade, batendo-lhe  porta, pedindo licena para entrar, pois
apesar de hspede do Place Hotel foi em casa de Vadinho que Silvio se expandiu, recebeu e
conversou, como se aquele fosse seu lar, Dona Flor sua irm mais moa. Sem falar nos
conhecidos, como o banqueiro Celestino, doutor Luis Henrique e o prprio Dom Clemente
Nigra, vieram  sua casa os maiores grados da Bahia, seja para o famoso almoo, seja em outros
dias para cumprimentar o seresteiro, apertar sua mo. Visitas capazes de pr Dona Rozilda em
xtase, no cmulo da excitao, se ela no estivesse, felizmente, em Nazareth das Farinhas
infernando a vida da nora que, segundo carta de Heitor, esperava por fim o primeiro filho.
      Desse almoo guarda Dona Flor no apenas a ntida recordao, como tambm recortes de
notcias na imprensa. Dois jornalistas, conhecidos de Vadinho, aquele Giovanni Guimares
amigo de rir e de contar lorotas, e um tal de negro Batista, femeeiro de prestigiosa reputao nos
castelos, ambos garfos de respeito, deram conta do fato em suas gazetas. Referiu-se Giovanni ao
"incomparvel gape oferecido ao notvel cantor pelo senhor Waldomiro Guimares zeloso
funcionrio municipal, e por sua excelentssima esposa, Dona Florpedes Paiva Guimares, cujos
mritos culinrios se aliam  extrema bondade e  perfeita educao". Enquanto o negro Joo
Batista comovia-se com a quantidade de pratos: "...finssimo e fartssimo repasto, de sabor
inexcedvel, nele se exibiam todos os principais acepipes da cozinha baiana, alm de doze
qualidades de sobremesa, provando a grandeza de nossa culinria e a qualidade das mos de fada
da senhora Flor Guimares, esposa de nosso assinante Waldomiro Guimares, funcionrio da
Prefeitura dos mais dedicados e eficientes". Como se v, sentiram-se os dois glutes to fartos e
contentes a ponto de elogiarem no apenas a comida, o paladar de Dona Flor, mas de
promoverem Vadinho a dedicado, eficiente e zeloso funcionrio, exagero um tanto forte.
     Por que as comadres no recordam esse domingo do almoo? De to cheia a casa, ningum
podia se mover, as mesas repletas de comida. Doutor Coqueiro, do Tribunal, e msico nas horas
vagas, a pronunciar discurso, gabando a arte de Dona Flor; o poeta Hlio Simes, prometendo
um soneto de louvao ao tempero da "encantadora Dona da casa, guardi das grandes tradies,
zeladora do dend e da pimenta". No entanto as comadres estavam presentes, todas elas, num
cochicheio, e a tudo assistiam; viram quando Slvio tomou do violo e abriu o peito apaixonado e
brasileiro. Juntara gente na porta da rua para ouvir; e, as cinco da tarde, ainda muitos convidados
e outros quantos penetras bebiam cerveja e cachaa, reclamando novas canes ao menestrel, e
ele a todos atendia.
     O melhor de tudo, porm, superior aos elogios de corpo presente e em letra de forma nas
folhas, aos discursos e versos; o que Dona Flor colocava mesmo acima do canto de Slvio Caldas,
enchendo de paz e harmonia o cu e o mar, foi o comportamento de Vadinho. No s arcara
com todas as despesas do almoo (onde fora arranjar tanto dinheiro e de uma s vez? S a lbia
de Vadinho seria capaz desse milagre...), como naquele dia no se embriagou, bebeu na justa
medida, fez sala aos convivas, muito dono de casa. E quando o seresteiro empunhou o violo
sem se fazer de rogado, querendo mesmo tocar e cantar em casa de seus amigos, quando
agradeceu o almoo chamando Dona Flor de "Florzinha, minha irm...", Vadinho veio sentar-se
ao lado da esposa e tomou-lhe da mo. As lgrimas subiram aos olhos de Dona Flor, tanta
emoo era demais.
     Como viver sem ele? Sem ele, onde reencontrar a graa e a surpresa, como acostumar-se? Lera
no vespertino a informao do desembarque do cantor para curta temporada no Place e no
Tabaris. Realizaria tambm, a convite da Prefeitura, uma serenata no Campo Grande, dando ao
povo todo ocasio de v-lo e ouvi-lo e de cantar com ele. Fora Vadinho esper-lo ou no tivera
conhecimento da notcia?
    Ao vir do Rio, alguns meses antes, no tirava da boca o nome de Slvio Caldas, no tinha outro
assunto. Prometera-lhe at um almoo cozinhado por Dona Flor. Um absurdo... Sujeito assim
famoso, manchete de jornais, capa de revistas, na Bahia por uma semana, no ia chegar nem para
as encomendas, para os convites dos ricaos; mesmo se quisesse, onde conseguir tempo para
comer em casa de pobre? "Uma srie de homenagens esto sendo organizadas por figuras da alta
sociedade para festejar a presena do grande artista entre ns", anunciava o jornal. Com
satisfao, no entanto, e grande, ela assumiria a trabalheira desse almoo, disposta at a gastar
suas parcas economias, escondidas numa coluna do leito de ferro, a enterrar o dinheiro do ms, a
fazer dvidas se necessrio, para receber em casa tal convidado e lhe dar a comer a verdadeira
comida baiana. No duvidava das cordiais relaes estabelecidas no Rio; no era o cantor firme
presena nas mesas de jogo? Mas da a vir quela celebridade  sua casa, a distncia era grande.
Para Vadinho, porm, as distncias no existiam, nem obstculos de qualquer ordem, para ele
tudo era fcil, a vida no tinha impossveis. Numa ponta de melancolia Dona Flor comentou o
assunto com Dona Norma:
    - Loucura de Vadinho... Inventa cada uma... Almoo para Slvio Caldas, voc j pensou?
Dona Norma, porm, entusiasmava-se:
    - Quem sabe se ele no vem? Menina, ia ser de fechar o comrcio...
    Dona Flor satisfazia-se com muito menos:
     - Eu me contento com ir  serenata... Assim mesmo, se tiver companhia... Seno, nem isso...
     - Por companhia no se preocupe, porque eu vou de qualquer jeito. Se Z Sampaio no quiser
ir, ento que tenha pacincia, vai ficar sozinho em casa. Vou com Artur...
     No programa das dezenove horas, o jornal falado da rdio anunciou a estria do cantor,
marcada para aquela mesma noite, cantando  meia noite para as famlias no salo elegante do
Place Hotel, ao lado das salas de jogo, cantando as duas da manh no Tabaris para os bomios e
as mulheres da vida. Recolheu-se Dona Flor, a pensar que, de todo aquele movimento em torno
do cantor, s uma coisa era certa: naquela noite no adiantava esperar a chegada de Vadinho;
com Slvio Caldas na terra, era como se ela no tivesse marido. Quando pela madrugada, sassem
do cabar, a ltima dobra da noite da Bahia os atendia nos mistrios do Pelourinho, nos
caminhos das Sete Portas, no mar e nos saveiros da Rampa do Mercado.
     Dormiu e sonhou. Um sonho confuso onde se misturavam Mirando, Slvio Caldas e
Vadinho, com seu irmo Heitor, sua cunhada e Dona Rozilda. Todos em Nazareth das Farinhas,
onde Dona Flor ajudava a cunhada, grvida, amarrada por uma corrente ao guarda-chuva da
sogra. As notcias dos jornais e do rdio e a carta do irmo reuniam-se numa barafunda, sonho
mais extravagante. Dona Rozilda, furiosa, queria saber o motivo da presena de Slvio Caldas em
Nazareth. Pois, respondeu ele, para ali se deslocara na exclusiva inteno de acompanhar
Vadinho numa serenata a Dona Flor. "Tenho asco a serenatas", rugiu Dona Rozilda. Mas ele
empunhava o violo, a voz de ptalas e veludo a acordar o povo do Recncavo na noite do
Paraguau... Dona Flor sorri no sonho e no acalanto.
     Cresce a voz na rua, vai despertando Dona Flor, mas o sonho prossegue num milagre, a
cano se aproxima, sonho ou realidade. J se levanta o povo, acorre a ouvir. Dona Flor enfia um
robe s pressas, chega  janela.
     L esto eles: Vadinho, Mirando, Edgard Coc, o sublime Carlinhos Mascarenhas, o plido
Jenner Augusto dos cabars de Aracaju. E entre eles, o violo ao peito, a voz desatada, Slvio a
cantar para Dona Flor:

"...ao som da melodia apaixonada nas cordas do canoro violo...

      Houvera a serenata, a rua em alvoroo; houvera o almoo no domingo, falado at nas
gazetas; na segunda, Slvio veio preparar o jantar, trouxe de um tudo, vestiu um avental, foi para a
cozinha, e sabia mesmo cozinhar. Nos outros dias no tinha hora de aparecer, entrava e saa,
juntos foram todos assistir a uma capoeira. Mas, de tudo quanto aconteceu naquela semana, nada
se comparou  festa popular da tera-feira vspera da partida de Silvio para o Recife. Na norte de
lua cheia, do alto do palanque no Campo Grande, ele cantou para a multido, o povo reunido na
praa.
     Dona Flor nem perguntara a Vadinho se iria: ele no largava o amigo. Apenas lhe comunicou
sua deciso de tambm assistir, aproveitando a companhia de Dona Norma e de seu Sampaio,
pois at o comerciante de sapatos se erguera de seu eterno cansao para comparecer  seresta.
     Qual no foi, assim, a surpresa de Dona Flor quando, logo aps o jantar, o txi do Cigano
desembarcou Vadinho, Slvio e Mirando na porta de casa, vinham busc-la. "E a comadre?"
perguntou ela a Mirando. Fora antes com a crianada, j devia estar no largo. Enquanto Dona
Flor terminava de aprontar-se, eles providenciaram uma batida de limo.
     Ficaram sentados no palanque, ela e Vadinho, em cadeiras reservadas para as autoridades. O
Governador no comparecera, preso ao leito com uma gripe, mas instalaram um alto-falante nas
imediaes do Palcio, assim Sua Excelncia e a Excelentssima poderiam ouvir. Nas cadeiras
acomodavam-se o Prefeito da Cidade e sua esposa, o Chefe de Polcia com a me e as irms, o
Diretor de Educao, os Comandantes da Polcia Militar e do Corpo de Bombeiros, com seus
familiares, doutor Jorge Calmon e outros fidalgos. Dona Flor, em meio a toda aquela lordeza,
sorriu para Vadinho:
    - S tenho pena de Mame no ver isso... Nem havia de acreditar. Ns dois sentados com o
governo...
     Vadinho riu seu riso zombeteiro, lhe disse:
    - Tua me  uma velha coroca, no sabe que na vida s vale o amor e a amizade. O resto 
tudo pinia,  tudo presuno, no paga a pena...
     De repente, um acorde ao violo e todo o alegre rumor extinguiu-se na praa. A voz de Slvio
Caldas, a lua cheia, as estrelas e a brisa, as rvores do parque, o silncio do povo: Dona Flor
cerrou os olhos, encostou a cabea no ombro do marido.
     Como viver sem ele, como atravessar esse deserto, transpor esse crepsculo, erguer-se desse
pntano? Sem ele tudo  pinia, presuno, no paga a pena viver.

20

    No leito de ferro um nico pensamento esmaga Dona Flor, atira-a contra o fundo de si
mesma, em frangalhos: nunca mais o teria ali, em alvoroo, ao seu Vadinho; nunca mais. Aquela
certeza a penetra e rompe; lmina de veneno, rasga-lhe o peito e lhe apodrece o corao,
apagando sua nsia de sobrevivncia, sua juventude vida de subsistir. No leito de ferro, suicida,
Dona Flor. Apenas o desejo a sustenta e a memria persiste. Por que o espera, se  intil? Por
que o desejo se ergue numa labareda, fogo a queimar-lhe s entranhas, a sustent-la viva? Se 
intil, se ele no voltar, despudorado amante, a lhe arrancar angua ou camisola, a cala de
rendas, a expor a sua nudez pelada, dizendo frases to loucas que nem na lembrana ela se atreve
a repeti-las, to loucas e indecentes mas to lindas, ai. No vir tocar-lhe o colo, as ancas e o
ventre, despert-la e adormec-la, temporal de anseios, furaco a conduzi-la cega, brisa de
ternuras, zfiro de suspiros e o desfalecer para novamente despertar. Ai, nunca mais! S o desejo
a sustenta, e a memria.
    "Como uma alma penada pela casa mida e soturna, um tmulo". Cheiro de mofo nas paredes,
nas telhas e no piso, um frio abandono  espera das aranhas e das teias. "Uma sepultura onde ela
se enterrou com a lembrana de Vadinho". Dona Flor toda em negro, de nojo por dentro e por
fora, apodrecida. Dona Norma sua amiga, veio e lhe disse:
    - Assim po  possvel, Flor. No  possvel. Vai completar um ms e voc vive como uma
alma penada, rondando dentro de casa. E sua casa que era um brinco est se enchendo de bolor;
mais parece, Deus me perdoe, uma sepultura onde voc se encerrou. Reaja, acabe com isso, alivie
esse luto...
     As alunas perdiam-se naquela atmosfera onde risos e piadas soavam falso. Como manter o
cordial quotidiano das aulas, a agradvel sensao de passatempo, causa do maior sucesso da
Escola de Culinria Sabor e Arte, se a professora ria por compromisso e com esforo? Nos seus
distantes tempos de aluna, Dona Mag Paternostro, a milionria, numa pose cmica de recitativo
escolar, declamava, da soleira da porta no primeiro andar do Alvo, um pastiche do Estudante
Alsaciano:

                     "Salve a escola risonha e franca e sua jovem professora brincalhona..."

      Desde ento a procura de inscries crescia, porque cada senhora, fazia espontnea
publicidade, recomendava s amigas: "Ela  formidvel, cozinha como ningum, sabe ensinar e 
um encanto de pessoa. As aulas so to divertidas, so duas horas de risadas, de anedotas, de
pilhrias. Para passar o tempo no h nada melhor". Por vezes era obrigada a recusar alunas
tantas as candidatas s vagas trimestrais, nos dois cursos. Agora, no entanto, j trs moas haviam
abandonado a turma e at circulara a notcia do prximo fechamento da Escola. Onde aquela
"jovem professora brincalhona?" Onde as "duas horas de anedotas e pilhrias"? No meio da aula,
quando riam as moas, de sbito Dona Flor como que se ausentava, os olhos perdidos, a face
ansiosa. Quem gosta de carregar defunto dos outros, dias e dias s voltas com o morto, como se
no existissem cemitrios?
     Sua comadre Dionsia de Oxssi viera visit-la, trouxera o capeta do afilhado, chegara toda em
escuro como exigiam os ritos de gentileza, mas chegara sorrindo, pois quase um ms j era
passado e, com aquela, completava um turno de trs visitas. A feio da tristeza de Dona Flor a
preocupou, jururu assim a comadre ia mal.
    - Enterre o xar de uma vez, comadre... Seno ele comea a feder e a consumir tudo por aqui,
at vosmic...
    - No sei como fazer. S tenho descanso, quando me lembro dele...
    - Pois junte tudo quanto  lembrana do xar. junte o carrego dele e enterre no fundo do
corao. Junte tudo, o bom e o ruim, enterre o carrego todo e depois deite e durma seu sono
sossegada...
     Sobraando livros, a frescata num vaporoso vestido de vero a exibir-lhe as sardas e a sade,
Dona Gisa, sua conselheira, a repreendia:
    - Que  isso? Quanto tempo vai durar essa exibio?
    - Que posso fazer? No  que eu queira...
    - E sua fora de vontade? Diga a si mesma: amanh comeo vida nova; feche a porta do
passado, volte a viver.
     O coro das comadres, num cantocho:
     - Agora, sem o peste do marido,  que ela pode viver feliz... Devia dar graas a Deus...
     Dom Clemente Nigra no ptio do convento sobre o imenso mar de leo verde-azul tocou-lhe
a face triste, contemplando seu luto fechado e lancinante, magra e entregue. Dona Flor, viera
encomendar a missa de ms.
     - Minha filha - sussurrou o frade de marfim -, que desespero  esse? Vadinho era to alegre,
gostava tanto de rir... Sempre que eu o via me dava conta que o pior pecado mortal  a tristeza, o
nico que ofende a vida. O que ele diria se lhe visse assim? No havia de gostar, ele no gostava
de nada que fosse triste. Se voc quiser ser fiel  memria de Vadinho enfrente a vida com
alegria.
     As carpideiras em bando pelo bairro:
     - Agora, sim, ela pode ter alegria, pois o co foi pros infernos.
     As figuras moviam-se ao fundo do quarto como num bal: Dona Rozilda, Dona Dinor, as
beatas com seu aftim de sacristia, e Dona Norma, Dona Gisa, Dom Clemente, Dionsia de
Oxssi a sorrir com seu menino:
     - Enterre o carrego do xar no corao, comadre, e se deite e durma.
     Mas seu corpo no se conforma e o reclama. Ela raciocina, pensa, ouve as amigas, d-lhes
razo,  preciso por um cobro a esse morrer todos os dias e cada vez um pouco mais. Seu corpo,
porm, no se conforma e o exige em desespero. S a memria o devolve e ali o traz, a Vadinho,
com seu atrevido bigode, seu riso de zombaria, sua insolncia, as palavras feias e to lindas, sua
mata de pelos e a marca da navalha. Quer partir com ele, retomar seu brao, irritar-se com os
malfeitos, e eram tantos!, gemer impudica, desfalecente, no beijo. Mas, Ah!, precisa reagir e viver,
abrir sua casa e seus trancados lbios, arejar as salas e o corao, tomar do carrego de Vadinho,
de todo ele e enterr-lo fundo. Quem sabe, assim aplacar o desejo. Uma viva, ela sempre ouvira
dizer, deve ser insensvel a tais apetites, a esses pecaminosos pensamentos, deve ficar de desejo
murcho, seca flor intil. Desejo de viva vai para a cova no caixo do finado, se enterra com ele.
S mulher muito safada, sem amor por seu marido, ainda pode pensar nessas sem-vergonhices,
coisa mais feia. Por que Vadinho no levou consigo a febre a consumi-la, o desespero a
intumescer-lhe os seios, a doer-lhe no ventre inconformado? E tempo de enterrar novamente seu
morto e com o carrego inteiro: seus maltratos, suas ruindades, suas safadezas, sua alegria, sua
graa, o generoso mpeto; e tudo quanto ele plantou na mansido de Dona Flor, as fogueiras que
acendeu, a dolorida nsia, aquela loucura de amor, o desejo em brasa, ai, o criminoso desejo de
viva descarada!
     Antes, porm, por uma vez ao menos, uma derradeira vez, ela o busca e o encontra e vai com
ele, presa a seu brao. Vai nuns trinques de rica, como nos tempos de solteira, quando ela e
Roslia, duas pobretonas, compareciam a festas em casas de burgueses opulentos e eram as mais
bem vestidas, num tal capricho a sobrepujar o luxo das demais.
     Ah! noite sobre todas bela e terrvel, de novidade e surpresa, de medo e exaltao, de
humilhao e triunfo! Com as emoes da sala de dana e da sala de jogo, os nervos rotos, o
corao em festa, noite . mais imensa!
     Por uma derradeira vez com ele, devagar. Passo a passo, a reconstruir o absurdo itinerrio
daquela noite sem estrelas: a sada de casa, os dois e Dona Gisa, a ceia, o tango, o espetculo, as
mulatas rebolando, as negras cantando, a roleta, o bacar, a afronta e a ternura,  volta no txi do
Cigano como nos velhos tempos, Vadinho numa impacincia tomando-lhe dos lbios ali mesmo,
na vista de Dona Gisa sorridente. Num frenesi a lhe arrancar e destruir o luxo do vestido apenas
entraram no quarto:
    - No sei o que voc tem hoje, meu bem, est um pedao de mulher, e eu estou doido por
voc. Vamos, depressa... Tu vai ver o que  vadiar, como tu nunca vadiou.  hoje o dia, te
prepara. Te dei o que tu pediu, agora tu vai pagar...
     Cada no leito de ferro, estremeceu Dona Flor. Nessa noite o fel se transformou em mel,
novamente a dor abriu-se no supremo prazer; nunca fora ela gua to em violncia montada por
seu fogoso garanho, to devassa cadela em cio e possuda, escrava submissa ao seu deboche,
fmea a percorrer todos os caminhos do desejo, campinas de flores e douras, florestas de
sombras midas e proibidas veredas, at o reduto final. Noite de penetrar as portas mais estreitas
e trancadas, noite de render-se o ltimo bastio de sua pudiccia, oh! Deo gratias, aleluia! Quando
o fel se transformou em mel e a dor foi o raro, o, esquisito, o divino prazer, noite de dar-se e
receber.
     Foi no dia do aniversrio de Dona Flor e no fazia muito tempo, acontecera no ltimo
dezembro, nas proximidades do Natal.

21

PARNTESIS COM O NEGRO ARIGOF E O BELO ZEQUITO MIRABEAU

     Vadinho acordou tarde, depois das onze, tinha chegado em casa, de manhzinha, numa
cachaa bruta. Ao fazer a barba, deu-se conta do silncio inabitual, da falta das alunas do turno
matutino. Por que no houvera aula naquele dia? Uma das moas, mulatinha doirada, esguia e
frgil, punha-lhe olhos cativos, a fala dengosa. Vadinho j decidira lev-la a passeio quando
tivesse tempo livre e disposio: para ensinar-lhe a beleza selvagem das praias desertas e o gosto
da maresia. Delicado junco de esbelteza, aquela sonsa toda, com seu Donaire e seu enleio; estava
na fila,  espera de vez. No momento, Vadinho atendia s exigncias sexo-sentimentais de Zilda
Catunda, a mais sapeca das trs espevitadas Irms Catunda, sentindo porm aproximar-se o
trmino do xod: a faceira dera em exigente, querendo mandar nele, controlar seus passos, com a
mania de ter cimes e at de Dona Flor, a atrevida.
     Se no era dia santo, nem feriado, por que no havia aula? Ao sair do banheiro, deparou com
festiva atmosfera; Dona Norma ajudando na cozinha, tia Lita a limpar os mveis, Thales porto
instalado na espreguiadeira com jornais e um clice de licor. Havia no ar um perfume de almoo
comemorativo, mas por que essa comemorao sem motivo visvel?
     Um almoo farto, a casa cheia de amigos, regabofe dominical, eis um dos prazeres de
Vadinho. Fossem menos vasqueiras suas finanas e com maior freqncia ele repetiria rabadas e
sarapatis, maniobas e vataps. Apenas lhe vinha uma aragem de sorte e j programava uma
feijoada, uma carne de sol com piro de leite, um molho pardo de conquns, sem falar no clssico
caruru de Cosme e Damio, em setembro, e na canjica e no jenipapo do So Joo. Mas, esse
almoo flutuando no ar, sem aviso nem convite, que diabo de festa era essa? Dona Norma
respondeu-lhe num esbregue:
     - Voc ainda tem coragem de perguntar, Vadinho? No se lembra que hoje  dia do
aniversrio de sua mulher?
    - De Flor? Que dia  hoje? Dezenove de dezembro?
    A vizinha aperrienta, a ralhar:
    - Voc no toma mesmo vergonha... Vamos, diga: o que  que comprou para ela, que presente
vai dar a essa santa...
     Nada, Dona Norma, no comprara nada e bem merecia o esporro, a censura pelo desleixo;
mas era l homem para recordar aniversrios, escolher mimos em lojas? Uma lstima, perdera a
oportunidade de fazer um bonito trazendo um presento. Dona Flor ficaria doida de
contentamento, como num outro aniversrio, quando ele entregara, at com antecedncia,
dinheiro grado a Dona Norma, encarregando-a de comprar "uma lembrana batuta, sem
esquecer um frasco de cheiro, de Royal Briar, do qual ela gosta muito".
     Pena ter-se descuidado, logo quando atravessava um perodo de sorte excepcional, ganhando
firme h quatro ou cinco dias. No s na roleta, no bacar, nos dados, mas tambm no jogo do
bicho; iniciara a semana acertando no milhar dois dias consecutivos.
    To cheio de dinheiro a ponto de resgatar um ttulo ameaado de protesto para satisfazer
compromisso de terceiro, salvando-lhe o crdito e o bom nome. E no era o salafra sequer seu
amigo, um gabola bem falante, simples relao de bar e cabar. Fora, alis, no Tabaris que o
paroara, num porre daqueles, aceitou, com nimo generoso e raro entusiasmo, a idia de avalizar
a nota promissria assinada por Vadinho, a trinta dias de prazo.
     Pouco depois de um ms, era Vadinho convocado ao escritrio do gerente do Banco onde se
dera o desconto do ttulo. Atendeu pressuroso ao convite, mantinha uma hbil poltica de boas
relaes com os gerentes e subgerentes dos estabelecimentos bancrios dos quais tanto dependia.
    - Mestre Vadinho - disse o carrasco, alis um bom camarada, seu Jorge Tarqunio - tenho aqui
um papagaio seu, vencido...
     - Meu? Se eu no devo a ningum... S vendo...
    - Pois veja e pague... - exibia-lhe a promissria.
     Vadinho reconheceu sua firma e a do avalista:
    - Mas, seu Tarqunio, se o ttulo tem avalista, por que o senhor vem me meter susto, dizer que
eu estou devendo...  s ir ao Raimundo Reis e cobrar, o homem  podre de rico, tem fazenda de
gado, engenho de acar, banca de rbula, vai  Europa todo ano...  ele que o senhor tem de
chamar aqui .
     -  claro que fomos a ele primeiro,  o avalista... Mas ele diz que no paga de maneira
nenhuma. Recusa-se...
    Vadinho ia do espanto ao escndalo ante tamanho descaro.
     - Disse que no paga, recusa-se? Mas veja o senhor, seu Tarqunio, tem de tudo nesse
mundo... Que sujeito mais cnico e sem vergonha...! Fica no cabar a arrotar riqueza, que tem
lguas de terra, que mais gado e que mais acar, que faz e acontece, que comeu trs mulheres de
uma vez em Paris, um bafo de milionrio. Vai da, a gente confia, cai no conto do vigarista, aceita
o aval como se o tipo fosse direito. Resultado: ttulo vencido sem pagamento e o meu crdito
abalado, o senhor me chamando aqui...
    - Mas, Vadinho, afinal foi voc quem tomou o dinheiro emprestado...
     - Ora, seu Tarqunio, pelo amor de Deus... Se esse peculatrio no tinha capacidade para
avalizar, por que veio se oferecer? Afinal ele assumiu ou no a responsabilidade, assumiu ou no
o compromisso de pagar a dvida se eu no pagasse? Assumiu e eu fiquei bem do meu,
descansado ... E agora, isso... No est direito... So sujeitos assim que deixam a gente mal junto
aos Bancos... Quando o cara avaliza um ttulo  porque est disposto a pagar, seu Tarqunio. Esse
Raimundo Reis devia estar era na cadeia, caloteiro vagabundo...
     Toda aquela absurda indignao com o fim de amans-lo, de preparar-lhe o nimo para a
reforma do ttulo, pensou seu Tarqunio, j vencido. Qual o seu assombro quando Vadinho
meteu a mo no bolso e puxou as inacreditveis pelegas:
    - Est vendo, seu Tarqunio, o prejuzo que esse tipo est me dando? E o resultado da gente se
meter com esses tratantes... E eu que sempre escolhi meus avalistas a dedo... Raimundo Reis,
quem diria...  vivendo que se aprende...
    Nem sentiu o desfalque, mar de sorte sem soluo de continuidade, o dinheiro entrando a
rodo, em fichas coloridas, saindo em notas e moedas, semana de ceias, de muita bebida, de farras
monumentais.
     Desparrame de sorte a culminar em magna apoteose, na vspera. Vadinho, tendo sonhado
com seu Z Sampaio, nem se deu ao trabalho de uma consulta ao livro de palpites, para qu?
Urso, na certa, e assim foi: o urso desembestou na centena, na dezena e no grupo; lucro
multiplicado depois no Tabaris, na lebre francesa e no bacar. Noite negra para os banqueiros de
jogo pois Vadinho a atravessou ganhando, sem exagero mas com firme persistncia, enquanto o
negro Arigof, com o diabo no corpo naquela madrugada, levantara noventa e seis contos de ris
em menos de dez minutos, na roleta.
     O negro surgiu no fim da noite, j perto do crupi anunciar a bola derradeira. Vinha da
espelunca de Trs Duques, de rabo entre as pernas, a ronda engolira-lhe as ltimas moedas.
Passara no Abaixadinho e na ratoeira de Cardoso Pereba, findando ali, no Tabaris, ltimo porto
daquela aflita navegao.
     O Tabaris era uma espcie de esquina do mundo, meio cassino, meio cabar, explorado pelos
mesmos concessionrios do Place Hotel. Exibiam-se ali os bons artistas contratados para o
Place e uma segunda classe onde dava de um tudo, desde velhas runas no trmino da carreira,
at meninotas apenas pberes, protegidas umas e outras de seu Tito, administrador com carta
branca. Das primeiras tinha pena, nada mais melanclico e trgico do que uma velha atriz sem
contrato. As outras ele as ensaiava e experimentava em seu sujo escritrio; se no servissem para
o tablado, trabalhariam somente como rameiras, sem acumular. No correr da noite o Tabaris ia
recolhendo os freqentadores do Place, gente em geral de posio e dinheiro, e a ral das
diversas tascas, do Abaixadinho, banca com pretenses a cassino, at o antro esconso de
Paranagu Ventura. Ali vinham todos terminar a noite, na ltima tentativa, na derradeira
esperana.
     Entrou Arigof e deparou com Vadinho em glria, cercado de uma roda de curiosos a apreciar
sua soberba classe ao bacar, Mirando a seu lado esquerdo, afanando-lhe de quando em quando
uma ficha, vrias damas ao lado direito e, entre elas, as Irms Catunda. "Depressa, passe uma
ficha, meu irmozinho, rpido que j vai fechar", pediu Arigof num sussurro pattico. Preso s
cartas, Vadinho meteu a mo no bolso, retirou uma ficha, no viu sequer o valor. Era das
pequenas, de cinco mil-ris, no exigia mais o negro. Correu para a roleta, depositou a ddiva no
26, onde a bolinha morreu: e duas vezes repetiu o nmero. Dez minutos depois o jogo terminava,
Arigof remia noventa e seis contos, Vadinho doze, sem falar no conto e trezentos no bolso
solidrio de Mirando.
     Foi nessa noite magnificente que o negro Arigof, com sua elegncia britnica e seus modos de
gro-duque, encomendou e pagou adiantado o tecido e o feitio de seis ternos do melhor linho
branco ingls. Devia ele de longa data sessenta mil-ris a Aristides Pitanga, alfaiate doido pelas
mesas de roleta e temeroso de jogar. A sovinice no lhe permitia mais de uma ou duas paradas
por noite, modestas, rondava as mesas vibrando com as apostas dos outros, sugerindo palpites,
peruando em comentrios sobre sorte e azar.
     H muito rezara o alfaiate pela alma daquele resto de conta, mas, ante a performance
espetacular do fregus exigente e caloteiro, perdeu a serenidade e a tica, desenterrou o dbito da
coluna de perdas e lucros, fez a cobrana ali mesmo, na vista dos parceiros e das mulheres-damas,
uma desfeita. No se alterou o negro:
     - Sessenta mil-ris? Daquela roupa...? E, me diga, Pitanga, quanto voc est cobrando hoje por
um traje de linho branco?
     - Linho comum?
     - Ingls, S 120, casca de ovo. Do melhor que houver na praa.
     - Por a... por volta de uns trezentos mil ris...
     Meteu Arigof a mo no bolso, extraindo pelegas de quinhentos:
     - Pois a esto dois contos... Faa seis ternos novos pra mim. Subtraia seus sessenta mil-ris e
fique com o troco de gorjeta pelo trabalho de vir cobrar conta de fregus em mesa de jogo...
     Atirou o dinheiro na cara do alfaiate, deu-lhe as costas, enquanto o outro, apalermado,
recolhia as notas pelo cho, por entre a vaia das mulheres.
     Era um fidalgo esse Arigof, de roupas e maneiras, e como bom fidalgo outra coisa no fizera
na vida seno jogar; pobre como J, negro retinto, mestre capoeirista, de entrada proibida no
Place Hotel, onde certa feita dera alterao das maiores, quando um gracioso filhinho de papai
de usque racista, ao ver o negro Arigof impecvel, todo de branco, riu para sua roda e disse:
"Olha o macaco que fugiu do circo". Ficou o salo em pandarecos e o sacana farrombeiro exibe
at hoje uma flor aberta na face a trao de navalha.
     O sucesso dos dois amigos foi motivo de ceia comemorativa, sob a presidncia ilustre de
Chimbo. Compuseram a mesa Mirando, Robato, Anacreon, P de Jegue, o arquiteto Lev Lngua
de Prata, os jornalistas Curvelo e Joo Batista, o bacharel Tibrcio Barreiros, alm dos anfitries e
de um distinto ramalhete de mundanas e, digamos, de artistas, satisfazendo assim  vontade das
Irms Catunda, ciosas de sua arte e escol da brilhante sociedade reunida no castelo da gorda
Carla. Essas Irms Catunda, "artistas de talento polimorfo", segundo escreveu em "O Imparcial"
o foliculrio Batista, eram trs espoletas, filhas da mesma me Jacinta Apanha-o-Bago e de pais
diferentes. A mais velha quase negra, a mais nova quase branca, a do meio um amor de
mulatinha, de comum s possuam a progenitora e a desafinao. Fracas no gorjeio mas timas
na cama, onde realmente polimorfas, segundo depoimento do mesmo Joo Batista, cujo salrio
no jornal e uns cobres cavados aqui e ali eram gastos com as empreendedoras irms; conhecendo
o trio, uma a uma, ainda no decidira o redator qual a mais perita e politcnica. A do meio, Zilda,
tinha um fraco por Vadinho.
     Lev Lngua de Prata e o advogado haviam querido levar The Honolulu's Sisters para
abrilhantar ainda mais a ceia. Sem resultado. Essas "sisters" no eram irms sequer de me, no
vinham tampouco de Honolulu; duas negras norte-americanas, foscas na cor mas de plstica
perfeita: frgil cora e meiga J, destra pantera a musculosa M. De comum, alm dos corpos
sem jaa, tinham a voz agradvel e o estranho comportamento: no aceitavam convites para
passeios, jantares, serenatas, banhos de mar em Itapo, luar na Lagoa do Abaet, nem para sentar
e beber em mesa de fregus algum. Nem o banqueiro Fernando Goes, alto, bonito, elegante,
solteiro, farto de dinheiro, as mulheres rojando-se a seus ps, nem ele as obteve; no entanto fora
ao Place s para v-las e estourara champanha francesa. J e M cantavam spirituals e msica de
jazz, danavam com seios e bundas  mostra mas permaneciam juntas e sozinhas at a hora de
entrar em cena, semi escondidas numa discreta mesa de canto, de mos dadas, sorvendo drinques
no mesmo clice. Depois do nmero subiam para o quarto, no queriam conversa com ningum.
     Foi grandiosa a ceia, com vinhos e champanha, as Irms Catunda no mximo de seus dotes
artsticos, uma euforia geral,  exceo do jovem bacharel Barreiros ainda aporrinhado com a
recusa das americanas, "machonas mais escrotas", bebendo com raiva, indiferente aos gorjeios da
gorda Carla a lhe propor consolo e poesia. Na hora da conta, Arigof quase briga com Vadinho ao
negar-lhe direito a contribuir, mesmo com parcela meramente simblica, para o pagamento da
despesa. O negro, ainda com o demnio no corpo, declarou considerar grave insulto  sua honra
qualquer proposta de cooperao financeira.
     Caiu o aniversrio de Dona Flor em semana de tanta pompa e fortuna, Vadinho bem forrado,
a ponto de exibir e cumprir louvvel inteno de fornecer algum numerrio para as despesas da
casa, acontecimento raro e fausto. Dona Norma persistia em saber, ranheta:
     - O que  que voc vai oferecer a sua mulher?
     Vadinho sorriu para a vizinha, dando-lhe o troco:
     - O que vou dar a Flor? Pois vou dar o que ela me pedir, seja l o qu for... O que ela quiser...
     Dona Norma foi em busca da aniversariante: "minha filha, escolha o que quiser"; Dona Flor
veio da cozinha enxugando as mos no avental:
     - E de verdade, Vadinho, que voc me d o que eu quiser? Voc no est mangando comigo?
     - Pode dizer...
     - No vai dar para trs? Posso pedir?
     - Quando eu prometo, voc sabe que cumpro, meu bem...
     - Pois o presente que eu quero  ir jantar no Place com voc.
     Dizia quase a tremer, pois ele jamais a admitira misturada quele seu mundo, e, de toda a
gente do jogo, ela s tinha relaes de amizade com Mirando, seu compadre, nico a freqentar-
lhe a casa amide. Alguns ela conhecia de t-los visto uma vez ou outra, dos demais apenas
ouvira os nomes rebarbativos. Mesmo Anacreon, to da estima de Vadinho, aparecera no
mximo umas cinco ou seis vezes naqueles sete anos e quanto a Arigof viera apenas um domingo
filar o almoo. O mundo de Dona Flor era o da rua, o do bairro, o de suas alunas e ex-alunas,
estendendo-se pelo Rio Vermelho, pela Ladeira do Alvo, por Brotas, relaes com gente bem;
nada tinha a ver com a vida irregular do marido. Vadinho no admitiu jamais Dona Flor nas
suspeitas plagas do jogo, naquelas terras da roleta e dos dados, esposa era para o lar, que diabo
viria fazer em tais ambientes?
      - De mal falado basta e sobra comigo. Tu no  para esse meio.
      No adiantava ela argumentar com o fato notrio de ser o Place Hotel um centro elegante,
local de encontro da mais alta sociedade. Cear em seu aparatoso salo, danando ao ritmo da
melhor orquestra do Estado; assistir  exibio de astros do rdio e do teatro, procedentes do Rio
e de So Paulo, era programa de muito bom-tom. Ali as senhoras da Graa e da Barra exibiam os
ltimos modelos e algumas delas, as mais evoludas, num requinte de desenvoltura, arriscavam
fichas na roleta. A sala de jogo era como uma continuao do salo de dana; larga passagem em
arco estabelecia inexistente e ruinosa fronteira.
     Por que to obstinada recusa? Por que, Vadinho? Dona Flor ia do rogo  exigncia, das
splicas s broncas:
     - Voc no me leva para eu no descobrir suas raparigas...
     - No quero lhe ver nesses lugares...
     Dona Norma no fora ao Place, por mais de uma vez, com seu Sampaio, quando de alguma
atrao sensacional? Os argentinos da cermica, esses no faltavam um nico sbado, apesar do
Bernab ser inimigo de qualquer espcie de jogo. Iam comer, danar, aplaudir os artistas. Mas
Vadinho nunca se deixara convencer e, quando sem argumentos, fugia numa vaga promessa:
     - No h de faltar ocasio...
     Eis que surgira finalmente essa ocasio to recusada. Dona Flor nem quis acreditar, quando
ele, pegado de surpresa e sem recurso para desdizer-se, concordou ainda a contragosto:
     - Se  isso que voc deseja... Um dia tinha de ser...
     E, tendo decidido, logo desdobrou o projeto, ampliando o convite aos tios, a Dona Norma - e
por seu intermdio a Z Sampaio -, a Dona Gisa. Tia Lita agradeceu e recusou: vontade no lhe
faltava, mas onde os vestidos de noite, as toaletes  altura do Place? Mais morta de vontade
ainda Dona Norma, uma noitada no Place era o supra-sumo, mas seu Sampaio foi inflexvel:
vizinha excelente Dona Flor, pessoa de sua estima, e o prprio Vadinho lhe era simptico.
Agradecia o convite, mas, tivessem pacincia, no podia aceitar. Nos dias de semana, seu
Sampaio, as nove da noite, j estava recolhido, punha-se de p as seis da manh para a labuta em
sua loja de sapatos. Fosse soire de sbado ou vesperal de domingo, de acordo e com prazer.
Quanto a Dona Norma ir ao Place sem ser em sua companhia, como aventava Dona Flor,
desculpassem: hiptese absurda, fora de cogitaes. A freqncia de ambientes como aquele, de
jogo e bebidas, caracterizava-se pela mistura do melhor e do pior, numa promiscuidade onde se
introduziam estrinas e libertinos sem noo de respeito s famlias.
     Uma das poucas vezes em que l estivera, arrastado por Dona Norma, ansiosa de ouvir um
chibungo francs (Seu Sampaio nunca vira cabra mais adamado e, no entanto, as mulheres
suspiravam por ele), sucedera desagradvel incidente. Bastou seu Sampaio deixar a mesa por um
momento, premido pela urgncia de ir ao mictrio, e logo um ousado apareceu a querer tirar
prosa com Dona Norma, convidando-a para a pista de dana, a lhe gabar toalete e olheiras, como
se ela fosse uma qualquer. Seu Sampaio s no exemplou o salafrrio porque lhe conhecia a
famlia, sua me, Dona Belinha, e as duas irms gente da maior distino, timas freguesas de sua
loja, como alis o prprio biltre, um habitu do jogo e da boemia, Zequito Mirabeau, tambm
conhecido entre as mulheres- damas como o "belo Mirabeau".
     Reduziram-se assim os acompanhantes  professora Gisa, feliz com o convite: pela
oportunidade de ouvir The Honolulu's Sisters e de poder perscrutar com seu olho sociolgico e
psicanalista o denegrido mundo da jogatina, estabelecendo-lhe a definitiva metafsica.
     Dona Flor passou o resto do dia numa azfama: a decidir, com a ajuda de Dona Norma e de
Dona Gisa, sobre vestido e estola, luvas e chapu, a escolher sapatos e bolsa. Naquela noite, nos
sales do Place, tinha de ser a mais bela de todas, a mais elegante, sem que nenhuma outra
pudesse com ela se medir e comparar, nem senhora fidalga da Graa, com vestidos do Rio, nem
rapariga de banqueiro ou fazendeiro de cacau, com enfeites de Paris. Naquela noite ia finalmente
transpor a vedada porta.

22


     Quando Dona Flor, tremula, ao brao de Vadinho, cruzou a porta do salo do Place Hotel,
numa singular coincidncia a orquestra executava o mesmo antigo e nunca envelhecido tango por
eles danado naquele primeiro encontro em casa do Major Tiririca, ao som do piano de
Joozinho Navarro, durante as festas do Rio Vermelho, na semana da procisso de Yemanj.
Sentindo o corao pulsar mais forte, Dona Flor sorriu para o marido:
     - Voc se lembra?
     Diante deles estava a sala numa meia sombra de luzes camufladas, um abajur de papel
colorido sobre cada lmpada, perfeio de mau gosto; Dona Flor achando tudo lindo, a semi-
obscuridade, as mesas com flores de papel crepom e o abajur, que amor, meu Deus! Vadinho
olhou em torno sem localizar lembrana alguma, tudo lhe era familiar e intimo, mas nada daquilo
se referia a Dona Flor.
     - De que, meu bem?
     - Da msica que est tocando. E a mesma que a gente danou no dia que se conheceu... Na
festa do Major, se lembra?
     Vadinho sorriu: " mesmo...", enquanto ocupavam a mesa reservada, mesa de pista bem em
frente  passagem a unir os sales, o de dana e o de jogo. Dali, sentadas, Dona Flor, e Dona
Gisa podiam apreciar todo o movimento, evolues de danarinos, agitao de jogadores. Ainda
de p, Vadinho examinou a pista ocupada apenas por dois pares mas dois pares de to emritos
tanguistas a ponto de mais ningum se atrever a competir com eles. As damas eram duas das
irms Catunda.
     A mais velha e negra tinha de cavalheiro a um tipo alto e romntico, roupa na ltima moda,
jeito de gal sul-americano de cinema, ar de gigol. Vadinho soube depois, ao ser-lhe
apresentado, tratar-se de paulista a passeio na Bahia, Barros Martins de nome, honesto editor de
livros e, como  bvio, em se tratando de um editor, riqussimo. Um retado no tango, com
modos e competncia de profissional, traando letras, como se diz, numa execuo impecvel de
laboriosos passos.
     A mais nova e branca, nos braos de Zequito Mirabeau, o mesmo "belo Mirabeau" das
marafonas e da encrenca com seu Z Sampaio. De olhos voltados para o alto, mordendo o lbio,
levando de quando em vez a mo nervosa  cabeleira esvoaante, no fazia por menos o baiano,
desdobrando seu tango na maior maciota, a chuetar do paulista em floreios e requintes; um tango
barroco.
     Vadinho observou a cena e, ainda a sorrir, estendeu a mo a Dona Flor e lhe props,
ajudando-a a levantar-se da cadeira:
     - Meu bem, vamos dar um quinau nesses cois? Vamos ensinar a eles como  que se dana
tango?
     - Ser que ainda sei? Faz tanto tempo que no dano, estou com as juntas emperradas...
     Danara pela ltima vez h mais de seis meses, quando Vadinho, por qualquer milagre, fora
com ela a um assustado em casa de Dona Emina, brincadeira de aniversrio. Vadinho era exmio
p de valsa, e Dona Flor danava bem e gostava de danar. Um de seus motivos de permanente
desgosto residia no fato de quase nunca danarem os dois, devido a muito de raro em raro
acompanh-la Vadinho s festinhas em residncias amigas. E, sem o marido, reduzida  animao
dos comentrios, dos fuxicos, das mesas de doce, no lhe passava sequer pela cabea a idia
subversiva de danar com outro cavalheiro, coisa que mulher casada s pode fazer com expresso
consentimento e na presena de seu senhor esposo. Vadinho, sim, espalhava-se  farta, sem
controle, por esse mundo a fora, em cabars e gafieiras, em forrobods e fovocos, no Place, no
Tabaris, no Floz, com quengas e bruacas.
     Em casa dos vizinhos tinham feito uma verdadeira exibio de sambas e foxes de rancheiras e
marchas. Doutor Ives e Dona Emina quiseram acompanh-los - pretenso e gua benta todo
mundo tem -, logo desistiram. Arrastavam os ps direitinho, mas para competir com Dona Flor e
Vadinho eram acanhados demais.
     Uma coisa danar em festinha de aniversrio, muito outra sair pelo salo do Place nos apuros
de um tango arrabalero, e logo aquele! Tudo comeara quando, h sete anos atrs, ele a tirou para
danar aquele mesmo tango em casa do Major Pergentino. Saberia ainda dan-lo tanto tempo
depois e, ao demais, nessa noite quase mgica quando vem ao Place pela primeira vez? Sem
adivinhar que essa primeira vez seria a ltima, primeira sem segunda, noite sem retorno.
     S agora, na solido da memria e do desejo, ela se d conta da importncia de cada detalhe,
por mais nfimo, dessa noite de quimera: desde a entrada no salo de dana at o derradeiro
minuto de prazer infinito, de desbragada impudiccia no leito de ferro, com ele a lhe cobrar, na
raiz de seu corpo, o presente de aniversrio: a ida ao Place.
     Dois gestos de Vadinho, ambos igualmente ternos e imperiosos, marcam para Dona Flor o
incio e o fim daquela noite de sortilgio. O primeiro, na hora do convite para o tango, quando, a
sorrir, ele lhe estendeu a mo e assim a conduziu  pista de dana. O outro foi no leito em
desalinho e tempestade: ele a volteou pelos ombros... Mas j o recordar, a esse tremendo gesto,
quando a ele chegar em seu devido momento, nessa caminhada com Vadinho atravs  noite de
seu aniversrio. Vai devagar, passo a passo, detalhe a detalhe, demorando nas escalas; arribar a
cada parto de alegria, de medo ou de luxuria.
     Na pista de dana o brao de Vadinho a envolve e ela sente seu corpo leve na cadncia da
msica. Busca ento dentro de si aquela mocinha em frias no Rio Vermelho, caladona, sem
namorado, tmida no quadro do pintor sergipano, a colher flores no jardim de tia Lita e a
desabrochar de sbito nas noites de quermesse quando a mo de Vadinho lhe acendeu seios e
coxas e sua boca a queimou para sempre.
     No salo do Place iam os dois a danar, num tango de doura e de volpia, to de jovens
inocentes namorados e to de lbricos amantes. Era como se houvessem retornado ao fascnio
da casa do Major, ao impacto do primeiro encontro, do primeiro olhar, do riso inicial, do enleio;
sendo tambm os maduros amantes de sete anos depois, um tempo longo de padecer e amar.
Casta donzela, Dona Flor, mocinha cndida; desabrochada mulher e ardente fmea, Dona Flor,
nas mos de Vadinho, seu marido. Tango igual a esse jamais fora danado, assim transparente de
ternura, assim obscuro de sensualidade. At da sala de jogo veio gente apreciar.
     O paulista dos livros, com sua experincia dos cabars de So Paulo, Rio e Buenos Aires, e
Zequito Mirabeau com todo seu convencimento, deram-se por vencidos e abandonaram a pista
toda inteira livre para Dona Flor e Vadinho em sua noite de paixo.
    Quem era a dama de Vadinho? - perguntavam-se os habitus. Alguns sabiam, a informao se
espalhou clere: " a esposa dele,  a primeira vez que vem aqui..." A mais graciosa das irms
Catunda, a do meio, fez um muxoxo de pouco caso, mordida de cime.
    Aps o tango, ao voltarem  mesa, onde Vadinho, tendo encomendado ceia e bebidas, atendia
s perguntas de Dona Gisa, com informaes sobre coisas e pessoas, persistiu a curiosidade em
torno a Dona Flor. Flutuava no ar, como se um halo de furtivos olhares e mastigados cochichos
a cercasse, como se ela no coubesse na atmosfera da sala, feita  medida das senhoras da nata
social, baronesas da Graa, no-me-toques da Barra, e das cortess mais caras e de ofcio menos
evidente.
    Dona Flor sente uma espcie de distante vertigem ali sentada no salo. Um pouco zonza, indo
do contentamento ao medo, incerta sobre a significao desses olhares de relance, desses gestos
esquivos; eram de simpatia ou de mofa esses sorrisos? Mal escuta os informes de Vadinho:
      - Tem para mais de setenta anos... S joga bacar e s aposta ficha de cinco contos. J teve
noite de perder mais de duzentos... Uma vez os filhos vieram - dois ordinrios e uma catraia
acompanhada do marido - e quiseram levar ele a pulso, pintaram o diabo. O pior de todos era a
filha, uma cobra a atiar os irmos e o chifrudo do marido... Agora esto fazendo um processo
para provar que o velho est broco, de miolo mole, no presta mais pra governar o dinheiro
dele...
     Dona Gisa estende o pescoo para melhor espiar o ancio de finos cabelos brancos, quase
pele e osso, mas firme nas pernas, apoiado a uma bengala, o rosto tenso, uma ltima luz cpida
nos olhos, como se apenas a inspirao do jogo o sustentasse vivo.
     - Afinal quem trabalhou e ganhou o dinheiro todo, no foi ele? - pergunta Vadinho, numa
revolta contra a famlia do velho. O que foi que os filhos fizeram, alm de gastar? So uns boas-
vidas, nunca prestaram pra nada. E agora querem dar diploma de demente ao prprio pai, trancar
o infeliz em casa ou no hospcio... Eu metia essa canalha toda na cadeia, a comear pela vaca da
filha, mandava dar uma surra de faco em cada um...
     Dona Gisa discordou: esse negcio de dinheiro tinha implicncias srias. O velho, em sua
opinio, no era assim to dono de delapidar no jogo a sua fortuna, pois a famlia possua direitos
legais...
     Interrompeu-se a lio de economia poltica de Dona Gisa, porque o paulista fez questo de
vir cumprimentar Vadinho e Dona Flor.
     - Vadinho, o meu amigo aqui quer lhe conhecer, ouviu falar muito de voc e lhe viu danar...
E um grado de So Paulo...Zequito Mirabeau fazia as apresentaes, voltava-se para o forasteiro
- Vadinho, voc j sabe, ... - a presena de Dona Flor continha-lhe a lngua. -...Bem,  um
amigo...
    Vadinho, a voz quase solene, introduzia as senhoras:
- Minha esposa e uma amiga, Dona Gisa. Americana, um poo de saber...
    Dona Flor estendeu a ponta dos dedos, de repente igual a uma tabaroa qualquer. O paulista
curvou-se, beijou-lhe a mo:
     - Jos de Barros Martins, um seu criado. Parabns, minha senhora, raramente vi um tango to
bem danado... Admirvel!
     Beijava em seguida a mo de Dona Gisa e, como a orquestra iniciasse um samba de sucesso,
lhe perguntou:
     - Dana o samba? Ou, sendo americana, prefere esperar um blues...?
     Vadinho punha a perder toda a finura do paulista:
     - Qual o qu!... Essa gringa rebola que  uma beleza . .
     - Vadinho, que  isso, se assunte... - Dona Flor ralhando a sorrir.
     Dona Gisa nem ligava; em vez de ficar escabreada, saa pelo brao do industrial, requebrando
a bunda magra, a confirmar as palavras do abusado. Nisso, a face de Vadinho se ensombreceu,
Dona Flor logo descobriu a causa: uma das trs mulatas da mesa de Zequito Mirabeau, bonitinha
de fazer gosto, tambm se aproximara, rondando ali perto. Media Dona Flor de alto a baixo
como em desafio, enquanto interpelava Mirabeau, muito melosa e oferecida:
     - Como , querido, e nosso samba? Estou esperando, venha logo... .
     Mirada de desdm a Dona Flor, uma de fria para o lado de Vadinho, o sorriso mais angelical
e tentador para Zequito:
     - Vamos, negrinho...
     Dona Flor evitou olhar para Vadinho. Silncio incmodo a separ-los, ela voltada para a pista
de dana, os olhos apertados, ele fitando a sala de jogo. Por que ela quisera vir? perguntava-se
Vadinho. Por essas e outras, ele sempre se opusera. E agora, logo em festa de aniversrio, em vez
de estar alegre, a pobre mordia os lbios para no chorar. A burra da Zilda lhe pagaria caro.
Vadinho aproximou a cadeira, tomando da mo de Dona Flor, e lhe disse ao ouvido, numa
ternura que ela sentiu verdadeira:
     - Meu bem, no fique assim. Voc quis vir, aqui no  lugar pra voc, meu bicho tolo. Ser
que agora tu vai ligar para essas vagabundas daqui, vai se importar com elas? Tu veio pra ficar
alegre comigo, faz de conta que aqui s tem ns dois e mais ningum... Larga pra l essa pinia,
no tenho nada a ver com ela...
     Dona Flor deixava-se enganar fcil, queria ser convencida, as lgrimas rebentando, a voz
lamurienta:
     -  mesmo que tu no tem nada com ela?
     -  ela que anda atrs de mim, voc no v? Deixa isso pra l, meu bem, essa noite  de ns
dois, tu vai ver quando a gente chegar em casa... No vou nem jogar hoje, s pra ficar junto de
voc...
     A mulatinha passava a rebolar-se, agarrada ao belo Mirabeau, e ele quase em transe, mordendo
o lbio, os olhos no teto. Dona Flor pediu:
     - Vamos danar tambm?
     Danaram o samba, depois um passo-doble. Ela quis ento conhecer a sala de jogo. Vadinho a
conduziu, disposto a lhe satisfazer todos os caprichos. Dona Gisa foi junto, saltitante, a querer
saber de um tudo, um inferno! Nem o valor das cartas ela conhecia e nunca vira um dado em
sua vida.
     Dona Flor ia contrita numa mudez de quem se insinua em templo secreto, defeso aos no
iniciados. Finalmente conseguira atingir e penetrar o misterioso territrio onde Vadinho era
milionrio e mendigo, rei e escravo. Bem sabia ter chegado apenas a uma nesga desse cho
noturno,  orla desse mar de chumbo. Ali comeava um tempo de sonho e de aflio; as salas do
Place eram a rica e luminosa capital desse mundo, dessa seita, dessa casta. Para mais alm, nos
caminhos da noite da cidade, aquele territrio de farras e agonias, de fichas ,e mulheres, de lcool
e entorpecentes (cocana, morfina, herona, pio, maconha, Dona Flor arrepiava-se s de
recordar os nomes),  prosseguia nos cabars, nas casas de tavolagem, nos castelos, nas penses de
mulheres, nos antros ilegais, na zona imunda e pululante como um mosqueiro, nos sombrios
esconderijos dos fumadores de maconha. Por esses atalhos Vadinho se movia indmito, Dona
Flor, ante a mesa de roleta, tocava humilde a fmbria desse mundo.
     Para mais alm do Place, com sua categoria "estritamente familiar", como diziam os
anncios, com suas luzes e suas sombras, um abajur sobre cada mesa -, os lustres de cristal, a
orquestra de primeira, as senhoras da alta sociedade, as raparigas de luxo, as tedas e mantedas e
as escoteiras, os coronis do cacau, do gado, do acar, os ricaos da cidade, os moos bomios e
os vigaristas, para mais alm do Place, nas encruzilhadas da noite pobre e despida de ouropis,
estendia-se o mistrio de Vadinho, sua ltima verdade.
     Num trnsito rpido Dona Flor auscultou essa louca geografia, oceano de suas lgrimas, vales
e montanhas de sua dura espera, de seu sofrido amor. Dona Gisa ao contrrio: vagarosa,
fascinada pelos rostos dos jogadores, por seus gestos. Um deles falava sozinho, evidentemente
furioso consigo mesmo. Fosse por seu gosto, a professora no iria mais embora. Mas o garom,
numa deferncia a Vadinho, seu liga, vinha lhe avisar estar servida a ceia e prxima a hora das
atraes.
     Voltaram  sala de dana e deram com Mirando, recm-chegado. Que milagre era aquele, sua
comadre no Place, viera disposta a estourar a banca? Seu aniversrio? Meu Deus do cu, como
pudera esquecer? Nu dia seguinte mandaria a patroa com o afilhado e uma lembrana. "Basta
com a comadre e o menino", disse Dona Flor, para desobrig-lo do compromisso e porque j
ganhara naquele aniversrio o seu presente, no queria mais nenhum: ali estava com Vadinho,
no queria mais nada.
     A comida no era l essas coisas, arroz sem sal, carne sem gosto, mas que delicado Vadinho a
servi-la, a lhe dar na boca os melhores pedaos de seu frango! Dona Flor j no sentia medo nem
acanhamento.
    As luzes se apagaram por completo para imediatamente de novo se acenderem, e ento Jlio
Moreno, o cabareti, anunciou as atraes. Primeiro as Irms Catunda, uma lstima de voz, sbia
exibio de seios e ancas:

"Vo danar a noite inteira, Rancheira... Rancheira...

    A petulante era a mais bem feita e mimosa das trs, Dona Flor no podia desconhecer, negar
aquela verdade quase nua. Mas Vadinho nem ligava para as mulatas, mais interessado em
saborear a sobremesa. Agora era Dona Flor quem olhava com desdm; tomou da mo de seu
marido, ficaram os dois conversando e sorrindo, enquanto as gentis irms se desdobravam por
entre o jogo de luzes, seios em azul, ancas em vermelho.
     Vieram depois The Honolulu's Sisters com um canto poderoso e triste, gemido de negros em
correntes, reza de escravos, dor e revolta de homens humilhados. At o sexo era triste, at os
corpos to belos, pensou Dona Flor. As mulatinhas Catunda, desafinadas e modestas, pareciam
um soar de guizos, um trinado de pssaros, um raio de sol, corpos de vio e sade em
comparao a J e M com seu lamento sem esperana. As Catundas danavam em preceito aos
orixs, aos alegres e ntimos deuses negros, vindos da frica e na Bahia cada vez mais vivos. As
negras americanas dirigiam sua splica aos austeros e distantes deuses brancos dos senhores,
impostos aos escravos no lanho das chibatas. Umas eram o riso salto, as outras o pranto
desolado.
     - Reparem nelas... So amantes... - informou Vadinho.
     Dona Flor j ouvira falar na existncia de mulheres assim mas no acreditara; e ainda ali pensa
ser burla de Vadinho, invenes absurdas, molecagem.
     - No h homem chibungo, meu bem? Pois h mulher que s gosta de mulher...
     - Uma pena - disse Mirando. - Dois peixes desses e no querem saber de conversa com
homem...
     Dona Gisa confirmava: "tais casos eram at bastante comuns nos pases mais civilizados".
"Vai ver e so somente moas srias..." ainda defendeu Dona Flor. Queria ouvir o canto puro e
doloroso, sem misturar  sua grandeza a tara das mulheres, sua doentia condio, sua sina. Msica
de sangue derramado, ltego de fogo.
     - Meu bem, vou ali e volto j,  um minuto...
     Vadinho atravessou rpido para a sala de jogo, deixando Dona Flor sozinha com o dilacerante
canto dos escravos.
     As luzes se acenderam, soaram aplausos, Dona Flor viu quando M deu a mo a J e juntas se
retiraram para seu amor de maldio. O paulista voltou a danar, Zequito Mirabeau reunira-se aos
jogadores.
     Bem gostaria Mirando de acompanhar Vadinho e Mirabeau: mas o compadre o deixara ali,
fazendo companhia s senhoras, no podia abandon-las. E essa professora com suas perguntas
mais idiotas: como diabo ia ele saber se o jogo era ou no fator de importncia sexual?
Minha cara senhora, oua: Mirando nascera praticamente em mesa de jogo e tudo quanto podia
garantir  que ele era homem e muito homem; nunca ouvira falar que jogo afrouxasse ningum.
     Dona Flor enxergava Vadinho na outra sala, movendo-se ante a mesa da roleta, apostando,
cercado de homens e mulheres. A mulatinha viera colocar-se-lhe ao lado e, em certo momento,
descansou a mo em seu ombro e ali a manteve enquanto Vadinho seguia, tenso, o rodopio da
bola na hora solene e decisiva. Dona Flor chegou a semi levantar-se na cadeira, numa indignao,
sentindo-se naquela noite capaz de tudo, de escndalo e violncia, de agir, se necessrio, como a
mais reles e perdida mulher-dama de esquina. Mas logo sorriu porque Vadinho, aps o crupi
cantar o nmero fatal, deu-se conta do gesto insolente de Zilda Catunda, desviou o ombro e algo
de rspido lhe disse pois a atrevida sumiu num repelo de calundu.
     Vadinho, aps olhar Dona Flor, veio vindo em sua direo, as mos cheias de fichas. Na
mesa, Mirando, enroscado nas perguntas scio-econmico-sexuais de Dona Gisa, consolava-se
de sua ignorncia com restos de vermute doce, um asco!
     Vadinho curvou-se num segredo, a boca  altura do ouvido de Dona Flor:
     - Oua, meu bem, s mais duas ou trs paradas e a gente vai embora. No demora nada, j
mandei recado para o Cigano esperar com o carro. Te prepara que hoje vou te dar uma surra de
cama... - e, acercando ainda mais a boca, mordeu-lhe a orelha e a lambeu, brisa e labareda.
     Dona Flor, o corpo em mido arrepio, abriu-se num suspiro. .Ah! Vadinho mais doido, e se
algum visse, que no havia de dizer? Vadinho mais tirano, Vadinho mais sem jeito!
     - No demore...
     As mos prendendo as fichas, ele reassume seu lugar em frente ao crupi na mesa de roleta.
Um pouco curvado, os cabelos loiros, o atrevido bigode, a insolncia do sorriso. Porreta.
     Dona Flor o fitou longamente, ao seu Vadinho. Depois foi juntando cada detalhe daquela
noite e cada instante de sua vida com ele, do comeo ao fim, sem faltar nenhum: na dor e a
alegria.
     Da roleta, Vadinho fez um sinal, era a ltima parada, o txi do Cigano  espera, uns minutos
apenas. "No, meu querido, no mais irei contigo para a festa dessa noite quando a gota de fel
rompeu-se em mel, mar imenso de dar e receber". Dona Flor fitou Vadinho para sempre ante a
mesa de jogo, a ficha lanada no 17. Reunindo ento o seu carrego todo inteiro, ela o enterrou no
corao. Virou de bruos no leito de ferro, cerrou os olhos, dormiu seu sono sossegado.

23

     Ao completar-se um ms da morte de Vadinho, aps assistir a missa, Dona Flor dirigiu-se ao
Mercadinho das Flores, no Cabea. Pela segunda vez saa de casa desde aquele singular domingo,
quando a morte golpeou, no Carnaval. A primeira, fora para a missa de stimo dia.
     Veio andando da Igreja por entre a curiosidade do povo. Do balco do bar, Mendez a
cumprimentou, e seu Moreira, o portugus do restaurante, com um berro, advertiu a mulher,
ocupada na cozinha: "depressa, Maria, vem ver a viva". Na rua, trs ou quatro homens, entre os
quais o janota argentino, seu Bernab, tiraram-lhe o chapu.
     Na esquina do aougue, a negra Vitorina se ps de p, atrs de seu tabuleiro de abars e
acarajs: "Salve minha iai, att, att!" Na porta da Drogaria Cientfica, doutor Teodoro
Madureira, o farmacutico, inclinou-se em grave reverncia, na exata medida do pesar e da
aflio. O professor Epaminondas Souza Pinto, afobado e areo como sempre, livros e cadernos
sob o suor do sovaco, estendeu-lhe a mo:
    - Minha cara senhora... A vida... O inevitvel...
     Os bbados do botequim, no aperitivo matinal, os fregueses do armazm, o fazendeiro
Moyss Alves a escolher especiarias para seus insignes almoos, saram a v-la, inclinavam-se em
silncio. O santeiro Alfredo, amigo do tio Thales, estabelecido ali perto com sua porta de
imagens, abandonando a madeira onde esculpia, colocou-se  sua disposio:
    - Bom dia, Flor. Posso lhe ser til?
     Acorreram os vendedores com a mercadoria. Ela comprou rosas e cravos, palmas e violetas,
dlias e saudades.
     Um negro alto e magro, perfil agudo, face enigmtica, ainda relativamente jovem, ouvido com
ateno e respeito por mecnicos e choferes do ponto de txis, - ao saber a identidade de Dona
Flor e o motivo dessa compra de flores, dela se aproximou a lhe solicitar algumas de emprstimo
e por um momento apenas. Um pouco surpresa, Dona Flor o satisfez, estendendo-lhe o colorido
ramalhete onde ele prprio escolheu, num cuidado ritual, trs cravos amarelos e quatro saudades
roxas; quem seria esse homem e por que tomava dessas poucas flores?
     Do bolso do palet extraiu um fio tranado de palha da costa, um mokan, com ele amarrando
cravos e saudades num pequeno buqu e dando um n.
     - Desamarre quando arriar na cova de Vadinho. E para o egun dele se aquietar - e disse em
nag, diminuindo a voz: - Aku ab!
     Eis que o negro era o babala Didi, zelador da casa de Ossain, mago de If; e s passado
muito tempo Dona Flor aprenderia seu nome e seus poderes, sua fama de adivinho, seu posto de
Koriko Uluktum no terreiro dos eguns, na Amoreira.
     Vestia-se Dona Flor toda em negro, da cabea aos ps, luto fechado pois apenas um ms
decorrera desde a morte do esposo. Mas o pequeno vu sobre os retintos cabelos quase azuis no
lhe cobria o rosto e aquela expresso de angstia suicida j no lhe marcava a face. Triste ainda,
mas nem desesperada nem vazia.
     Cercada pela leveza do ar nessa manh transparente, to formosa de luz e to  medida do
homem que era um privilgio vive-la, Dona Flor, levantando a vista do cho, voltou a olhar e a
ver o espetculo da rua e a cor do dia.
     Por entre cabeas se descobrindo ou se inclinando, a recolher gestos e palavras de conforto e
simpatia, em meio ao bulcio da cidade, gente a passar, a conversar, a rir, Dona Flor caminhou
com seu buqu de flores destinadas  campa de Vadinho. Ia em direo ao cemitrio mas era na
vida que de novo penetrava; hei-la de retorno, convalescente ainda.
    No a mesma Dona Flor de antes, com certeza; enterrara algumas emoes e certos
sentimentos, o desejo, o amor, assuntos de cama e corao pois era viva e respeitvel.. Viva,
porm, capaz de sentir a luz do sol e a doce aragem, capaz de riso e de alegria, conformada.


Parte III


DO TEMPO DO LUTO ALIVIADO, DA INTIMIDADE DA VIVA EM SEU
RECATO E EM SUA VIGLIA DE MULHER MOA E CARENTE; E DE COMO
CHEGOU, HONRADA E MANSA, AO SEU SEGUNDO MATRIMNIO QUANDO
O CARREGO DO DEFUNTO J LHE PESAVA SOBRE OS OMBROS

(com Dona Dinor na bola de cristal)

ESCOLA DE CULINRIA SABOR E ARTE

CGADO GUISADO E OUTROS PRATOS INCOMUNS

     Algum h dias perguntou, penso ter sido Dona Nair Carvalho pois ela gosta de servir do
bom e do melhor, o que oferecer a um hspede de requinte, de paladar esnobe, todo exigente,
um artista, enfim, reclamando papa fina, quitutes incomuns, nada a
     Pois recomendo servir uma delcia: cgado guisado - e lhes forneo uma receita que me foi
ensinada por minha mestra de molhos e temperos, Dona Carmem Dias, receita mantida em
segredo at agora. Podem copi-la do caderno. E, se bem recordo, cgado  c orix em
candombl, tendo me dito minha comadre Dionsia, filha de Oxssi, ser o cgado o prato
predileto de Xang.
     Alm de cgado, recomendo caas em geral e, em particular, um ensopado de tei, carne tenra
nos perfumes do coentro e do alecrim. Se lhes for possvel, apresentem, envolto em folhas
aromticas, um caitet assado inteiro, Ah! o rei dos grandes pratos, sabor de selva e liberdade.
     Mas, se vosso hspede quer ainda caa mais supimpa e fina, se busca o non plus ultra, o
xispete, o supra-sumo, o prazer dos deuses, porque ento no lhe servir uma viva, bonita e
moa, cozinhada em suas lgrimas de nojo e solido, no molho de seu re nos ais de sua carncia,
no fogo de seu desejo proibido, que lhe d gosto de culpa e de pecado?
     Ai, eu sei de uma viva assim, de malagueta e mel, em fogo lento cada noite cozinhada, no
ponto exato para ser servida.

CGADO GUISADO

  (receita de Dona Carmem Dias, tal como ela forneceu a Dona Flor, tendo esta permitido
a suas alunas cpia e prova)

         "Toma-se um cgado, depois de morto pelo processo (brbaro) de serragem pelos lados,
devendo a cuia no sofrer danos. Pendura-se o bicho pelas patas traseiras, corte-se-lhe a cabea, e
que ele assim permanea, durante uma hora, para que o sangue  animal de ventre para cima, deve-
se decepar seus ps, com o cuidado de deixar as pernas (ou botas), afastando-se a pele grossa que
as recobre. Retira-se ento a carne, os midos (fgado e corao) e ovos (se os houver), jogando-
se fora as tripas, operao que requer cuidados especiais, cada trabalho feito em separado. Lava-
se tudo, carne e vsceras, que, maceradas nos seguintes temperos, devero ir a fogo brando at
atingir colorao de ouro escuro e aroma especfico; - sal, limo, alho, cebola, tomate, pimenta, e
azeite, azeite doce  vontade. Este prato deve ser servido com batatas do reino cozidas em gua
sem sal, ou farofa branca recoberta de coentro."

1

     Ao cumprir seis meses de viva, Dona Flor aliviou o luto at ento fechado em novembro,
obrigando-a na rua ou em casa, a negros vestidos sem decote. nica nuance nessa negritude: as
meias cor de fumo.
     Por isso, naquela manh, as alunas (turma nova, numerosa e simptica), ao v-la de blusa alva
estampada com guirlandas escuras, um colar de prolas falsas ao pescoo e leve trao de batom
nos lbios, prorromperam em entusisticos aplausos  alegre professora. Ainda devia ela esperar
outros seis meses para o verde e o rosa, o amarelo e o azul, o vermelho e o havana; e para as
novas e sensacionais cores da moda: azul- rei, azul-pervanche, hortnsia, verde-mar.
     A "alegre professora", sim. Como no verso de Dona Mag Paternostro, a rica. Porque, em
verdade, Dona Flor aliviara o luto interior, despira os vus da morte, quando, na vspera da missa
de ms, enterrou dentro de si o carrego do falecido. Manteve, em respeito aos costumes e aos
vizinhos, o rigor do preto, retomando, no entanto, seu riso manso, sua atenta cordialidade, seu
interesse pelas circunstncias dirias, seu capricho de Dona de casa. Ainda com uma sombra de
melancolia a faz-la vez por outra pensativa e a dar  sua formosura domstica uma nova
qualidade, certo encanto nostlgico; curiosa, porm, da vida em derredor, imprimindo vigoroso
alento  Escola de Culinria, de cujo renome descuidara naquele primeiro ms.
     Cerrou a boca ao nome do finado, parecendo t-lo esquecido por completo, como se, aps a
crise e a obsesso, viesse a concordar com Dona Dinor e suas comparsas, no fato de ter sido a
morte do ordinrio uma carta de alforria, encontrando-se por fim de acordo a viva e as beatas.
Em aparncia, pelo menos.
     Naquela ocasio da missa de ms, ao volver da visita  campa onde depusera as flores e o
preceito do adivinho, o mokan de Ossain, abriu as janelas da sala de visitas permitindo finalmente
 luz do sol iluminar a casa, varrendo sombras e espectros. Tomou da vassoura, do espanador, de
trapos e escovas, e atirou-se ao trabalho.
     Dona Rozilda props-se a ajud-la, mas, em limpeza to completa, tambm ela se foi de volta
a Nazareth das Farinhas, quando filho e nora comeavam a alimentar as clssicas esperanas de
melhores dias. Afinal, quem mais necessitada da permanente companhia, do afeto e da assistncia
da me, seno Dona Flor, recm- viva e inconsolvel? Dona Flor sozinha, e indefesa, exposta
aos mltiplos perigos de seu ingrato estado  era justo fosse Dona Rozilda, me experiente e
intrpida, residir com a filha desprotegida, ajudando-a no trato da casa e na soluo dos inmeros
problemas. Quem sabe maravilhoso milagre sucedera, vendo-se enfim o casal e a cidade de
Nazareth livres da me e sogra, to mais sogra do que me? Celeste, nora e serva, fizera promessa
de valia a Nossa Senhora da Aflio.
      Suas preces no obtiveram eco; mais forte o santo de Dona Flor, defendida, sem sequer o
saber, nos axs e pejis dos candombls, por fora do rei de Ketu, Oxssi, orix de sua comadre
Dionsia (Ok!). Assim, foi a viva quem se livrou de Dona Rozilda que, alis, no se fora antes
de pura m-criao, de rabugice, de pirraa aos vizinhos. Pois apeteceu aos vizinhos tiraniz-la,
impor-lhe condies de convivncia.
     Ali, na capital, vivia em desconforto, casa pequena, sem um quarto s para ela, dormindo em
cama de vento na sala onde Dona Flor lecionava as aulas tericas, sem armrio prprio para seus
terns, enquanto to ampla a casa do filho, com sobras de cmodos. Em Nazareth, ao demais e
sobretudo, ela, Dona Rozilda, era algum. No se impunha apenas como me de seu Heitor -
funcionrio de categoria da Estrada de Ferro, segundo secretrio do Clube Social Farinhense, um
dos melhores tabuleiros de gamo e dama da cidade (eclodindo nele a frustrada vocao de seu
Gil), um zarro no desenho: copiava a fisionomia de qualquer vivente e reproduzia a lpis cromos
de folhinha -, era ela prpria ornamento e evidncia da melhor sociedade nazarena, onde exibia
suas relaes metropolitanas, a famlia Marinho Falco, Dr. Zitelmann Oliva e Dona Lgia, o
jornalista Nacife, Dona Mag, o industrial Nilson Costa e sua chcara no Matatu, e antes de tudo
seu compadre doutor Lus Henrique, o "cabecinha de ouro", orgulho da terra.
     Na capital, nem mesmo no mundo daquela pequena burguesia apenas remediada, circunscrito
a umas poucas ruas entre o Largo Dois de Julho e Santa Tereza, nem mesmo ali lhe davam
ateno e importncia; ao contrrio, haviam-lhe tomado birra. As amigas mais ntimas de sua
filha, Dona Norma, Dona Gisa, Dona Emina, Dona Amlia Ruas, Dona Jacy, no tiveram pejo
em responsabiliz-la pelo estado desalentador da viva, pondo a culpa em seus maus bofes, nas
recriminaes e nos insultos, na absurda quizlia com o morto. Ou bem mudasse de atitude,
largando o falatrio e as maldies  memria do genro, ou fosse embora. Um ultimatum.
     Por isso mesmo, em reao a to inominvel acinte, Dona Rozilda prolongou a visita apesar
do desconforto da casa e das restries da vizinhana. (Dona Jacy at arranjara ama para Dona
Flor: uma encardida Sofia, sua afilhada). Apressou-se a viajar, no entanto, aps a missa de ms, ao
ter notcias, atravs do compadre doutor, de sua designao pelo reverendo Walfrido Moraes para
o alto cargo de tesoureira da Campanha em Benefcio das Novas Obras da Catedral de Nazareth,
em cujo Conselho Diretor esplendiam a esposa do Juiz de Direito (Presidenta), do Prefeito
(Primeira Vice), do Delegado (Segunda) e outras eminncias sociais da terra. H muito almejava
Dona Rozilda pertencer ao rol das diretoras, mesmo como ltima vogal da lista; de repente saa
tesoureira, nada menos. O Divino Esprito Santo iluminara o padre Walfrido, antes to reticente
s suas investidas.
    Ao sacerdote custara vacilaes e dvidas tal despacho, mas o influente conterrneo a quem
recorrera para obter o pagamento de substanciosas verbas estaduais, condicionou sua decisiva
ajuda  posse de Dona Rozilda num cargo de inveja na pia congregao das beatas. Chantagem
miservel, pensou o vigrio, curvando-se a ela, no entanto, pois tinha urgncia da bolada e, sem a
interveno do doutor Lus Henrique, como apressar a mquina burocrtica?
     Nas antevsperas, Dona Gisela, com quem por vezes o doutor discutia sobre os destinos do
mundo e as imperfeies do ser humano, informara-lhe:
     - Se Dona Rozilda no for embora, a pobre Flor no ter descanso nem para esquecer... E ela
precisa esquecer, est complexada,  um curioso caso de morbidez, caro doutor, que s a
psicanlise pode explicar. Alis, Freud cita um exemplo...
    Dona Norma, que com ela viera, interrompia em tempo:
     -  uma caridade que o senhor faz, doutor... Bote essa peste longe daqui, mande pra Nazareth,
que ningum agenta mais...
     "Pobre Heitor, pobre Celeste, pobres crianas...", lastimou o doutor e padrinho. Mas, entre
Dona Flor, viva e freudiana, e o casal j na cangalha de Dona Rozilda h anos, no lhe coube
vacilao: sacrificou o afilhado e a gentil esposa, em cuja casa almoava e sempre bem em suas
constantes idas ao Recncavo.
     Cada qual com sua cruz, decidiu ele; a dela, Dona Flor a carregara sete anos a fio: aquele
marido, pesado lenho. No era justo agora, na esteira da viuvez, empurrar-lhe Dona Rozilda, um
calvrio completo: cruz, coroa de espinhos, vinagre e fel.
     Sem Dona Rozilda, s de raro em raro as xeretas da vizinhana traziam  baila o nome do
maldito, em respeito s exigncias de Dona Norma e de Dona Gisa, e tambm porque Dona Flor
retomara o curso normal da vida, aps atravessar as infindas areias da ausncia. No a vida de
antes e, sim, um calmo viver, pois sem a presena do esposo, sem suas implicaes: os sustos, os
desgostos, os aperreios, o desespero. Tudo isso acabara, Dona Flor habituou-se a dormir a noite
toda, de um sono s. Deitava-se relativamente cedo, aps a prosa habitual com Dona Norma
no crculo das amigas, as cadeiras na calada, comentando acontecimentos, programas
radiofnicos e filmes. Ia ao cinema com Dona Norma e seu Sampaio, com Dona Amlia e seu
Ruas, com Dona Emina e doutor Ives, apreciador entusiasta de pelculas de faroeste. Aos
domingos almoava no Rio Vermelho, em casa dos tios; tio porto com a eterna mania das
paisagens; tia Lita comeando a envelhecer, mantendo, porm, seu jardim e seus gatos em
esplendor.
     No quisera Dona Flor aderir  animadssima roda de bisca e trs-setes em casa de Dona
Amlia; at Dona Enaide vinha do xame-xame para  tarde no carteado. As fanticas da bisca, as
devotas do trs-setes fizeram o possvel para conquist-la, sem obter resultado, como se o
falecido houvesse gasto toda a quota de jogo da famlia, no restando nada para ela. Pior inimigo
da jogatina s mesmo o portenho da cermica, seu Bernab; Dona Nancy, doida por uma
mozinha de bisca, e o dspota irredutvel: no mximo e por favor, os solitrios jogos de
pacincia, nada alm.
     Decorria assim tranqila a vida de Dona Flor, entre as aulas de culinria, as duas turmas cada
vez mais numerosas, e as atividades sociais permitidas a seu prudente estado. No eram pequenos
compromissos como pode parecer  primeira vista; enchiam-lhe o tempo inteiro, no lhe
sobrando cio para pensamentos tristes. Sem falar nas encomendas de recusa impossvel para
almoo de festa, fino jantar, banquete ou recepo: j de madrugada entregue  trabalheira na
cozinha. Sendo muito exigente em relao  qualidade de seus pratos, ao cansao somava a
preocupao.
     Vinha ajud-la uma garota, menina moa de seus dezesseis anos, filha de outra viva, Dona
Maria do Carmo, herdeira de roas de cacau, morando no Areal de Cima desde logo depois do
carnaval e de imediato incorporada  roda de Dona Norma. A mocinha, Marilda e morena, uma
esperana nos molhos e temperos, tomara amizade a Dona Flor e no a largava, aprendendo
pratos e bolos nas folgas de seu curso pedaggico. Dona Flor sorria ao v-la em trnsito pela casa
cantarolando, os cabelos em alvoroo, o rosto de adolescente tropical desmaiado em quebranto e
dengue, uma pintura de to bela; se o velhaco fosse vivo, todo cuidado seria pouco, ele no
mantinha preconceitos de idade.
     Como se constata e v, no faltava o que fazer em sua vida de viva, o tempo curto, por vezes
nem dava conta dos compromissos. Tantos que fazeres, um mundo de coisas, o dia afanoso: por
vezes,  noite, ao despir-se e estender-se no leito de dormir, sentia-se realmente fatigada,
necessitando de sono repousante. Dormia de imediato, apenas pousava a cabea no travesseiro.
    Se era assim to repleta sua vida, como explicar a constante sensao de vazio, como se tudo
aquilo, toda aquela atividade que a toma, domina e movimenta, fosse intil e v? Se em sua
modstia e parcimnia, tinha o suficiente para viver com decncia e ainda esconder, num hbito
antigo, algumas sobras, se tranqila sua vida, e mesmo alegre, por que ento vazia e v?

2

     Nas ruas em torno sobravam as mexeriqueiras, velhas e jovens, pois para exercer tal oficio no
se exige documento de idade. Dona Dinor era a primeira dessas xeretas; em sua atividade
tamanhos sucessos obteve a ponto de ser-lhe atribuda fama de vidente.
     J foi nesta crnica Dona Dinor vista em ao, em lamrias, em denncias, em enredos, sem
que, no entanto, dela prpria se tratasse mais longamente, permanecendo at agora quase
annima, como se fosse to s uma intrigante comum na roda das beatas. Talvez porque a
inslita presena de Dona Rozilda, por fim e felizmente em exlio no Recncavo, no desse vez
s concorrentes. Mas sempre  tempo de corrigir um erro, de reparar uma injustia.
    Para muitos, passava Dona Dinor por viva do comendador Pedro Ortega, rico comerciante
espanhol desencarnado uns dez anos antes. Em verdade, nunca fora casada, e donzela o fora
pouco tempo;  apenas pbere, arribara de casa para dar incio  movida e de certa maneira
brilhante existncia, crnica picante. No entanto benza Deus! - ningum mais moralista e ciosa
dos bons costumes desde o feliz encontro com o galego, quando, tendo passado dos quarenta e
cinco, Dona Dinor olhava o futuro com apreenso: um medo pnico da pobreza e o hbito do
conforto.
     Sem ter sido jamais realmente bonita, certa graa feminina, responsvel por seu sucesso junto
aos homens, dilua-se com os anos e as rugas. Dera ento a incrvel sorte do comendador,
"bilhete premiado com o prmio gordo", como Dona Dinor confidenciara s amigas, na poca.
O espanhol oferecera-lhe respeitabilidade e garantias, sem falar na casinha das vizinhanas do
Largo Dois de Julho onde a instalou.
     Quem sabe devido ao medo de ver-se velha e pobre,  ameaa da prostituio de porta aberta,
Dona Dinor, ao amparo do comerciante, converteu-se rpida no oposto do que havia sido: em
respeitvel matrona, em guardi da moral. Tendncia a acentuar-se aps a morte de Pedro Ortega
e cada vez mais. Quando ele partiu, entre discursos e coroas morturias, a antiga mundana
passava dos cinqenta anos - cinqenta e trs para ser exato - e, nos oito de amancebamento,
criara apego  virtude e  vida familiar.
     O probo baluarte das classes conservadoras, grato  amante pela fidelidade e pela revelao de
um mundo de ignorados prazeres (que besta fora!, perdera os melhores anos de sua vida ao
balco da pastelaria e no corpo chocho e ignorante da santa e agre esposa), deixou-lhe em
testamento - alm da casa prpria, ninho dos pecaminosos amores  aes e obrigaes do
Estado, renda mdica, bastante, porm, para assegurar-lhe velhice sem sustos, por inteiro a
servio da difamao e da intriga.
     Eis Dona Dinor j alm dos sessenta: voz estridente, enervante gargalhada, constante
agitao. Em aparncia, a mais solidria e compreensiva velhota; em verdade, "um frasco de
veneno, cascavel enfeitada com penas de pssaros", na frase quase potica de Mirando, eterna
vtima dessa categoria de comadres. Frase dita ao jornalista Giovanni Guimares, ao ver a
sessentona passar, muito viva e sustentculo da moral, por ocasio do almoo em casa de Dona
Flor, quando da visita de Slvio Caldas. Completara, filsofo moralista:
    - Quanto mais puta em jovem mais sria na velhice. Ficou donzela e bucho...
    - Aquele estrepe? Quem ?
    - No  de nosso tempo, mas j teve nome e apelido. Quem fala muito nela  Anacreon, andou
bebendo nessa moringa. Voc j ouviu falar, na certa. Atendia por Dinor Sublime Cu.
    Quase mudo, Giovanni, em espanto e assombro:
    - Isso a? O Sublime Cu to recordado? Meu Deus!
    Prova da vaidade das coisas terrenas, consideraram humildemente os dois, ante tal exibio de
virtude e o triste fsico da leva e traz: atarracada, tronco forte, pernas curtas, oveiro baixo,
cabeorra, champruda. Vestida de luto, como viva verdadeira, medalho ao pescoo com a
fotografia do comendador, de quem falava como se houvesse sido realmente sua esposa e ele o
nico homem de sua casta vida. Tipos como Anacreon, vergonha do gnero humano, era como
se nem existissem; ela os desconhecia, simplesmente.
     Ladina, no ia direta aos assuntos, em acusaes frontais; ao contrrio, infernava os demais na
maciota, parecendo tudo compreender e desculpar, elogiando uns e lastimando outros. Da sua
fama de bondosa e simptica, os louvores semeados em seu caminho de mexericos: "Criatura boa
vai ali..." Quando, por um azar, pega em flagrante de intriga, dava-se por vtima: quisera fazer um
benefcio, em paga recebia a negra ingratido.
     Seu Z Sampaio, homem pacato, cedo na cama com seus imaginrios achaques, as gazetas do
dia e revistas velhas (adorava ler revistas velhas e almanaques antigos), ao ouvir o vozeiro de
Dona Dinor, punha as mos sobre os ouvidos, em pnico, dizendo a Dona Norma, com voz
vencida mas no resignada, de quem j no tinha jeito a dar nas aporrinhaes:
     - Essa mulher  uma filha da puta, a maior filha da puta que tem por aqui...
     - Assim tambm  m vontade demais... Ela at que  boazinha...
     Por a se v quo hbil Dona Dinor: conseguira superar aquela histria do filho de Dionsia,
quando seu prestgio cara a zero, voltando a obter o favor de Dona Norma. No, porm o de
seu Sampaio:
     - Boa filha da puta... Veja se consegue, por favor, que ela no meta o nariz aqui, no quarto.
Diga que estou dormindo, estou descansando... Diga que eu morri...
     Quem era Dona Norma para impedir Dona Dinor de enfiar o nariz onde quisesse? Ia
entrando, ntima da casa, de todas as casas de gente de considerao e dinheiro - para os pobres,
bondosa, mas de uma bondade altiva e distante, muito protetora dos desprotegidos, mantendo-
os, entretanto, no lugar (inferior) que lhes competia, sem lhes dar asa. Ia
enfiando pelo corredor, pelo quarto:
     - D licena, seu Sampaio? - Z Sampaio odiava aquela cabeorra oxigenada, "cabea de
elefante, a maior da Bahia", a dentadura de cavalo, a voz e os cuidados: - Sempre doentinho, seu
Sampaio? Eu vivo dizendo: "Seu Sampaio, com todo aquele corpo, tem a sade muito delicada.
Qualquer coisinha, e est tremendo na cama, cercado de remdios". Digo e repito: "Se seu
Sampaio no tomar cuidado, um dia desses bate a bota..."
     Impressionvel, Z Sampaio gostaria de expuls-la a pontaps:
     - Tenho uma sade de ferro, Dona Dinor...
     - E por que fica assim na cama, seu Sampaio, por que no vem ilustrar a gente com sua prosa?
Homem to letrado, todo mundo diz que o senhor s no se formou porque... Bem, o senhor
sabe, o povo fala tanta coisa... Se a gente for dar ateno... Eu no ligo, vo falando, entra por um
ouvido, sai por outro...
     Z Sampaio sabia onde ela desejava chegar:  sua dissoluta mocidade de filhinho de papai
dissipador e malandro. O pai, desgostoso, cortou-lhe a mesada e, retirando-o dos estudos, o ps
na loja a trabalhar de caixeiro.
     - Deixe o povo falar, Dona Dinor, no se importe...
     - O senhor tambm acha que a gente no deve se importar com o que falam de ns? No
deve mesmo? - abria os olhos grados, de boi, muito atenta, como se Z Sampaio fosse um
orculo dos novos tempos.
     - Eu, pelo menos... - e, enchendo-se de vez: - Quer saber de uma coisa, Dona Dinor? Eu
quero  paz,  descanso... E, para ter um pouquinho de paz, vivo dando razo a quem no tem. E
nem assim consigo... Vm me aporrinhar at aqui... Com sua licena...
     Tomando do jornal ou da revista, virava as costas  visita "Z Sampaio  mais bruto do que
uma cavalgadura" - Dona Norma sentia-se envergonhada - "e logo com Dona Dinor, to
boazinha..."
     Rispidez, ao demais intil, pois Dona Dinor no se dava por expulsa, persistindo solerte:
    - O senhor j soube o que se passou com seu Vivaldo?
     Ah! mulher mais diablica, desgraada! Pois no  que conseguia lhe despertar o interesse? Z
Sampaio largava o jornal, vencido:
     - Com Vivaldo? No sei no, o que foi?
     - Pois eu lhe conto... Seu Vivaldo, homem direito, bonito, hein! Parece um gringo, todo
rosado...
     Era sempre assim: aps os elogios vinha a intriga, a maledicncia, a denncia de um trago a
mais, da escapula de um marido, um nome de mulher, quase sempre de mulher-dama.
     Seu Vivaldo da funerria, segundo ela, num desrespeito s lpides, e aos esquifes, reunia, nas
tardes dos sbados, por detrs das cortinas roxas com enfeites cor de prata, um grupo de hereges
em arrenegado pquer de apostas altas e vasto dispndio de conhaque e genebra:
    - Uma falta de respeito, o senhor no acha? Podia arranjar outro lugar para o vcio... - ligeira
pausa: - O senhor no pensa, seu Sampaio, que o jogo  o pior dos vcios?
     Z Sampaio no pensava nada nem queria pensar, queria apenas um pouco de sossego mas
Dona Dinor disparara de tramela solta: seu Vivaldo, sem dvida honesto contribuinte, esposo
excelente, timo pai de famlia, punha tudo isso em perigo, pois jogador mais dia menos dia
perde o controle e aposta at mulher e filhos. E, quando no os aposta, deixa-os ao deus-dar, ao
abandono, em cruel desprezo. Que melhor exemplo seno Dona Flor? Enquanto vivo o msero
marido, escravo da jogatina, curtira as penas do inferno; maltratada, ao lu, sofrendo horrores...
Vejam, hoje, a diferena: enfim liberta, pode gozar da vida sem sobressaltos, sem agonias.
     Falando em Dona Flor, que acha o senhor, seu Sampaio, e voc, Norminha, meu bem, o que
 que acha? Assim moderna e bonitona, no era uma injustia continuar viva, e de defunto to
pouco recomendvel? No era mesmo? Por que Norminha, amiga do peito, no lhe dava uns
conselhos? Enquanto isso, ela, Dona Dinor, estudaria o caso na conjuno dos astros, com a
bola de cristal e com os naipes de seus baralhos de cartomante amadora.
    Amadora s por no cobrar dinheiro, lendo o futuro de graa e por camaradagem, para
atender pedidos, pois raras profissionais possuam competncia de adivinha igual  sua. Pelo
menos para descobrir salafrarices de qualquer espcie tinha uma intuio, um sexto sentido, um
faro nico. Um dom divinatrio, atingindo o requinte da profecia.
    No foi ela quem prognosticou, com mais de um ano de antecipao, o escndalo medonho da
famlia Leite, gente de muito dinheiro e maior orgulho, trancada atrs dos muros de nobre
manso sobre o mar, na Ladeira da Preguia? Lera nos sebosos baralhos, olhara na bola de falso
cristal, ou to somente seu sdico instinto a advertira?
    Apenas a angelical Astrud, com o ar cndido de interna do Sacre Coeur, chegou do Rio para
habitar com a irm, e logo Dona Dinor, sem nenhuma razo aparente, previu o drama:
    - Isso vai acabar mal...
     Assim profetizara ao ver a moa no automvel com o cunhado, doutor Francolino Leite, - o
"stiro Franco", para seu restrito crculo de ntimos - advogado de grandes firmas nacionais e
estrangeiras, bebedor de usque, fazendeiro no serto e membro de Conselhos Diretores de
prsperas empresas, senhor da maior fidalguia e arrogncia. No volante do grande carro esporte
americano, de piteira e cachecol, o causdico nem enxergava o bulcio da gente simples do Sodr,
do Areal, da rua da Frca, do Cabea, do Largo Dois de Julho. Mas Dona Dinor o enxergava, ao
advogado, no o perdia de vista: a par dos menores detalhes da vida na manso senhorial, ntima
de cozinheiras, copeiras, babs, do jardineiro e do chofer, brechando cunhado e cunhada com
olhos de pressentimento:
    - Vai acabar mal, ora se vai... Plvora perto de fogo...
    Sem se comover com a postura inocente da estudante:
    - Moa de olho baixo  descarada esperando ocasio...
    To injusta e absurda parecia, a ponto de ter sido destratada, com palavras speras e gestos de
repulsa, por um rapaz vizinho, Carlos Bastos, pouco amigo de disse-que-disse e talvez um tanto
seduzido pela doce Astrud:
    - No conspurque a pureza da moa com a baba da calnia...
    Quando o escndalo explodiu, quase dois anos depois - Astrud, com seu ar ingnuo e a barriga
prenha de cinco meses, sendo expulsa do teto familiar pela irm em fria, o stiro Franco de
bucho farto, - prato suculento servido a toda a cidade, Dona Dinor vingou-se do romntico
Carlos Bastos (talvez ainda enamorado):
    - Viu, bobalho? A mim, ningum me engana... Baba de calnia no faz filho em moa, o que
faz menino  descarao...
    Tinha olhos de ver e de prever, um faro de perdigueiro, ningum escapava aos seus sentidos
vigilantes. Alis, os prprios vizinhos vinham lhe contar seus particulares mais ntimos, para lhe
pedir consultas aos naipes de adivinha,  cristalina bola de evidncias. Para ela, passado, presente
e futuro eram cartas abertas, de leitura fcil.
     Possuindo ou no reais e profundos conhecimentos da magia, pfia diletante sem maior
intimidade com os astros, ou mestra das cincias ocultas do Oriente, manda a verdade proclamar
ter sido ela quem primeiro anunciou o novo casamento de Dona Flor, quando apenas a viva
aliviara o luto e retomara vida normal, sem sobressaltos nem problemas, recatada existncia,
distante de qualquer idia ou pensamento relativo a matrimnio.
     Anunciou as bodas e distinguiu a face do noivo muito antes de se falar em noivado, antes
certamente de se perceber qualquer sentimento ou interesse. E, se existia de parte do fulano
remota inclinao por Dona Flor, jamais algum o soube, talvez nem a si prprio ele o
confessasse. Pois bem, acredite-se ou no, Dona Dinor em detalhe o descreveu: senhor moreno,
j de meia-idade, alto, robusto, distinto, soberbo quarento, de modos srios e afveis, levando na
mo direita, pela haste erguida, um boto de rosa cor de vinho. Assim ela o enxergou na bola de
cristal. As damas e os reis, os valetes, os ases de espada, paus e copas confirmariam-lhe os traos
fisionmicos e a honesta disposio de casamento, acrescentando-lhe o s de ouro bens de
dinheiro, estabilidade econmica e o ttulo de doutor.

3

     Ora, apesar de moreno, o Prncipe no era de meia-idade, muito menos senhor robusto, alto,
soberbo quarento. A seu modo distinto e bonito rapaz, mas muito a seu modo extravagante.
Difcil, por conseqncia, emoldur-lo, mesmo com extrema boa vontade, no retrato do futuro
noivo antevisto por Dona Dinor na bola de cristal e por ela revelado s massas populares do
Largo Dois de Julho, levando ao auge da excitao, quase da subverso, o combativo sindicato
das fuxiqueiras.
     Delicado, plido, dessa palidez dos poetas romnticos e dos gigol, cabelos negros e lisos,
brilhantina e perfume a l vont, sorriso entre melanclico e persuasivo, sugerindo um mundo de
sonhos, elegante de corpo e roupas, grandes olhos splices, as boas palavras para descrever o
Prncipe seriam condoreiras: "marmreo", "lvido", "meditabundo", "pulcro", "a fronte de
alabastro e os olhos de nix". Maior de trinta anos, aparentava pouco mais de vinte e a tristeza a
sombrear-lhe o rosto fazia parte de seus instrumentos de trabalho, assim como a palavra fcil e o
olhar sub-reptcio, profissional competente e de sucesso em sua curiosa e rara especializao. Pois
de logo informe-se que em vivas se especializara, possuindo curso completo e longa prtica.
     Geralmente conhecido por Prncipe nos meios da vigarice e nos meios policiais (e onde esto
os limites, se  que existem, a separar esses dois mundos na aparncia opostos, na realidade
idnticos?), o apelido ele o merecera por seus bons modos, sua lhaneza de trato, sua prospia. Na
intimidade afetuosa dos castelos, em crculos restritos  de mulheres dama, tratavam-no, porm
pelo mstico apelido de Senhor dos Passos, aluso  sua face macerada e  sua magreza.
Chamava-se realmente Eduardo, e era um dos mais eficazes e simpticos malandros da cidade,
exmio passador do conto do vigrio. Quanto ao sobrenome, no vai aqui contado por intil e
desnecessrio  boa marcha da histria de Dona Flor e de seus dois maridos, a seu enredo e
desenredo.
     O Prncipe o escondia, a esse sobrenome, a polcia no o divulgou quando levada a trato mais
direto com o bizarro moo, e os jornais, ao promov-lo em suas colunas, noticiando-lhe a
passagem (em geral rpida) pelo xadrez, tampouco lhe compunham o patronmico, substituindo-
o pela vaga expresso "de tal":
     "Foi preso ontem, na Praa da S, sob a acusao de haver ilaqueado a boa f da viva Julieta
Fillol, com residncia no Barbalho, ludibriando-a com noivado e promessas de casamento, para
freqentar-lhe a casa e dar sumio s jias e a dois contos de reis da crdula apaixonada, o
marginal Eduardo de tal, conhecido no submundo do crime pela alcunha de Prncipe".
      Todos assim prudentes em homenagem  famlia do gatuno, gente de tradio e prestgio em
Feira de Sant'Ana. Se dessa maneira agiam as autoridades, a imprensa falada e escrita e o prprio
papa resto de defunto, por que fazer destas discretas letras exceo sensacionalista, atirando ao
desprezo pblico e aos ces do mexerico e do escndalo honra e nome da egrgia cl a merecer
dos demais tanto respeito? Imagine-se o horror, se Dona Dinor e seu exrcito de beatas
tomassem conhecimento da parentela do vigarista; nem os bisnetos conseguiriam limpar o nome
dos avs para sempre "envolto em lama, afundado no pntano da infmia" (como diria enftico o
professor Epaminondas Souza Pinto). Beatas, no entanto, todas elas cativas das maneiras do
Prncipe e de sua languidez. A prpria Dona Dinor no tentara, em certo momento, modificar
os termos de sua profecia para aproxim-las das caractersticas fsicas do trapaceiro. As demais
mergulharam unnimes na tristeza, quando Mirando, tendo aparecido com a esposa e dois ou
trs filhos, para visitar sua comadre Dona Flor, deu a ficha completa do indivduo: "aquilo de
gente s tem o rastro...
     Toda essa histria do Prncipe em patrulha por aquelas bandas, com sua elegante patifaria, foi,
desde o comeo e at o fim, confusa e atrapalhada. Esse, alis, seu clima habitual, sua atmosfera
preferida, onde mover-se  e agir.
     Futricavam amigas e xeretas em riso e excitamento com a descrio do futuro noivo feita por
Dona Dinor em transe, e logo transmitida de boca em boca entre o indcil comadrio, quando o
Prncipe surgiu pelas caladas em passos e suspiros de enamorado.
     Riam-se em pilhrias Dona Norma, Dona Gisa, Dona Amlia Ruas e Dona Emina; em
fuxicos as beatas, procurando infatigveis o gal descrito. Manda alis a verdade se diga no
terem sido somente as comadres a se entregarem  infrutfera busca. A prpria Dona Gisa lanou
seu olhar psicolgico sobre a humanidade masculina das redondezas, a cata do "soberbo
quarento"; quanto a Dona Norma, nem se fala, depois de bom velrio seguido de enterro de
primeira, nada prezava tanto como um folhetim de noivado e casamento. No tinha conta o
nmero de moas e rapazes cujo matrimnio ela chocara, conduzindo-os  ao juiz e ao padre,
vencendo dificuldades, superando escolhos e desentendimentos, brabas oposies de famlia. S
fracassara mesmo com Valdeloir Rgo, um indeciso sem igual, e com uma gentil vizinha, Maria,
por demais esmorecida. Mas nem assim perdera a esperana de colocar Maria, talvez, quem sabe?,
com o prprio Valdeloir.
     Beatas e amigas buscavam afanosas o oculto pretendente, de posse de ampla descrio de suas
virtudes fsicas e morais, pois no era Dona Dinor vidente avara, de incompletas profecias. Se
havia de descrever futuro noivo, no lhe sonegava pormenor; prazenteira e profusa, traava-lhe
vasto panorama de qualidades e traos fisionmicos. Talvez, por isso mesmo, por ser to
completo e fiel o retrato do cavalheiro, difcil situ-lo e descobri-lo. A quem atribuir to
numeroso conjunto de detalhes?
     Iam as beatas de cidado em cidado, pelas redondezas e mais alm, sem encontrar quem
coincidisse com todos os termos da incgnita. Uns eram formados e possuam algum dinheiro,
mas no a idade precisa e requerida. Outros a tinham, mas lhes faltava a cor morena e o anel de
grau, alm de detalhes secundrios. Mesmo assim, apareceram numerosos candidatos, cada
comadre apresentando o seu, quando no trazendo mais de um, por garantia.
     Dona Flor mangava de tolice to grande, sorrindo mansa: s mesmo na cabea de Dona
Dinor, sem ter em que gastar o tempo s em sua cabea passariam essas tontas idias de
noivado e casamento. No na de Dona Flor, quando mais no fosse por no haver decorrido
sequer um ano do falecimento do marido, prazo mnimo para a viva carpir e honrar sua
memria e sua ausncia.
     Ao demais, se alguma deciso firme tomara, ao atingir os oito meses de luto, fora a de no se
casar novamente. Para qu, se tinha o necessrio, se ganhava seu de comer e seu de vestir com as
aulas de culinria; se as amigas, tantas e to boas, lhe traziam o conforto de seu trato fino e de sua
grata convivncia; se no sentia falta de calor de homem, para tais coisas mortas e para sempre,
por que casar-se?
     Com o riso um tanto triste e com a segurana desse irremovvel propsito, enfrentava as
cordiais provocaes, as investidas de Dona Norma e de Dona Gisa, a lhe apresentarem, elas
tambm, na bandeja da amizade, as cabeas de possveis candidatos.
     O de Dona Gisa era o culto professor Epaminondas Souza Pinto, solteiro encruado, mestre
de meninos em ginsios particulares e historiador nas horas vagas. Sempre com pressa e suarento,
mal-ajambrado em terno branco com colete e polainas, andando pelos sessenta anos, um tanto
areo e vago, Dona Flor o conhecia e estimava, mas se houvesse de romper sua firme resoluo
de viva no seria certamente para dar a mo de esposa ao professor, por demais castio e
oratrio para seu gosto simples (sem falar, por discrio e elegncia, no desengono do
gramtico). Dona Flor ria, a gracejar: mesmo viva e pobre, no estava ainda to deteriorada.
     Riam as amigas: Dona Norma, indecisa entre diversos, conhecia meio mundo; Dona Amlia,
s voltas com outros tantos; Dona Emina, em luta por Mamede, um compatriota srio, colega em
viuvez e antiqurio, vizinho de presena pouco constante, demorando-se pelo interior do Estado
a comprar santos carunchosos, cadeiras capengas, cristais partidos e at pencos velhos. Mamede?
Feio como a necessidade, ainda pior do que o professor Epaminondas, segundo Dona Flor.
    At Dona Enaide veio do Xame-Xame, de pretendente em punho; um cunhado, notrio nos
cafunds do rio So Francisco, moreno de quarenta e cinco anos, careca e um tanto narigudo,
porm alegre e divertido, com um dinheirinho junto, um partido de nome Alusio. De todos, o
mais semelhante ao descrito por Dona Dinor, pelo menos a acreditar-se na palavra de Dona
Enaide. Quase possua inclusive ttulo de doutor, pois fora rbula de clientela, antes de meter-se
na desgraa da poltica.
     Um nico defeito: s era solteiro no religioso, no civil era casado. Dera-se mal com a esposa,
dela se separara h mais de dez anos. Quando moo, maom e anticlerical, desdenhou do
matrimnio na Igreja, mas agora se dispunha a aceit-lo, se a noiva fizesse questo. Por que no
se daria por satisfeita Dona Flor com o casamento no padre, para muita gente, alis, o nico
vlido, por contar com a bno de Deus, no passando o ato civil de simples contrato firmado
ante o juiz, quase um negcio? Dona Enaide at j escrevera ao parente carta cheia de loas 
beleza e  bondade de Dona Flor. "Mulher maluca se eu no quero casar menos hei de querer me
amigar com ou sem a bno de Deus." E ainda por cima para viver nos confins do Judas, nas
margens do rio So Francisco e da maleita . Fingia-se Dona Flor de indignada: afinal Dona
Enaide, dizendo-se sua amiga, vinha do Xame-Xame lhe propor a vergonha e o degredo. Um
pagode tudo aquilo, para rir e nada mais.
     Cada candidato tinha algumas caractersticas a aparent-lo com o modelo de Dona Dinor. O
Prncipe, porm, era de todos o menos parecido: nem dinheiro nem ttulo de doutor, nem a
idade, nem robustez e altura. Quando se materializou na rua, a medir com seu trfego andar o
passeio do sobrado do argentino, em face s janelas da Escola de Culinria Sabor e Arte, Dona
Flor atribuiu a potica apario a namoro de aluna jovem ou a arranjo de casada salafrria.
     Era comum uma das moas chegar de namorado em punho, retornando o suspirante 
esquina antes do fim da aula, para conduzir de volta a melindrosa. Outras, casadas, serviam-se da
Escola como cobertura para a descarao, para atarraxar um par de chifres na testa dos maridos,
utilizando o cmodo horrio da classe em melhor folguedo. Compareciam a uma aula, gazeavam
a seguinte ou bem assistiam apenas o comeo das lies, quando Dona Flor ditava e elas
transcreviam em cadernos os ingredientes dos quitutes, com isso fazendo em casa prova de
freqncia e aplicao. Em verdade, meia hora na Escola, hora e meia no castelo.
     Assim, ao v-lo langoroso junto ao poste, fumando sem cessar,  espera, Dona Flor o
imaginou xod de qualquer das moas, de uma das mais jovens com certeza, pois ele prprio
tinha cara de garoto.
     Com o correr dos dias, no o tendo surpreendido em companhia de nenhuma aluna e vendo-
o sempre ali, em horas as mais diversas e at pela noite, a fitar suas janelas, concluiu, ante tais
horrios absurdos, nada de comum existir entre a persistncia do coi e as estudantes de forno e
fogo. No lhe ditando os passos discpula da Escola, ento qual o alvo de seus olhares e
suspiros?
     Marilda, certamente; outra no podia ser a causa da aflita presena. Vivendo a moa mais
tempo em casa da professora do que na sua prpria, o fulano a imaginara irm ou sobrinha de
Dona Flor: exibiam as duas a mesma doce cor de pele, morena sem termo de comparao, um
tom de rosa ch, de mate e de finura, resultante de ter-se misturado sangue indgena ao negro e
ao branco para criar esse primor de mestiagem.
     Marilda dava corda ao suspirante ou o desprezo lhe dava? Chegara a preciosa  idade do
namoro; com mais dois anos concluiria o curso pedaggico, apta para noivado e casamento. J se
dera conta, alis, do interesse do indivduo, mas atribuindo a responsabilidade  outra qualquer; 
escabreada Maria, s bonitas filhas do doutor Ives,  professorinha Balbina quem sabe? Mas, se
nenhuma delas vivia em frente ao poste, no se avistando dali suas janelas e, sim, as da sala de
visitas de Dona Flor, onde s Marilda se demorava a ouvir rdio e a ler romances da "Coleo
Menina-e-Moa", havia de ser por ela a viglia e a melanclica postura do man teimoso.
     Pela fresta da janela, brecharam o camarada: " lindo", suspirou Marilda, inconstante corao
j disposto a sacrificar o namorico com Mecenas, colega do pedaggico, frangote de sua mesma
idade. Concordava Dona Flor: "uma galanteza de rapaz", bem jovem ainda, no teria mais de
vinte e trs ou vinte e quatro anos, na medida exata para a futura mestra. Era preciso tomar
informaes, saber se exercia profisso liberal e rendosa, ou se possua bom emprego em Banco
ou escritrio. Talvez fosse rico, e assim o demonstrava, pois no tinha horrio para exibir-se na
rua, escorando o poste defronte  casa de Dona Flor.
     Gastou Marilda inutilmente seus sorrisos, no foi correspondida. Saa porta a fora em direo
ao Largo ou bem para sentar-se cismarenta na balaustrada do ptio da Igreja de Santa Tereza-
stio to ideal para declarao e juras de amor jamais existiu nem existir, assim idlico; com o cu
to prximo e azul, o mar l embaixo verde escuro, as paredes seculares do templo e ainda, com
certeza, a compreensiva beno de dom Clemente para qualquer esquivo beijo hertico.
     No a seguira no entanto o Prncipe, nem para o tumulto do Largo, nem para a paz e o
silncio do mirante sobre as guas. No abandonava o poste, como se estivesse a ele acorrentado,
os olhos fixos nas venezianas da Escola. Ora, se tampouco era Marilda o alvo de seus suspiros a
quem atribu-los seno  prpria Dona Flor?
    Assim concluram comadres e amigas e at Marilda, apesar de sua pouca idade e experincia:
    - Eu acho que ele est de olho  em voc, Flor.
    - Em mim? Tu est doida?...
    Dias depois, indo ela de compras com Dona Norma pelas lojas da rua Chile, ele as
acompanhara, tomando o mesmo bonde, a fumar cigarro sobre cigarro e a sorrir to terno e
precisado de carinho. Dona Norma at quase se zanga ao dar-se conta, imaginando Dona Flor
com segredos para ela.
    - Muito bonito... A senhora de pretendente e no me disse nada...
    - Nem sei quem ... Vive plantado faz uns dias em frente l de casa, nunca vi mais gordo antes,
pensei que fosse com alguma aluna, mas vi que no. E com Marilda, que eu disse e parecia, mas
tambm no era. At a pobrezinha ficou triste. No sei que diga...
     Na maior das excitaes, Dona Norma examinou o janota erguer longos e ostensivos olhares,
que ela pensava discretssimas miradas de relance:
     - Bonito pra burro... S que parece um tanto moderno demais...  e aps novos olhares,
retificando: - No  to moderno como aparenta e, para dizer a verdade,  bonito demais para
meu gosto...
    - Bonito ou feio, no me interessa...
     Saltaram do bonde, o tipo atrs. Num timo, Dona Norma traara complicado itinerrio capaz
de pr a limpo se o desmilingido vinha ou no no rastro delas. Logo ficou patente e claro. Sem
tentar aproximar-se nem lhes dirigir a palavra mantendo-se a prudente distncia com seu sorriso
coquete e o olhar splice, no as perdera de vista um s instante. Se entravam numa loja, ele na
porta punha-se  espera; se dobravam uma esquina, ele as seguia; se paravam ante uma vitrine, da
vitrine imediata ele as observava. Como duvidar ainda?
     As comadres vinham sozinhas ou em grupo espi-lo ao p do poste. Como era lindo e parecia
infeliz, suplicando ternura a graa de um olhar, de um sorriso, de uma esperana, formavam todas
de seu lado, a seu favor, tentando inclusive adapt-lo  viso do noivo revelada na bola de cristal.
No era ele moreno e distinto, talvez doutor e com dinheiro? Quanto  idade e outros atributos
fsicos, talvez o desencontro se devesse  miopia de Dona Dinor, enxergando maturidade onde
devera ver juventude, forte tronco onde existia peito fraco, sade de ferro em lugar de plida
languidez. O melhor, na opinio de todas as comadres, era a vidente consultar de novo o cristal e
os baralhos, pondo fim quelas obscuras contradies.
     Assim o fez Dona Dinor ante a expectativa do bairro em polvorosa, uma onda crescente de
simpatia e solidariedade a cercar Eduardo, o Prncipe das Vivas, ancorado ao poste de
eletricidade, fitando o lar de Dona Flor, sua prxima escala, porto de aguada e a abastecimento.
Aconteceu, porm, ter-se repetido na bola de cristal e na leitura dos baralhos o perfil enrgico do
quarento soberbo com seu anel de grau e sua rosa cor de vinho. Estando a viso envolta em
fumaa, - como sucede sempre no mistrio das revelaes -, no podia Dona Dinor precisar a
qualidade da pedra no anel de doutor, esclarecendo-lhe de vez a profisso. Mas podia, com
absoluta certeza e alguma pena do moo plido a suspirar na esquina, garantir nada ter de comum
com ele o verdadeiro pretendente, o futuro noivo ainda a aparecer.
     Por mais se esforasse ela, curvada sobre o lmpido cristal ou sobre os vistosos naipes,
concentrando-se nos eflvios hindus do Ganges, nas secretas legendas dos templos do Tibet,
nada obteve: as foras ocultas da magia oriental persistiam na firme deciso de negar passagem ao
Prncipe Eduardo (de Tal). Tambm nos ebs dos candombls, em sacrifcios de conquns e
pombos, de galos e de um bode negro, despachos encomendados por Dionsia de Oxssi para
defender sua comadre Dona Flor dos malefcios e dos malvados, Exu fechava seus caminhos,
trancava suas encruzilhadas para o galante sedutor, especialista sem rival em consolar vivas,
roubando-lhes os solitrios coraes e, de passagem, haveres e economias, cobres e pratas, anis
e jias.

4

     Aqueles oito meses de viuvez transcorridos aps o primeiro to aflito, Dona Flor os
atravessara num redemoinho de que fazeres e de inocentes passatempos. At aliviar o luto pouco
sara - visitas aos tios no Rio Vermelho, a algumas amigas mais intimas -, enchendo o tempo em
casa, com a Escola, as encomendas, a vizinhana. Em junho cozinhou seus tachos de canjica,
suas bandejas de pamonha, seus manus, filtrou seus licores de frutas, seu famoso licor de
jenipapo. Com apenas trs meses de luto, no abriu suas salas nem nas noites de Santo Antonio e
So Joo, nem mesmo na de So Pedro, patrono das vivas. Os meninos do bairro acenderam
uma fogueira em sua porta e vieram comer canjica; com eles, Dona Norma, Dona Gisa, trs ou
quatro amigas, na intimidade, sem nenhuma festa. Todos aqueles pratos de canjicas, as bandejas
de pamonha, as garrafas de licor, foram de presente para os tios, os amigos, as alunas, nos ritos
de junho, ms das festas do milho.
     Depois do sexto ms at o aparecimento do Prncipe, em dezembro, suas atividades sociais
cresceram muito. Aliviara o luto em setembro, s vsperas do primeiro domingo, data sagrada do
caruru anual de Cosme e Damio, os Dois-Dois, devoo do finado; com ele vivo, os festejos
comeavam de manhzinha, com alvorada de foguetrio, indo terminar noite alta, forrobod de
arromba, a casa aberta tanto a amigos como a estranhos. Mantendo o preceito dos Ibejes, Dona
Flor cozinhou o caruru e o serviu discretamente a alguns vizinhos e amigos, cumprindo assim a
obrigao do falecido. Mirando veio com a esposa e os filhos; Dionsia de Oxssi s com o
menino, pois o xar comia poeira nas estradas, transportando carga para Aracaju, Penedo e
Macei.
     As amigas a arrastavam a compras e passeios a cinemas e visitas; assistira a dois espetculos de
Procpio, quando o ator ocupara com sua Companhia o Teatro Guarani. Com Dona Norma e
seu Sampaio fora ao primeiro, com doutor Ives e Dona Emina ao segundo, rindo num e noutro
sem parar.
     Por vezes permanecia em casa, recusando insistentes convites, pois tantas solicitaes a
fatigavam; e essa fadiga era responsvel a seu ver, por certa e desagradvel sensao difcil de
definir: como se movimento, trabalho e riso no bastassem para encher a sua vida, de sbito
desanimada, como se tudo aquilo fosse extremamente cansativo. No um cansao fsico, sempre
til e benfazejo, pois a fazia dormir a noite inteira num sono pesado de repouso, sem sonhos.
Um esgotamento interior, uma insatisfao.
     Nenhuma amargura no entanto, nem mesmo permanente melancolia; sua vida era alegre e
agradvel como jamais o fora. Saa, passeava, em mil e uma coisas ocupada, sem esquecer a
Escola, divertida responsabilidade; sendo aquele desnimo, de quando em vez a domin-la
passageira nuvem em seus dias claros de jovial agitao. Tinha as amigas, os tios queridos, a
constante companhia de Marilda, espcie de irm mais moa, quase uma filha, a lhe confiar seus
sonhos, seu desejo de cantar na Rdio. Tinha os passeios e o rdio, msicas e novelas, programas
humorsticos, os romances para senhoritas em cuja leitura a normalista a viciara, os disse-que-
disse das comadres, as previses de Dona Dinor, candidatos  sua mo aos montes, na voz e no
desejo das vizinhas. Que diriam os pseudo-pretendentes se tivessem conhecimento desse novo
mercado de escravos, dessa farsa risonha, quando eram oferecidos  escolha de Dona Flor, numa
exibio ruidosa e numa anlise pertinaz de virtudes e defeitos, entre comentrios e pilhrias,
frouxos de riso? Candidatos sem que o soubessem e desejassem e, ao demais, sistematicamente
recusados:
     - Seu Raimundo de Oliveira, qual? Aquele ajudante de santeiro que trabalha com seu Alfredo?
Tenha pacincia, Jacy, ele  boa pessoa mas com aquela cara triste e aquela mania de viver na
Igreja ... Arranje outro, por favor...
     Os outros no satisfaziam tampouco; quando reuniam dotes de beleza masculina s qualidades
de cidado, Ah! esses eram todos casados, nem um s livre para remdio: o professor Henrique
Oswald, da Escola de Belas Artes, parente de famlia do Areal; o arquiteto Chaves, com obra ali
perto, um almofadinha; seu Carlitos Maia com sua precria agncia de turismo; o espanhol
Mendez, seu Vivaldo da funerria; e aquele por quem
suspiravam as moas s escondidas, pois Dona Nair no admitia chamegos com seu marido nem
em pensamento, Genaro de Carvalho, mais bonito do que qualquer artista de cinema a acreditar-
se na opinio do mulherio.
     Dona Flor levava aquela histria de novo casamento em tal deboche, que aos poucos a
brincadeira foi-se reduzindo, projetos e candidatos em abandono.
    Assim calma e ao mesmo tempo cheia de interesse, decorria sua vida, quando, com a chegada
do vero, num clido dezembro, chegou  tambm o Prncipe, plantando-se ao p do poste
eltrico como se ali houvesse criado razes.
     A partir do dia das compras com Dona Norma, rua Chile acima e abaixo, nenhuma dvida
perdurou a respeito da musa a inspirar ao plido moo fundos suspiros e olhares lnguidos. Dona
Flor sentiu-se queimar em rubor, como se aquele interesse envolvesse grave ofensa ao seu estado
ou significasse no ter ela sabido manter-se nas fronteiras da modstia e da prudncia exigidas a
uma viva. Seria viva to risonha e to sada, a ponto de qualquer ousado permitir-se o direito
de rondar sua porta, de brechar suas janelas? Um insulto e uma vergonha, e com que intenes?
     Com as piores, certamente, gemia Dona Flor, trancando portas e janelas, enquanto Dona
Norma a aconselhava a no agir com precipitao. Ela, Dona Norma, no simpatizara com u dito
cujo,  bem verdade, parecendo-lhe suspeitas a boniteza lvida, a cara de menino e o jeito de
finrio. Mas, quem garantiria no estivessem enganadas as duas e fossem os melhores e os mais
puros os propsitos do tipo, sendo ele prprio homem de bem, correto, merecedor de apreo e
at da mo de Dona Flor e de seu carinho?
     Merecedor ou no, no tendo a viva, contente de sua vida, intenes de casar-se de novo,
muito menos se dispunha a manter coi sob suas janelas, a cortej-la como se ela fosse uma
dessas levianas a cobrir de vergonha a sepultura do marido, despindo seu luto nos quartos dos
castelos.
     Dona Norma buscava acalm-la, por que essa violenta reao, esse rancor contra o moo at
agora pelo menos respeitoso, situando-se nos limites dos olhares e do acompanhamento 
distncia? Afinal no era Dona Flor menina ingnua para imaginar-se  margem dos galanteios,
das cogitaes, dos desgnios, honestos ou frascrios, dos homens. Moa, bonita, sozinha, por
que no haviam de desej-la e tentar obter suas graas. De certa maneira, homenagem  sua
formosura, prova de seus dotes e encantos. Irredutvel Dona Flor em sua deciso de manter-se
viva, muito bem; Dona Norma no estava de acordo com tamanha idiotice mas no ia discuti-la
agora. Mas por que motivo maltratar quem a ela chegasse com respeitveis idias de matrimnio.
Por que no uma recusa gentil: "Sinto-me honrada, porm sou uma cretina, minha xoxota no
tem mais uso, s serve para fazer pipi, no quero saber de casamento!"
     Ria-se Dona Flor da lngua solta da amiga, mas, no primeiro mpeto de indignao, no
regresso das compras com o suplicante sempre em seu rastro, j lhe batera com as janelas na cara.
Em vexame e desconsolo,
aps uns momentos indecisos, a olhar para um e outro lado, o rapaz iniciou a retirada.
    Atravs das frestas das janelas as comadres assistiam  cena, todas em desacordo com o gesto
de Dona Flor. Inclusive Dona Gisa, testemunha do acontecido; Dona Gisa, to sabida da leitura
dos livros, do estudo dos textos, to ingnua e mesmo tola no contato com as pessoas. "Oh!",
murmurou repreensiva, ao ver as atitudes de Dona Flor no gesto rude e sua exclamao foi
blsamo para a injria do Don Juan. "Pobre moo, vtima de hbito feudal, de preconceito e
atraso".
     O pobre moo no queria outra coisa; ali mesmo, na rua, em lacrimosa e veemente
confidncia, abriu seu corao e depositou em mos da gringa suas honestas pretenses, seu
arrebatado amor e sua terrvel pena. Apresentou-se: Otoniel Lopes, seu criado s ordens,
comerciante em Itabuna, com loja de fazendas e crdito nos Bancos, plantando uma rocinha de
cacau, de complemento. Solteiro mas desejoso de casar, afinal j completara trinta anos. Vindo 
capital mais a passeio que a negcios, por acaso avistara Dona Flor e no mais tivera descanso e
paz de esprito; louco, em desvario, to apaixonado a ponto de parecer-lhe a vida intil se ela no
escutasse suas splicas. Sabia-a viva e sria, era quanto lhe bastava: o mais no tinha
importncia. Se fosse pobre, ainda melhor: os bens dele, Otoniel, davam e sobravam para os dois
viverem confortavelmente.
     Dona Gisa embarcou encantada no conto-de-vigrio. O Prncipe era maneiroso, cheiro de
tretas: ia provocando, Dona Gisa se abriu em informaes. Pobre, em termos, Dona Flor: no
era nenhuma milionria, mas tampouco msera mendiga. Com a Escola e sem o marido para lhe
afanar os ganhos, tinha seu p-de-meia, algum dinheiro junto, que ela  como sucedia com tantos
paroaras preferia ter em casa em vez de empregar ou de pr no Banco a juros. Gente de
mentalidade atrasada, definiu Dona Gisa, incapaz de esconder seu pensamento e de conter sua
crtica a erros e absurdos. "Um dia um ladro tem notcia do dinheiro, vem e rouba e  bem
feito".
     S asqueroso canalha pensaria em roubar Dona Flor, retrucou o Prncipe, considerando o
modo de agir da viva prova de seu bom carter, de seu desinteresse pelos bens materiais, de sua
desambio. Para esposa e companheira ele buscava exatamente mulher assim, direita e simples.
Pouco a pouco, ao sabor da prosa, Dona Gisa forneceu ao gatuno a ficha completa de Dona
Flor, as poucas jias inclusive; o colar de turquesas, europeu, os brincos de ouro com brilhantes
verdadeiros, pea antiga, nico bem de tia Lita, alm dos gatos, do jardim, das aguarelas do
marido. Como jamais os punha, e em herana  sobrinha os destinara, em suas mos os depusera,
pedindo que os guardasse ela; assim Dona Flor os podia usar quando melhor lhe apetecesse. No
os ofertava de logo e de uma vez, por serem aqueles brincos a nica garantia dos dois velhos num
caso de necessidade: uma doena longa, com hospital e cirurgia, incndio em casa, um desastre
enfim, quem no mundo est livre de inesperada preciso?
     Terminou Dona Gisa de procuradora a advogada do farsante. Se empenharia junto a Dona
Flor para que ela recebesse e ouvisse o pseudo-itabunense, mesmo se o fizesse apenas para lhe
opor rotunda negativa s propostas de noivado e matrimnio. O Prncipe no queria seno ser
recebido: tinha total confiana em sua bazfia, em sua experincia de lisonja, na alta categoria de
sua lambana. Jamais falhara; se conseguia fazer-se  ouvir, eram favas contadas o noivado, era seu
o dinheiro da viva, nenhuma capaz de resistir  sua eloqncia.
     Naquele comeo de noite, aps as aulas, Marilda acendeu a luz da sala de visitas em casa de
Dona Flor, ligando em seguida o rdio, abrindo a janela: no viu ao lado do poste o indefectvel
gal. Chamando a amiga, mostrou-lhe a paisagem vazia de pretendentes.
     Dona Flor descreveu-lhe os ltimos sucessos: fora-se o tipo, expulso, levara com a janela nas
ventas. Contando, Dona Flor relanceava a vista pela rua. No fundo, um tanto desiludida: bem
frgil o interesse do rapaz, rompendo-se ao primeiro empecilho. Coisas muito piores fizera Dona
Flor com Pedro Borges, em seus tempos de solteira. O paraense amargara em suas mos, cartas
devolvidas, presentes recusados, verdadeiros desaforos, e ele firme, de aliana em punho. Aquilo,
sim, era paixo e verdadeira. Esse de agora ia-se ao simples bater de uma janela...
     Como quem no quer nada, no correr das horas, trs ou quatro vezes veio Dona Flor  janela,
constatando o efeito positivo de seu gesto: o indivduo sumira de vez.
     Ao deitar-se, Dona Flor suspendeu os ombros, num sinal de indiferena: antes assim. Se no
desejava realmente novo casamento, por que ento preocupar-se com a frgil persistncia do
coi, com a debilidade de seus sentimentos? Vaidade imprpria a seu estado de viva.
     Pela primeira vez, naqueles meses todos, no adormeceu de imediato, num sono reparador,
Ficou de olhos abertos, a pensar. Em verdade, seria to forte como imaginara, essa sua deciso de
no casar-se, de viver sua vida em sossego, sem sair para nova aventura matrimonial? Tinha
decidido, e pronto: acabou-se. No quis sequer prolongar aquela discusso consigo mesma, no
tendo alis dvida ou divergncia a esclarecer. To disposta a cumprir sua resoluo a ponto de
rir livremente com as amigas, de pilheriar com as comadres quando umas e outras lhe traziam
candidatos ou quando Dona Dinor traava o perfil do soberbo quarento. Como ento perder o
sono devido  simples presena de um boc de esquina?
     No dia seguinte, bem cedo ainda, Dona Gisa entrou-lhe casa adentro, repleta de novidades,
relatando com detalhes e entusiasmo a conversa com o pseudo-comerciante grapina. Impossvel
vir na vspera como de seu desejo; mesmo a noite tinha alunos de ingls, trs vezes por semana,
num curso intensivo, uma canseira.
     Mal dormida, com dor de cabea, Dona Flor escutou o relato.
Receb-lo, ouvir suas propostas? Mas no tinha sentido: se resolvida a no casar-se, por que
perder tempo com pretendentes? Dona Gisa desdobrou-se em argumentos e apelos, obtendo por
fim o adiamento da negativa. Em ateno  amiga, Dona Flor prometeu refletir na resposta, no
despachando o fulano com um recado brusco. Quase no fim da conversa, Dona Norma surgiu
em busca de fermento para um bolo e entrou de cheio na conspirao. Comerciante rico em
Itabuna? Vejam s como a gente se engana... Dona Norma sem dar nada pelo amarelo e ele
revelando-se srio, estabelecido, abastado, um partido de primeira. Tambm com aquela cara cor
de merda...
     - Desculpe, Flor, se lhe ofendi... Mas no parece? Merda de menino pequeno...
      tarde o Prncipe retomou firme seu posto de atalaia, sorridente, os olhos nas janelas. Por
duas ou trs vezes avistou Dona Flor de coquete lao nos cabelos, um bom indcio. Naquele dia
as alunas estranharam certo nervosismo da professora, de hbito risonha e calma. Tivera uma
noite ruim, com insnia, dor de cabea, palpitaes, enxaquecas das piores. Interveio com malcia
Dona Dagmar, bonita aluna, turbulenta, sem papas na lngua, boquirrota:
     - Minha cara, enxaqueca de viva  falta de homem na hora de dormir. Tem remdio fcil,
compra-se com o casamento...
     - Casamento? Deus me livre e guarde...
     - Tambm no  obrigatrio... Pode tomar o remdio sem casar, o que no falta por a 
homem, minha cara - e ria tagarela.
     Ria-se o curso inteiro, Dona Flor sentiu no rosto o mesmo rubor da vspera, como ladra
presa em flagrante ou mentirosa desmascarada. Ser que, pensando-se em decente recato de
viva, exibia nsia de homem, pressa de noivo, rueira, fogueteira e oferecida? Por que brincava,
rindo com as comadres, em pilhrias sobre candidatos, vidncias, cochicheios, a imaginariam
doida por meter-se na cama com marido ou com amante? Uma injustia, viva mais honesta no
existia, isenta de culpa por completo.
     Passou um dia inquieto, evitando aproximar-se das janelas onde j no se debruava  vontade
para gritar por Dona Norma ou por Marilda, pois agora sabia ser ela prpria o motivo da
presena do indivduo, e tambm porque jamais se sentira de tal forma atrada pelas janelas como
se de sbito estivesse a rua cheia de novidades excitantes. Uma confuso.
     Assim, quando Dona Amlia veio convid-la para ir com ela e com seu Ruas assistir a um
filme francs muito picante e realista, por isso mesmo de polmico sucesso, aceitou em alvoroo,
temerosa de outra longa noite de insnia. Regressava sempre do cinema a cair de sono,
cochilando no bonde. Os bons vizinhos no podiam ter escolhido melhor ocasio para o convite,
sem falar no filme, objeto de controvrsia e comentrio nos jornais e na vizinhana. Dona Emina
adorara, doutor Ives detestara - pura pornografia! Dona Norma estalava a lngua recordando
trechos: ...tem umas cenas, menina, junto de um lago, em que ele arranca o vestido dela e bota
de fora os peitos da bichinha e os dois se agarram e fazem tudo por assim dizer na vista da gente.
Eles l enroscados, ela sem roupa, os peitinhos duros e a molecada gritando cada coisa..."
Marilda, doente por no lhe permitir a censura (nem Dona Maria do Carmo) ver o filme, interdito
a menores de dezoito anos. Violncia fascista contra a juventude.
     Como sempre sucedia quando iam a qualquer parte com seu Ruas, chegaram no maior atraso:
j comeara a projeo do noticirio, a sala s escuras e lotada. A muito custo conseguiram
acomodar-se, sentando-se os trs em filas diferentes e distantes. Dona Flor bem ao fundo do
cinema, numa cadeira de ponta, ao lado de um casal talvez de noivos, pois de mos tranadas e
cabeas juntas. A gritaria dos estudantes comeou logo s primeiras cenas do filme francs, de
ao localizada num cabar de Pigale repleto de mulheres seminuas. Dona Flor, tentando
desconhecer os beijos, os suspiros, a esfregao do casal vizinho, esforava-se por acompanhar o
complexo enredo do filme.
     De repente sentiu o calor de um hlito de homem em seu pescoo e uma voz feita de
delicadeza, a afirmar-se sobre os gritos, doce murmrio em seu ouvido, dizendo-lhe frases como
versos, aquelas declaraes de amor que ela no tivera quando namorada, elogios a seus olhos, a
seus cabelos,  sua formosura. No precisou voltar-se para saber de quem a voz cariciosa, os
lindos galanteios. No seu cangote, a respirao do homem era uma ccega, morno alento. Ao
ouvido, a voz em elogio e splica, terno acalanto.
     Dona Flor adiantou-se na cadeira querendo colocar distncia entre ela e a fila onde o Prncipe
obtivera assento; conseguiu apenas perturbar os namorados: o tipo tambm avanara o busto,
persistindo em sua ardente declarao. Dona Flor no o queria ouvir, tampouco queria ver o
lascivo espetculo do casal indiferente ao pblico em redor, desejosa somente de acompanhar a
ao do filme, entender a histria, difcil entrecho de sexo e violncia.
     O pblico gritava cada vez mais pois tivera incio a excitante cena do lago: a estrela sensual e
quase nua, os seios  mostra, e o ator, um gigante com cara de tarado, sobre ela, numa fria de
bode, numa descarao quase to grande quanto  do casal vizinho a Dona Flor; casal mais sem
decncia nem vergonha ela nunca vira.
     E a voz do tipo atrs a lhe dizer amor, a lhe propor noivado, a suplicar-lhe a graa de uma s
visita onde lhe expusesse seus haveres, suas qualidades, seus propsitos, atirando-lhe aos
pequeninos e adorados ps a sortida loja itabunense e um corao leal consumindo-se em fogo de
paixo.
     O hlito morno do homem em seu pescoo, e sua voz em murmrio, as frases parecendo
estrofes de poema, carcias de palavras. Ah! Filme impossvel, o pblico a berrar, os artistas na
descarao, na descarao e em gozo casal ali agarradinho, e aquela invisvel presena
perturbadora em suas espaldas, Dona Flor num cerco, tonta, sem sada. Ai, era uma viva
decente e recatada.
     Mal o enxergou na porta, a espi-la splice. De cabea baixa, Dona Flor veio acompanhando
os Ruas, Dona Amlia indignada com o filme, o marido apoiando as crticas meio sem convico,
furioso mesmo e apenas com a molequeira desses moos estudantes, uns cafajestes. Qual o
parecer de Dona Flor? Antes no tivesse vindo, os gritos e as risadas a entonteceram, deixando-a
quase enferma, mal acompanhando o filme, e, ao demais, dois sem-vergonhas ao lado uma
velhota e um rapazola, vira-os ao acender-se a luz - na maior patifaria...
     Cansada do cinema e da noite da vspera, insone e longa, Dona Flor tomou um calmante para
adormecer. Mas nem assim se viu, em seu dormir, liberta do gal, de seu hlito, de sua voz e seu
convite, dos problemas de homem e casamento, sonhando a noite inteira. Sonho mais esdrxulo,
sem p e sem cabea.

5

     Viu-se Dona Flor no centro de uma roda, em plena praa pblica, como no jogo infantil da
ciranda-cirandinha,  mas a roda era formada por marmanjos, os mltiplos candidatos das amigas
e comadres  sua mo de esposa. Todos eles: do suarento e castio professor Epaminondas
Souza Pinto ao rabe Mamede das antiguidades; do santeiro Raimundo Oliveira ao rbula Aluisio,
cunhado de Dona Enaide, este com dupla face; ora um tipo bem posto, ora broco tabaru. No
primeiro plano, o tal comerciante de Itabuna, o abastado Otoniel Lopes, ou seja o nosso caro
Prncipe de Tal, Eduardo das Vivas, abrindo infatigvel, como se v, seu caminho para o
solitrio corao de Dona Flor e para a maaroca de dinheiro (ele a enxergava grossa e recoberta
de jias), dinheiro que ela em boa hora, inspirada em louvvel prudncia, preferira guardar em
casa e em segurana,  em vez de t-lo perigosamente a render juros em Empresa ou Banco.
     Tudo isso decorria dentro de uma gigantesca bola de cristal; do lado de fora, ostentando
dentadura e culos, Dona Dinor, a observar a cena, dirigindo o espetculo. Lentamente girava a
roda, marcando-lhe o ritmo os prprios candidatos, em canto e dana em torno a Dona Flor:

Ai Florzinha Ai Florzinha Entraras na roda E ficars sozinha...

     Partindo do centro da ciranda, a examinar os pretendentes, um a um, Dona Flor respondia:

Sozinha eu no fico Nem hei de ficar Pois j tenho o professor Para ser meu par...

    Com forte umbigada tirou o professor Epaminondas Souza Pinto para seu parceiro e ele muito
sem jeito e escabreado saiu danando em frente a ela, no meio da roda, a cantar sem voz:


     Seus bens ele lhe ofereceu de dote: uma gramtica expositiva, um exemplar de "Os Lusadas"
com anotaes a lpis, o Dois de Julho e a Batalha do Riachuelo. Afora isso ainda possua de
reserva alguns feriados nacionais, um general com pouco uso e um navio dentro de uma garrafa
("nele vamos partir a navegar, senhora Dona Flor"). Tropeou, porm, nas prprias polainas cor
de gelo e levaram a breca sua elegncia de bailarino e seu chapu de chuva; Dona Flor se mijando
de tanto rir ao v-lo cai no cai. Tambm era por demais ridculo, s mesmo a gringa sem noo
de tato, do respeito devido ao grave e solene professor, era capaz de prop-lo candidato.
     Quanto a Dona Flor, nem parecia  mesma; ria sem controle nem piedade do velho gaiteiro
aos tropeos pela roda da ciranda, tentando ainda assim roubar-lhe, do vu de noiva, as flores
virginais da laranjeira. Bela morena no maior deboche, Dona Flor com outra umbigada terminou
de vez e para sempre com as pretenses do professor ao seu cabao.
     Pois retornara Dona Flor  virgindade, perdendo, porm ao mesmo tempo, o recato e a
pudiccia. Toda em branco e em rendas, fils e tafets, na pureza do vu e da grinalda - com a
saia longa e esvoaante do vestido nupcial envolvia a ciranda inteira, a prender os candidatos em
seu rastro de ofertante, em seu odor de donzelice.
     Com nsia e pressa, Dona Flor se propunha em casamento, a todos eles e a cada um se
exibindo, como se fosse donzelona j nas vascas da agonia, sem esperana de casrio. Ia de
marmanjo em marmanjo, convidando-os a danar com ela na roda da ciranda, na cirandinha a
cirandar em desafio e repto: qual deles capaz de lhe arrebatar as flores de laranja e a virgindade,
desfolhando a grinalda e Dona Flor? Com papis de casamento,  claro, moa donzela no vai
dando os trs-vintns assim, sem mais nem menos.
     Reptava-os com seu canto de convite e os retava com sua dana de frete, a rebolar as ancas, os
quadris e o busto, em meneios lascivos de rameira, trazendo-os, um a um, ao centro da roda com
umbigadas como a mais oferecida das mulheres fceis. Cnica, debochada, oferecida, to
oferecida puta de dar nojo e pena.
     Na pana de Mamede esfregando umbigo e bunda, ela o conduziu de par e cavalheiro e ele
danava num saracoteio muito de sado e inesperado em senhor to srio. Numa das mos um
velho candelabro, na outra um penico de loua de Macau com paisagem azul de campo ingls e
apenas uma invisvel rachadura, pea perfeita, assim como de prata verdadeira o candelabro.
Barganhava as duas pela virgindade  venda, exigindo pequena volta to-somente, alguns mil-ris,
uns quatrocentos e cinqenta. Como alcanar, porm, as flores, se tinha as mos ocupadas com
seus bens antigos? Dona Flor danava em torno dele, se achegando, roando-lhe a barriga de
antiqurio, levantando-lhe a poeira secular, Dona Flor perdida em riso e zombaria.
     Seu Raimundo de Oliveira at era maneiro e jeitoso para a dana. Seu dote: um cortejo de
profetas, a Bblia, santos velhos e modernos, alm de animais sagrados, o jumento e os peixes; e,
como bonificao, as onze mil virgens com o desfalque apenas de umas trs ou quatro dadas de
presente a seu Alfredo, santeiro no Cabea, e seu patro. As demais, todas intactas e perfeitas, seu
Raimundo recusara por elas altas ofertas em metal sonante, de Mrio Cravo, do arquiteto Lev, do
engenheiro Adauto Lima, todos em busca de boas secretrias. Se possua seu Raimundo tantas
virgens, por que diabo mais uma procurava? Apetite desmedido ou interesse escuso?  assim to
grande seu castelo, com tamanha freguesia? Meu castelo  o cu, oh! Dona Flor, e s quero um
sculo depositar em vossa boca de pitanga, sou um pecador antigo, venho do Velho
Testamento.
e vou direto para o Apocalipse . Pois v correndo, lhe disse Dona Flor.
     Veio seu Alusio, bem composto tabaru do interior, honrado homem do serto, muito
correto em sua dana e em sua eloqncia, um finrio a lhe pedir a mo com modos, quase
alcanando grinalda e flores, quase colhendo de Dona Flor a flor agreste. Mas Dona Flor, no
sendo besta, muito ao contrrio sabidssima malandra, no se deixou engazopar e envolver pela
conversa do rbula e notrio, conversa de argcia e de mesura.
     - Vamos  Igreja, senhora minha, tenho tudo preparado, os banhos e a bno episcopal, at
j me sujeitei  confisso e fui absolvido dos pecados.
     - Meu senhor, no me engabele, se quiser comer a peladinha venha de juiz e padre.
     - Ser que no chega s com o padre, a bno de Deus e da religio? De que vale a lei do
homem quando temos a de Deus ao nosso alcance?
    - Guarde, seu doutor, sua bno, seu padre e sua confisso. Sem a licena do juiz, v vosmic
me desculpando, sem ela no me come a peladinha, no desfolha a flor da viuvinha.
     "Minha viuvinha, minha viuvinha", assim ciciando galanteios entrou para o centro da roda o
rapaz bonito, plido e esguio, lnguido e suplicante, seu alento morno a envolv-la, sua cantiga de
amor a entontec-la:
"Tira tira o seu pezinho Bota aqui ao p do meu e depois no v dizer Que voc se arrependeu ".
     Danava que nem artista de cabar, uma dana conhecida; qual seria ela? Em volta de Dona
Flor, sua voz de seduo: "Aproveita bela viva Que uma noite no  nada Se no dormir agora
Dormir de madrugada"
     De madrugada, virgem ou viva. De sbito eis Dona Flor sem vu de noiva, sem vestes
brancas de donzela casta e casadoira, sem as flores virginais da laranjeira. Vestida agora de viva,
de luto fechado, meias cor de fumo, o resto cor de nojo, vu cobrindo a face, mantilha na cabea,
tristeza e cinzas. Uma flor apenas, rosa de to vermelha quase negra.
    Tanto quisera seu vestido branco, seu traje de noiva - no o usara no devido tempo, no tendo
mais cabao quando subscrevera papis de casamento, flor desfolhada na virao de Itapo.
     Com os candidatos das amigas e comadres, com as vises de Dona Dinor, podia dar-se a
brincadeiras, a pilhrias, dizendo-se virgem sem mcula, sem rano sem marca, sem toque de
homem, no passava tudo aquilo de pagode para rir.
     Mas no com o galante moo da esquina, um prncipe, um fidalgo, parecendo to menino e j
to rico, tanta moa a gemer e a suspirar por ele e ele gemendo e suspirando por Dona Flor viva
e pobre. Com o prspero comerciante de Itabuna, bom partido para qualquer donzela quanto
mais para viva, no era possvel dar-se a mofas e gracejos: sua respirao ardente penetrou-lhe a
carne, cobrindo-lhe de calor a indiferena, dissolvendo-lhe o gelo, revivendo quem morta se
encontrava para tais coisas e para sempre, seu hlito refloriu o desejo murcho e seco, perdida a
paz de Dona Flor.
     Dele no podia rir nem podia desconhecer sua presena: no sendo candidato de galhofa
como os demais, fico de amigas, fuxico de comadres, e, sim, realidade plantada ao p do poste,
varando sua sala com os olhos - um passo em frente e hei-lo instalado em casa da viva e nos
seus braos. Atrs dela tua a fora; no cinema a queimar-lhe, com o hlito e as palavras, a
resoluo mais firme, acendendo a brasa do desejo.
     Dona Flor agora sabe porque, apesar de tanta agitao, trabalho e passatempo, sente-se intil
e vazia, esmorecida. Em torno dela dana o pretendente, "dormirs de madrugada". Uma dana
muito sua familiar, dana de baile e cabar e no de ingnua roda de ciranda-cirandinha. Mas que
dana essa, meu Deus, de onde a conhece Dona Flor?
     No importa qual seja nem a msica nem a dana, nem a hora nem o lugar: num mpeto Dona
Flor arranca o vu do rosto, estende a mo ao noivo, rompe-se a bola de cristal: "Bela morena,
no ficarei sozinha, vem, moo plido, casemos logo, logo, meu fidalgo, meu prncipe
encantado".
     E, de sbito, se recorda e sabe: aquela msica  o tango arrabalero que ela danou mocinha
em casa do Major e sete anos depois no Place Hotel e quem est diante dela no  um rapaz
plido, um suplicante, um pretendente. Esse esvaiu-se no ar, desapareceu junto com a bola de
cristal e com Dona Dinor. Quem est diante dela  o finado cuja memria ela no est sabendo
honrar. Diante dela, de p, o seu marido: levanta a mo indignado, e a esbofeteia. Dona Flor cai
sobre o leito de ferro e ele lhe arranca a roupa de viva e lhe desfolha grinalda e vu de noiva, o
finado seu marido. Ele a quer nuinha, em plo, a peladinha, onde j se viu vadiar vestida? Ah!
tirano mais tirano, tirano mais sem jeito...
     Num esforo de desespero, Dona Flor acorda,  noite em torno e ela em pnico. Miados de
gatos em cio nos tetos e quintais, ai sonho mais sem p e sem cabea, ai sua paz perdida!

Captulo 6

     A noite inteira a pensar: pesos e medidas, solido e risos, o sumo do desejo e uma lgrima ao
nascer o dia. Muito cedo ainda, com a aurora rompendo os contrafortes da dvida, sentou-se
Dona Flor ante o espelho para se vestir e pentear. Foi em busca de perfumes, trouxe os brincos
de tia Lita e os colocou, experimentando enfeites, blusas e saias, novamente faceira como nos
tempos da Ladeira do Alvo quando saa nuns trinques de ricaa. To de manhzinha e j na
estica, a melindrosa: acontecera por mais de uma vez o plido rapaz aparecer antes do almoo.
Ao demais, era domingo, dia de missa com sermo de Dom Clemente.
     Quem apareceu antes do almoo e ficou para almoar foi Mirando, visita rara. Viera com a
esposa e com os filhos, um dos quais, o afilhado de Dona Flor, lhe ofertava sapotis e cajs, alm
de uma gola de croch, trabalho fino da comadre. Por que aquilo, por que tanto presente? Ora,
comadre, se assunte, no v dizer que no se lembra, no estamos a 19 de dezembro, dia de seu
aniversrio? Pois, compadres, quanta bondade e gentileza, ela esquecera a data, j no tinha gosto
para aniversrios. A esposa de Mirando no queria crer:
     - No se lembrou? Mas, por que ento a comadre est to chique, vestida de festa desde de
manh...
    Mirando recordava num toque de saudade:
     - Lembra, comadre? Faz um ano daquela noite no Place, nunca mais hei de esquecer seu
aniversrio...
     Fazia um ano, um ano justo. Ali estava Dona Flor toda elegante, penteada, lao de fita nos
cabelos, brincos de diamante nas orelhas e um perfume com odor picante sobre o seio, sem
poder sequer atribuir tanto capricho ao aniversrio, pois dele se esquecera. Mas os tios no o
esqueceram, nem Dona Norma, Dona Gisa, Dona Amlia, Dona Emina, Dona Jacy, Dona Maria
do Carmo; foram chegando com presentes, caixas de sabonete, vidros de gua-de-colnia,
sandlias, um corte de fazenda.
     - Voc est uma beleza, Flor, que elegncia! - comentou Dona Amlia.
     - No ano passado  que ela estava linda... - disse Dona Norma, recordando ela tambm a ida
ao Place. - Ganhou um presente e tanto...
    - Este ano tambm est ganhando um bom presente... a voz bisbilhoteira de Dona Maria do
Carmo.
    - Que presente? - quis saber a esposa de Mirando.
     Entre risos, Dona Emina e Dona Amlia lhe cochicharam o segredo.
    - No diga...
    - Um homem direito - sentenciou Dona Gisa. - Homem de bem.
     Mirando fora at o bar do Cabea onde se reunia uma roda dominical de ilheenses ricos a
beber usque, sob o comando do fazendeiro Moyss Alves. Na sala, as amigas rindo a comentar,
enquanto, com a ajuda de Marilda, Dona Flor na cozinha, de avental sobre a elegncia, reforava
o almoo.
     S no comeo da tarde, o Prncipe veio colher os frutos da extensa semeadura da vspera -
interveno de Dona Gisa, declarao no escuro do cinema. Num esplendor de roupas e de
palidez, de paixo incontida e de impaciente esperana, jamais to semelhante ao Senhor dos
Passos em seu martrio. Naquela noite disse a Lu, xod recente em cuja companhia tola e
graciosa despendera os ltimos nqueis da viva anterior, Dona Ambrosina Arruda, mastodonte
histrico:
     - Mimosa, hoje eu invado a fortaleza, entro na sala, no demoro a estar na cama com a viva.
    Ajeitou-se Lu no peito tsico do Senhor dos Passos:
     - Ela  to feia como a outra?... Ou  bonita?
     Ciumenta, sem entender o rgido cdigo, a tica do Prncipe, no se encontrava  altura de
conviver com profissional to competente e estrito em seus princpios:
- Feia ou bonita, j te disse,  besta,  a mesma coisa. Tu no v que  um negcio, uma operao
financeira e nada mais? O que interessa no  o rabo da viva, minha burra,  que ela tenha um
dinheiro e alguns berloques...
     Foi Dona Emina quem primeiro o viu ao poste. Correu a avisar, espocando em riso:
    - J chegou...
     Tanto rudo, tanta excitao e correria das mulheres perturbaram Mirando em feliz madorna
aps o almoo farto, com frigideira e galinha de parida. Despertando, dirigiu-se ele tambm s
janelas, onde as vizinhas sucediam-se num corre-corre. Enxergou, no outro lado da rua, ao p do
poste, no passeio do sobrado de seu Bernab, em lnguida postura o velhaco Eduardo de Tal, o
Prncipe, a limpar as unhas com um palito de fsforo e a sorrir galante.
    - O que  que o Senhor dos Passos est fazendo por aqui?
    - Quem  Senhor dos Passos? - Dona Norma, curiosa.
     - Quero dizer o Prncipe, velho vigarista, gatuno e meio...
Ia acrescentar: "o rei das vivas", mas fitando as amigas e as comadres em silncio pesado, tudo
compreendeu. Como se nada houvesse percebido, no entanto, com aquela sua delicadeza de
baiano, prosseguiu risonho:
    - Esse tratante  um passador do conto-de-vigrio, vive de enganar os bobos com essas
histrias de bilhete premiado, de dinheiro para entregar a um hospital, esses golpes que saem
sempre nas folhas...
    - Esse sujeito nunca me enganou... Bastou eu ver a cara dele... - disse Dona Norma.
    - Deve estar querendo roubar algum por aqui, pode ser o argentino ou outro qualquer -
concluiu Mirando.
     - O argentino, com certeza, j vi os dois conversando... Dona Norma mentia calorosa, to
baiana ela tambm, com a maior finura de compreenso e sentimentos.
     Deixando-as a remoer as desiluses da vida, Dona Flor posta em silncio, uma lgrima oculta,
uma nica, no valendo mais aquela humilhao e porcaria, Mirando, como quem no quer
nada, atravessou a rua em direo ao vigarista. Pelas frestas das janelas fechadas com violncia, s
comadres viram-no a conversar com o calhorda. Em nenhum momento deixou o Prncipe de
sorrir, mesmo quando perdido em explicaes confusas. Mirando fez um gesto enrgico
apontando-lhe a ladeira a descer para a cidade baixa. Rpida cena de cinema mudo para as
comadres na brecha das janelas.
     O Prncipe sabia aceitar uma derrota, no era de perder a cabea e de, cretino, persistir
correndo o risco de cadeia ou surra. Urucubaca dos demnios: fora logo meter-se com comadre
de mestre Mirando, feliz ainda de escafeder-se com a pele inteira, inclume. Era sincero ao
afirmar sua ignorncia; se fosse sabedor dessa amizade, evitaria at a rua, quanto mais...
     Sem erguer sequer os olhos para a casa de Dona Flor, mudando a rota, embicou para o mar
largo, desceu rpido a Ladeira da Preguia. Nem chegara  cidade baixa quando divisou ao longe,
indo devota para a Conceio da Praia, toda em preto e em vus, uma viva. Acelerou o passo,
no rumo do novo porto  vista, sorriso lnguido, splice olhar, o Prncipe de Tal em seu ofcio
trabalhoso.

Captulo 7

     Na esteira do Prncipe, nunca mais visto por aquelas bandas, foram-se os comentrios, os
cochichos, as risotas, os candidatos da vidncia e do mexerico, a folia e a troa em torno de novas
bodas de Dona Flor. Se antes ela zombara de tudo aquilo, em alegre burla, recusava-se agora a
qualquer conversa sobre o assunto, no escondendo seu desgosto e desprazer ao ouvir a mais
ligeira referncia  viuvez e casamento, tomando-a por insulto e grosseria.
     Como se as amigas e comadres houvessem firmado tcito protocolo, durante certo tempo no
se tocou nessa matria, parecendo todos de acordo com a viva em seu terminante veto a noivo e
a matrimnio. Quando alguma velhota mais xereta sentia ccegas na lngua, no desejo de debater
o grande tema, a lembrana do Prncipe ao p do poste lhe punha na boca um cadeado: como se
o vigarista ali permanecesse a rir da rua inteira. Sem falar na violenta proibio imposta por Dona
Norma, presidenta vitalcia do bairro, governo em geral liberal e democrata, mas, quando
necessrio, ditadura sem entranhas.
    As semanas seguintes quele confuso aniversrio foram talvez as mais movidas de sua
existncia: Dona Flor no teve um segundo de descanso. Sucediam-se os convites, todos
querendo encher seu tempo, ser gentil com ela. Enfiou sesses de cinema uma atrs da outra, fez
visitas a meio mundo, correu o comrcio, em compras com as amigas. Findo o horrio das aulas
vespertinas, ela mesma buscava compromisso:
     - Norminha, minha negra, para onde se toca assim to chique? Por que vai saindo de
mansinho, sem dizer nada?
     - Um enterrinho inesperado, minha santa. Chegou o aviso agorinha mesmo, com um atraso
medonho: seu Lucas de Almeida, um conhecido, vem a ser ainda parente de Sampaio, bateu as
botas, faleceu do corao. Sampaio no vai mesmo, voc sabe,  uma vergonha. No lhe chamei
porque voc no conhecia o falecido. Mas, se quiser, vale a pena ir... Vai ser um enterro e tanto,
dos bons...
     Com Dona Norma foi a sentinelas e enterros, a aniversrios e batismos. Na tristeza e na
alegria, a amiga mantinha a mesma eficcia e animao, assegurando o xito de qualquer festa ou
funeral onde aportasse. Assumia o leme, traava a rota, comandante dos risos e das lgrimas:
consolando, ajudando, conversando, comendo com vontade, bebendo com gosto (e com
mesura), rindo quase sempre, chorando se preciso. Para reunies de qualquer tipo, at para as
caceteaes das conferncias, ningum igual  Dona Norma, ecltica e disposta. "E um colosso",
dizia dela Dona Enaide; "um monumento", segundo Mirando, seu admirador; "uma santa", na
voz de Dona Amlia; "a melhor amiga", para Dona Emina e para muitas outras.
     - Um furaco... - gemia Z Sampaio, avesso quele movimento.
     - O senhor casou com a melhor mulher do mundo, seu Sampaio;
Norminha  a me da rua... - replicava Dona Flor.
     - Mas eu no agento tanto filho, Dona Flor, e tantas aporrinhaes ... - um pessimista, seu
Sampaio.
     Escoltando Dona Gisa, freqentou, no Campo Grande, o Templo Presbiteriano - a gringa a
cantar hinos em ingls, com a mesma enftica convico com que lia Freud e Adier, discutia
problemas scio-econmicos e danava o samba -, sendo repreendida por Dom Clemente, em
afetuoso caro:
     - Disseram-me que voc virou crente, Flor, ser verdade?
    - Crente? Que absurdo! Apenas acompanhara a amiga duas ou trs vezes, por simples
curiosidade e para matar o tempo; longo e vazio  o tempo das vivas, padre-mestre.
     Em divertida viagem de trem, excursionou com os Ruas, passando um fim de semana em
Alagoinhas, de onde procediam os vizinhos. Assistiu a uma aula de ioga com Dona Dagmar,
ministrada por graciosa mulherzinha, frgil bibel a contorcer o corpo como se fosse a mulher r,
do Circo. Devido ao horrio coincidente com o da Escola de Culinria, no pde Dona Flor,
como tanto quis e desejou, inscrever-se no curso e aprender os difceis exerccios que, segundo
sedutora propaganda impressa, mantinham o "corpo gil e elegante e a mente limpa e s",
proporcionando "exato equilbrio fsico e mental, perfeito acordo entre a matria e o esprito".
Equilbrio e acordo sem os quais no passava a vida de "sujo poo de excrementos",  como dizia
a literatura do folheto e como vinha ultimamente constatando Dona Flor: com o esprito e a
matria em luta, a vida se convertia "num dantesco inferno".
     Com Dona Maria do Carmo, acompanhou Marilda, candidata inscrita em segredo no
programa de calouros "Buscam-se Novos Talentos", onde, aos domingos, durante trs meses,
podiam moas e rapazes concorrer ao titulo de "Revelao da Rdio Sociedade" e a um contrato.
A bela normalista cantou com muito sentimento e m pronncia uma guarania paraguaia, saindo-
se alis bastante bem, num segundo lugar reconfortante e promissor. Ambicionava a estudante
fazer carreira como intrprete de msica popular, sonhando com um programa seu e retratos nas
revistas. O diabo era Dona Maria do Carmo de nariz torcido a tais projetos, a estdios e
auditrios radiofnicos. S a muito rogo e custo consentira naquela apresentao e ainda assim
porque conhecia o doutor Cludio Tuiuti, mandachuva na Emissora. No fora fcil convenc-la,
vencer-lhe arraigados preconceitos contra os quais de nada valiam os lgicos argumentos de
Dona Gisa nem as razes sentimentais de Dona Flor. Ao ver, porm, a filha ao microfone, to
graciosa, e sua voz no ar sobre a cidade, rendeu-se em lgrimas de orgulho e de emoo. Exaltou-
se contra o julgamento, quase agredindo o animador do popular programa, o locutor Slvio
Lamenha ou Silvinho simplesmente, pois, a seu ver, Marilda merecera o primeiro lugar, por
injusta proteo atribudo a um tal de Joo Gilberto, desafinado sem categoria.
     Com sua comadre Dionsia acertara Dona Flor comparecer  festa de Oxssi no candombl
do Ax Op Afonj, levando com ela Dona Norma e a gringa (curiosssima) e s no o fazendo
por causa de forte resfriado e de algum receio (receio que transformou o resfriado em perigosa
gripe). Nesses mistrios de macumba e candombl  melhor no se mexer, as ruas vivem cheias
de feitios e despachos, ebs de forte fundamento, mandingas perigosas, coisa-feita; quem quiser
acreditar que acredite, quem no quiser no acredite, Dona Flor prefere no tirar a limpo.
Dionsia lhe dissera um dia:
     - Minha comadre, seu anjo-da-guarda  Oxum, eu mandei um elu olhar nos bzios.
    - E como  Oxum, comadre Dionsia?
     - Pois eu lhe digo que  o orix dos rios;  upia senhora de semblante muito calmo e vive em
sua casa retirada parecendo  prpria mansido. Mas vai se reparar,  uma faceira, cheia de
melindre e dengue; por fora gua parada, por dentro um p-de-vento. Basta lhe dizer, minha
comadre, que essa enganadeira foi casada com Oxssi e com Xang e, sendo das guas, vive
consumida em fogo.
     Tanta correria, tanto movimento, porque com o Prncipe se fora tambm sua paz, sua
tranqilidade, aquela vida amena, sem problemas, aquele dormir sem sonhos cada noite, de um
sono s, reparador.
     Desde o absurdo sonho na roda da ciranda, seu sossego terminara. Aos poucos, dia a dia, a
inquietao de Dona Flor foi aumentando  at tornar-se angstia permanente: ao correr do
tempo de viva, num crescendo.
     No mais, porm, a partir daquela noite de cinema e sonho, retornou de todo  calma
indiferena,  ntegra sensao de vida plcida, talvez vazia mas serena: Dona Flor quieta em seu
canto e em seu trabalho. Mesmo sendo em aparncia pacata e agradvel sua vida - uma gua
parada -, no tivera mais um dia completo de repouso: seu peito em fogo consumido.
     Recatada viva mas coagida a defender o seu recato. No contra a insolncia de uma proposta
indecorosa; quem, conhecendo-a, ousaria sequer um galanteio? Quanto aos estranhos, atrevidos
postulantes, cois de esquina, esses em geral emudeciam ao v-la to discreta e sria. Mas se ainda
assim alguma piada arriscavam ao seu passar, elogios a seu porte ("que bunda rebolosa!") e a
detalhes de seu corpo, ("ai, os peitinhos to durinhos!") ou descarados convites ("vamos fazer
menino, minha bela?"), perdiam a inspirao, a graa ou a indecncia, e o tempo: ia em frente
Dona Flor como se fosse cega, surda e muda, em sua modstia e em seu orgulho de viva,
coagida a defender o seu recato contra ela prpria: contra os errantes pensamentos, sonhos ruins,
contra o desperto e rdego desejo, aguilho em sua carne. Perdera o "perfeito equilbrio entre a
mente e o corpo", necessrio a uma vida sadia, no erudito dizer da brochura ioga, "o justo acordo
entre o esprito e a matria". Matria e esprito em guerra sem quartel: por fora, viva exemplar
em sua honra; por dentro em fogo a arder e a consumir-se.
     A princpio, apenas de quando em vez e s pela noite, sonho de lascivas imagens a levava para
um mundo interdito s virgens e s vivas, a sacudi-la em seus alicerces de mulher, a lhe
despertar instinto e nsia. Acordava num esforo, punha a mo no peito, a boca seca. Tinha
medo de dormir.
     Durante o dia, nas tarefas da Escola, na leitura de romances,  escuta no rdio, distraindo-se
com tanta ocupao, era mais ou menos fcil manter-se  parte de qualquer mau pensamento,
abafar os latidos de seu peito. Mas como conter-se e comedir-se nas noites sem defesa, ao sabor
dos sonhos sem controle?
     Com o correr do tempo, porm, mesmo durante o dia comeou Dona Flor, a entregar-se a
estranhos devaneios, cismarenta e melanclica, em ais de desconsolo. O perigo era ficar a ss;
logo invadida por uma coorte de lembranas; inclusive as mais lricas e inocentes a conduziam ao
leito de ferro e fogo, em anseio e oferta. E seu recato de viva?
     Ultimamente dera para imaginar cenas inteiras, misturando pedaos de romances com fatos
lidos nos jornais ou com as histrias das comadres, com recordaes de sua vida de casada. No
hlito do Prncipe queimando seu cangote no cinema, entrara-lhe corpo adentro o sopro do
desejo; entrara-lhe pelo sangue e a expunha s penas do impossvel pior que as do "dantesco
inferno" da literatice ioga.
     A partir de certo momento teve de abandonar, por excitante, a leitura dos tolos romances para
moas, alimento espiritual da jovem Marilda a suspirar com condessas e duques, no langor
tropical da espreguiadeira. Pois bem: Dona Flor descobria malcia nas pginas mais ingnuas, e
fora de sexo naquele barato e baixo sentimentalismo, dando outra dimenso aos insossos
relambrios. Polua o enredo, a transformar dramalho e personagens, a virgem das campinas em
lbrica marafona; os adamados mancebos, quase eunucos, cresciam em garanhes brutais. Em
vez de "Coleo Menina e Moa" para adolescentes, romances pornogrficos, leitura para alcova.
     O mesmo se passava com a excitante crnica da cidade, no comentrio das comadres, nas
pginas das gazetas. Em cadeiras na calada, compunha-se a roda noturna das amigas no relato e
no debate do ltimo crime apaixonante: a mucama deflorada pelo patro, ela com quinze anos e
onze irmos; ele com cinqenta e trs de idade e cinco filhos, dois doutores e trs moas j
casadas, sem falar na esposa e nos vrios netos; o pai carpina, de arma em punho para vingar sua
honra; trs tiros no corao do baluarte da sociedade, do esteio do civismo e da moral, do lder
dos conservadores; ferimento de morte e o criminoso preso, metido na enxovia, aps uma surra
para acalmar-lhe os nervos; honra lavada a sangue e o povo a exigir justia, liberdade para o
vingador. Amigas e comadres davam razo ao pai, louco e cego ao ver a filha prenha, sua honra
comida com champanha. Todas, menos Dona Dinor, sempre a favor dos ricos: "essas negrinhas
se metem na cama dos patres para depois fazer chantagem". Quanto a Dona Flor, s guardava
memria dos detalhes escabrosos, s retinha em seu peito e em seu degradado pensamento 
viso da meninota nos braos do calhorda, a gemer de gozo, satisfeita. O resto, aquele extenso
panorama de horrores, era-lhe no fundo indiferente, por mais se declarasse solidria com a clera
das comadres.
     Foi-se reduzindo assim seu tempo de recato interior. No entanto, quem a visse
movimentando-se nas aulas, ao fogo, ou com as amigas de um lado para outro, em compras, em
visitas (jamais indo, porm, a festas defensas a seu estado de viva), no imaginaria a batalha a
travar-se no seu ntimo, a louca bacanal de suas noites, sua consumisso. Porque ningum mais
respeitvel e honesta, em sua boca jamais se ouviu nome de homem pronunciado com interesse,
sequer em referncia casual a seus atributos e virtudes. E, se antes zombara de pretensos
candidatos, em galhofa com as comadres, agora nem tolerava ouvir seus nomes, morta de
verdade para novo matrimnio. Viva assim to discreta e recatada, nem naquele bairro nem na
cidade toda, e, se no mundo houvesse alguma no seria mais composta e honesta; exemplo das
vivas, Dona Flor.
     Por fora, o recato em pessoa. Calma de semblante e retirada, parecendo  prpria mansido;
por dentro, ardendo de desejo, "em fogo consumida", como Oxum, seu orix. Ah! Dionisia, se
soubesses como o fogo de Oxum queima as noites de tua comadre e o seu corpo moreno, seu
pelado ventre, lhe mandarias dar um banho de folhas, ou um marido.
    Cada vez mais inquieta, Dona Flor, suas noites em sonho ou em solido. Quando conseguia
dormir tranqila uma noite inteira, Ah! Era uma bno de Deus! Quase sempre no durava seu
repouso, seno um comeo de sono sossegado. Logo os sonhos se erguiam e a levavam para seu
degredo de obscenidades, Dona Flor rolando no colcho, opresso o peito, dodo o ventre. Cada
vez menor seu tempo de dormir e descansar crescendo a cada noite o de sonhar e desejar, o de
ranger os dentes. "A matria predominando sobre o esprito", segundo lhe ensinou a culta
propaganda ioga.
     Impudica, devassa, onde nos sonhos seu recato de viva? Nunca fora assim: mesmo casada,
na cama com o marido, jamais se entregara fcil, sendo preciso cada vez ele vencer-lhe a
pudiccia, romper o desterro de sua casta natureza. Pois agora, nos sonhos, ela saa a se oferecer a
uns e outros; e, por vezes, nem viva era, e sim mulher da vida a vender-se por dinheiro. Quanta
vergonha, ai: j lhe acontecera acordar no meio da noite e pr-se em pranto sobre as runas de
seu ser antigo, aquela Dona Flor pudica, envolta em seu pejo e em seu lenol. Em luxria envolta
agora, na desfaatez do sonho, voraz e cnica rameira, loba uivante, gata em cio, puta.
     Por vezes, de to cansada do dia fatigante, adormecia no cinema, cochilava na conversa com
as amigas, morta de sono. Bastava-lhe, porm, por a camisola e estender-se no leito para perder
toda  vontade de dormir: ia-se o sono e seu pensamento vagabundo no se continha nos limites
da decncia e do quotidiano, detalhes das aulas, uma compra, um passeio, a enfermidade de
vizinho ou conhecido, a asma de tia Lita, por exemplo, a lhe causar tanto vexame. Tambm a boa
velha atravessava noites sem pregar olho, ameaada de asfixia pela molstia impiedosa. A
asfixiada Dona Flor, roda de desejo. No lhe obedecia mais seu pensamento: voltava-se para os
problemas de Marilda, seu empenho em cantar na Radio, os intransponveis obstculos - e de
sbito via em sua frente o lvido Prncipe a lhe repetir aquelas frases redondas como versos,
palavras de amor no escuro do cinema. Onde Marilda e seu problema, seu defeso canto, sua voz
de passarinho?
     Soubera Dona Flor da fama do gal no meretrcio. Dionsia, inocente da ridcula aventura,
pensando sua comadre ter sabido do vigarista atravs do noticirio dos jornais, divertira-se a lhe
contar histrias do lnguido Senhor dos Passos. Quando Dionsia labutara de rameira, o
capadcios gozava de grande prestigio entre as mundanas. Pela boniteza plida, pela voz
romntica, pelos olhos langorosos, e por sua notvel atuao na cama, um zarro de verdade, um
xispete daqueles de arreliar, no dizer das apreciadoras. Despertava paixes dramticas, e por ele,
certa feita, duas fulanas se atracaram a tapa e a dente, indo uma para o hospital, aberta de navalha,
a outra para o xadrez sob a acusao de ferimentos leves.
     No sonho, Dona Flor era a segunda, bbada e agressiva, de navalha erguida contra Dionsia,
em chalaa grossa: "Venha se  mulher, si imunda, para eu te lascar cara e chibiu". Mas Dionsia
ria num deboche, as marafonas todas riam de Dona Flor, viva e tola. No lhe disseram ser o
belo moo o Prncipe das Vivas, delas tomando apenas o dinheiro e as jias. Nem casamento
nem descarao na cama. Sabendo disso, por que ainda vinha Dona Flor em brasa, incontida,
incontinente, lhe oferecer desnuda seu pelado corpo? Uma vergonha, onde seu pejo de viva?
      Recorreu a plulas soporferas, capazes de lhe garantir o sono  noite inteira. Na Drogaria
Cientfica, na esquina do Cabea, consultou o farmacutico, doutor Teodoro Madureira. No dizer
de Dona Amlia, com geral apoio, sendo apenas farmacutico, doutor Teodoro podia dar quinau
em muito mdico; competente em seu ofcio, para achaques corriqueiros ningum melhor, receita
sua era tiro e queda, cura garantida.
     Insnia, nervosismo, mau dormir? Excesso certamente de afazeres, nada srio, diagnosticou
amvel o droguista, aconselhando o uso de certas drgeas timas para combater os efeitos da
fadiga; davam descanso ao crebro, equilbrio aos nervos, calma ao sono. Podia Dona Flor tom-
las sem receio, se no lhe fizessem bem, mal no lhe fariam, no continham entorpecentes nem
excitantes como algumas drogas caras e modernas, muito em moda. "Perigosssimas, minha
senhora, tanto quanto a morfina e a cocana, se no o forem mais". Uma enciclopdia o
farmacutico, e atento, um tanto cerimonioso, traando gentil salamaleque ao despedir-se.
Sobretudo no esquecesse Dona Flor de lhe comunicar o resultado.
     Nenhum resultado, seu doutor Teodoro. Dormiu de uma estirada a noite inteira,  bem
verdade, s acordando quando a ama em susto lhe bateu  porta, na hora quase de comear a aula
do turno matutino. Um longo sono, sim, mas igual aos outros, a mesma obsesso, o sensual
delrio, a noturna febre, a orgia desmedida; pior que os outros, pois no conseguiu interromp-lo
e acordar, nele se crucificando a noite inteira, nesse sonhar sem fim, seu ventre em fome e sede,
ferida dolorosa, chaga exposta - pela manh, Dona Flor caindo  aos pedaos de cansao. Com
plulas, ou sem plulas o sono lhe acendia as fogueiras do desejo. Obsedada, obcecada.
     Obcecada, Dona Flor, a debater-se em danao. Durante o dia, com o tempo cheio, era cega e
surda ao apelo do sexo solto na cidade: aos ditos, aos olhares pesados de convite, s frases de
galanteria ou de indecncia, ao cpido desejo do macho a despi-la com o olhar e a come-la num
suspiro no cruzar da rua. Viva honesta, exemplo das vivas, em seu trabalho, em seu passeio,
em seu recato. Durante a noite recolhia pelo cho e pelo lixo a voz dos homens, o olhar de posse,
o suspiro cnico, o indecoroso ciciar, o assovio de chacota, o torpe palavro, o convite para a
cama. Quando no era ela a convidar, a se oferecer despudorada aos machos, vagando na zona de
mulheres-damas, a mais dama e puta, a mais barata e fcil. Sujo poo de excrementos. Nenhum
macho, porm, a alcanou e a teve. Quando em vias de obt-la, j na fmbria de seu ventre em
brasa, ento o repelia Dona Flor, de sbito acordando em nsia e desespero. Viva decente e
recatada em sua noite de angstia e solitude.
     Ningum se dava conta de sua consumisso maldita. Todos julgavam calma sua vida, sem
problemas, cheia de interesse, mesmo alegre. Antes muito sofrera do marido, um mau sujeito, um
jogador. Agora uma viva conforme em seu estado, contente em sua vida, com a maior
indiferena por novo matrimonio, com o maior desprezo pelos homens. To tranqila a ponto de
causar admirao e comentrio. Quando despontava no Cabea, altiva e sria, no bar os homens
discutiam a seu respeito:
     - Viva direita aquela ali. Sendo bonita e moa, nunca levantou a vista para homem...
    - Honesta at demais. Talvez nem seja por virtude...
     - Ento, por qu?
     - Honesta por natureza por ser de natureza fria. Fria como gelo, imune ao desejo. H
mulheres assim, belas esttuas, para elas o desejo no existe. No h virtude em sua castidade e,
sim; frieza. So icebergs. Ela  uma dessas, certamente.
     - Ser ou no, quem sabe? De qualquer maneira, por virtude ou pelo que seja,  a viva mais
direita da cidade... O outro persistia, ctico e declamatrio, sub-literato atroz:
    - Fria como iceberg, pode ter certeza. Marmrea, lgida, glacial.
     Dona Flor em prudente passo, vestida com elegncia e discrio, simples e modesta
formosura, sem desviar os olhos para os lados, correspondendo ao alegre aceno do santeiro
Alfredo, ao sonoro boa tarde de Mendez, o espanhol, ao respeitoso saudar do farmacutico, ao
riso acolhedor da negra Vitorina com seu tabuleiro de abars e acarajs. Custava-lhe esforo
aquela decncia tranqila, aquela face calma - nervosa, no cansao da noite mal dormida, da luta
inglria contra o desejo em brasa de seu ventre. Por fora gua parada, por dentro uma fogueira
acesa.

Captulo 8

     - Voc foi rude demais... Foi grosseira... - disse-lhe Dona Norma, sincera. - Enaide est
zangada e com razo...
     Na manh de domingo, de sol e preguia, a seguir-se  tumultuosa e festiva noite de sbado e
de aniversrio de seu Z Sampaio, as amigas cercavam Dona Flor, ainda a ressumar uns restos de
irritao.
    - No tolero ousadias...
     - Ele estava apenas brincando... Voc tomou a mal... Dona Amlia no vira maldade em
doutor Alusio.
    - Brincadeira de mau gosto...
    Enrgica, Dona Norma refletia o pensamento das amigas: - Flor, desculpe que eu lhe diga, mas
voc est uma no-me-toques. Por qualquer coisa se zanga, se magoa... Voc nunca foi assim,
enganjenta... Eu no estava presente, mas mesmo que ele tenha exagerado um pouco, era uma
pilhria, voc no precisava se exaltar...
     Dona Gisa desenvolvia toda uma tese cientfica para explicar a figura e as atitudes do notrio
de Pilo Arcado:
     - Seu Alusio  um tpico homem do serto, patriarcal, acostumado a tratar as mulheres como
sua propriedade, uma coisa, um animal, uma vaca ...
     - Isso mesmo... - aproveitava Dona Flor - Uma vaca... Para ele todas as mulheres no passam
disso... E ele  um cavalo...
     - Voc, Flor, no est me entendendo e tampouco entende seu Alusio. E preciso observ-lo
em funo do meio em que vive. Meio agropecurio... Quanto a ele,  um senhor feudal...
     - Um descarado  o que ele ... De mo maneira... Vai segurando a da gente e fazendo
ccegas...
     - Norma tem razo, Flor, voc est uma sensitiva. Doutor Alusio s fez pegar em sua mo... -
opinou Dona Jacy.
     - Para ler a sorte... - Dona Maria do Carmo constatava: Por que  que todo sujeito malandro
vem com essa histria de ler mo?
    - Voc tambm acha que ele  um sem-vergonha?
     - Esse tal de seu... de doutor Alusio? Ora, se ... - e, colocando outro problema: - Afinal, ele 
doutor ou no?
     Seu Alusio ou Doutor Alusio? Dona Maria do Carmo, sem o querer punha em debate um
srio problema de tratamento e protocolo. Na regio do So Francisco, de Juazeiro a Januria, de
Lapa a Remanso e Sento S - zona onde exercera a advocacia, rbula provisionado, orador de jri
dos mais retricos - era doutor para todos os efeitos. Na capital, no entanto, sem o curso
universitrio, subtraam-lhe o ttulo indevido. No desejo de manter este relato eqidistante da
cidade e do serto, aqui sero usados indiferentemente os dois tratamentos, atendendo-se assim
aos formalistas rgidos e aos nonchalantes liberais. Quanto s amigas reunidas na sala de Dona
Flor, no se interessaram pelo problema:
     - Doutor ou no,  uma patativa, sabe falar, tem mel na lngua... um finrio... - resumia Dona
Emina, at ento calada. Comentavam os acontecimentos, quase um pequeno escndalo, da noite
de aniversrio de seu Sampaio. Sendo o comerciante de sapatos avesso a festas e comemoraes,
restringiu-se Dona Norma, a contragosto, a um farto jantar para o qual convidara amigos e
vizinhos. Gluto, porm parcimonioso, seu Sampaio discutira (como fazia todos os anos),
propondo  esposa nada preparar em casa, saindo para comer, com ele e o filho, num restaurante:
comeriam bem e muito em conta, sem barulho e sem confuso, sem maiores despesas. Como
tambm o fazia todos os anos, desde o casamento, Dona Norma reagiu ao prudente e parco
alvitre: um jantar americano era o mnimo que podiam oferecer sem desdouro a seu vasto crculo
de relaes.
    Na cama, o dedo grande enfiado na boca, seu Z Sampaio gastara os ltimos argumentos
numa exposio a seu ver irrespondvel:
     - Sou contra por vrias razes e, todas elas vlidas.
    - Diga l suas razes, mas no me venha com a velha histria que a venda de sapatos est
baixando, porque eu vi as estatsticas...
     - No  nada disso... Oua, sem me interromper. Primeiro eu no gosto desse negcio de
jantar americano, todo mundo em p. Gosto de comer sentado na mesa. Nesse troo americano
que vocs inventaram agora, fica todo mundo cercando a mesa, e eu, que sou encabulado, acabo
comendo as sobras; quando vou me servir j comeram toda a frigideira; s tem asa de peru, o
peito j se foi. Terceiro: ainda pior sendo aqui em casa. Como dono da casa tenho de me servir
por ltimo e a no encontro nada, fico na mo. Como pouco e mal... Quarto: no restaurante,
no. A gente senta, escolhe os pratos - e, como  dia de aniversrio, cada um pode comer dois
pratos... - esses dois pratos eram sua comovente concesso  famlia e  gula.
    Dona Norma mal agentava ouvir at o fim:
     - Z Sampaio, faa o favor, no seja ridculo. Primeiro: somos convidados para tudo quanto 
aniversrio...
    - Mas eu nunca vou...
     - Vai pouco mas s vezes vai... E quando vai, come por cinco... Segundo: no me venha com
essa conversa que em jantar americano voc se serve pouco, que  encabulado. No aniversrio de
seu Bernab, a que voc foi s porque o homem  estrangeiro, voc botou em seu prato quase
metade do sufl de camaro, sem falar nas empanadas... Uma esganao...
     - Ah! - gemeu seu Sampaio - a comida de Dona Nancy  uma beleza...
  - A minha tambm... No fica a dever nada... Terceiro: aqui em casa voc nunca se serviu por
ltimo,  o primeiro a se servir, uma m educao, nunca vi igual. Uma feira, o dono da casa...
Quarto: em jantar meu no falta comida, benza Deus. Quinto: comida de restaurante ...
     - Basta... - suplicou o comerciante, envolvendo-se todo nos lenis. - Eu no posso discutir,
estou com a presso alta...
     Jantar de Dona Norma era banquete; se convidava vinte, fazia comida para cinqenta; com
razo, pois toda a pobreza em redor vinha limpar os fundos das panelas, beber as sobras das
garrafas. Naquele ano, o aniversrio de seu Sampaio trouxe toda a vizinhana   sua casa;
inclusive os Bernabs, Dona Nancy buscando entrosar-se na roda das amigas, seu Hector a falar
de negcios e a alardear o progresso da Argentina.
     Terrvel patriota portenho, esse senhor Bernab, a estabelecer permanente paralelo entre a
Argentina e o Brasil, e sempre,  claro, com vantagem para sua ptria; a salientar em conversas e
discusses o desenvolvimento argentino, as riquezas, o clima - com as quatro estaes bem
definidas, no esse caloro daqui o ano todo -, as estradas de ferro exemplares - no essa baguna
daqui, os trens sem horrio -, as frutas finas, europias, o vinho, o po de trigo puro, a carne farta
e macia, de gado de raa. Dona Nancy em pnico quando o marido desembestava em civismo,
saa de seu silncio para cont-lo:
    - Pero, Bob, ac tanbien hay cosas buenas... Mira los ananazes, por ejemplo... Buensimos... -
doida por abacaxis e temerosa  de ver o marido num conflito, s voltas e aos tapas com um
patriota brasileiro dos brabos, um militante do me-ufanismo nacional.
     Assim, alis, quase acontecera e por mais de uma vez. Certa ocasio, num desses debates geo
econmicos,  seu Chalub, do Mercado (filho de srios, brasileiro de primeira gerao e, por isso
mesmo, chauvinista exaltado), perdeu as estribeiras e, rebaixando a fbrica de cermica a olaria de
telhas e tijolos, lanou no rosto do iracundo Bernab a pergunta incivil:
     - Se a indstria de l  to melhor, se a vida  to formidvel, porque ento voc veio montar
aqui sua olaria?
     Tambm o pintor Caryb (o tal que fizera o retrato de Dionsia de Oxssi vestida de rainha,
empunhando o of e o eruker), tendo ido estudar com o argentino a possibilidade de queimar
em seu forno umas peas folclricas, viu-se envolvido numa polmica sobre tango e samba, e
findou por explodir:
     - Coisa nenhuma... Uma terra onde no tem mulatas, tudo umas brancarronas, isso  lugar
onde ningum more... Faa-me o favor!
     No aniversrio de seu Sampaio, porm, o intimerato defensor da grandeza Argentina esteve
cordialssimo. Se exaltou sua terra, no o fez em detrimento das coisas brasileiras. Ao contrrio,
teceu verdadeiro hino ao povo da Bahia,  sua maneira de ser, sua gentileza, sua bondade. Foi
assim o aniversrio do lojista um sucesso social, apenas toldado pelo incidente (alis, sem
repercusso fora do crculo das amigas e comadres) entre Dona Flor e seu Alusio.
     Dona Flor tivera dvidas sobre se podia ou no comparecer s comemoraes. Sendo jantar
de tantos convidados, no adquiria carter de festa, incompatvel com seu estado de luto? No
completara ainda um ano da morte do marido; em verdade faltavam apenas uns poucos dias, mas
uma viva deve ser rgida em seus princpios, pois a ideologia da viuvez  sectria e dogmtica. O
menor desvio lana aos calcanhares da enxerida a alcatia das comadres, em condenao e
repulsa.
     Dona Norma riu de seus escrpulos: desde quando um jantar, simples jantar de aniversrio,
era defeso s vivas? No se tratava de baile, nem mesmo de assustado; e se Artur e seus amigos,
rapazes e moas estudantes, pusessem um disco na vitrola e arrastassem um samba, pura
brincadeira de jovens, no ia o passatempo inocente interferir com o rigor dos prazos na etiqueta
do luto, no cerimonial da viuvez, no ia escandalizar o defunto em sua cova. Ao demais, Dona
Flor passara o dia praticamente em funo do aniversrio de seu Sampaio: em sua cozinha, e com
a ajuda de Marilda, preparou o vatap - um caldeiro - e a moqueca de peixe, uma delcia,
enquanto Dona Norma se ocupava com os demais quitutes. Assim, convencida, Dona Flor
compareceu. Antes no houvesse ido, teria evitado aborrecimentos.
     Quando j estava  casa cheia, as mesas sendo servidas, Dona Enaide chegou do Xame-Xame,
trazendo uma bandeja de quindins, uma gravata para seu Sampaio e as desculpas do marido, que,
aos sbados  noite, infalvel parceiro em sua roda de pquer, recusava-se a qualquer outro
compromisso. Em compensao, em sua companhia veio seu Alusio, para muitos doutor
Alusio, o comentado rbula e notrio das margens do rio So Francisco, o tal solteiro pela
metade, por sua parenta proposto candidato  mo de Dona Flor. Metido em fatiota nova em
folha, de mescla escura e quente todo pimpo, nariz adunco e forte, reluzente calva, olhos vivos e
perscrutadores, envolto em gua de colnia e em talco, manequim. Dona Enaide caprichou nas
apresentaes, orgulhosa do cunhado influente no serto:
     - Alusio, quero lhe apresentar Dona Flor Guimares, a viva mais bonita da Bahia...
    - Enaide, no brinque...
     Curvava-se doutor Alusio para beijar-lhe a mo, uma onda de perfume evolando-se no ar,
envolvendo Dona Flor:
     - Minha senhora, este  um momento emocional em minha vida. Minha cunhada j me falara
em carta a seu respeito, contando maravilhas... Vejo, no entanto, que ela ficou muito aqum do
modelo; s um poeta para descrev-la, senhora...
     Ao mesmo tempo, despia Dona Flor com o olhar demorado e vido, arrancando-lhe vestido e
combinao, corpinho e calola. Nunca se sentiu to nua Dona Flor, aquela mirada a medir-lhe a
curva da bunda, a rigidez dos seios, a rosa do ventre. De apreciativo, tornou-se o olhar
aprovador, e o amvel sorriso de cortesia abriu-se em satisfeito riso.
     Tudo isso sem lhe largar a mo, tendo-a presa na sua enquanto a desvestia e julgava.
      Sim, porque lhe avaliava ao mesmo tempo corpo e esprito, concluindo estar diante de presa
fcil e segura. Com sua experincia de Don Juan do interior, classificou Dona Flor de fingida e
bem fingida. Conhecia essas mulheres de aparncia mansa: quase todas umas impostoras, umas
enganadeiras; quando na cama, diabos soltos, desembestados.
     Nas pequenas cidades sertanejas, onde a mulher no tinha nenhum direito, serva circunscrita 
vontade do marido, seu senhor, e aos limites do lar, seu Alusio surpreendera por mais de uma
vez, no fundo de uns olhos baixos e no escondido de uma discreta postura, ardente resposta a
seu impudico convite.
     Ah! essas guas mansas escondem tempestades; sob o aparente decoro e a reserva do luto, em
que tormenta interior no se debateria Dona Flor, mulher jovem e s? Doutor Alusio conhecera
outras assim de modesta aparncia, no esconso das casas, nas malhas de um cdigo de honra,
medieval. No entanto, surgindo ocasio propcia, contornavam com incomparvel engenho
bices e temores, revelando-se peritas na tarefa de plantar chifres nos terrveis ferrabrases; de
quando em vez um esposo trado impunha a lei com uns tiros ou umas punhaladas.
     Em suas horas de cio - a maior parte de seu tempo, pois o cartrio pouco o exigia - o notrio
dedicava-se s mulheres, ao seu estudo e conhecimento (se possvel, ntimo), levando o juiz de
direito de Pilo Arcado, doutor Dival Pitombo, a classific-lo como "emrito psiclogo, arguto
confidente da alma feminina e erudito leitor das letras clssicas". As letras clssicas reduziam-se a
tradues nacionais ou portuguesas da mitologia grega, e de aspectos, em geral frascrios, da vida
no Imprio Romano. Quanto s mulheres, tinha o olho clnico, o que lhe rendera algumas
aventuras e vasta fama de terror dos maridos, de sedutor irresistvel. Apesar da careca e do
narigo, algumas mulheres por ele enfrentaram o pecado, o cdigo feudal, as leis da vingana.
     Pois bem: esse olhar de lince do Casanova do rio So Francisco vasculhara de entrada o
ntimo de Dona Flor, varando-lhe o pensamento, apossando-se de seus segredos, aps t-la
despido de roupas e adornos. To deslavado olhar no tinha outro sentido: seu Alusio a
desnudava por fora e por dentro e, em concluso, achando-a a seu gosto, achava-a tambm
desfrutvel e at fcil. Para ele, Dona Flor no era a viva mais direita e honesta da Bahia, aquela
eleita pelos bebedores no bar do Cabea, aquela por quem at a mais maldosa das comadres
botava a mo no fogo na certeza de retir-la ilesa.
     E por falar em mo, o rbula mantinha a que Dona Flor lhe estendera, presa entre as suas,
apertando-a ligeiramente numa carcia quase insensvel. Dona Flor deu-se conta ao mesmo tempo
de como a despia o tipo, do conceito em que a classificava, e da mo tomada como um penhor
de posse. Tabaru atrevido, cheio de empfia  e confiana: se Dona Flor no reagisse logo, no
lhe cortasse as asas em seguida, seria ele capaz mais adiante de qualquer intolervel ousadia.
Brusca, fechando o rosto, retirou a mo. No se deu por achado o sedutor das caatingas:
     - Permita-me uma confisso, minha estimada... Tendo interesses a discutir na capital,
referentes  repartio que dirijo, e parentes a visitar, foi antes de tudo o desejo de conhec-la que
me trouxe a Salvador... Enaide, em suas cartas...
     Mas Dona Flor, vendo aparecer na sala Dona Dagmar, sua aluna e amiga dos Sampaios,
plantou ali mestre Alusio:
     - Com sua licena... Tenho de falar com aquela amiga... Dona Dagmar, desinibida e
boquirrota, foi logo lhe perguntando:
    - Quem  aquele papagaio pelado? Um pretendente?...
     - Me deixe em paz, mulher... Aquele  o cunhado de Enaide, o tal de doutor Alusio, chefe
poltico no sei onde...
    - Ah!  esse... J ouvi falar nele... Dizem que manda um bocado no So Francisco... Menina,
deixa eu comer qualquer coisa...
    Na sala de jantar, as mesas eram assaltadas pelos convivas num rudo de pratos e talheres,
travessas de comida chegando cheias, voltando vazias para a cozinha. Um sucesso, o jantar de
aniversrio de seu Sampaio. A casa entupida: gente do comercio, colegas do Clube dos Lojistas,
parentes, vizinhos, amigas de Dona Norma, formando grupos nas salas e na varanda. Repleta
tambm a cozinha de afilhados e comadres de Dona Norma, a pobreza dos arredores. Num
canto da sala de jantar, prximo  mesa principal, o aniversariante, seu Z Sampaio, comia com
avidez e pressa, lanando olhares de soslaio para a mesa, no temor absurdo de acabar a comida
antes dele repetir o prato.
     Meio escondido para que no viessem puxar conversa, perturbando-o. Mas o argentino
Bernab, os lbios amarelos do dend, em arrotos fartos, dava os parabns ao dono da casa:
    - Macanudo, amigo. La comida, deliciosa...
     Dona Flor ajudara por algum tempo Dona Norma e as empregadas (todas as empregadas da
vizinhana), mas, ao diminuir o movimento, obtivera uma cadeira num canto da varanda, dali
acompanhando a agitao do jantar: seu Vivaldo, da funerria, ia pelo quarto prato; doutor Ives
empanturrava-se de sobremesas.
     Seu Alusio, de palito na boca, veio se aproximando, como quem no quer nada, at encostar-
se no muro da varanda ao lado de Dona Flor:
    - Festim romano... - sentenciou ele.
     Dona Flor por um instante decidiu no responder, mas afinal o fez; no tinha motivos para
tanta desconsiderao ao tabaru.
     - Norminha, quando d um jantar, no mede a comida...
     Seu Alusio olhava para os lados, deixando a conversa morrer, sem continuidade; Dona Flor,
voltada para o movimento da sala. Foi quando ela ouviu o cicio da voz do notrio, em surdina:
    - Beleza, me diga uma coisa...
     - O qu? - assustou-se ela.
     - O que  que voc achava da gente cair fora daqui, ir ver o luar na Lagoa do Abaet? Voc vai
saindo, me espera no Largo...
     Dona Flor j estava de p, a voz estrangulada:
    - O que est pensando de mim?
     Doutor Alusio ria mansinho, como se ele bem soubesse do pouco valor daquela indignao,
acostumado a essas primeiras e bruscas reaes.
    - Um passeio, nada mais...
Dona Flor no pde sequer responder, uma agonia a queimar-lhe a face, a oprimir-lhe o peito.
Estavam assim to estampados em seu rosto  nsia de homem e o desatinado desejo? Quase
correndo, dirigiu-se  sala.
    - Que  que voc tem, Flor? - perguntou-lhe Marilda, ao v-la assim nervosa, as mos trmulas.
    - No sei, tive uma palpitao... No  nada...
     - Sente aqui... Vou lhe buscar um copo d'gua...
     - No precisa... Vou sentar ali com sua me...
     No crculo das amigas em mofa e comentrios sobre a gulodice de alguns convivas, Dona Flor
restabeleceu-se do choque, do sorriso de motejo, das palavras de escrnio do atrevido. Um cnico
a convid-la para ver o luar em noite negra como aquela, um breu. Aos poucos foi participando
da conversa, divertindo-se com as observaes de Dona Amlia e de Dona Emina. Dona Maria
do Carmo nunca vira antes seu Sampaio em ao num almoo ou num jantar: ficara aparvalhada.
     Quando a conversa ia mais ruidosa e alegre, eis que o persistente gal sanfranciscano surge
outra vez, de brao com sua cunhada Dona Enaide, a perguntar, enxerido:
    - Tem lugar para dois? Ou a conversa  proibida para homens?
     - Vo se abancando...
     Dona Flor no tomou conhecimento da presena do notrio, o qual, no entanto, pouco
depois, j estava a ler a mo de Dona Amlia, fazendo-as rir com suas pilhrias. Era espirituoso o
tipo, a prpria Dona Flor sorriu uma ou duas vezes de suas graas. Anunciou viagens e riquezas
para Dona Amlia. Depois foi a vez de Dona Emina. Muito grave, ele lhe prometeu mais um
filho, para breve.
     - tesconjuro... No bastou com Aninha, to fora de tempo?... V azarar outro...
     - Dessa vez vai ser menino... No erro nunca...
     Aps a leitura da mo de Dona Emina, ps os olhos em Dona Flor, como se nada houvesse
ocorrido antes; olhos a despi-la novamente, passando ao mesmo tempo a ponta da lngua nos
lbios, num gesto to descarado que ela sentiu seu corao parar; at onde pensava ir aquele
tipo? Felizmente as demais no se deram conta. Estendendo a mo para segurar a de Dona Flor,
ele disse:
    - Chegou a sua vez...
    - No quero saber disso. Tudo tolice...
     Mas as demais exigiram, entre gargalhadas. Que iriam pensar se ela persistisse em sua recusa?
Seria pior. Numa deciso, concordou. Sorriu vitorioso doutor Alusio, o especialista da alma
feminina: nunca se enganava.
     Colocou sobre a sua a mo esquerda de Dona Flor, com a palma voltada para cima. Com o
dedo de unha bem tratada ia marcando as linhas reveladoras, numa ccega distante e sutil, Dona
Flor rgida e tensa.
     - Excelente linha da vida... Vai viver mais de oitenta anos... - ficava um segundo em silncio,
como a examinar atentamente a mo da viva. - Vejo grandes novidades...
    - Novidades? Quais? - as amigas, excitadas.
     - Na linha do amor... Vejo um novo amor... Um caso, uma paixo ...
    - Com licena... - disse Dona Flor, querendo libertar a mo. Mas seu Alusio a retinha entre as
suas:
     - Espere... No acabei... Oua o resto... Um senhor do interior ...
     Abrupta, Dona Flor se ergueu, arrancando sua mo de entre as do rbula numa violncia.
    - No lhe dei ousadia para tanto...
     Saiu da sala numa rabanada, deixando as amigas em espanto, e Dona Enaide na maior das
ofensas:
    - Que manteiga derretida... Me digam: Alusio fez alguma coisa de mais? Foi grosseiro? Uma
pilhria para rir... No tolero gente assim, metida a besta... Afinal, ela pensa que  o qu? Alguma
princesa? S o notrio persistia calmo, a desculpar Dona Flor:
    - Coitada... Conheo isso, esse nervosismo...  o mal de toda viva moa que no encontra
novo casamento. O caminho da histeria... As cidades pequenas esto cheias de casos assim...
Solteironas e vivas, por tudo se ofendem, choram, a vida delas  chilique e calundu. Na velhice,
do em doidas mansas...
    Dona Maria do Carmo o interrompeu:
    - Olhe que eu tambm sou viva, doutor, e termino me ofendendo... - o rbula a considerou
com o olhar entendido: mulata ainda boa de cascos, bem feita, corpo rijo, agentava uns trancos.
Doutor Alusio no era homem de perder tempo; deixando Dona Flor pra trs, disse:
    - Mostre-me sua mo esquerda, por favor: quero tirar uma coisa a limpo...
    Tomou a mo de Dona Maria do Carmo entre as suas, olhou-a nos olhos com aquele seu olhar
de frete grosso:
    - Posso dizer a verdade ou devo mentir?
     Dona Flor sara porta a fora; Marilda e Dona Norma foram encontr-la em casa, lavada em
lgrimas, num tal estado de nervosismo, que Dona Norma lhe disse, repetindo mestre Alusio de
Pilo Arcado:
    - Que  isso, Flor, est ficando histrica?

Captulo 9

APELO DE DONA FLOR EM AULA E EM DEVANEIO

    Me deixem em paz com meu luto e minha solido. No me falem dessas coisas, respeitem meu
estado de viva.
    Vamos ao fogo: prato de capricho e esmero  o vatap de peixe (ou de galinha), o mais
famoso de toda a culinria da Bahia.
     No me digam que sou jovem, sou viva: morta estou para essas coisas.
    Vatap para servir a dez pessoas (e para sobrar como  devido).
     Tragam duas cabeas de garoupa fresca _ pode ser de outro peixe mas no  to bom. Tomem
do sal, do coentro, do alho e da cebola, alguns tomates e o suco de um limo.
     Quatro colheres das de sopa, cheias com o melhor azeite doce, tanto serve portugus como
espanhol; ouvi dizer que o grego ainda  melhor, no sei. Jamais usei por no encontr-lo 
venda.
     Se encontrar um noivo, que farei? Algum que retome meu desejo morto, enterrado no
carrego do defunto? Que sabem vocs, meninas, da intimidade das vivas? Desejo de viva 
desejo de deboche e de pecado, viva sria no fala nessas coisas, no pensa nessas coisas, no
conversa sobre isso. Me deixem em paz, no meu fogo.
    Refoguem o peixe nesses temperos todos e ponham a cozinhar. Num bocadinho d'gua, num
bocadinho s, um quase nada. Depois  s coar o molho, deix-lo  parte, e vamos adiante.
     Se meu leito  triste cama de dormir, apenas, sem outra serventia, que importa? Tudo no
mundo tem compensaes. Nada melhor do que viver tranqila, sem sonhos, sem desejos, sem
se consumir em labaredas com o ventre aceso em fogo. Vida melhor no pode haver que a de
viva sria e recatada, vida pacata, liberta da ambio e do desejo. Mas, e se no for meu leito
cama de dormir e, sim, deserto a atravessar, escaldante areia do desejo sem porta de sada? Que
sabem vocs da intimidade das vivas, de seu leito solitrio, de seu carrego de defunto? Aqui
vieram para aprender a cozinhar e no para saber o preo da renncia, o preo que se paga em
nsia e solido para ser viva honesta e recatada. Continuemos a lio. Tomem do ralo e de dois
cocos escolhidos - e ralem. Ralem com vontade, vamos, ralem; nunca fez mal a ningum um
pouco de exerccio (dizem que o exerccio evita os pensamentos maus: no creio). Juntem a
branca massa bem ralada e a aqueam antes de esprem-la: assim sair mais fcil o leite grosso, o
puro leite de cco sem mistura.  parte o deixem.
     Tirado esse primeiro leite, o grosso, no joguem a massa fora, no sejam esperdiadas, que os
tempos no esto de desperdcio. Peguem a mesma massa e a escaldem na fervura de um litro
d'gua. Depois a espremam para obter o leite ralo. O que sobrar da massa joguem fora,
pois agora  s bagao.
     Viva  s bagao, limitao e hipocrisia. Em que nao enterram a viva na cova do marido?
Em que pas tocam fogo no seu corpo junto com o corpo do defunto? Antes assim, de uma vez
queimada e em cinza, em lugar de consumir-se em fogo lento e proibido, de queimar-se por
dentro em nsia e em desejo; por fora hipocrisia, um recato de fazendas negras, os vus cobrindo
uma aflita geografia de medo e de pecado. Viva  s bagao e aflio.
     Descasquem o po dormido e descascado o ponham nesse leite ralo para amolecer. Na
mquina de moer carne (bem lavada) moam o po assim amolecido em cco, e moam
amendoins, camares secos, castanhas de caju, gengibre, sem esquecer a pimenta malagueta ao
gosto do fregus (uns gostam de vatap ardendo na pimenta, outros querem uma pitada apenas,
uma sombra de picante).
     Modos e misturados, esses temperos juntem ao apurado molho da garoupa, somando
tempero com tempero, o gengibre com o cco, o sal com a pimenta, o alho com a castanha, e
levem tudo ao fogo s para engrossar o caldo.
     Se o vatap, forte de gengibre, pimenta, amendoim, no age sobre a gente dando calor aos
sonhos, devassos condimentos? Que sei eu de tais necessidades? Jamais necessitei de gengibre e
amendoim; eram a mo, a lngua, a palavra, o lbio, seu perfil, sua graa, era ele quem me despia
do lenol e do pudor para a louca astronomia de seu beijo, para me acender em estrelas, em seu
mel noturno. Quem me despe hoje dos vus da pudiccia em meus sonhos de viva no leito
solitria? De onde vem esse desejo a me queimar o peito e o ventre, se nem a mo nem o lbio,
nem o perfil de lua, nem o riso agreste, se ele no est? Por que esse desejo nascendo de mim
mesma? Por que tanta pergunta, por que esse interesse de saber o que se passa no intimo da
viva? Por que no me deixam os negros vus do luto sobre o rosto, vus do preconceito,
cobrindo minha face dividida, em recato e em anseio dividida. Sou uma viva, nem falar de tais
coisas fica bem ao meu estado. Viva no fogo a cozinhar o vatap, pesando o gengibre, o
amendoim, a malagueta, e to somente.
     A seguir agreguem leite de cco, o grosso e puro, e finalmente o azeite de dend, duas xcaras
bem medidas: flor de dend, da cor de ouro velho, a cor do vatap. Deixem cozinhar por longo
tempo em fogo baixo; com a colher de pau no parem de mexer, sempre para o mesmo lado: no
parem de mexer seno embola o vatap. Mexam, remexam, vamos, sem parar; at chegar ao
ponto justo e exatamente.
     Em fogo lento meus sonhos me consomem, no me cabe culpa, sou apenas uma viva
dividida ao meio, de um lado viva honesta e recatada, de outro viva debochada, quase histrica,
desfeita em chilique e calundu. Esse manto de recato me asfixia, de noite corro as ruas em busca
de marido. De marido a quem servir o vatap doirado e meu cobreado corpo de gengibre e mel.
     Chegou o vatap ao ponto, vejam que beleza! Para servi-lo falta apenas derramar um pouco de
azeite de dend por cima, azeite cru. Acompanhado de aca o sirvam, e noivos e maridos
lambero os beios.
     E por falar em noivo, avisem a todos para que todos saibam: existe uma viva jovem, com
certa graa mansa e formosura, cor de mate, feita de ouro e cobre, cozinheira de mo cheia, to
trabalhadora, honesta e bem falada como igual no h na cidade inteira e no Recncavo, uma
viva de primeira com um leito de ferro, um pudor de virgem e um fogo a lhe queimar o ventre.
     Se souberem de algum com interesse, enviem-no correndo, a qualquer hora, de manh, de
tarde,  meia noite, pela madrugada, com sol, com chuva, mandem logo, mandem com o juiz e o
padre, com papis de matrimnio, mandem com urgncia, com a maior urgncia.
     Lano este apelo aos quatro ventos, ao sabor das correntes submarinas, das fases da lua e da
mar, no rastro de qualquer navegao ou cabotagem, pois sou porto de difcil descoberta,
recndito golfo, ancoradouro de naufrgios. Quem souber de solteiro em busca de viva e
casamento, diga-lhe que aqui se encontra Dona Flor  beira do fogo, junto ao vatap de peixe,
consumida em fogo e em maldio.

Captulo 10

     Um dia no pde mais e se abriu com Dona Norma: "por fora honesta continncia, por
dentro poo de excrementos". O desejo nascia dela, de seu peito, do silncio, do devaneio, da
solido, do sonho. Sem motivo, sem ponto de partida, sem semente nem raiz. Nascendo dela -
"de minha ruindade mesmo, Norminha", de seu corpo em febre, crescendo naquela carne
estrumada de ausncia, de penrias, de maldies; nsia plantada no esterco de sua danao:
    - Estou danada, Norminha; no quero pensar e penso; no quero ver, e vejo; no quero
sonhar, e sonho a noite inteira. Tudo contra a minha vontade, contra meu querer. Meu corpo no
me obedece, Norminha, o excomungado.
     A brochura ioga, lida e relida, j lhe explicara tratar-se da "crucial batalha entre a matria
imunda e o puro esprito", travando-se em seu ntimo, coisa medonha. A maldita matria de seu
corpo partindo em fria e em danao contra o recato de seu esprito, rompendo a placidez de
sua vida, seu equilbrio. Deixara de existir qualquer acordo entre sua vontade e seus instintos.
Tudo confuso: de um lado uma viva, exemplo de dignidade, do outro uma fmea jovem e
necessitada. Caso grave, exigindo, na receita do folheto, "forte concentrao de pensamento e
exerccios dirios".
     Nada resolveram a mstica literatura e os penosos exerccios, ainda mais penosos para Dona
Flor, gordota de corpo e rechonchuda. Para ver se obtinha o elegaco equilbrio prometido,
sujeitara-se, durante umas duas
semanas, s contores mais absurdas. Dona Dagmar, a seu pedido, repetira-lhe vrias aulas e
Dona Flor submeteu-se com pacincia e esperana. Dona Dagmar no regateava elogios ao
mtodo ioga, formidveis!, ela j emagrecera quatro quilos. Com Dona Flor, total fracasso: nem
sequer emagreceu. Em vez de calma e de equilbrio, obteve apenas cansao, corpo dolorido e
nem por isso menos vido e audaz em sua urgente preciso.
Tampouco a satisfizeram as brilhantes anlises cientficas de Dona Gisa, com a boca cheia de
nomes ininteligveis, bolodrio para doutor de faculdade: complexos, libido, subconsciente,
recalques, tabu:
    - Para voc, Flor, viva cheia de recalques e complexos, o sexo  tabu.
     Tabu ou no tabu, consciente, inconsciente ou subconsciente, por efeito de recalque e de
complexo, ou por simples desejo de mulher, era aquele desespero noite adentro, sonhos erticos
a arrast-la em bacanal, no lhe sendo a conversa da gringa da menor utilidade. Pois, se fosse
atrs de seu latim, sairia rua a fora a fornicar com o primeiro macho que encontrasse, destruindo
a bruta recalques e complexos, estrangulando numa cama de castelo o msero tabu, para sempre
desonradas, ela e a memria do defunto.
     Dona Norma era a boa sabedoria popular, a experincia vivida, a compreenso humana. Ia
direta ao assunto:
    - Isso  falta de homem, minha santa. Voc  moa, no sofre de doena grave, no  capada
que eu saiba, que  que est querendo? Mesmo as freiras se casam para suportar a castidade, se
casam com Cristo, e ainda assim tem umas que botam chifres em Jesus - e, sorrindo ao recordar:
- Voc se lembra daquela freira do Desterro que emprenhou do padeiro e terminou artista de
teatro? Faz tempo, no se lembra? No se falava noutra coisa...
     Nem sequer a imagem da freira num palco de teatro divertia Dona Flor, dramtica e
persistente em seu assunto, sem ligar  digresso da amiga:
    - Mas, Norminha, eu sou uma viva...
     - E da? Ou voc acha que viva no  mulher? Viva, que eu saiba, pensa em homem, sonha
com homem, olha pra homem... Ora essa... - Voc bem sabe que no sou dessas que vivem atrs
de casamento. Uma vez voc at me criticou, me chamando de grosseira...
     - Pois foi. Sei que voc no  nenhuma sirigaita... Mas, vou lhe falar franco: voc  uma viva
metida a sebo, e est ficando intolervel. J fez um ano de viva e em vez de melhorar, piorou,
como se tivesse enviuvado ontem. Antes voc ainda ria, se a gente falava de noivado e
casamento. Depois no quis mais nem ouvir pilhria, deu de se zangar...
    - Voc bem sabe porque... At vigarista apareceu...
     - E s porque o tal de Duque - Duque ou Prncipe? - andou rondando a, voc ficou pior que
freira! Se ele deu pra seu lado foi porque lhe achou um bom bocado. Agora, s porque seu
Alusio fez uma investida, coisa  toa,  voc se trancou em casa, quase no sai, no encara
homem, como se homem fosse bicho feroz... Afinal, seu Alusio s queria...
    - Eu sei o que ele queria...
     - Queria dormir com voc, querida... Mas,  claro... Muitos ho de querer, esto por a roendo
tampa de penico. Voc  uma viva supimpa, tem muito gabiru de olho aceso...
     - Ser que tenho cara de sem-vergonha para esses atrevidos ousarem ...
     - E quem disse que eles precisam que a mulher seja descarada para querer dormir com ela?
Apesar de sua cara de carrasco...
     - Mas, Norminha, o que  que eu posso fazer?
     - Voc precisa apagar esse fogo, mulher... Se voc no dorme direito, se no descansa, se no
tem sossego,  porque est com um fogo desgraado lhe queimando o rabo...
    - Oxente, Norminha, tesconjuro...
    - Mas no  isso mesmo? No  verdade?
     - E o que voc quer que eu faa? Que eu me desgrace e vire descarada? No sou nenhuma
sem- vergonha, no nasci para ter amante, essas coisas para mim s com meu marido... S
porque sonho com essas besteiras, tenho vontade de morrer... Ser que pareo mulher-da-vida
pra voc dizer isso...
    - No seja tola, o que foi que eu disse que lhe ofendesse?
     - Voc no disse...
    - Disse e repito que voc est com um fogo queimando o rabo, ou, como dizia a filha de uma
amiga minha para a me: "Mame, minha xoxota virou fogareiro, est pegando fogo". Voc est
mais ou menos assim. Mas isso no quer dizer que voc no  sria... Ao contrrio... Sria voc
 e muito, seno, com esse fogo todo, j tinha aberto as coxas...  sria e parece ainda mais,
parece um ferrabrs... Nem se d conta da cara que pe quando um homem olha para voc...
     - Hei de me rir, de dizer: "venha dormir comigo..." Prefiro morrer. S fui para a cama com
meu marido...
    - E s deve ir com seu marido...
    - Meu marido morreu...
         - Morreu o primeiro... Nada impede que voc tenha outro. Voc  moa, Flor, nem chegou
aos trinta...
    - Vou completar no fim do ano...
     - Menina ainda... Para o que voc tem, que no  doena nem maluquice, s existem dois
remdios, minha filha: casamento ou descarao. Ou ento entrar de freira num convento. Nesse
caso tome cuidado com os padeiros, leiteiros e jardineiros, e com padres, para no cornear Deus
Nosso Senhor.
- No brinque, Norminha...
     - No estou brincando Flor. Se voc fosse descarada, podia continuar viva, vestida de preto:
ia dando por ai, a um e a outro, se divertindo, se desapertando. Mas, como voc no  nada disso,
 sria mesmo, ento tem de casar, no tem outra coisa a fazer...
     Desejo de viva, Norminha, vai no carrego do defunto, viva no tem direito nem a
memrias de cama, a recordar noites de vadiao, quanto mais a iluses de noivado e casamento,
de outro marido. Tudo isso no passa de insulto  memria e  honra do finado.
     Desejo de viva  to vivo quanto o de donzela ou o de casada, se no for mais, sua tola;
assim lhe respondia enrgica Dona Norma. Novo casamento no  nenhum insulto  honra do
defunto; qualquer mulher pode prezar a memria do marido morto, e ser feliz, ao mesmo tempo,
em companhia de um segundo esposo. Sobretudo ela, Dona Flor, cujo primeiro casamento fora
to inslito e nem sempre alegre, para no dizer pior.
     Conversa longa e benfica, as duas amigas a ss, numa intimidade de estima verdadeira, duas
irms no se entenderiam tanto, Dona Flor finalmente convencida. Talvez j estivesse antes, no
cruel debate consigo mesma; no o confessaria jamais, no entanto, se Dona Norma no  lhe
arrancasse os vus do preconceito, de um falso luto apodrecido no desejo.
     - Mas, Norminha, de que adianta eu ficar de acordo? Quem vai me querer de noiva? Ningum
quer sobejo de defunto, eu no vou sair me oferecendo... Vou morrer nessa consumio.
    - Arranque a tabuleta e eu no dou seis meses...
     - Que tabuleta?
    - Essa que voc leva no rosto; "Sou viva para sempre, morri para a vida e para o casamento".
Arranque, volte a rir, a ser igual a todo mundo e aposto que em menos de seis meses...
     Essa conversa teve lugar uns poucos dias depois do carnaval, que naquele ano cara muito
tarde, j em maro, mais ou menos um ms aps o primeiro aniversrio da viuvez de Dona Flor.
Na manh daquele fnebre aniversrio, Dona Flor dirigiu-se ao cemitrio. com lgrimas e flores,
demorando-se junto  campa longo tempo, como se ali encontrasse alvio e calma. Foi um de
seus dias mais tranqilos em todo o confuso tempo de viuvez, sentindo-se ela apenas triste, com
saudade do falecido. Uma saudade funda e confortante.
     J os dias de carnaval lhe foram mais penosos. Nas msicas e nas canes, muitas das quais as
mesmas do carnaval anterior, vinham-lhe as lembranas do terrvel domingo. Ao debruar-se na
janela para assistir  passagem de um bloco ou de um rancho, de um z-pereira, de um zabumba
ou de um afox, recordava o morto no cho do Largo Dois de Julho, entre serpentinas e
confetes, vestido de baiana.
     Quando o afox dos Filhos do Mar, em toda a grandeza de sua comparsaria, parou em frente
 Escola de Culinria Sabor e Arte, obedecendo ao apito de Camafeu, e a negra Andreza de
Oxum, empunhando o estandarte da rainha das guas, danou um passo deslumbrante - as
janelas cheias, a rua entupida, as palmas entusisticas -, Dona Flor desmamou-se em pranto e
toda a dor e toda a ausncia caram de vez sobre ela. H um ano, com o corpo do finado
estendido no leito de ferro, ainda tivera nimo de espiar a passagem do Afox por sobre os
ombros de Dona Norma e Dona Gisa, vida e morte dentro de seu peito. De to recente e brusca,
a morte ainda continha um laivo de vida. Somente com o decorrer do tempo Dona Flor se daria
perfeita conta do vazio definitivo, da definitiva ausncia. No carnaval anterior, com o morto
presente, pudera espiar o afox, de relance ao menos. No entanto, nesse outro carnaval, foi-lhe
insuportvel a gloriosa viso dos Filhos do Mar na cadncia dos atabaques. Mesmo ignorando a
homenagem contida naquele apito, naquela interrupo da caminhada, naquela dana, nos
requebros de Andreza qual um barco sobre as ondas, homenagem do afox ao sempre recordado
scio e amigo h um ano falecido, mesmo assim Dona Flor no pde conter-se na janela; via
somente o corpo nu e exangue, morto para sempre. Difcil aquele carnaval, cada vez mais difcil
sua vida. O defunto aproveitou a ruidosa alegria para misturar- se  angstia do desejo
insatisfeito, cresceu o sofrimento, tanto e tamanho, que Dona Flor no mais pde suport-lo em
silncio e em solido. No lhe foi possvel conter por mais tempo seu segredo, o peito roto, a
cabea zonza e o cansao. Um destroo, Dona Flor. Abriu-se com Dona Norma.
     Dona Norma lhe garantiu noivado e casamento em prazo rpido, se a tanto se dispusesse, sem
mscara nem tabuleta. Procuraram confirmao em Dona Gisa, mas a gringa pouca importncia
dava a noivado e casamento, ridculas exigncias legais e anti-humanas; andara lendo o Prncipe
Kropotkine e dera de misturar anarquismo com psicanlise. Com matrimonio ou sem
matrimnio, na opinio da professora de ingls, tinha Dona Flor um "complexo de culpa" a
tortur-la, do qual s se libertaria quando, rompendo com os tabus, "se realizasse de qualquer
maneira". Conselho mais maluco: um conbio em amor livre, amigao, xod, uma aventura
enfim, porm imediata. S se Dona Flor fosse louca de hospcio ou a mais cnica e fogueteira de
todas as vivas.
     Dona Norma, sim, era de ajuda e de consolao; deixasse Dona Flor de confundir recato com
dio ao mundo, honestidade com carrancismo e Dona Norma era capaz de apostar dinheiro
como em menos de seis meses teriam a viva de aliana ao dedo, pelo menos noiva.
     Dona Gisa no apostou: por que havia Dona Flor de esperar seis meses a curtir horrores?
Para que essa tolice, com tanto homem solto pelo mundo? Tambm, se apostasse perderia; quase
sempre entre o saber do livro e o saber da vida quem acerta  a vida. Fosse por ter Dona Flor se
humanizado, levando mais alm da seca urbanidade suas relaes de cortesia, volvendo a sorrir e
a conversar com um e outro, discreta sempre porm gentil e atenta, ou fosse por simples
casualidade (como era mais provvel), j um ms depois dessa conversa com Dona Norma e da
discusso com Dona Gisa, tornaram-se evidentes, e fizeram-se objeto de pblico debate, o probo
interesse e as honestas intenes do doutor Teodoro Madureira, scio da Drogaria Cientfica, na
esquina do Cabea. Vibrante e vitoriosa, Dona Dinor exigia alvssaras:
    - Adivinhei h muitos meses, vi na bola de cristal e disse a todo mundo: um senhor distinto,
homem de bem, doutor e com dinheiro. No foi verdade? Minhas alvssaras, senhora Dona Flor!
    - Um partido e tanto, que sorte a dela! - o coro das amigas e comadres num delrio de fuxicos,
em acordo unnime.

Captulo 11

Quando tivera incio o interesse do farmacutico, ningum sabe; no  fcil determinar hora e
minuto exatos para o comeo do amor, sobretudo daquele que  o definitivo amor de um
homem, o amor de sua vida, dilacerante e fatal, independente do relgio e do almanaque. Em dia
de confidncias, tempos depois, doutor Teodoro confessou a Dona Flor, com certo
acanhamento risonho, admir-la de h muito, de antes da viuvez; do pequeno laboratrio nos
fundos da farmcia ele a via cruzar o Largo, seguindo seus passos pelo Cabea, com absorta
mirada. "Se alguma vez me decidir, s casarei com uma mulher assim, bonita e sria",
monologava junto aos tubos de ensaio, aos frascos de drogas. Sentimento puro e platnico, 
claro, no era homem de influir-se por mulher casada e de envolv-la em pensamentos menos
nobres, pondo-lhe olhos de gula ou melhor (para repetir a prpria expresso do boticrio, precisa
e elegante, enfeitando com suas galas estas letras vulgares e populacheras) "culposos olhos de
concupiscncia".
    Quem primeiro notou a inclinao do farmacutico foi Dona Emina, senhora, alis, de pouco
se preocupar com a vida alheia: mexericava apenas o estritamente necessrio para no ficar em
atraso  com os sucessos em seu redor. Ao lado das outras, vidas de qualquer fuxico, Dona
Emina era discreta e timorata.
     Foi no dia do trote nos calouros das Faculdades, nos comeos de abril, quando os estudantes
atravessam as principais ruas e avenidas, comemorando o incio do ano letivo. Numa longa
procisso, sob a batuta dos veteranos, os novatos - de cabea raspada a navalha, envoltos em
lenis, amarrados uns aos outros por uma corda como fieira de escravos - conduziam cartazes
de crtica ao governo e  administrao, com piadas sobre a vida cara e a incapacidade dos
polticos.
     Vindo da Faculdade de Medicina, no Terreiro de Jesus, o desfile cruzou a cidade em direo 
Barra, parando em certos locais como a Praa Castro Alves, So Pedro, Piedade, Campo Grande.
Nesses pontos de maior concentrao de curiosos, os veteranos faziam as delcias dos assistentes,
com bestialgicos recitados do alto dos jegues.
     Os moradores das adjacncias do Largo Dois de Julho e do Cabea movimentaram-se para
So Pedro apenas ouviram as cornetas e os clarins anunciadores, na Ladeira de So Bento. Num
grupo lacre iam Dona Norma, Dona Amlia, Dona Maria do Carmo, Dona Gisela, Dona
Emina, Dona Flor.
     Segundo a informao de Dona Emina, precisa e concreta, o doutor Teodoro encontrava-se
bem do seu junto ao balco da farmcia, indiferente aos clarins, aos asnos fantasiados de
professores e de homens pblicos, ao trote, conversando com o empregado e a moa da caixa,
quando as enxergou. To nervoso ficara que Dona Emina, estranhando os modos do doutor, o
manteve de olho, podendo assim seguir passo a passo suas suspeitas andanas. O farmacutico,
senhor de nimo pacato e maneiras comedidas, apenas viu as amigas, abandonou s pressas a
posio cmoda, a atitude pachola, afastando-se do balco, erguendo-se numa postura quase
rgida para cumpriment-las, bom dia sonoro e cordial. Detalhe importante: extraindo um pente
do bolso do colete, com ele ajeitou os cabelos negros, alis sem necessidade, pois o penteado
resplandecia integro sob camadas de brilhantina. Desaparecera o nimo pacato, o droguista em
agitao de adolescente. "Eu vi a hora dele vestir o palet s para nos cumprimentar", disse Dona
Emina a perguntar-se a causa de tanto af e zelo. De imaculada camisa branca e colete cinza,
grossa corrente de ouro de bolso a bolso numa curva de efeito, a prender respeitvel pataco
tambm de ouro, herana paterna, as calas de perfeito vinco, os sapatos no capricho do lustre, o
anel de grau, um tipo, alto e simptico. Curvou-se para saudar o grupo.
     Amveis, as amigas responderam, era o farmacutico personalidade de vulto nas redondezas,
bem visto e benquisto. Segundo ainda o depoimento de Dona Emina - rico em mincias, como
se constata - os olhos de doutor Teodoro enxergavam apenas Dona Flor, cegos para as demais;
olhar, se no de concupiscncia, pelo menos de cobia. "Te devorava com os olhos, te comia",
eis como a hbil observadora definiu para Dona Flor a expresso precisa daquele olhar.
     Quando no mais as viu de dentro do balco, passou  frente; depois veio para a calada do
estabelecimento, e por fim, aps breve indeciso e uma advertncia aos empregados, partira rua a
fora no rastro da festiva companhia.
     Situou-se prximo s amigas, nas imediaes do grande relgio de So Pedro, a marombar.
Puxando a corrente de ouro, sorriu satisfeito da preciso sua de seu cronmetro. Dona Norma
e Dona Amlia, para no perder detalhe do trote, subiram sobre um banco do pequeno jardim; as
demais ficaram em redor, nas pontas dos ps. De onde estava, meio escondido pela base do
relgio, doutor Teodoro seguia devoto cada movimento de Dona Flor.
     Mantendo-o sob controle, Dona Emina constatou quase nada ter visto o farmacutico do
divertido trote: os calouros pintados de zarco, danando uma dana macabra, os veteranos
exigindo cerveja e gasosa nos bares e armazns. Se o doutor Teodoro sorria, era em apoio ao riso
de Dona Flor, seus aplausos eram rplica aos da viva, a mir-la embevecido. Dona Emina puxou
a saia de Dona Norma, a aplaudir em cima do banco disparates de um estudante montado num
jegue (o animal aproveitava a parada para mastigar restos de lixo na sujeira da rua). A princpio
Dona Norma no entendeu a palpitante mensagem dos olhos e dos dedos da amiga. Finalmente,
localizando o farmacutico em mangas de camisa e em xtase, acompanhou-lhe, pasma, o
alvoroo.
    - Menina... - disse ela. - Que coisa...
     Dona Amlia e Dona Maria do Carmo logo tomaram conhecimento da surpreendente atitude
do doutor Teodoro: meio escondido por trs do relgio, brechando Dona Flor. S Dona Gisa
manteve-se distante, entregue  leitura dos cartazes do trote; segundo ela, as manifestaes
estudantis continham precioso material para o estudo da alma coletiva. Dona Gisa no perdia
ocasio para estudar, nascera com a sina de tudo saber e de tudo explicar (atravs da cincia mais
moderna). Para as outras, no entanto, material mais precioso e elucidativo eram os estranhos
modos do boticrio.
    - Meninas... S vendo para crer...
     O desfile prosseguiu para a Piedade, elas o acompanharam. Mas, pretextando a necessidade de
transmitir um recado, Dona Norma encompridou o caminho, dando volta por uma rua detrs:
"vamos botar isso em pratos limpos e agorinha mesmo". Por um minuto, doutor Teodoro
permaneceu indeciso,  sombra do relgio monumental,  terminando, porm, por acompanh-las
num passo nonchalante de quem vai sem pressa e por acaso, a loc.
     Dona Norma e as demais amigas prendiam o riso, menos Dona Flor, de tudo inocente, e
Dona Gisa, a discorrer sobre a "vocao dos jovens para a causa pblica". De repente pararam,
indo Dona Norma dar o tal recado, na porta de uma casa de famlia. Tomado de surpresa, a
poucos metros de distncia, doutor Teodoro foi obrigado a prosseguir caminho. Passou junto s
amigas evitando fit-las, fingindo no v-las e era to pouco experiente nessas coisas que dava
pena: todo escabreado, a adivinhar sorrisos e olhares de mofa, sem saber onde pr as mos, um
desastre. Encafifou, enveredou pela esquina quase correndo. A sua passagem, Dona Maria do
Carmo no se conteve, deixando escapar um frouxo de riso.
    - Psiu... - recomendava Dona Norma.
     - Para onde vai doutor Teodoro, to apressado? - quis saber Dona Flor, ao v-lo sumir no
beco.
     - Quer dizer que voc no sabe, minha sonsa? Que negcio  esse? Vai manter segredo ou vai
contar s suas amigas? ou no tem confiana?
     - O qu, mulher? Vocs vivem inventando coisas... Dessa vez, o que ?
    - No venha dizer que ainda no percebeu...
     - O que, pelo amor de Deus?
    - Que o doutor Teodoro est caidinho por voc...
     - Quem? O farmacutico? Vocs esto de miolo mole, so uma cambada de malucas... Onde
j se viu...  Logo doutor Teodoro, homem mais cerimonioso...  um debique...
     - Debique? Ele perdeu a cerimnia, minha cara, anda espevitado...
     Nesse pagode, chalaceando e rindo, foram atrs do desfile dos cascabulhos, a pobre Dona
Flor numa roda viva. Mas, quando, de volta a casa, Dona Norma se viu a ss com a viva, lhe
falou a srio. Reparara nos modos do farmacutico, pessoa, como dizia com razo Dona Flor,
toda cheia de etiquetas, de formalidades; nunca se ouvira dizer que ele lanasse olhares s clientes
e muito menos houvesse seguido alguma rua a fora, em mangas de camisa, a passar pente pelo
cabelo, embuando-se atrs do relgio pblico, em sobressaltos de adolescente. De olho fixo em
Dona Flor, no desgrudava. No era conversa fiada de comadres, nem inveno, Dona Norma
at se mantivera  parte das caoadas, pois, sendo doutor Teodoro homem de bem e
circunspecto, no valia a pena tratar levianamente assunto to srio, em chalaas e galhofas.
Partido igual, filha minha, s muito de raro em raro: cidado maduro, na boa idade para Dona
Flor, feito na vida, doutor de grau e anel, dono da farmcia, ressumando sade, se o tivessem
inventado no fariam melhor.
     - Voc acha mesmo, Norminha, que ele est com algum interesse? Est coisa nenhuma: quem
quer comer po adormecido, carne moda, sobejo de defunto? Ningum h de querer...
    Dona Norma mediu a amiga de alto a baixo:
    - Benza-te Deus... - disse, num muxoxo aprovativo. Porque Dona Flor, numa certa excitao
devida  notcia, entre curiosa e encafifada, nada tinha de po dormido, po de vspera com
gosto de bolor, menos ainda de carne com aftim de podre; muito ao contrrio: tez suave de cabo-
verde num cobre antigo e definitivo, assente em face lou e fresca, carne perfumada e jovem,
aroma de pitanga, um pedao retado de mulher. Sobejo, sem dvida; tivera marido, deitara com
ele em leito de ferro a barrunchar; porm mais apetitosa que muita donzela de alfenim, pois o
cabao no  tudo nem muito menos, se bem goze de tanto apreo e fama. No fundo  um quase
nada, frgil pelcula, gota de sangue, um ai e sobretudo velho preconceito, e se alcana to alto
custo  porque se beneficia de milenar publicidade, conta com o exrcito e o clero, a
polcia e o meretrcio, todos a fazer dos tampos da mulher o rei do mundo. Mas o que  uma
donzela, tola e ignorante em seu desejo, se comparada a uma viva, cujo anseio  feito de
conhecimento e de ausncia, de conteno e de penria, de fome e de jejum,  lcido e insolente?
"Ora, me deixe, Flor, por sobejo assim suspiram no s doutor Teodoro mas, certamente, alm
dele, muitos outros de que no se tem notcia". O que Dona Norma queria saber era outra coisa:
     - E tu, que  que dizes? Que te parece ele? Sers capaz de am-lo?
     Primeiro ela no quis sequer considerar o problema de seus sentimentos antes de ter certeza
de existir inclinao do farmacutico, de no ser tudo aquilo burla ou equvoco, no estando
disposta a novos logros e a humilhar-se, como j sucedera antes com aquela histria do Prncipe e
com os saimentos de seu Alusio. Mas, ante a presso de Dona Norma a exigir pronta resposta,
numa impertinncia amigvel, Dona Flor confessou no lhe ser indiferente o boticrio.
Cavalheiro de fino trato, um primor de distino, e homem vistoso, de encher o olho. Lembrava-
lhe artista de cinema muito em voga. Parecena ligeira mas bastante para marc-lo em sua
simpatia; enfim, se fosse realmente verdade, era possvel e mesmo provvel viesse Dona Flor a
sentir por ele...  O que sentira pelo finado? Isso no, era diferente... Ela prpria era outra, no a
mesma de quando, h mais de oito anos, quase nove, conhecera o doidivanas na festa do Major e,
de sbito, sem pesar nem refletir, lhe dera seu corao (e, em seguida, alegremente, seus seios e
suas coxas, na balbrdia do Largo, no escuro da praia). Doida por ele, perdida a ponto de
entregar-se, de se dar inteira e grtis quando ele pediu, esfregando os arrombados trs vintns na
cara de Dona Rozilda, que se fizera inimiga do namoro e proibira o casamento. Agora era uma
viva pousada e refletida, incapaz de incontinncia, de sentimentos e aes precipitadas,
perdoveis em mocinha na idade do namoro, inadmissveis em senhora na casa dos trinta e nos
vus de luto (mesmo queimando um fogaru por dentro). Se algo houvesse, j veriam com o
tempo se um sentimento de amor desabrocharia, na tranqila medida da ternura e da
compreenso, sem as violncias juvenis do delrio nos cantos escusos, nos ps de escada. Talvez
um sentimento assim, amor maduro e bonanoso nascesse num cho de discreto idlio. Dona
Flor achava at possvel, pois, como j dissera, no sendo o doutor Teodoro antiptico e feio,
no lhe tinha averso, achando-o atraente, como agora se dava conta. E eis Dona Norma
realizando j noivado e casamento, antevendo Dona Flor feliz como sempre merecera e nunca o
fora.
    - Ah! minha santa, que beleza que vai ser! Agora no seja tola, no se tranque em casa, no
amarre a cara...
     Porque Dona Flor, se bem confessando interesse pelo boticrio, logo acrescentava sua deciso
de no sair a demonstr-lo, a se oferecer, rebolando-se frente  Drogaria, exibindo suas
necessidades, seus olhos fundos de quaresma, de abstinncia dura, de jejum forado. Isso jamais,
Norminha.
- E eu no vou admitir que voc desperdice uma ocasio como essa...
     Longo tempo Dona Norma levou a persuadir a viva: no fosse tola nem bancasse a
indiferente. Quem estava como Dona Flor, ardendo em brasa, necessitada de casar e casar logo
para no terminar histrica ou doida mansa, ou bem para no sair dando por a a qualquer um,
em vida de castelo, de viva fcil a encher de chifres a caveira do defunto, agreste e viosa
plantao de galhos em sua cova honrada; Ah! assim to confessadamente vida de calor de
homem, de um balance de cama, no podia bancar a viva fiel at a morte, de luto eterno e
obstruda greta, chibiu enterrado no carrego do falecido, murcha flor aos ps do morto, intil e
fanada:
    - S tendo serventia pra fazer pipi...
     Melhor se resolver de vez e aceitar marido, viver com ele vida decente e honesta, renovando-
se em amor e em alegria, mantendo honrada, limpa e tranqila em sua tumba a memria e a
carcaa do primeiro. Sem muito nele falar para no ofender o sucessor. Alis, nos ltimos meses
Dona Flor como que esquecera nome e apelido do finado. Porque as comadres o arrenegavam e
cobriam de insultos sua lembrana, Dona Flor, polmica, o trouxera na boca o dia inteiro. Depois
o trancou dentro de si, como jia preciosa e rara, quando as amigas e vizinhas o deixaram em paz
em seu jazigo: se ainda algum o recordava, no o dizia. Pois ento era s continuar assim,
retirando naturalmente da sala o retrato do perdido com seu riso cnico de desfaatez (e tambm,
por que negar?, com sua graa irresistvel), guardando-o no fundo de um ba e no corao. Na
parede da sala (e na xoxota) a presena do segundo, e que segundo, minha filha!, beleza de
homem na fora da idade e que distinto!
     Casar e logo, ter seu marido, viver com ele vida decente e honesta, como era de sua natureza e
de sua obrigao, em vez de arder em sonhos, solitria, a morder os lbios, a ranger os dentes,
contendo-se somente por medo e preconceito. Ela, Dona Norma, no permitiria perdesse Dona
Flor to magnfica oportunidade, oportunidade nica, outra melhor era impossvel, e a perdesse
por falso recato, por tolice, por estupidez. No, trs vezes no.
     Assim, aps a aula vespertina, na qual Dona Flor ensinou s alunas a receita de um doce de
gelatina e cco apelidado "creme do homem", nome a provocar piadas, - "ai, creme mais
saboroso!" Dona Norma veio busc-la e a arrastou ao Cabea, a pretexto de comprar flores.
Compra mais difcil, dzia de anglicas de escolha trabalhosa. No se dispunha Dona Norma a
compor o buqu, sempre insatisfeita ante o espanto do vendedor, o velho negro Cosme de
Omolu, pois doutor Teodoro, sumido nas profundezas da farmcia, no se fazia visvel. Depois
das flores, foram aos acarajs de Vitorina e nada do farmacutico aparecer ao balco. Mas Dona
Norma no era de dar-se por vencida: embarafustou sem aviso, farmcia adentro, arrastando
Dona Flor em crise, a pedir ao caixeiro um pacote de algodo. Queria Dona Flor enfiar-se terra
adentro, Dona Norma num vozerio, numa salincia, onde j se viu tanta presepada?
     Ao fundo, no pequeno laboratrio, por detrs de grandes frascos azuis e vermelhos, como
uma gravura de livro de alquimia, viram doutor Teodoro moendo sais e venenos num pilo de
pedra. Tinha posto os culos e, muito atento, aps moer, pesava, em pequena balana de
brinquedo, quantidades mnimas de p e sais. Concentrado no mistrio do fabrico da receita, no
se deu conta da presena das senhoras no estabelecimento, como se at ele no chegasse a voz de
Dona Norma a repetir um caso sado nas gazetas.
     Deixando a balana, o boticrio punha num tubo de ensaios o p resultante dos minerais
modos, em nfimas quantidades, juntando-lhes vinte exatas gotas de um lquido incolor, e logo
tudo foi uma fumaceira avermelhada a circundar de cincia e de magia a cabea morena e forte
do doutor.
     Dona Norma no perdeu a deixa, sua voz ressoou, aduladora:
     - Repare, Flor, minha querida, doutor Teodoro at parece um bruxo todo cercado de
enxofre... T'esconjuro!
     Estremeceu o doutor ao ouvir o nome, no o seu, mas o de Dona Flor: erguendo os olhos
sobre os culos (teis apenas para enxergar de perto), constatou a presena da poesia entre os
remdios, vacilou em suas bases mais recnditas, um frio no baixo ventre. Quis erguer-se, ficou
atarantado e zonzo, e l se foi pro cho o tubo de ensaio em mil cacos e o remdio quase pronto
(mezinha para alvio da tosse crnica de Dona Zez Pedreira, uma velhinha de cristal, da rua da
Frca) virou mancha escura no cho, enquanto a fumaa de sangue persistia em torno ao austero
rosto do doutor.
    - Ai, meu Deus... - disse Dona Flor.
     E nada mais foi dito nem aconteceu, apenas Dona Norma riu-se pagando a conta do algodo,
pois era cmica a figura do droguista, semi erguido na cadeira, a mo no ar, como se ainda
sustentasse o tubo de vidro, os culos resvalando pelo nariz, mudo e estupefacto.
     De todo encabulada, morta de sem jeito, saiu Dona Flor porta a fora, enquanto Dona Norma
estendia um olhar cmplice ao romntico boticrio, como uma corda a um nufrago. Doutor
Teodoro tentou articular uma palavra, no pde.
     Dona Norma alcanou Dona Flor na esquina: ainda mantinha alguma dvida sobre a
influncia do farmacutico? Ou queria por acaso, numa exigncia absurda para viva roda de
desejo, gemendo no alvu do luto, candidato de melhor estirpe, classe e compleio? Impossvel
melhor partido, minha santa: doutor de diploma e anel de ametista verdadeira, proprietrio
estabelecido, bonito, todo composto  de colete e ouro, forte de sade, morigerado de hbitos,
um senhor de bem, soberbo quarento.

Captulo 12

     Soberbo quarento: tudo quanto  bola de cristal e as sebentas cartas revelaram a Dona
Dinor na tarde de profecia, amigas e comadres foram descobrindo em doutor Teodoro, ponto
por ponto, sem faltar mincia. O dinheirinho e o ttulo universitrio, a compleio, o talhe, a
figura, o porte digno, os modos elevados, tudo; e, no entanto, naqueles tempos em que buscaram
pelas ruas e praas, num af de gargalhadas, face correspondente ao retrato da vidncia, ningum
pensou no farmacutico. Como explicar tamanho absurdo se estava na cara,bastando olhar e ver?
Cegueira de todas as comadres e amigas ou engano desta detalhada narrativa, erro fatal para
gudio da crtica adversa? Nem erro nem engano e, sim, uma espcie de obtusidade coletiva
impedindo que comadres e amigas o descobrissem no fundo discreto da farmcia, os culos
sobre o nariz, o corrento de ouro, curvado sobre drogas, a misturar venenos para transform-los
em remdios, distribuidor de sade a domiclio e a preos mdicos.
     O cronista dos matrimnios de Dona Flor, de suas alegrias e aflies, foi apenas fiel  verdade
no colocando doutor Teodoro na lista dos pretendentes cujas candidaturas s comadres
propuseram, pois nenhuma delas se lembrou do boticrio, no vindo seu nome  baila naqueles
saborosos cavacos em torno da viuvez de Dona Flor, quando todas queriam distra-la. Alis,
pouco perdeu o doutor com tal esquecimento; quando muito, teria participado do sonho em que
Dona Flor se viu em roda de ciranda circundada de babaquaras, aspirantes  sua mo. Melhor
para ele: nem em sonhos apareceu em papel ridculo, no se desgastando na estima da viva.
     Mas, por que tal cegueira, por que o esqueceram, no o descortinaram ao balco da farmcia,
junto aos vidros azuis e vermelhos, cercado por aquele odor de medicinas, com a agulha de
injeo pronta para picar braos e ndegas de todas as velhotas, suas clientes? Se tanto o viam e
com ele tratavam, por que no o enxergaram?
     Por sab-lo impedido para casamento e sem remdio; por isso, ao contarem solteiros pela rua,
na relao no inscreviam o boticrio, como se fosse casado, com mulher e filhos. Nem mesmo
Dona Norma, em sua meticulosa busca de noivo para a esmorecida Maria, sua vizinha e afilhada,
em nenhum momento dele se lembrara. Doutor Teodoro? Esse no casou nem casar, no vale a
pena nele se deter, perda de tempo; mesmo se quisesse construir um lar, no o poderia, uma
lstima, coitado!
    Verdade to sabida e assente, por isso no foi ele alvo de burla e mexerico como os demais
celibatrios conhecidos, em toda essa histria da viuvez de Dona Flor.
     Dona Dinor, imperatriz das xeretas e adivinha, transitava diariamente em frente  Drogaria
Cientfica; duas vezes por semana descobria a bunda flcida (Ah! o transitrio da vaidade e da
grandeza humanas: aquela mesma bunda chocha fora cantada em versos de rimas satnicas por
mestre Robato, quando adolescente vate da escola demonaca, custando sua viso e toque
cheques e boladas a senhores ricos do comrcio) frente ao farmacutico para a dolorosa injeo
anti-reumtica, e nem assim seus olhos de vidente, capazes de antever o futuro, divisaram no
moreno senhor a segurar-lhe a pelanca o soberbo quarento da profecia. Porque sabia, e melhor
que ningum, como lhe era impossvel tomar esposa.
     No por chibungo, por impotente ou por donzelo com quizila de mulher. Por Deus, que nem
em pensamento surja suspeita dessa espcie, pois doutor Teodoro, homem pacifico, amvel, de
bom viver, era muito capaz de afastar-se de seu habitual comedimento e exibir sobejas provas de
sua masculinidade, partindo as ventas do canalha capaz de injuri-lo ao pr em dvida sua
inteireza de homem.
     De homem com muita serventia de macho, se bem discreto. Se algum exigir sobre o assunto
depoimento preciso e incontestvel, basta entrevistar no Beco do Sapoti a pujante e asseada
pardavasca Otaviana das Dores ou Tavinha Manemolncia, rompendo-lhe com uns cobres a
reserva devida  sua seleta freguesia: dois desembargadores, trs comerciantes da Cidade Baixa,
um padre secular, um professor de medicina e o nosso excelente farmacutico.
     Por suas manifestas qualidades de limpeza, de discrio e de seriedade - mais bem uma
senhora recebendo em sua casa to acolhedora -, Otaviana merecera a escolha e a frequentao
do doutor Teodoro, infalvel s quintas-feiras aps o jantar. Os fregueses de Tavinha, elite
preclara e sigilosa, eram de dia certo (ou noite certa), cada um com seus hbitos e gostos, suas
preferncias - s vezes bem esquisitas como as do desembargador Lameira, quase coprfilo -, e a
todos, competente e cmoda, ela atendia, dando-lhes completa satisfao. Aos vares normais e
sem problemas, como doutor Teodoro e aos velhos stiros, pururucas, come-bronhas, chupa-
umbigos, deixando regalados e contentes uns e outros.
     s vinte horas em ponto, cada quinta-feira, doutor Teodoro atravessava o batente da porta,
sendo recebido com especial estima e cortesia. Aboletado em cadeira de balano, com Otaviana
em sua frente a tricotar sapatinhos de nen, bebericando um licor de frutas, especialidade das
freiras do convento da Lapa, mantinham doutor Teodoro e a mundana proveitoso dilogo,
passando em revista os acontecimentos da semana, o noticirio dos jornais. Na convivncia de
senhores ilustrados, adquirira Tavinha um verniz erudito, era de conversa agradvel, uma
intelectual, e no Beco do Sapoti consultavam-na a qualquer propsito. Ao demais de muita
moralidade, a criticar os costumes atuais, esse disparate que vai pelo mundo, devassa e incrdula
juventude.
     Assim fazia o farmacutico hora e digesto, ouvindo e aceitando os conceitos edificantes da
mulata, "esse mundo est perdido, seu doutor, no tem santo que d jeito". Iam depois para o
quarto recendendo a folhas aromticas, e em Otaviana punha-se o doutor Teodoro, em cama de
lenis alvssimos, com direito a bis. E como duvidar ainda de sua macheza, se quase sempre ele
usava do direito e galhardo repetia o bom folguedo?
     Sem acrscimo de preo, vale dizer, pois Tavinha Manemolncia no cobrava por vez e sim
por noite, recebendo pela noite inteira, mesmo quando o fregus, limitado em sua liberdade pelo
controle familiar, saa s pressas, utilizando apenas o pequeno tempo de uma mentira. Preo
salgado, tabela alta, prazer caro; mas tanto requinte de trato, tanta gentileza e a competncia
valiam o esbanjamento.
     Doutor Teodoro permanecia at a meia noite, por vezes tirando uma soneca na cama de
colcho de barriguda, macio e quente, com a gentil Otaviana a lhe velar o sono. Antes de ir-se,
ainda ela lhe trazia um mungunz, um arroz-doce, uma canjica, e novo clice de licor para "lhe
restaurar as foras", como, num sorriso de dengo, murmurava a parda e digna marafona.
     No o inscreviam as comadres em listas nem o envolviam em pilhrias matrimoniais por
saberem-no dedicado  me, velhinha paraltica, para quem o filho era tudo. Quando ela sofrera o
derrame, doutor Teodoro, recm formado, prometera-lhe manter-se solteiro enquanto ela
vivesse. Era o menos que podia fazer para lhe provar sua gratido.
     O pai faltara-lhe quando ele, aos dezoito anos, preparava-se para o exame vestibular na
Faculdade de Medicina. Quis interromper os estudos, fixar-se para sempre na cidade de Jequi
onde residiam, assumindo o balco da pequena loja de fazendas, nico bem legado pelo pai, alm
de dvidas aos montes e larga fama de bondade. Mas a viva, mulher aparentemente frgil porm
disposta, no admitiu o sacrifcio: a nica ambio do falecido tinha sido formar o filho, e o
jovem Teodoro revelara-se timo estudante, os professores prognosticavam-lhe grandes xitos.
Fizesse ele seus exames e seguisse o curso, a Me se encarregaria do armarinho. Houve apenas
uma troca; em lugar de medicina, ele cursou farmcia, de currculo trs anos menor.
     Sozinha, trabalhando noite e dia, numa estafa contnua, a viva administrou casa e negcio,
pagando as dvidas e garantindo a mesada do filho acadmico. Por mais de uma vez ele tentou
empregar-se mas a me se opunha: seu tempo era sagrado para os estudos, ficando o trabalho
para depois da formatura.
     Quando o viu doutor, de anel e diploma, envolto em beca preta na solenidade da colao de
grau, no suportou tanta alegria: na mesma noite, de regresso ao hotel, teve o derrame. Salvou-se
por milagre mas ficou para sempre paraltica.
    Ao v-la  morte, o jovem farmacutico, num gesto de heri de dramalho, no entanto sincero,
jurou-lhe permanente companhia, manter-se solteiro enquanto ela vivesse. No dia seguinte, na
primeira folga, devolveu a palavra a Violeta S, sua prometida, e nunca mais voltou a ter outra
namorada. De alegria e diverso restou-lhe apenas o fagote, instrumento que aprendera ainda
ginasiano, na Lira Municipal.
     Tendo vendido a loja em Jequi, associara-se a decadente farmcia em Itapagipe, propriedade
de um mdico de triste fim: numa senilidade precoce cometera os maiores desatinos, obrigando a
famlia a intern-lo.Doutor Teodoro alugou casa por ali perto e viveu exclusivamente para o
trabalho e para a Me entrevada, intil numa cadeira de rodas, o olhar de espanto, a voz rouca e
difcil, ciumenta do filho. Sentando-se ao seu lado,  noite, ensaiava ele solos de fagote, para
suavizar a terrvel solido da enferma.
     Durante anos e anos pouco saiu do bairro, onde se fez popular e estimado. Tendo conhecido
o msico Agenor Gomes, ingressou com seu fagote na orquestra de amadores que, em torno ao
competente maestro, reunia mdicos, engenheiros, advogados, um juiz, um balconista, dois
lojistas. Aos domingos, ora na casa de um ora na de outro, juntavam-se a tocar, felizes com seus
instrumentos e suas composies.
     Sob a direo do jovem titular, retornou a farmcia  sua antiga prosperidade e a fama de
homem correto e bom do doutor Teodoro se imps e s fez crescer com o tempo.
     Muitas pretendentes surgiram a rondar o fagote do moo farmacutico, mas ele, srio e
incapaz de roubar tempo  moa casadoira, a nenhuma deu trela ou esperana. Finuras de
namorados reservava-as todas para a paraltica: flores, caixas de chocolate, lembranas delicadas e
uma sonata composta pelo maestro em homenagem quela devoo de filho e me: "Tardes de
Itapagipe com o amor materno".
     O mdico insano morreu sem recuperar-se, doutor Teodoro tratou do inventrio, resolvendo
os diversos problemas como se cuidasse de bens de gente sua. Talvez por isso a viva imaginou
cas-lo com a filha mais moa, uma catraia assustadora. Por sorte, a promessa impedia doutor
Teodoro, porque se assim no fosse era capaz de ver-se de sbito esposo do mostrengo, de tal
forma era impositiva a viva. J o tratava como sogra, dispondo sobre sua vida. Num alarme,
doutor Teodoro s teve um recurso: passar adiante sua parte na sociedade, retirando-se da
farmcia e da ameaa de noivado.
     Quando se interrogava sobre o que fazer com o dinheiro recebido, um seu conhecido (seu e
nosso, pois j em outra ocasio o vimos, ao volante, na rua Chile, quase atropelando Dona
Rozilda e ainda lhe dizendo rgios desaforos, aquele esperto representante de drogas e
laboratrios, Rosalvo Medeiros) deu-lhe uma deixa de primeira: a Drogaria Cientifica,
estabelecimento prspero, num ponto formidvel, estava sendo objeto de uma dessas srdidas
lutas de herdeiros num inventrio litigioso, torpe briga de famlia. tima oportunidade para
algum com dinheiro; podia fazer um negcio e tanto.
     Assim o fez doutor Teodoro, adquirindo as partes de dois dos cinco herdeiros, a vista e a
prazo. Metia-se em empresa de vulto, comprava um patrimnio. Atravessou uns tempos ruins, ao
comeo, resgatando promissrias a juros altos. Foi-lhe de valia naquelas aperturas o banqueiro
Celestino a quem o recomendara outro membro da orquestra de amadores, doutor Venceslau
Pires da Veiga, quase to bom no violino quanto no bisturi famoso. O portugus sentiu logo o
homem srio: tinha olho e olfato, no se enganava nunca. Abriu para doutor Teodoro a
possibilidade de reforma de ttulos, facilitando-lhe a vida.
     Homem de mdicas despesas (seus luxos resumiam-se em enfermeira competente para a Me,
no fagote e na hebdomadria visita a Tavinha Manemolncia), com o apoio do banqueiro,
transps o farmacutico sem maiores riscos aqueles primeiros tempos do Cabea, ainda
endividado. Um ano antes de engraar-se por Dona Flor, pagara, com um suspiro de alvio, a
ltima letra.
     Era agora scio no mais de pequena farmcia de Itapagipe e, sim, de drogaria no centro da
cidade. E, se bem scio menor, possuindo apenas duas quintas partes do capital, mandava e
desmandava no negcio, pois os trs irmos no se entendiam e raramente punham os ps na
Cientfica (a no ser para pedir avano sobre a retirada). Ao demais, farmacutico a dar ttulo ao
estabelecimento, cabia-lhe por isso e pelo seu trabalho dirio uma participao maior nos lucros.
Tranqilo,  espera de mais cedo ou mais tarde comprar as outras quotas quando os irmos,
caterva de preguiosos e inteis, acabassem de pr fora, na boa vida, os demais bens da herana,
doutor Teodoro ganhara o respeito e a estima do bairro, inclusive das comadres.
     Quando surgira no Cabea, irrepreensvel em sua roupa escura, srio e competente, solteiro
andando para os quarenta, as comadres, apenas o viram, puseram-se em ao. Logo vasculharam
sua intimidade, pesaram sua cincia - "que mo mais delicada na agulha da injeo", "receita
melhor do que muito mdico" -, passando a pente fino os detalhes de sua vida: dos estudos pagos
com o trabalho da me  frente do armarinho em Jequi at os solos de fagote, arte e prazer do
celibatrio, com lgrimas no captulo dramtico do derrame quando doutor Teodoro jurara no
amar mulher alguma para melhor atender  paraltica.
     Dona Dinor, escrupulosa e exata, pertinaz em busca de mincias, estendeu seu campo de
pesquisas at Itapagipe, onde entrevistou a prpria enfermeira a conduzir a velhota no carrinho
de aleijada. Aquela dedicao de filho a merecer sonata, melodia e poema, imps-se 
maledicncia das comadres, que deixaram o boticrio em paz com seus hbitos austeros e sua
me enferma.
     To acostumadas com o solene compromisso filial, nem se deram conta da profunda
mudana qualitativa ocorrida meses antes, quando a me do doutor Teodoro finou-se em sua
cadeira de rodas, na qual vivera por mais de vinte anos: livre o filho da fatal promessa, apto para
o casamento. Mas para as comadres o farmacutico no existia como motivo de fuxicos e
cochichos. Futricavam de todo mundo menos dele, "homem direito  doutor Teodoro".
Qual o espanto, pois, qual o assombro, o fim de mundo, quando estourou a notcia do interesse
do droguista pela professora de culinria. Ah! traidor! As comadres, em formao de batalha,
ocuparam todas as posies estratgicas entre a Drogaria Cientfica e a Escola de Culinria Sabor
e Arte. Por entre olhares e sorrisos doutor Teodoro teve de atravessar, com seu passo medido,
seu jaqueto cinzento ou azul, sua austera compostura, cruzando ante a janela onde Dona Flor
respondia com um sorriso breve e gentil ao respeitoso porm apaixonado cumprimento do
pretendente. Ah, traidor, sorna e fingido! - diziam olhares e gestos das xeretas.
      Permanecendo na mesma distante casa de Itapagipe, j no se apressava ele, no entanto, a
tomar o bonde e o elevador apenas cerradas as portas da Drogaria: no mais o esperava em
nervosa impacincia a me entrevada. Deu de almoar e jantar no restaurante do portugus
Moreira, rondando pelo Cabea, pelo Maciel, pelo Sodr, como se no pudesse abandonar as
redondezas da viva. Fazia-lhe a corte de longe, sem lhe impor a presena, discreto. Mas como
manter-se em discrio, nos limites da reserva, com o comadrio em torno, tropeando a cada
passo numa das beatas, ouvindo insinuaes de Dona Dinor.
     Doutor Teodoro, homem de atitudes francas, inimigo de fraudes e embaamentos, sentia-se
incmodo; a situao foi-se tornando para ele insuportvel. Dona Norma deu-se conta:
    - At faz pena...
    Dona Flor sorria com simpatia:
    - Pobrezinho...
     - Isso no pode continuar assim... Vou dar um jeito...
     Dona Norma disps-se a uma explicao sincera com o apaixonado farmacutico, para decidir
aquilo de uma vez. A prpria Dona Flor j no escondia estar tambm interessada, falando dele
com afeio, firme na janela na hora do doutor cruzar a rua.
    - Vou falar com ele...
     - Est louca, criatura? Ele vai pensar que eu mandei, que sou uma
reles, uma oferecida...
    - No seja tola... Deixe comigo...
     Mas no chegou Dona Norma a tomar a iniciativa, porque, naquela mesma tarde, Dona Flor
invadiu-lhe a casa, quase sem flego, na mo as folhas de uma carta e o envelope. Papel azul com
bordas de ouro e perfume de sndalo, um primor. Declarao em regra, frases de galanteio
em escorreito portugus, relao de bens e de qualidades postos uns e outros aos ps da dama,
honestas intenes, palavras nobres, e o sopro de uma paixo verdadeira a transbordar dos
retilneos limites da prudncia, fazendo com que aquele documento de um carter fosse tambm
requisitrio de amor, fremente e vivo.
     - Supimpa... - disse Dona Norma, lendo vida e entusiasta.  Um colosso.

Captulo 13

     Se o primeiro casamento de Dona Flor realizou-se s carreiras, em acanhada e restrita
cerimnia, no segundo tudo aconteceu como devido, reinando ordem e certo brilho. O primeiro
no teve noivado, indo direto do namoro (impudico) ao matrimnio, passando antes pela cama
(antes da hora). Celebrou-se naquelas desagradveis condies de urgncia e embarao resultantes
da necessidade de tapar com o aval do Estado e da Igreja os trs vintns da moa comidos pelo
namorado, antecipadamente, restaurando-se assim, se no o cabao, pelo menos o bom nome da
famlia.
    O segundo foi puxado a convite impresso, com notcia na coluna de "Sociais" de " Tarde",
elogiosa referncia ao doutor Teodoro - "nosso prezado e conspcuo assinante" -, msica, flores e
luzes, e gente, muita gente na Igreja de So Bento, onde o celebrante, Dom Jernimo, sapecou
sermo dos mais eloqentes; enquanto na cerimnia civil, o juiz, doutor Pinho Pedreira, com
aquela sua elegncia de conceitos, em breve e amvel orao, previu uma vida de paz e
entendimento para o novel casal, "sob o signo da msica, voz dos deuses". Era o descarnado e
preclaro juiz colega do noivo na orquestra de amadores reunida sob a batuta do maestro Agenor
Gomes, onde o magistrado se distinguia na clarineta.
     Teve assim o segundo casamento de Dona Flor quanto faltou ao primeiro; regido, a rogo dos
noivos, por Dona Norma, com proficincia e escrpulo, viu-se cada coisa em seu lugar, na devida
hora, tudo de boa qualidade e por preo acessvel, tendo ela contado para tal sucesso com a ajuda
entusiasta da vizinhana em peso.
     O que no obteria Dona Norma? Obteve inclusive a presena de Dona Rozilda, sua completa
reconciliao com a filha. Vieram tambm de Nazareth o irmo e a cunhada de Dona Flor;
ausentes apenas Roslia e Antnio Morais, mantendo o mecnico sua deciso de s voltar  Bahia
quando a sogra "houvesse tomado frias permanentes no inferno".
     Dessa vez Dona Rozilda no tivera crticas a fazer: casamento a seu gosto, tanto as cerimnias
como o genro. Afinal um genro seu se aproximava do modelo sonhado nos distantes idos da
Ladeira do Alvo: no exatamente,  claro, no o prncipe perfeito, ideal quase alcanado com o
estudante Pedro Borges. Mas, enfim, um doutor, de recursos, scio de farmcia bem sortida e
situada. Homem probo e de trato, algum na vida, no um p-rapado a ganhar o po rastejando
sob os automveis dos outros, imundo de graxa, como o marido de Roslia; muito menos um
reles vagabundo, um capadcio como o primeiro esposo de Florpedes. Esse doutor Teodoro ela
podia exibi-lo sem constrangimento s suas relaes de elite, figura de prol, genro de substncia,
apatacado.
     No segundo casamento s no houve namoro, e com razo, pois no fica bem a uma viva
namorar, numa esquina ou no esconso de uma porta em deboche e agarramentos: beijinhos,
abracinhos, pega aqui, pega acol, mo nos peitos, correndo pelas coxas. Descaraes e sem-
vergonhices tolerveis em namoro de donzela se so srias as intenes do namorado, dando-lhe
direito a alguns avanos; mas insuportveis e desmoralizantes em se tratando de viva.
     Fiz porque, quando da declarao de doutor Teodoro, atravs da nobre epstola, ficou
resolvido entre as partes - com o conselho e a aprovao de parentes e amigos - um respeitoso e
parco noivado,  durante o qual poderiam Dona Flor e doutor Teodoro melhor se conhecerem e
assim pesarem qualidades e defeitos, determinando se realmente cabia casamento. Possuindo
Dona Flor amarga experincia - dissera seu Sampaio, embaixador plenipotencirio - no se
dispunha a passo to srio sem amplas garantias de sucesso.
     Passo to srio: nem mesmo Dona Norma, com toda sua disposio e no menor capacidade,
se animou  sozinha aconselhar a amiga sobre o teor da resposta s folhas azul e ouro,
recendendo a perfume de sndalo e a paixo. Para ela, ntima e fraterna de Dona Flor, a par de
seus segredos, de sua necessitada condio de jovem fmea presa nas grades da viuvez, no havia
dvidas: aquele casamento era a boa soluo para todos os problemas da amiga. Mas uma
resposta  ardente e corts declarao no podia resumir-se a uma palavra:    "aceito". E depois?
     Necessrio aproveitar a ocasio para botar tudo em pratos limpos, definindo-se atitudes,
termos e prazos, de tal forma no casse Dona Flor na boca do mundo, nem se prolongasse
tampouco  ridcula situao em que se atolara o inexperiente farmacutico, homem de condio
e respeito, de sbito promovido a palhao e a motivo de galhofa pelas comadres a seguirem-no
rua a fora, a contarem seus olhares e suspiros, a se divertirem s suas custas.
     Eis porque Dona Norma convocou no s Dona Gisa, letrada e sabichona, amiga do peito,
como tambm quis ouvir seu Z Sampaio e nele se apoiar. Pensara de comeo em tia Lita e tio
porto, encontrando-se em Nazareth das Farinhas ou no Rio e me e os demais parentes de Dona
Flor. Mas convieram, ela e a viva, na inutilidade da presena dos bons velhos nos debates
preliminares do caso. Se chegassem ao momento solene do noivado, ai sim, convocariam tia Lita
em seu jardim, tio porto em suas paisagens coloridas para ouvirem do pretendente as intenes e
o pedido.
     Noite atrapalhada: para garantir a reunio teve Dona Norma de obter que Dona Amlia a
substitusse  cabeceira de uma prima sua, em quinto ou sexto grau, recm parida:
     - Essa Norminha no tinha nada de se oferecer de acompanhante, a moa cheia de parentes...
Se ofereceu de enxerida, mulher mais esperta... - reclamava Dona Amlia no caminho do
hospital, a contragosto.
     Tambm Dona Gisa desfez um compromisso: reunio musical em casa de uns amigos alemes
onde,  meia sombra, ouviam discos de Beethoven e Wagner, em devoto silncio, churupitando
uma bebidinha. Quanto a seu Sampaio, veio de m vontade, a pulso: no era de seus hbitos
envolver-se na vida alheia, muito menos com palpites em assunto to pessoal quanto casamento.
Em se tratando, porm, de Dona Flor, criatura de sua real estima, viva e honrada - e um peixo,
uma uva!, seu Sampaio no podia conter o pensamento safardana, decidiu-se a sair de seus lazeres
e princpios para servi-la.
     Com nova leitura da carta, feita em voz alta e com comentrios por seu Sampaio, iniciou-se
essa histrica conferncia de cpula (como diria a imprensa de hoje):
      - Homem de sentimentos elevados, gostei, - concluiu o lojista de sapatos.
    Houve depois o tmido assentimento de Dona Flor:
     - Sim, penso que sim... Por que no? Acho ele simptico...
     - Simptico? Um homem e tanto, um zarro. - Protestou Dona Gisa, metida a usar gria baiana
em sua meiga lngua de gringa.
      Acordaram finalmente, por sugesto de Dona Norma, delegar poderes a seu Z Sampaio
para, em nome da viva, entreter-se com o farmacutico sobre todos os trmites, anunciando-lhe
o sim com exigncias: trmino imediato quelas demonstraes pblicas, assanhamento grotesco,
pouco condizente com qualquer dos dois interessados, passando-se a noivado discreto, precedido
de um encontro com os tios de Dona Flor onde se oficializasse o compromisso.
     Assim feito, poderia doutor Teodoro freqentar a casa da prometida trs vezes por semana, as
quartas, aos sbados e aos domingos. As quartas e aos sbados chegando aps o jantar e
permanecendo at as dez da noite; encontros esses,  evidente, sempre em presena de terceiros
para no se poder argir o menor rumor contra a respeitabilidade da viva. Aos domingos, o
regime era mais brando, comeando com almoo no Rio Vermelho em casa dos tios, terminando
com o cinema, em companhia dos Sampaios ou dos Ruas.
     No se deve encerrar a ata dessa memorvel reunio sem nela inscrever-se o desagrado e o
desacordo de Dona Gisa para com tais limitaes. Discordara com nfase da maior parte de
exigncias to ridculas e tolas, em sua opinio carrancismos da Idade Mdia, feudais e tristes.
Mas o prprio Z Sampaio, homem experiente, as entendia necessrias para precaver-se sem
mcula o bom nome da vizinha.
     Tudo indicando ser doutor Teodoro homem de honra - o comportamento anterior e os
termos altaneiros de sua carta -, ainda assim deviam garantir a viva contra qualquer abuso.
Imagine-se o boticrio, aps meter-se dia e noite em casa da indefesa Dona Flor, aps exibi-la
para cima e para baixo, em passeios e excurses, por a alm, ningum sabe onde, os dois
sozinhos, imagine-se o patife dando o fora de repente, como tantas vezes sucedera em casos
idnticos; onde iriam parar a honra e o lmpido conceito da vizinha? De viva exemplar pela
seriedade e compostura, passaria Dona Flor a penico de defunto, onde qualquer um chega, faz
pipi e vai-se embora. Podia Dona Gisa, em sua sapincia, at rir desses costumes mas ele, Jos
Sampaio, zeloso da sade moral de Dona Flor, era de opinio que...
     Idade Media, feudalismo, Santa Inquisio - onde j se viu mulher de trinta anos, viva, Dona
de seu nariz, Dona de seu dinheiro ganho em trabalho idneo, necessitar de testemunha ao
receber a visita do noivo, cavalheiro j adiante dos quarenta. S no Brasil ainda era possvel tal
atraso... Nos Estados Unidos, seria o riso universal...
    Seu Sampaio ouviu a gringa em silncio, a fit-la, dando-lhe razo no mais recndito de seu
pensamento: uma besteira e das maiores todas essas precaues e testemunhas, afinal quem d o
que  seu, d a quem quer e quando melhor lhe parecer... E que bom seria se a gringa, to cheia
de farofa e futurismos, se resolvesse a lhe dar um pouquinho para pr em prtica suas teses, seu
desprezo por essas convenes, por essas ninharias... Mas, que nada! Tanta palavra e indignao,
tanta cincia e tantas letras, e era um rochedo; pelo menos at prova em contrrio. Se dava era em
sigilo e que sigilo mais absoluto! Ningum, nem mesmo Dona Dinor, jamais tirara qualquer
suspeita a limpo, jamais um fato, sequer um pretendente comprovado. Muito falatrio, sim, mas
tudo em vo, tudo se dissolvendo em coisa alguma. A gringa sorridente, feliz da vida, com todos
os sintomas fsicos e morais de pana farta, de bem servida, e as comadres no maior alvu, sem
descobrir birosca por mais fuassem.
     Vai-se ver, talvez nem desse, fosse sria de verdade... - o que afinal era um consolo, conclua
melanclico seu Sampaio, encerrando tambm a conferncia.
     No dia seguinte, contrariando mais uma vez seus hbitos, demorou-se seu Sampaio a sair para
a loja de sapatos: fazia hora para encontrar doutor Teodoro na drogaria, desobrigando-se logo da
prebenda.
     Foi conversa cordial, se bem de incio seu tanto difcil, cheia "de dedos e de reticncias", seu
Sampaio sem saber como introduzir o assunto, doutor Teodoro estreante naqueles embelecos.
Entenderam-se, porm, em mtua boa vontade: o lojista pleno de simpatia pela causa, o
farmacutico disposto a qualquer acordo desde que nele se inclusse o casamento com a viva,
numa paixo definitiva de homem maduro.
     Deu-se o encontro no laboratrio, nos fundos da botica, em aparncia ao abrigo de olhares e
ouvidos indiscretos. Em aparncia apenas, pois mesmo naquela hora matinal Dona Dinor, em
permanente vigilncia, observou a cautelosa abordagem de seu Sampaio, sua demora suspeita no
recesso do laboratrio (nem tratamento de sfilis tardava tanto), e meteu a cara a pretexto de sua
injeo contra reumatismo (em verdade s devia tom-la no dia seguinte e no horrio vespertino).
     O susto dos conspiradores ao ver a face da insolente seria confisso bastante, no tivesse ela
ouvido pedao de conversa, assertiva reveladora do comerciante em calados:
    -  o caso, meu caro doutor, de parabns s duas partes, ao senhor e a ela... Ambos
merecedores...
     Logo esteve a notcia em todas as bocas, circulando nas ruas em redor, Dona Flor recebendo
felicitaes mesmo antes de saber do sucesso da misso com tanto brilho levada a cabo por seu
Z Sampaio (alis escolhido para padrinho no ato religioso, em agradecimento).
    Na noite de sbado, na expectativa do encontro do pretendente com a viva, reuniu-se
pequeno e animado sereno ante a casa de Dona Flor: as comadres postaram-se desavergonhadas
no passeio do argentino, fechando a sala de visitas da Escola de Culinria.
      Dona Flor aguardava sorridente e calma a visita excitante; encontrando-se, como devido,
cercada por seus parentes prximos, no caso os tios, e por seus amigos mais ntimos (inclusive
Dona Dinor, que ameaara guerra sem quartel, se no fosse convidada), trs ou quatro casais,
Dona Maria do Carmo e a moa Marilda (to nervosa como se fosse o pedido de sua mo) e, na
melhor cadeira, o doutor Lus Henrique, personalidade da administrao pblica e das letras
ptrias, amigo da famlia, uma espcie de parente rico. L fora o sereno crescia em gente e em
salincia.
     Doutor Teodoro surgiu na hora exata, na preciso de seu cronmetro suo, numa lordeza
que s vendo, flor  botoeira, um figuro esplndido, a estremecer todas as comadres. Recebido
com certa cerimnia por tia Lita, aps cumprimentar todos os presentes, dirigiu-se ao lugar que,
segundo rgido protocolo, lhe designaram: no sof, ao lado de Dona Flor.
     Dona Flor resplandecia num vestido novo, formosa e simples em rubor e pudiccia, toda de
cobre e ouro. Ningum poderia adivinhar, vendo-a to tranqila, de nimo to seguro, como por
dentro estava morta de agonia, opressa em aflio, como crescera sua nsia naqueles dias de
esperana e dvida. Finalmente ia transpor o duro tempo, a negra noite, o deserto de luto e
solido: outra vez em cavalgada partiria a vadiar.
     Sentou-se doutor Teodoro na ponta do sof e foi o silncio, a espera, minuto solene,
inesquecvel e muito incomodo. O farmacutico percorreu com os olhos a sala cheia, Dona
Norma sorriu a anim-lo. Ento, pondo-se novamente de p e dirigindo-se a Dona Flor e aos
tios, disse como ficaria feliz "se ela quisesse lhe fazer a merc de aceit-lo como noivo, futuro
esposo em breve prazo, dispondo-se a ser sua companheira na estrada da vida, estrada pedregosa,
feita de obstculos e tropeos, a transformar-se no entanto em paraso se ele contasse com seu
apoio e blsamo..."
     Arenga de orador, digna de bacharel ou de poltico, faceta indita do doutor Teodoro essa
retrica; "que homem mais completo de virtudes", pensou Dona Maria do Carmo, de todos os
presentes quem menos tratara com o pretendente. Enquanto isso, ele prosseguiu, afirmando j
sentir-se nos umbrais do paraso pelo fato de ver-se ali, entre os tios e os amigos mais diletos de
quem era o motivo de sua vida; lstimas no estivessem presentes  irm e o irmo, a cunhada e o
cunhado, e sobretudo a dedicada e veneranda velhinha, a santa me de Dona Flor...
     To imprevista citao de Dona Rozilda quase engasga Dona Amlia, um frouxo de riso na
garganta: "espere e j ver a santidade da velhinha ..." a mo tapando a boca, desviando os olhos
para no fitar Dona Norma ou Dona Emina.
     Doutor Teodoro, em resumo, desejava, em presena de tantas testemunhas de alta valia,
solicitar a mo de Dona Flor, sua mo de esposa. To lindamente disse que Dona Norma no se
conteve, bateu palmas, ante a indignao de seu Sampaio: onde j se viu aplausos em momentos
assim, quando se impe a mais discreta compostura? Mas Dona Flor ps tudo em ordem e em
harmonia levantando-se ela tambm, e estendendo a mo e a face ao pretendente, dando-lhe o
sim:
    - Eu tambm desejo me casar consigo...
     Ele apenas aflorou a face da noiva, e logo foi uma confuso de abraos, de felicitaes e
parabns, beijos das mulheres e o sereno indcil invadindo a casa, doutor Teodoro a ouvir
repreenses:
    - Seu enganador, santo de pau oco...
     Farta mesa de doces e salgados, atiraram-se indmitas as comadres. Marilda e a empregada
serviam licores feitos em casa: de ovos, de violetas, de groselha, de umbu, de ara, cuja gostosura
levou o farmacutico a risonho engano:
     - Ah! esses licores, so excelentes. So feitos pelas freiras do convento da Lapa, no ?
     Porque o paladar lhe soubera conhecido, idntico a outros degustados em casa tambm
acolhedora, assim confortvel de calor humano. Riram, porm, de sua certeza e mesmo como
hiptese no a quiseram aceitar, considerando-a quase um insulto: no tinha ele por acaso notcia
dos dons de Dona Flor? No apenas cozinheira insupervel, doceira sem rival, mas tambm
mestra em licores; os das freiras, da Lapa, do Desterro ou dos Perdoes, eram xaropes, xaropes de
farmcia, seu doutor, no podiam comparar-se aos de sua noiva, nem de longe...
     Dos licores no sabia; confuso, em autocrtica e penitncia, dava a mo  palmatria; sabia,
sim, da fama rgia da cozinha, no sendo Dona Flor professora de temperos por acaso e, sim,
por competente, por verdadeira artista. Nunca lhe fora antes dado provar essas delcias,
infelizmente; mas chegara o tempo da desforra. Ia engordar muito, com certeza.
     Assim foi a alegre festa de noivado. Nas voltas que o mundo d, o doutor Teodoro veio parar
nas ante-salas  do leito de Dona Flor, na fmbria de sua espera. Todo escabriado, no tinha
experincia de namoros e conquistas, seu trato mais ntimo com mulheres reduzindo-se ao
encontro semanal com Otaviana. Se um dia o farmacutico vira na rapariga a trfega Tavinha
Manemolncia, recebendo ela ento alm da moeda sonante o agrado de uma palavra doce, com
o passar do tempo aquele trfico de sentimentos reduziu-se a um hbito de gentilezas e
cordialidades, de confortveis atenes, com doces e licor, conversa e cama, despido de
galanteios e ternuras de namoro ou de xod.
     Na despedida novamente Dona Flor ofereceu a face ao casto sculo (ou medroso ou tmido,
mas sobretudo acanhado) do prometido noivo. Mas sentiu o tremor de sua mo ao tocar-lhe os
dedos midos. Pensou que o doutor Teodoro tambm queimava por dentro, igualzinho a ela.
     Naquela noite Dona Flor sonhou com ele e s com ele e o viu um gigante moreno, forte,
invencvel, o peito largo, um zarro, como dizia Dona Gisa estalando a lngua; vinha e a
arrebatava.
     Assim foram os esponsais de Dona Flor. Pelas ruas em torno no se discutia outra coisa.
Alis, no era discusso e, sim, assentimento unnime. No surgiu voz discordante, todos
simpatizando com o noivado do boticrio e da viva, feitos um para o outro, na opinio geral.
      Primeiro Dona Flor estabeleceu um prazo de pelo menos meio ano para a data do casrio.
Foi essa uma das raras proposies discutidas pelo noivo. Por que tanto tempo? - quis saber
doutor Teodoro, se no tinham enxoval a preparar, problemas a resolver. De acordo com ele
estavam amigas e comadres e a prpria Dona Flor veio a lhe dar razo, reduzindo h trs meses
aquele tempo de timidez, de sofreado anseio.
     Trs meses de bonana, quando foram se acostumando (facilmente) um com o outro e se
deram bem, melhor a cada dia. Nesse perodo, nos seres de conversas longas, com a
participao de Dona Norma ou de outra amiga, decidiram sobre todos os detalhes da vida em
comum a ser iniciada em breve.
     Acertaram morar em casa de Dona Flor, no s porque para doutor Teodoro era cmodo,
ficando a residncia prxima  Drogaria, como porque Dona Flor se recusara, terminante, a
encerrar as atividades da Escola, como ele propusera. A farmcia lhe rendendo o bastante para
viverem com modesto conforto, - argumentou doutor Teodoro -, por que manter aquela
trabalheira? Mas Dona Flor acostumou-se e certamente no saberia viver sem suas alunas, as
turmas ruidosas, as risadas, os diplomas, o discurso e as lgrimas na formatura e um dinheiro seu.
De maneira alguma, nem falasse nisso.
     No mais, tudo de acordo. Mesmo o leito de ferro, pelo qual ela sentia secreta estima
agradando-lhe sua forma antiga, e por cuja sorte temera - talvez no quisesse o doutor dormir na
cama onde o primeiro esposo a possura tantas vezes, no foi motivo de debate. Quando, num
balano, estabeleceram a relao do que comprar para compor a casa a seu agrado (uma
escrivaninha onde o farmacutico tomasse suas notas e guardasse seus papis, por exemplo),
foram de pea em pea a examinar e decidir; chegando ao quarto ele props adquirirem novo
colcho, estando o velho cheio de calombos, de altos e baixos. Existiam uns colches de mola
novidade recente, magnficos. Ele mesmo tinha um, mas de solteiro. Quanto ao leito, no valeria
a pena pint-lo, j que iam pintar a casa e certos mveis? E foi tudo.
     Acostumavam-se um ao outro e j sentia Dona Flor ternura por aquele homem calmo e bom,
seu tanto solene e sistemtico, exigindo tudo em seu lugar e em hora certa, mas incapaz de uma
indelicadeza, cheio de atenes e sem dvida morto de amor por ela. J agora, ao chegar e ao
despedir-se (e vinha diariamente, acabara-se aquela bobagem, to criticada por Dona Gisa, de
visitas s trs vezes por semana), ele a beijava nos lbios, levemente. Com sua boca forte apenas
tocava a boca da viva. Ela sentia ganas de mord-lo, num beijo de verdade.
     Uma noite tinham ido ao cinema, mas, como acontecia cada vez que saiam com seu Ruas,
chegaram atrasados, a sesso tivera incio e na sala cheia no conseguiram lugar na mesma fila
para os quatro, ficando Dona Flor e doutor Teodoro l na frente, incmodos. Incmodos para
ver o filme, a tela muito prxima, mas sozinhos na fila e de mos dadas. Certo momento ele
aflorou-lhe os lbios de manso, mas ela abriu os seus e o beijou deveras. Foi o primeiro beijo que
trocaram, caricia de homem e de mulher, os outros tinham sido sculos e no beijos. Faltava uma
semana para de todo completarem, ante o juiz e o padre, os esponsais. Aquele beijo como que
inaugurou sua intimidade, destruindo o pejo e a vergonha a fazer daquele o mais cerimonioso dos
noivados.
     Com esse beijo de verdade sonhava Dona Flor todas as noites, dando, em sua insnia, razo a
Dona Gisa: se iam casar da a dias por que diabo no matar de uma vez a fome e a sede a devor-
los? No o fizeram,  claro, nem jamais falaram nisso, nem uma insinuao sequer. Daquele beijo,
porm, nasceram outros, e as mos se apertaram, juntaram-se as cabeas no escuro do cinema.
Naquela noite Dona Flor dormiu tranqila e em repouso, depois de muitos meses.
     Assim chegou Dona Flor, honrada e mansa, ao dia de seu segundo matrimnio. A casa, uma
beleza, parecendo nova com a pintura a leo, um faiscante lustre de penduricalhos, a placa da
Escola a reluzir. Outra disposio dos antigos mveis, completando-se com os recm adquiridos,
como a escrivaninha e sua cadeira giratria; no leito de ferro (agora azul) o colcho de molas,
suco dos sucos, um xispete.
     Da parede da sala tinham sido retirados os retratos coloridos de Dona Flor e do primeiro
esposo. Em seu lugar, na vspera do casrio, foi posto o quadro de formatura do farmacutico,
onde, em meio aos colegas, ele sorria de beca negra, em trajes de doutor.
     No ficava bem manter o falecido a presidir a casa, segredou Dona Norma a Dona Flor.
Tinha razo, mas Dona Flor no quis na parede apenas seu retrato: um retrato de mocinha, da
mocinha que ela fora, sem juzo, tola menina aflita, na idade de sofrer, a mulher do jogador; no a
Dona Flor de agora, mais gorda um pouco e mais pousada, a esposa do doutor, madura para a
conquista da felicidade.
     Todos o diziam, sem exceo - aquele mundo de convidados a lotar a igreja, inclusive o
banqueiro Celestino, ocupadssimo, chegando com atraso, como j sucedera quando do primeiro
casamento -, no ltimo instante na Igreja de So Bento. No comeo da noite enluarada, quando
j os noivos iam entrar no txi que os conduziria para fora da cidade, para as npcias na quietude
de So Tom de Paripe, no golfo verde-azul da Bahia de Todos os Santos, com estrelas inmeras,
com msica de grilos e coral de sapos - todos diziam, at Dona Rozilda:
    - Desta vez, sim, ela acertou; vai ser feliz. Desta vez sim, todos diziam, sem exceo.

Parte IV

DA VIDA DE DONA FLOR, EM ORDEM E EM PAZ, SEM SOBRESSALTOS NEM
DESGOSTOS,
COM SEU SEGUNDO E BOM MARIDO, NO MUNDO DA FARMACOLOGIA E DA
MSICA DE
AMADORES, BRILHANDO NOS SALESES, E O CORO DOS VIZINHOS A LHE
RECORDAR
SUA FELICIDADE

(com doutor Teodoro Madureira num solo de fagote)

   A ORQUESTRA DE AMADORES FILHOS DE ORFEU tem a subida honra de convidar
Vossa Excelncia e Sua Excelentssima Famlia para o concerto comemorativo do sexto
aniversrio de sua fundao, a realizar-se nos jardins do palacete do casal Taveira Pires, sito ao
Largo da Graa, n. 5, s 20,30 horas do prximo domingo.

PROGRAMA

1. parte

    1 - Berger - Amoureuse - valsa
    2 - Franz Schubert - Marche Militaire
    3 - E. Gillet - Loin du Bal - valsa
    4 - Franz Drdla - Souvenir - solo de violino com acompanhamento de
piano - solista: Dr. Venceslau Veiga - ao piano: Sr. Helio Basto
5 - Oscar Strauss - Sonho de Valsa - pout pourri

2. parte

    1 - Francis Thom - Simple Aveu
    2 - Othelo Arajo - Elegia - solo de violoncelo com acompanhamento
de orquestra - solista: Sr. Comendador Adriano Pires
    3 - Graziano - Walter - Gemito Appassionato
    4 - Agenor Gomes - Arrulhos de Florpedes - romanza com solo de
fagote e acompanhamento de orquestra - solista: Dr. Teodoro Madureira
5 - Franz Lehar - Viva Alegre - pout pourri Piano condutor: Maestro
Agenor Gomes

Captulo 1

     Tendo comprovado mais uma vez a ordem absoluta e o irrepreensvel asseio, Dona Fil foi
saindo devagar, em seu passo de obesa:
     - Fiquem  vontade, meus anjos... No preciso desejar boa noite ... - mesmo querendo ser
maliciosa era apenas bonachona e maternal: conhecera doutor Teodoro ainda estudante,
contemporneo e companheiro de seu filho, o mdico Joo Batista. - Com vocs, sabem quantos
casais passaram a lua-de-mel neste quarto, depois que estamos aqui, em So Tom? Dezessete...
Ou dezoito? Nem sei, s contando...
     Um agrado no rosto de Dona Flor, um piscar de olhos para o farmacutico:
     - Durmam de um sono s, sossegado... - a risada frouxa, balanando-lhe as bochechas,
ressoou pela casa, trazendo do quarto da frente  voz do doutor Pimenta numa repreenso ("l
est Fil a atazanar os hspedes"):
    - Vem dormir, mulher... Deixa os outros em paz...
     - S estou vendo se falta alguma coisa... - um ltimo olhar, da porta: - Meus pombinhos...
     Viram-se Dona Flor e doutor Teodoro um diante do outro no quarto enorme; encabulados,
inibidos. Inibio a acumular-se durante o dia com as piadas das comadres, com as faccias das
alunas. Os chistes idiotas, as chalaas dos vizinhos. Tanto no ato civil quanto na Igreja cada um
dos convidados revelou-se mais engraadinho e persistente em sua malcia. O banqueiro
Celestino dissera cada uma de arrepiar, ta portugus de boca suja; o txi partindo e ele ainda em
deboche e arrelia. So sempre assim as bodas de viva, no tempero da galhofa rude, com o sal
dos ditos ordinrios. Pois se at Dona Fil, a pessoa melhor e mais acolhedora, se at ela saa do
srio para fazer troa, recomendando prudncia ao boticrio. Ali, no quarto, a inibio
aumentara. Morrendo de sem jeito, permaneciam mudos, sem se olhar, como dois matutos.
     Doutor Teodoro andou para os grandes janeles abertos sobre o jardim, no visvel intento de
fech-los. Por eles a noite penetrara inteira quarto adentro: o luar, as estrelas, o coaxar dos sapos,
um rumor de caranguejos e aratus, brilho de peixes como lmina de ao no escuro do mar, e a
mariposa azul-marinho com manchas de ouro, obstinada em torno ao lustre. A brisa vinha de
entre os coqueiros e as mangueiras; num baque surdo, morcegos derrubavam sapotis em vo raso
de sombras e fantasmas no charco de grilos e de rs.
     Dona Flor, num mpeto - era preciso transpor aquela barreira a separ-los, aquele impasse
inicial e bobo -, veio para junto do marido, debruando-se no peitoril da janela. Doutor Teodoro
vencendo a timidez, aconchegou-a em seu peito; com a mo livre apontou a noite de lua, no
rumo da distncia:
      - Est vendo, querida? - dizia "querida" ainda a medo, num esforo. - Ali, no alto?  o
Cruzeiro do Sul .. .
    Eis que ela sempre desejara v-lo, desde menina:
     - Onde? Me mostre, meu querido...
      Elevou a voz para dizer "meu querido" e repetiu depois, baixinho: "meu querido..."
Iluminou-se doutor Teodoro:
    - Ali... Espie - minha querida...
      Por que, meu querido, esse medo, esse temor? Por que no me tomas em teus braos, no me
beijas a boca, no me levas para o leito? No vs como espero impaciente, no enxergas a fome
em minha face, no ouves meu corao descompassado, no adivinhas minha nsia? - Dona Flor
tinha tambm revelaes de estrela em seu cu noturno, secreta astronomia.
     A seu lado, na janela, tendo-a contra o peito, pensa doutor Teodoro em como agir para no
mago-la, no feri-la por indecente ou chulo. Cuidado, Teodoro, no te afobes nem te apresses,
por imprudncia de capaz de pr tudo a perder; podes lhe dar, a esta criatura to direita um
choque do qual jamais ela se refaa. No confundas, na cama, tua esposa com mulher da vida,
com despudorada marafona; com meretriz paga para a satisfao do homem, para o vcio, de
quem se abusa e com quem se pode agir sem levar em conta a compostura e o pudor. Para a
luxria existem as raparigas e seu triste ofcio. As esposas so reservadas para o amor. E o amor,
tu o sabes, Teodoro,  feito de mil coisas diferentes e importantes. Inclusive de desejo, mas de
um desejo to do esprito quanto da matria; cuidado em no torn-lo srdido e obsceno. Esposa
exige prudncia, sobretudo no trato de coisas de tal delicadeza, e a noite de npcias  sempre
decisivo ponto de partida para uma vida feliz ou infeliz. Ainda mais quando a esposa teve a
amarga experincia de um primeiro matrimnio desastroso.
     Pelo que lhe contaram fora no apenas amarga mas dolorosa e cruel quela primeira
experincia, fora to somente sofrimento e humilhaes. Deves ser, por isso mesmo, um marido
to dedicado e terno que consigas arrancar do corao sofrido da esposa at a ltima lembrana
de uma violncia ou de uma falta de respeito. Sim, ele lhe dar quanto lhe faltou e nunca motivo
para sofrimento e humilhaes.
     Naquela hora de inibido anseio, de busca de compreenso e de ternura, cada qual cem seus
enganos, numa rede de equvocos, tateando s cegas um caminho, pelo cu partiram impvidos
astronautas, e assim puderam reencontrar na rbita das estrelas a necessria calma e alguma
intimidade.
     Doutor Teodoro era familiar da carta do cu, do mapa do universo, conhecia nomes de
constelaes, satlites e cometas, nmero e grandeza dos astros nas galxias - com o dedo a
indicar nos recantos do infinito a mais pura estrela, e logo a recolhendo com seu saber e sua
grande mo. Ali a punha, no rebordo da janela, sobre a pequena mo da esposa.
     Naquela noite de npcias ele lhe deu o que jamais amante algum a sua amante pode oferecer:
colar de astros com luz divina e com os volumes, os pesos e as medidas, sua posio no espao,
sua elipse e sua distncia exata. Com o dedo doutoral ele no cu os elegeu, dispondo-os numa
ordem de grandeza; no colo de Dona Flor os astros translcidos refulgiam.
      Aquela estrela grande em teus cabelos, aquela quase azul, colhida na fmbria do horizonte, a
que mais brilha, a maior de todas, Ah! querida minha,  o planeta Vnus, impropriamente
designado estrela da tarde ou vespertina quando acesa no crepsculo e na noite, e estrela da
manh ou matutina, ou estrela D'alva, quando irrompe com a aurora sobre o mar. Em latim, Oh!
bem-amada, se diz Stellamaris, estrela a guiar os navegantes...
     No lio de cosmografia, pedante e ingnua, no; galanteio ardente, sua maneira de coibir a
timidez e lhe ofertar a magia da noite e seu amor. Dona Flor, toda de estrelas e cincia recoberta,
a cabea reclinada no peito do doutor, j mais em sossego e no prazer de tais conhecimentos,
quis saber:
     - Vnus no  tambm a deusa do amor? Uma sem braos?... Bem outra coisa desejava lhe
dizer: "com sua luz ela fulge sobre nosso leito,  nossa boa estrela; no tenhas medo, meu
querido, no me ofenders se tomares de mim com doido ardor, se arrancares num af, num
arrebatamento, esse vestido que Roslia me mandou do Rio, se me puseres nua coberta s de
estrelas, e se em mim montares e partirmos, gua e garanho, por esse campo de mangueiras e
cajus, por esse mar de canoas e saveiros. Mas, cad coragem para lhe dizer?
     Sorrindo, o doutor lhe apertou a mo num gesto ousado, sua mo tremia. "Sim, era a deusa do
amor da mitologia grega, e a escultura clebre, criao do gnio clssico..."
     Dona Flor de novo constatou como igualmente a ele faltava intrepidez para ser bruto e louco,
para romper o muro a separ-los. Tamanho homem de saber tamanho e no sabia como toma-la
e possu-la. Quanto a ela, Ah! Teodoro, por mais deseje, no lhe compete a mnima iniciativa. J
quase ultrapassara os limites do devido, pois de direito no pode a esposa oferecer-se  excitao
de seu esposo sem passar por sem-vergonha, por concorrente de mulher da vida por descarada.
Compete ao marido, meu Teodoro.
     Aos trancos e barrancos l ia ele em seu esforo. J lhe tendo dado um colar de astros por
adorno, lhe ofertava agora a riqueza dos monoplios desse mundo e, de quebra, a luta dos povos
contra os trustes:
     - Dizem que por aqui h um lenol subterrneo de petrleo, imenso, uma riqueza tal, bastante
para tornar nosso povo poderoso...
     Rios de petrleo, torres, perfuraes e poos, tudo aos ps de Dona Flor; que no lhe daria ele
nessa noite de esponsais?
    - Tambm j ouvi dizer... Foi tio Porto, ensinava por aqui... Dona Flor descansou a cabea no
peito do marido. L fora, perfumada de jasmim, permanecia  noite, a mesma a acompanh-los
no txi a caminho da casa-grande do doutor Pimenta e de Dona Fil nas lonjuras de So Tom
de Paripe. Noite de lua num cu prximo e fulgurante onde estrelas nasciam uma das outras,
annimas, mas logo eram classificadas pela polimorfa erudio do farmacutico ("s Dona Gisa
para emparelhar com ele na sabedoria"):
          - bem aqui em cima, sobre os jenipapos, as Trs Marias... A lua cheia rasgava a escura e
densa gua do mar, negrume de petrleo, mar de golfo em tranqila mansuetude. Lanternas de
saveiros, cometas errantes e vermelhos no rumo das plantaes de cana verde e de tabaco, nas
margens do rio Paraguau, onde agonizam cidades e vilas de antigamente.
     Um mar interior, macio de bonana, morno e quieto, e a brisa suave entre a jaqueira e o p de
fruta-po. Dona Flor considera a beleza do luar cobrindo as guas, as areias, as canoas, os
saveiros. Mar de repouso e paz.
     No o mar-oceano, de barra fora, feroz e perigoso, de vagas e correntes submarinas, de
enganosas mars; livre mar de solta ventania, de loucos temporais, mar de tempestades -
desdobrando-se no caminho das pequenas casas ilegais de Itapo, onde o amor irrompe com
aleluia. Mar de violncia desatada; no esse adocicado perfume de jasmim, mas o de maresia,
ardido cheiro de sargaos, de algas e ostras, gosto de sal. Por que lembrar-se?
     Por que lembrar-se, se era to amena  noite de Paripe, com estrelas, e lua cheia, mar negro e
tranqilo, e a paz do mundo sobre os esposos inibidos? Teodoro, mostra-me depressa mais
estrelas, esmaga com tua voz e teu saber as lembranas de um obscuro tempo, defunto e
enterrado. Traa em tua constelao de luz nosso caminho largo e aprazvel, esse rio calmo, esse
remanso, esse viver de golfo, viver feliz que hoje inauguramos devagar. Estremece Dona Flor,
seus olhos midos.
     - Voc est com frio, est tremendo, minha querida. Que loucura ficar aqui exposta, no
sereno; um perigo, pode pegar uma gripe, um resfriado. Vamos entrar e fechar essas janelas -
doutor Teodoro sorriu seu bom sorriso e perguntou um tanto escabriado: - No acha que j 
hora, meu amor?
     Ela riu tambm, atrs dele se escondendo a meio, num jogo de recato e de malcia: " voc
quem manda, meu senhor". Ele era to simptico e gentil, um bom gigante, ela sentia o seu apoio,
sua proteo. Deu-lhe o brao, era seu esposo: homem de bem, forte e calmo como lhe fazia
falta. Um marido de verdade, s direitas. Como esse mar de golfo, sem violncias, sem
rompantes, mas, quem sabe?, talvez com estrelas escondidas, com riquezas insuspeitas,
imprevistas.
     Puseram as trancas de madeira nas janelas, ela a ajud-lo. A noite fez-se pequena e ntima no
quarto, um aconchego na medida da timidez dos dois esposos. Como vai ser agora meu Deus?
interrogou-se Dona Flor, ao terminar.
     Para fazer alguma coisa, Dona Flor foi arrumando sua roupa e a dele nos armrios. Aos ps da
cama, os dois pares de chinelos; sobre a colcha, o vistoso pijama amarelo do doutor e a camisola
de rendas e babados, presente de Dona Enaide para a noiva, obra-prima de cambraia. Era uma
artista Dona Enaide e com esses finssimos bordados  fizera as pazes com a amiga, posto no rol
do esquecimento aquele assunto do doutor Alusio, rbula e sapeca, doutor para ingls ver...
     Doutor Teodoro, doutor de verdade, de canudo e anel, a observava indo e vindo para o
armrio. Ela lhe exibiu a camisola, tomando-a pelos ombros: "Bonita, no acha?"; e ele; ao ver e
achar, sentiu um frio no cangote. "Cuidado, meu caro, no ponhas tudo a perder com um gesto
brusco, uma palavra forte..." - recomendou-se o noivo mais uma vez. Prudncia e tato
impunham-se nesses sete dias de lua-de-mel no paraso de So Tom, nos longes de Paripe, em
casa dos Pimentas. Sete dias ali, de mar e de jardim, de preguia e de volpia, mas a lua-de-mel,
essa ia durar a vida inteira.
     Desejou dizer a Dona Flor: "nossa lua-de-mel vai durar a vida inteira". Por que to tmidos e
inibidos? Era como se de sbito houvessem gasto toda a intimidade a duras penas conquistada
quando noivos. No entanto, estavam casados, com a bno do monge de So Bento e as
felicitaes do magro juiz e msico, e antes do casamento haviam trocado beijos, vidos e
frementes, no cinema e em casa, sentindo a nsia e a febre, arrebatados no desejo cru. Por que
ento esse encabulamento, por que ficar ali sem voz e sem ao, como dois patetas, quando por
fim a ss, marido e mulher na hora de se completarem e serem? Ele queria lhe dizer, a seu amor:
"nossa lua-de-mel vai durar a vida inteira", mas apenas disse na inteno de desatar aquele n de
agonia e de silncio:
    - Enquanto voc muda a roupa, vou l dentro...
     Saiu para o banheiro levando o pijama e os chinelos, quase numa fuga.
     Dona Flor preparou-se ante o espelho e rpida, ouvindo a gua correr no banho do marido.
Quanto a ela, recendeu em gua-de-colnia e em perfume de heliotrpio (que Dona Dagmar lhe
dissera ser o mais indicado para sua cor). Sobre o corpo nu, sobre o pelado ventre to s o
perfume e as rendas negras da difana camisola de cambraia. Um brilho de desejo quase
impudico querendo impor-se sobre a pudiccia honesta a lhe baixar os olhos, a faz-la trmula e
medrosa. Cobriu desejo e formosura, as rendas e os babados transparentes, com o casto lenol
onde a alfazema punha um cheiro de famlia e de inocncia.
     Doutor Teodoro regressou em amarelo, fascinante; crescera no pijama, Dona Flor pensou:
"Que enorme que ele !". Tendo pendurado o terno novo do casrio, - calas de lista e palet de
mescla -, ele apagou as lmpadas do lustre de cristal, deixando apenas o vacilante e nfimo brilho
da lamparina de azeite em frente aos santos, no oratrio secular.
     "No vai me ver quando me despir da camisola". No vai ver seu corpo jovem, igual ao de
moa virgem, seios de donzela pois no amamentaram, ventre sem as deformaes da gravidez,
sem a marca do parto, e uma rosa de cobre e de veludo.
     Mas, que importa? J ele ver seu corpo ao fim da cavalgada, ao nascer da aurora, em sua baa
claridade matinal. Agora s importa que o sinta jovem e rdego e para sempre seu. Adivinhando-
lhe a proximidade, Dona Flor cerrou os olhos, o corao em descompasso.
      Imaginava no entanto como seria, pois fora casada e, mesmo antes de o ser, partira a vadiar
num leito de maresia e tempestade. Tinha certeza de como seria, pois guardara memria fiel e
exata, no pensamento e em cada mincia de seu corpo. Mais um instante, e ele, seu novo marido,
transpondo as fronteiras da fina educao e do pudor, alijando lenis e camisola, num tropel de
carcias e palavras, num desatino, num vendaval de esfomeadas bocas, de sbias mos, a retiraria
do recato e da vergonha, atingindo o cho de sua mida verdade. Sente o corpo do marido junto
ao seu, na cama.
     Sempre fora preciso conquist-la, a cada vez. Encolhia-se, fechava-se numa vergonha a
recobrir como nodosa casca o cerne do desejo. Necessrio transpor essa barreira, trazendo  tona
sua cupidez de fmea, sua recndita apetncia. Agora, porm, aps tantos meses de viva honesta
(Ah! jovem e carente), meses que foram uma noite imensa e insone, quando no prenhe de
sonhos lancinantes em rua de marafas, desgarrada noite, mortal viglia, agora esse duro invlucro
de pudor transformara-se em frgil e delgada cobertura, incapaz de resistir ao menor apelo.
     O corao aos saltos, os olhos fechados, ela espera o gesto brusco do marido a arrancar lenol
e camisola, exibindo-a toda. Pois, como aprendera  custa de seu perdido pejo, onde j se viu
vadiar de camisola, corpo vestido ou coberto ainda que pela mais leve cambraia transparente,
onde j se viu tal absurdo?
     E logo lhe foi dado ver, no por absurdo e, sim, por diferente. Em vez de descobri-la, cobriu-
se ele tambm e, sob os lenis, com os braos a envolveu. Trouxe sua cabea (os cabelos de to
negros quase azuis) e a repousou em seu peito largo como um cais de porto, beijando-lhe com
ternura a face e depois a boca num beijo enfim como Dona Flor pressentira e esperava.
     Tomada de surpresa ela deixou-se ir, e no beijo se rompeu a frgil e delgada casca da
vergonha. A mo do esposo descera da anca para a perna, por sobre a camisola, e tocou sua
borda de cambraia; e, mal dando tempo para que Dona Flor de todo se abrisse e se soltasse do
recato, lhe suspendeu rendas e babados. Sem gastar tempo em despi-la e em se despir, ou em
carcias de deboche de cama de castelo, sempre pelo lenol coberto, se ps sobre ela e logo a
possuiu com vontade, fora e encantamento. Foi tudo muito rpido e pudibundo. por assim
dizer: muito diverso de quanto conhecera Dona Flor, e por isso mesmo ela se perdeu e no o
alcanou em to mudo e quase austero possuir-se. Apenas se desamarrara no pasto do desejo e j
ouvia o canto de vitria do marido no outro extremo da campina. Ficou Dona Flor como
perdida, opressa, uma vontade de chorar.
    Aquela ocasio de tanto desencontro permitiu a Dona Flor medir, com o metro da aflio e da
urgncia, toda a gama de sentimentos, e a delicadeza do doutor Teodoro.
    Como se sabe, era ele sem nenhuma experincia em trato de cama com esposa (por celibatrio)
e quase nenhuma com amante ou com xod, tendo freqentado to somente raparigas, no receio
de arriscar-se a compromisso capaz de lev-lo a romper sua promessa. Mesmo a parda e limpa
Otaviana, por longo tempo exclusiva porta aberta a seu desejo, poo onde toda a semana
depositava sua preciso de homem, nem ela fora jamais terna ligao ou rabicho ardente, apenas
gentil necessidade, hbito agradvel  natureza monogmica do doutor.
     Ao demais, saiba-se tambm que, por firmes princpios e convices ideolgicas, rezava o
farmacutico por aquele catecismo hoje (Delgratias!) superado, a garantir ser a esposa Flor
sensitiva, feita de castidade e de inocncia, merecedora do mximo respeito: para a descarao,
para o desembestado gozo, o prazer do corpo, existem as putas e para isso cobram. Com elas,
sim, em lhes pagando, pode-se soltar os freios da luxria sem lhes causar ofensa ou pena, so
terras infecundas, de rido plantio. Com a esposa nunca, para ela a discrio, o amor puro, belo e
digno (e um tanto insosso): a esposa  a me de nossos filhos.
     Pois ainda assim, enredado em tais obsoletos dogmas, com tantas limitaes e
desconhecimento, deu-se ele conta de como deixara Dona Flor insatisfeita e tensa.
     Ora, como tambm se sabe de ter-se escrito antes, na hebdomadria visita a Otaviana, por
vrias vezes o doutor Teodoro repetira o feito alegremente. Assim o fez tambm com Dona Flor
no leito monumental de jacarand macio e cheiro de alfazema, naquela noite de bodas, em casa
dos Pimentas, devendo-se dizer, alis, t-lo repetido com o melhor agrado, no por obrigao, e,
sim, contente com a oportunidade desse bis. Atento e responsvel, para dessa vez no a deixar na
fmbria do prazer, e conseguindo-o.
     Conseguiu-o apesar de ser to mnima sua experincia de tais sutilssimos clculos e medidas,
jamais lhe tendo interessado saber se Otaviana ou outra qualquer se satisfizera, ao satisfaz-lo
com percia, pois vinha buscar e pagava o seu prazer e no o prazer da rapariga.
     Soube, no entanto, ir de a passo com Dona Flor no crescer de sua entrega, todo esse jogo lhe
sendo de extremo gozo, num prazer como jamais sentira, nem mesmo quando, mais para atender
o capricho de Tavinha em noites de manemolncia do que por iniciativa prpria, se dera a certas
licenciosas prticas, dessas que um homem pode permitir-se com mundana ou prostituta, jamais
com a esposa. Com a esposa  diferente, para ela se reserva o amor feito de matrias limpas,
serena posse, quase secreta, digamos pura, recatada. Mas nem por assim to recatada, menos
prazerosa, como constatou doutor Teodoro ao ouvir Dona Flor num suspiro grato murmurar-lhe
o nome:
    - Teodoro, meu amor...
    Apressou-se em alcan-la e a alcanou, pois juntos se encontraram finalmente unidos em
estreito abrao e num beijo fundo. Envoltos em ais, suspiros e langor, e em frio, pois o lenol, no
aceso daquele embate, resvalara cama abaixo, deixando os esposos descompostos, Dona Flor
desabrochada em mel, de vergonha  mostra (e que galanteza de vergonha!, como em relance
tmido, de esguelha, deu-se conta doutor Teodoro).
      Agradecido de tantos bens e gozo, beijou-a na face em febre e lhe cobriu o corpo e o frio
com pudico lenol e colcha quente. Ento, por fim, pde lhe dizer tudo quanto queria e o disse
com todas as veras da alma, feliz esposo:
     - Nossa lua-de-mel vai durar tempo infinito... Serei fiel a voc a vida inteira, minha querida,
jamais olharei outra mulher, vou lhe amar at a hora de minha morte.
     - Amm ! - repetiram sapos e jias na noite de lua e npcias de Paripe. - Amm! Amm! - dir-
se-ia um solo de fagote.
     - Eu tambm, a vida inteira. - afirmou ela, convicta de sua afirmativa, satisfeita e salva da
aflio, mas no cansada; muito ao contrrio, capaz de novas correrias, se ele a quisesse esporear.
     Mas outro Teodoro se compunha sob o lenol e a colcha, comentando:
     - Engraado... Quando Dona Fil, h pouco, quis nos obrigar a comer, no tive fome. Agora,
entretanto, era capaz de mastigar um doce, uma besteira...
     - Se quiser vou l dentro buscar alguma coisa. Tem tanto doce e tanta fruta... Vou...
    - De forma alguma... Nem pense nisso...
     Dera-se conta: no era fome e, sim, o costume do prato com guloseimas, antes de sair da noite
de Tavinha, o estmago viciado reclamara. Profanar as relaes com a esposa, nelas mantendo
hbito provindo de casa pblica de mulher-dama, Deus o livre e guarde. Num ltimo (e casto)
beijo, despediu-se:
     - V dormir, querida, voc deve estar morta de cansada, foi um dia fatigante...
     Quase lhe diz: "...foi noite fatigante...", mas, ainda temeroso de ofend-la, guardou a malcia
para si, acomodou-se e em seguida adormeceu.
     Dona Flor no dormiu logo; em verdade contara com a noite em claro, at a madrugada, em
acampamento de fogueiras, a correr quilmetros de leito na montaria de seu corpo. Junto a ela,
doutor Teodoro ressonava, densa respirao, ronco potente. Aquele ronco completou sua
fisionomia de homem; forte, nobre e belo homem, seu esposo.
     Com a mo alisou-lhe o peito amplo, o rosto plcido, numa carcia leve para no acord-lo.
Vontade de envolver-se nele, de dormir entre seus braos, presa em suas pernas. No se atreveu.
Cada homem era diferente, no existiam dois iguais, bem lhe afirmaram certas alunas de vasta
experincia, como a debochada Maria Antnia, a proclamar:
    - No existem dois homens iguais na cama, cada um tem sua maneira, sua predileo, sua
prepotncia, uns so sabidos e outros no. Mas se a gente souber aproveitar, Ah! todos so bons,
e com qualquer tolo ou sabido, bruto ou delicado, se mata a pulga e se arrosa a flor...
     Outro homem, diferente, oposto. Cheio de tato, de compreenso, to afetuoso, que
delicadeza! Cabia  esposa moldar-se  forma e  vontade do marido, nele conter-se inteira e
justa. Muito mais difcil fora da vez anterior, com o outro, e ela o conseguira. Por que no agora,
to mais fcil?
     Tinham os dois, doutor Teodoro e Dona Flor, tudo quanto necessrio para a vida mais doce e
mais feliz. No s todos o diziam, unnimes: tambm Dona Flor se dava conta.
     O perfume do jardim penetra pelas frinchas das janelas. L fora, serena noite de golfo, sem os
rudes ventos, sem as imprevistas tempestades, sem o tumulto, sem o inslito; golfo de bonana.
Vida feliz, equilbrio e garantia, nem carncia nem dissipao, nem medo nem amargura, nem
humilhado sofrimento. Por fim, depois de tantas voltas e andanas, Dona Flor vai conhecer o
gosto da felicidade.
    - Teodoro... - murmurou de corao alegre e confiante; Vai ser bom, vai dar certo, muito
certo...
    O concerto dos sapos nos fagotes de bruxedo e em concordncia:
    - Amm! Amm!
    Foi na noite de Paripe, com estrelas e lanternas de saveiros.

Captulo 2

    Sempre fora considerada e se considerara Dona Flor boa Dona de casa, ordeira e pontual,
cuidadosa. Boa Dona de casa e boa diretora de sua Escola de Culinria, onde acumulava todos os
cargos, contando apenas com a ajuda da empregada broca e esmorecida e a assistncia amiga da
pequena Marilda, curiosa de pratos e temperos. Nunca lhe ocorrera reclamao de aluna,
incidente a toldar o sossego das aulas. A no ser,  claro, os acontecidos quando do primeiro
esposo pois o finado, como se est farto de saber, no era de ter considerao por horrio, por
trabalho alheio ou por melindres de alfenim; seus deboches com alunas por mais de uma vez
criaram dificuldades e problemas para Dona Flor, dores de cabea, quando no enfeites de duro
corno.
     Ah! em verdade, ela, Dona Flor, no possua noo de regra e mtodo, andava longe de ter
ordem em casa e na Escola e, em sua existncia, medida e pauta, como devera! Foi-lhe necessrio
viver com doutor Teodoro para dar-se conta de como sua ordem era anarquia, seus cuidados
tacanhos e insuficientes, de como ia tudo mais ou menos ao deus-dar, a la vont, sem lei e sem
controle.
    No decretou doutor Teodoro lei e controle de imediato e com severidade; nem sequer falou
em tal. Sendo homem tranqilo e suspicaz, de educao cutuba, nada sabia impor e no impunha;
no entanto tudo obtinha sem estardalhao, sem que os demais se sentissem violentados; um fode-
mansinho o nosso caro farmacutico.
     Era preciso ver-se a casa um ms e meio depois da lua-de-mel, que diferena! Tambm Dona
Flor fazia diferena, buscando adaptar-se  a seu marido, seu senhor, caber justa e certa em sua
medida exata. Se nela a mudana era por dentro, mais sutil, menos visvel, na casa fizera-se
evidente, bastava olhar.
     Comeou pela empregada. Dona Flor a recebeu de ama apenas enviuvara, por insistncia e
conselho dos vizinhos: "desde quando viva moa e sria pode permanecer sozinha numa casa,
sem companhia, sem defesa contra gatuno ou vagabundo? No foi feliz na escolha, admitindo, a
rogo de Dona Jacy, aquela Sofia de aparncia obtusa, no fundo uma sabidria, a levar o trabalho
na folga e no relaxamento, em total desleixo de quem se sente em garantia: no era Dona Flor de
despedir pessoa alguma, quanto mais recomendada de vizinha e amiga. Mesmo descontente com
a preguiosa e seu servio, ia Dona Flor com ela se arranjando, com pena da infeliz: incapaz 
certo, mas no ruim de corao.
     Ora, logo no quinto dia aps a volta da lua-de-mel nos ermos de Paripe, aps aquela semana
de terna convivncia, saiu Dona Flor s pressas para o Rio Vermelho onde Dona Lita sufocava
em asma.  noite doutor Teodoro foi visitar a enferma e trazer consigo a esposa. Mas,
encontrando-se a tia ainda muito opressa e sendo sexta-feira (no havia aulas aos sbados),
decidiu Dona Flor demorar-se para atender aos velhos. Voltara somente domingo  tarde,
quando cedeu a crise e tia Lita retornou a seu jardim.
     Menos de trs dias durara a ausncia de Dona Flor e nesse breve tempo se transformou a
casa, parecendo outra. A comear pela criada, realmente outra. Em vez de Sofia, suja e
pardavasca, com seu ar triste de idiota, assumira o posto uma escura Madalena, mulher de certa
idade, asseada e forte. Se no fosse o moreno da pele, carregado, e a carapinha, dir-se-ia parente
do doutor, alta e disposta como ele, como ele corts no trato e firme no trabalho.
     Doutor Teodoro explicou, com sua voz segura mas gentil, ter sido obrigado a despedir Sofia:
alm de pssima empregada, no lhe obedecera, respondendo com um muxoxo de pouco caso e
com resmungos insolentes s suas ordens categricas para efetuar uma limpeza sria na casa
sempre mal varrida. No consultara Dona Flor, por no querer incomod-la com tal nonada,
quando ela se consumia aflita ao p da enferma, e, ao demais, por dever expulsar incontinente a
mal-agradecida, no se dispondo a ouvir abuso ou desaforo de domstica. Quando lhe dera
ordens de varrer a casa, a presepeira sara pelo corredor a debicar, a apelid-lo de Doutor
Purgante.
     Sentiu-se Dona Flor desconcertada; jamais lhe passara pela cabea a idia de mandar Sofia
embora apesar dos desmazelos e dos modos bruscos.
    - Coitadinha...
     Tinha-lhe d e como despedi-la, sem uma explicao a Dona Jacy, de quem a recebera? Ao
mesmo tempo, como desconhecer carradas de razo ao doutor Teodoro? No era possvel ao
marido, homem de respeito e posio, tolerar certos calundus de ama, que ela, Dona Flor, mulher
e paciente, relevava.
    - Coitadinha? - estranhou doutor Teodoro. - Uma atrevida, indigna de sua bondade, meu
amor... s vezes, Flor, a pessoa, querendo ser bondosa, acaba sendo tola...
     Dona Jacy? Se algum devia desculpas a algum era Dona Jacy a Dona Flor, pela desfaatez de
pedir por um traste igual quele. No contente de abusar da bondade da patroa, quis a dita cuja
pr em ridculo o patro.
     Compreendeu Dona Flor no ter o doutor enunciado tema na inteno de discuti-lo;
informava apenas como resolvera o assunto: havia homem em casa, dono e senhor, pensou ela.
Sorriu: "meu marido, meu senhor". Fizera bem, tampouco admitiria qualquer falta de respeito a
seu marido. "Doutor Purgante", onde j se viu tal desaforo?
     Ao demais, sobre um ponto no havia discusso possvel; a nova ama era um portento no
servio. Doutor Teodoro no a contratara a rogo de vizinha; exigira atestados com boas
referncias, e por telefone os controlou. Isso, sim, era ordem e eficcia.
     No apenas a exemplar limpeza, obra da empregada nova; tambm cada coisa em seu lugar,
mas realmente em seu lugar definitivo, no hoje aqui amanh acol, no se sabendo nunca onde
encontrar os objetos de uso mais imediato, Dona Flor numa atrapalhao durante as aulas:
     - Marilda, minha filha, voc viu o livro de receitas? Sofia no sabe onde botou, deu fim.
    - Sofia, onde  que voc ps a batedeira? Meu Deus, nesta casa some tudo...
     O doutor escolheu, com rara competncia e gosto, para cada coisa seu local e deu ordens
precisas  criada: no fim das aulas, aps a limpeza da cozinha, queria cada pea em seu rinco
marcado por ele com uma papeleta escrita a capricho em letra de imprensa: "faca de po",
"cortador de ovos", "pedra de ralar", "pilo" e etc. e tal, no s os objetos da Escola como os da
casa: "rdio", "vaso de flores", "garrafas de licor", "gaveta das camisas do Dr. Teodoro", "gaveta
da roupa ntima da senhora".
    - Meu Deus! - disse Dona Flor ante tanta eficincia. - E eu que pensava ter a casa em ordem...
Era mesmo uma baguna, uma desarrumao. Teodoro, meu querido, voc fez um milagre...
    - Milagre nenhum, minha querida, s um pouco de mtodo que faltava. Acontece que, com
minha me entrevada tive de tomar conta da casa e me acostumei  ordem. Em nossa casa ainda
 mais necessrio ser metdico por se tratar de residncia de famlia e de Escola, ao mesmo
tempo... J que voc faz questo de manter a Escola. Por mim, como j lhe disse, acabaria com
essa trabalheira... Voc no tem necessidade, ganho bastante para...
    - J discutimos sobre isso, Teodoro, e j resolvemos no falar no assunto. Por que voltar a essa
discusso?
    - Voc tem razo, Flor, e desculpe se insisti... No voltarei a debater essa matria a no ser a
seu convite. Fique descansada, minha querida, e me perdoe, no quis lhe abusar...
     Era "meu querido" para c e "minha querida" para l, com afeto e urbanidade, sendo doutor
Teodoro de opinio que o trato gentil e a cortesia so complementos do amor, imprescindveis.
Jamais se dirigiu  esposa sem ateno afetuosa, esperando dela a mesma afvel polidez de
tratamento. Veio e lhe beijou a face, desculpando-se por ter trazido  baila o desagradvel tema.
      Ainda noivo ele propusera a Dona Flor, como antes se contou de passo, fechar a Escola,
arquivando aulas e alunas, diplomas e receitas, o turno da manh e o vespertino. Em detalhado
cmputo de seus haveres e de sua situao na firma de drogas e mezinhas, doutor Teodoro lhe
demonstrou por a mais b a inutilidade de manter a Escola pois Dona Flor j no tinha preciso
de dinheiro para despesas e caprichos, estava ele, felizmente, em condies de garantir-lhe o
indispensvel e o suprfluo, mesmo certo luxo honesto, sem larguezas  de perdulrio, mas sem
aperturas de forreta. Ela no mais precisava trabalhar: o boticrio, a pedir-lhe a mo, se dispunha
a sustent-la, a cobrir-lhe os gastos, todos. O que era alis bem fcil, no sendo ela de
esbanjamentos e dissipaes.
      Dona Flor no aceitou. Bateu o p, manteve a Escola, suspendendo as aulas apenas durante
os breves dias da lua-de-mel em So Tom. Aproveite-se a deixa para dizer como, na volta do
casal, as alunas sapequssimas, puseram a professora na berlinda, numa pagodeira de risos e
pilhrias maliciosas, por vezes chulas e, no que tange a Maria Antnia, desagradveis, pois a
desassuntada quis saber qual entre os dois esposos o de melhor chupia, o de estrovenga mais
foruda e doce".
     Voltando, porm,  conversa com o doutor quando do noivado, Dona Flor fechou a questo:
preferia continuar viva a terminar com a Escola. Desde menina no hbito do trabalho, cedo se
acostumara a possuir o seu dinheiro. Se no fosse isso, como teria se arranjado quando da
celebrao do primeiro casamento e por ocasio da viuvez?
     Quando fugira de casa tinha um dinheirinho junto e foi com ele que pagou mveis e papis de
casamento, contrato de aluguel e as despesas dos primeiros dias. E se no fosse a Escola, como
fazer quando de repente enviuvou? O finado, nada deixara de seu a no ser dvidas: no havia
sucursal de Banco em Salvador onde no se encontrasse um papagaio com sua garbosa
assinatura, nem amigo ou conhecido a quem o picareta no tivesse esfaqueado. Desencarnara, ao
demais, em pleno Carnaval, poca de despesas gordas e fatais.
     No fosse a Escola, e Dona Flor ter-se-ia visto em completo alvu, sem vintm para o enterro
e o mais. Por tudo isso dava tanta importncia a seu trabalho, a suas economias, seus cobres em
secreto esconderijo.
     Nada de fechar a Escola, meu querido, se me quiser  com a Sabor e Arte funcionando; tenha
a santa pacincia, no lhe satisfao essa vontade, pea outra coisa; lhe cubro de mil beijos, me
atiro nos seus braos, mas a Escola no lhe dou de dote,  minha garantia. Voc entende,
Teodoro?
    Nem era trabalho tamanho, de matar ningum. Ao contrrio, um prazer, um entretenimento:
ajudara-lhe a suportar o tempo vazio da viuvez e antes, Ah! antes, nos anos do primeiro
matrimnio impedira seu desespero. Nas aulas e alunas encontrou conforto para suportar os dias
negros e confusos. Quantas excelentes amigas no fizera em torno do fogo e do livro de
receitas, mais valiosas ainda que o dinheiro? No, no abria mo da Escola, seu ganha-po e seu
honesto passatempo.
     Enquanto o doutor estivesse na farmcia (e ele saa antes das oito, vinha para o almoo e a
sesta, voltava, l se demorando at depois das seis da tarde), era a Escola agradvel e lucrativa
ocupao. Sem as aulas de culinria, me diga seu doutor, em que empregar o tempo vago? Em
cochichos e mexericos com as comadres, sob as ordens de Dona Dinor, no torpe ofcio de
palmatria do mundo, de xereta da vida alheia? Ou de bruos na janela, manequim numa vitrine
para recreio dos passantes, ouvindo pachouchadas, tirando prosa com uns e outros, logo na boca
do mundo, com fama de espoleta?
     Havia quem gostasse desse exibido cio, dessa salincia. Mesmo ali na rua, bem na esquina, na
moldura da janela transcorria seu tempo Dona Magnlia, sarar metida a loira  custa de macela,
com seu sorriso fixo de beb de celulide, pinta na face esquerda, olhos de cabra morta. Ali posta
em chamariz o dia inteiro, toda nos berliques e berloques e no frete manso dos passantes.
Vizinha recente, mudara-se h pouco tempo com o mando, um secreta da polcia, galhardo em
sua jactncia e em seus belos chifres. Segundo Dona Dinor e outras comadres de faro fino e
informao precisa, era o detetive amsio e no marido, em herana obtivera a fulva Magnlia de
antecessores de posio diversa e qualidade vria, mas todos, sem exceo, igualmente cornos,
numa constncia e coerncia dignas de todos os louvores.
    Se Dona Flor jamais fora janeleira nem de arengas, como ocupar seu tempo, meu doutor? Ele
a queria com as alunas na Escola ou a exibir-se pela rua Chile, caminho certo, atalho curto para
os castelos ali pertinho, nas transversais da Ajuda? Guardasse seus porns, no repetisse tal
proposta, Dona Flor tinha orgulho da Escola, de sua fama, de seu bom conceito. Custara-lhe
esforo e perseverana esse renome, um capital.
    Conformou-se o doutor mas deixando desde logo claramente expresso e combinado a ele
competir todas as despesas da casa e as pessoais de Dona Flor, a ele s, com seu dinheiro. Os
lucros da Escola eram exclusivamente dela e ele no os admitia nas despesas do casal.
    Alis, quanto a esse dinheiro tomou o doutor outras providncias. Um absurdo, um convite
aos ladres t-lo em casa, junto s vlvulas do rdio ou metido em velha caixa vazia de sapatos ou
por detrs do espelho da penteadeira ou sob o colcho, hbito de cigano, costume de gentinha.
Sobretudo agora, quando esse dinheiro inclume avolumava-se mensalmente em maquia
respeitvel. Doutor Teodoro foi com Dona Flor  Caixa Econmica e ali abriu uma caderneta
em nome pessoal da esposa, onde ela passou a depositar suas economias. - Assim lhe rende juros,
minha querida, trs por cento, sempre  alguma coisa. E, na Caixa, seu dinheiro est garantido,
sem o perigo dos ladres. Nota do corretor Que propaganda em? Fim da nota

      Que fazer com esse dinheiro guardado em Banco, pelo amor de Deus? Dona Flor de repente
sentiu o dinheiro como coisa intil, pois no o tinha a mo, no podia procur-lo atrs do rdio
para compra, esmola ou pagamento. Mas Dona Norma, experiente dessas coisas, riu-se do
preconceito bancrio da vizinha. Acumulasse seu dinheiro na Caixa e deixasse as despesas por
conta do marido. Enquanto possusse sua caderneta e o talo de cheques no ficava na
dependncia do doutor para cada alfinete, para a vaidade de um vestido a mais, o desperdcio de
um chapu. No viveria atrs do esposo, de salva em punho a pechinchar tostes para essas
pequenas e mltiplas despesas; o dinheiro assim suplicado tinha um sabor de esprtula,
humilhante.
      Dona Norma conhecia esse travo amargo, sendo seu Z Sampaio resmungo e algo somtico.
Por isso mesmo,  custa de uma ginstica oramentria digna de emrito financista - com apertos,
pechinchas, clculos, economias, golpes diversos, erros nas contas, nas somas, nas subtraes,
nos totais, vinte mil-ris aqui, cinqenta ali, cem acol -, e, se preciso, a mo noturna no bolso do
marido, Dona Norma possua, ela tambm, seu vasqueiro p-de-meia a lhe permitir certos
requintes de elegncia e o atendimento de sua enorme clientela de compadres e afilhados, de
velhos, de doentes, de trabalhadores sem emprego, de cachaceiros e malandros, e as dezenas de
moleques, seus prediletos.
     - Por exemplo, minha santa: o doutor completa anos e voc no tem cruzado nem vintm. Vai
pedir dinheiro a ele para comprar presente? J pensou: "Teodoro, meu filho, me d algum para eu
comprar uma cueca e te oferecer de aniversrio?" Eu, minha linda, no dou essa ousadia a Z
Sampaio.
     Com isso concordava Dona Flor,  claro; sua restrio era a dinheiro em Banco, cifra inscrita
numa caderneta, no moeda viva a seu imediato alcance. De sbito o seu p-de-meia desaparecia
de suas vistas; como manej-lo nessa fria caderneta, nessa conta a juros? Tinha seus hbitos, devia
mud-los agora, pois, no dizer da amiga, seus antigos costumes eram de pobre, de mulher de
msero funcionrio ainda por cima jogador a lhe dissipar os proventos da Escola, vivendo na
prtica s suas custas, mais gigol do que marido; eram costumes de viva sem arrimo a
sustentar-se com seu trabalho, dele tirando o de comer, o de vestir, o aluguel da casa e demais
despesas. Hbitos de cigano, de gentinha, j dissera o doutor; costumes da pobreza, sem dinheiro
para Banco, para juros e talo de cheques, confirmara Dona Norma.
     Agora, porm, mudara a posio social de Dona Flor e sua fortuna. Se no rica de esperdcio,
tampouco a pobretona de antes; quando muito, e por modstia, remediada e bem remediada.
Subira de uma vez vrios degraus, do cho dos pobres para as alturas da vizinhana mais grada:
os argentinos da cermica, o doutor Ives com seu consultrio mdico e o emprego pblico, os
Sampaios com sua boa loja de sapatos, os Ruas das invejveis representaes - a par com a
aristocracia das redondezas, para gudio de Dona Rozilda, finalmente de genro  sua medida.
Segundo seu Vivaldo da funerria, informante respeitvel, sempre curioso da situao financeira
dos amigos, doutor Teodoro, equilibrado, srio e trabalhador, iria longe: - No tarda a abocanhar
a farmcia toda...
     Assim foi aberta conta para Dona Flor na Caixa Econmica, a crescer todos os meses, e assim
teve comeo uma segura ordenao de princpios em sua vida. Como muito bem dizia o
farmacutico, a desordem, a barafunda, os hbitos desregrados levam os casais  discusso, ao
desentendimento, primeiro passo para a desarmonia conjugal, para os atritos e a distncia entre
os esposos.
     Dona Norma o considerava um pouco sistemtico e por demais metdico, exigindo cada
coisa em seu lugar e em seu dia exato, inimigo do improviso e da surpresa, nico seno (seno ao
ver de Dona Norma) em homem de tantas qualidades, direito, bom, de fina educao, tratando
sua mulherzinha a velas de libra. Antes assim, de rgida sistemtica, do que esporreteada como o
era Dona Norma, em eterno atraso, sem ponteiro de relgio, me da desordem.
     Ria-se Dona Flor, ouvindo a amiga elogiar, em sua agitao sem medida nem horrio, o
equilbrio e a ordem do doutor: "um marido desses, felizarda, no anda dando vantagem por a,
cai do cu por um descuido". Mesmo Dona Gisa, crua verdade cientfica a ilustrar o bairro, ao
tach-lo de feudal, reconhecia-lhe as qualidades:
     - Para voc, Florzinha, que busca antes de tudo segurana, impossvel melhor.
     Realmente, numa ordem de dar gosto, sob o arrimo e a direo de seu bom marido, com
todos os detalhes nos devidos eixos, dia certo para tudo, hora precisa, Dona Flor impunha-se
como exemplo de feliz esposa a toda a vizinhana.
     Decorria sua vida tranqila e sem imprevistos, calma e suave, vida amena, seu tempo
obedecendo  cuidadosa planificao, a perfeito organograma: cinema uma vez por semana, s
teras-feiras, na sesso das vinte horas. Se havia mais de um filme a fazer furo na opinio geral e
na opinio de " Tarde", iam duas vezes, mas muito raramente e jamais s matins, no
suportando o doutor a ruidosa baguna das moas e rapazes, barulhenta juventude.
     Duas vezes por semana, pelo menos, aps a janta, ele ensaiava o seu fagote para  tarde dos
sbados, sagrada, quando se reunia a orquestra em casa de um ou outro musicista. Eram reunies
das mais alegres e cordiais, em torno  gorda mesa de merenda - a Dona da casa excedendo-se
para acolher os amadores - com refrigerantes e sucos de frutas para as damas, cerveja farta para
os cavalheiros, por vezes uma cachacinha, se o tempo era de frio ou se era tempo de cancula.
Sentava-se a assistncia, admiradores do maestro ou dos intrpretes, "seleta assistncia" dos
amigos a ouvir sonatas e gavotas, valsas e romanzas, na emoo das fugas e dos pizicatos, dos
graves e agudos, dos estudados solos; excelsa hora de arte.
      Nas outras noites livres iam de visita ou as recebiam. Se Dona Flor deixara ao abandono suas
relaes, quando de seu primeiro matrimnio, agora as cultivava com absoluta regularidade.
      Duas vezes por ms, em dia certo, por exemplo, eram infalveis em casa do doutor Luis
Henrique, trazendo Dona Flor para os meninos um po-de-l, um manu de milho, um prato
com cocadas brancas ou quindins, uma bobagem, uma gostosura.
      Impando de orgulho, incorporava-se doutor Teodoro  roda eminente reunida na sala do
ilustre amigo, toda ela de gente da mais alta distino, como o doutor Jorge Calmon, ex-secretrio
de Estado, doutor Jayme Baleeiro, advogado da Associao Comercial, o historiador Jos
Calazans, da Academia e do Instituto, o doutor Zez Catarino (o nome j diz tudo), o doutor Ruy
Santos, poltico, professor e literato, e outros pr-homens da administrao, do Instituto
Histrico, da Academia Estadual de Letras.
      Para doutor Teodoro, eram noites gradas, de prazer espiritual, quando lhe era dado praticar
com "figuras exponenciais", ouvindo-as com respeito e opinando com prudncia no erudito
cavaco sobre os profundos temas em debate. "Fulgem as idias no esplendor das frases
cintilantes", segundo ele, "nesses torneios de sbita elevao, nesse dilogo de privilegiados
intelectos". Enquanto isso Dona Flor, no crculo das esposas, discorria sobre costura e culinria
ou comentava os ltimos crimes sados nos jornais.
     Para o doutor Teodoro, as visitas ao doutor Lus Henrique eram o supra-sumo, enquanto as
preferncias de Dona Flor iam para as noites no palacete do Garcia, o bangal de Dona Mag
Paternostro, a ricaa, figura por excelncia da elite, sua ex-aluna. Ali, encontrava-se Dona Flor no
trato e no requinte de senhoras da mais alta pabulagem, a discutir de modas, de protocolos, de
acontecimentos sociais, com agradveis incurses pela vida alheia, mas no a vida de qualquer
vizinha e, sim, os podres da elite, da fidalguia e da lordeza, e era cada histria, cada sujeira, nem te
digo! Uma podrido de primeira qualidade toda ela, sem exceo.
     Dos hbitos antigos, vindos do primeiro casamento, foi mantido o almoo dominical no Rio
Vermelho com os tios, e nenhum outro (tambm nos tempos do primeiro casamento no tinham
quase hbitos, s a barafunda e o imprevisto).
     Modificaram-se os costumes, a vida adquirindo no s movimentao como estabilidade, vida
plcida e amena. Vida feliz, na opinio geral da vizinhana e no sorrir de Dona Flor, concorde.
     s quartas-feiras e aos sbados, as dez da noite, minuto mais, minuto menos, doutor Teodoro
tomava da esposa em honesto ardor e em prazer constante, sendo certo o bis aos sbados e
facultativo s quartas-feiras.
     Dona Flor, na desordem de certos hbitos anteriores, a princpio estranhou a discrio a
envolver e a comandar a porfia de amor no leito de ferro sobre o novo (e espetacular) colcho de
molas. Mas logo seu pudor congnito e o recato prprio  sua natureza acomodaram suas
necessidades de fmea, seus anseios de mulher,  maneira conveniente e pontual, podendo-se
quase dizer respeitosa e distinta,  de cobri-la o doutor, sob o abrigo dos lenis mas com desejo
firme e estrovenga em riste.
     Num leito de esposos (na opinio do doutor Teodoro), o desejo no impede o recato, o amor
no se ope  pudiccia, desejo e amor feitos de matrias puras, mesmo em sua secreta intimidade
conjugal.
     As quartas e aos sbados,  mesma hora invariavelmente, Dona Flor vislumbrava os discretos
e repetidos movimentos do esposo, nas sombras do leito. Assim, semi erguendo-se para se pr
sobre ela, o lenol cobrindo-lhe os braos abertos e os ombros, o doutor lhe parecia um
guarda-chuva branco e enorme a resguardar sua vergonha de mulher, a proteg-la mesmo naquele
supremo instante de abandono. Um guarda-chuva, viso mais sem graa, imagem inibidora, uma
pinia.
     Cerrando os olhos para no ver, ento o via Dona Flor, a seu Teodoro, como pssaro de asas
imensas e potente garra, guia ou condor em vo rasante sobre ela, para tom-la e ergu-la, nos
ares possu-la. Abria-se Dona Flor ao pouso da ave de rapina. Ao sentir-se dela penetrada, garra
desmedida em suas entranhas sumarentas, presa e liberta, com ela se alava num cu de bronze
em gozo repartido.
     S no de todo casto gozo porque Dona Flor, ao desatar-se, desatava tambm o pensamento
e l se ia.
     Eram assim as noites de amor desses bons esposos, com seguro bis aos sbados, facultativo s
quartas- feiras.

Captulo 3

     Ao regressar a Nazareth das Farinhas, aps larga permanncia na Bahia, Dona Rozilda,
testemunha atenta dos primeiros tempos da nova vida matrimonial de Dona Flor, confidenciara a
Dona Norma suas preocupaes e incertezas.
     Genro timo, sob todos os aspectos, doutor Teodoro. Sobre isso nenhuma dvida. Mas
estaria Dona Flor  altura de consorte de tantas qualidades? Por que no? - picara-se Dona
Norma, leal  amiga, no lhe admitindo a menor crtica. Dona Flor, em sua opinio, era digna do
marido mais perfeito, do mais belo e rico.
     Em Dona Rozilda, porm, no se erguia a flama do mesmo ardente entusiasmo. Apesar de
me e por isso inclinada a desculpar e a favorecer a filha, no lhe encontrava o lan necessrio
para a escalada por fim possvel, no a sentia vida de influncia social, capaz de aproveitar-se da
posio do marido, de seu crdito, de sua respeitabilidade, de suas relaes. Tivesse ela sado a
Dona Rozilda, e agora, apoiada ao brao do doutor, galgaria facilmente as salas, os jardins, a
intimidade dos palacetes da Graa e da Barra, conviva da melhor gente da Bahia, da elite, sonho
da velha senhora. No j fora Dona Flor apresentada aos Taveiras Pires, no lhe beijara a mo o
milionrio Adriano, vulgo Cavalo Pampa, no a distinguira com asqueroso e complacente sorriso
Dona (maculada, a primeirssima dama da sociedade, ditadora da elegncia"?
     Que fazia, no entanto, Dona Flor para corresponder a essas oportunidades devidas ao ttulo
de doutor,  Drogaria florescente, ao fagote mavioso?
     Nada, trs vezes nada. Ao contrrio, continuava a dar aulas de culinria como uma pobretona
necessitada, apesar dessa sua atividade repercutir negativamente sobre o prestgio social do
marido (marido cuja mulher trabalha ou est mal de vida, ou  srdido avarento, assim rezava a
cartilha de Dona Rozilda); continuava naquela casa pequena quando podiam ter endereo bem
mais cmodo e em rua distinta.
     Desculpasse Dona Norma, pois no o dizia Dona Rozilda com inteno de humilhar
ningum, mas aquelas ruas por ali, se tinham sido elegantes e mesmo nobres em outros tempos,
nos dias de hoje eram artrias de gentinha, com algumas poucas excees. Naqueles becos,
senhoras de sociedade e representao, constatava venenosa a xereta, podiam ser apontadas a
dedo. A mulher do argentino, Dona Nanci, realmente de classe e boa raa, e quem mais? -
inquirida, olhando provocativa a amiga de Dona Flor:
    - O resto... Uma cambada...
     Pior endereo s mesmo o Rio Vermelho, com sua lonjura e seus capadcios, onde a irm e o
cunhado teimavam em residir, um fim de mundo, quase subrbio e ordinrio, onde os homens
aos domingos exibiam-se pelas ruas em pijamas e chinelos, um horror. Dona Laurita, a esposa do
doutor Lus Henrique, indo visitar Dona Lita, escandalizara-se com aquele indecente footing
matinal, indecoroso desfile de pijamas de um mau gosto obsceno. Dona Laurita externou sua
indignao com palavras de asco:
     - No sei como se pode morar num lugar assim, onde at os ricos ficam parecendo pobres,
tudo uma ral...
     Mas, voltando  vaca fria, qual a situao do novel casal? Doutor Teodoro, doido para mudar
de casa, e ela, Dona Flor, a toleirona, obstinada ali naquele buraco. Dona Rozilda sacudia a
cabea:
    - Quem nasce para dez-ris no chega a vintm...
     Alis, devera-se a essa histria de mudana de endereo o sbito regresso de Dona Rozilda
para Nazareth. Dona Flor, certa manh, a interpelou:
    - Me, que idia  essa de dizer a Teodoro que eu quero me mudar? Fique sabendo, de uma
vez por todas, que estamos, eu e ele, muito satisfeitos com nossa casa e no vamos nos mudar.
     Dona Rozilda, esquecida de suas convenincias de grande dama, cuspiu para o lado num gesto
reles:
    - Que me importa! Cada porco em seu chiqueiro...
    Dona Flor fez um esforo para conter-se:
    - Oua, Me. Eu sei porque essa histria de casa maior. A senhora quer  se meter aqui para
sempre, mas pode tirar isso da cabea, eu no estou de acordo. Pode vir nos visitar quando
quiser, passar uns dias. Mas morar com a gente, isso no. Lhe falo com franqueza: vosmic,
minha Me, nasceu pra morar sozinha... Vou lhe dizer...
     Dona Rozilda saiu num repelo, sem querer ouvir o resto, alis a parte agradvel do discurso,
pois Dona Flor, para compensar a Me daquela rude franqueza, decidira estabelecer-lhe pequena
mesada.
"Dinheiro para seus alfinetes, minha Me, para suas obras de caridade", como pde finalmente
lhe comunicar, ao acompanh-la ao cais da Bahiana, dias depois.
     Falhara mais uma vez o plano de Dona Rozilda de estabelecer-se com a filha, no a quisera
antes, a viva, no a queria agora a recm-casada. Se na primeira tentativa, Dona Rozilda
demonstrara-se ofendida, rompendo praticamente suas relaes com Dona Flor, agora engolira a
afronta, a tentao da nova vida da filha, com seu brilho de relaes e saraus, era demasiado
poderosa. Voltou para Nazareth  bem verdade, mas amiudara suas visitas  capital.
Hospedando-se naquele "cu-do-mundo" do Rio Vermelho, vinha logo cedo, antes do almoo,
para a casa da filha, a futricar nas imediaes, na chefia do bando das xeretas. Demorava-se oito,
dez dias, o tempo de fazer-se insuportvel, de brigar com a irm, e l se ia de novo infernar o
filho e a nora no Recncavo. Em Nazareth, s suas diversas ocupaes, somara a descrio do
fausto social de Dona Flor ("vive em almoos e festas, ntima de Dona Imaculada Taveira Pires"),
em loas ao genro doutor e a tudo quanto lhe correspondia, dos dotes de inteligncia ao invejvel
estado de suas finanas, da presena digna ao inusitado fagote. Narrando com detalhes os ensaios
semanais da orquestra de amadores, derretia-se em sorrisos, babada em comentrios:
    - Aquilo, sim, que  msica...
     Dizia-o para louvar as rias, as romanzas, os concertos de fino repertrio, onde Hoendel,
Lehar e Strauss coexistiam com Othelo Arajo e com o maestro Agenor Gomes, compositores
locais menos conhecidos mundo a fora, mas no menos inspirados. Dizia-o tambm numa
demonstrao de desprezo pela outra msica, a dos sambas e canes, das modinhas, a do "z-
povinho" - uma cusparada de desprezo - e pela gentalha dos violes e cavaquinhos, das gaitas e
tamborins, caterva de vagabundos. Ao dize-lo, estabelecia uma distncia, marcava a diferena
entre a orquestra de amadores -  qual pertenciam doutor Venceslau Pires da Veiga, cirurgio
eminente, doutor Pinho Pedreira, juiz da capital, e o milionrio e comendador do Papa Adriano
Pires - o Cavalo Pampa -, dono de firma atacadista, com palacete na Graa, automvel com
chofer, marido da nobre Imaculada, "a que est antes da primeira, a primeirssima, a opalina
cspide" (na expresso feliz de Silvinho Lamenha, locutor de rdio e redator dos "Sociais" no
jornal do temido vate Odorico Tavares), de Dona Imaculada Taveira Pires, com sua cara de
cavalo velho, seu lornho e sua governanta sua - e os vagabundos em serenatas e em desordens,
bbados de m vida.
    Quando do primeiro casamento da filha (se aquilo se podia chamar de casamento), tivera de
suportar a cachaa e a pachouchada daqueles valdevinos, uma canalha, faces de depravao e de
deboche: Jenner Augusto, Carlinhos Mascarenhas, Dorival Caymmi. Vez por outra, um homem
formado e de famlia se metia com tal caterva e logo era o pior de todos, como aquele doutor
Walter da Silveira cujo rosto ndio Dona Rozilda recorda com dio. Ouvira em Nazareth elogios
aos conhecimentos jurdicos do tal Silveira: sumidade nas leis e impoluto. Acreditasse quem
quisesse, no ela, Dona Rozilda, que o vira a soprar na gaita o passo do siri-boceta, o infame!
To anti-musical se fizera, devido a essa corja, que reagira violenta  primeira notcia dos dotes do
genro: "sujeito sem compostura, tocador de berimbau". Mais uma vez, certamente, a idiota da
filha, sem tino e sem- vergonha, ia se amarrar a algum malandro para sustent-lo, carreg-lo s
costas, financiando-lhe os vcios e as amantes com o suado dinheirinho da Escola. Tanta raiva
guardara de serenatas e canes, que nem o ttulo de doutor, em torno do qual Dona Norma,
conhecedora de suas debilidades e preferncias, fizera estardalhao na carta onde lhe comunicara
o noivado da viva, nem mesmo aquele anel de grau a comoveu. Doutor e de proclamado saber,
escrevera a vizinha, mas Dona Rozilda no se entusiasmou:
     - Mais um desses bbados... De noite pelas ruas na farra e na descarao com o dinheiro da
bestalhona... Vai-se ver,  tambm jogador. Quer  viver  tripa forra, ela no trabalho, ele na
perdio. Quanto ao ttulo de doutor, opunha-lhe reservas:
    - Farmacutico... Doutor de p quebrado...
     Distinguia entre os diversos canudos de formatura, nem todos possuindo, a seu ver, a mesma
classe e categoria:
     - Doutor de verdade, de primeira,  mdico,  advogado,  engenheiro civil. Dentista e
farmacutico, agrnomo, veterinrio, todo caso  doutor de segunda, de meia-tigela, 
doutorzinho... Gente que no teve cabea nem competncia para estudar at o fim... Toda essa
m vontade para com o futuro genro, ainda desconhecido precariamente e j to criticado, vinha
de sab-lo msico amador. S depois, na Bahia, ao constatar a sua situao financeira do
farmacutico, scio de estabelecimento slido como a Cientfica, na esquina da rua Carlos Gomes
com o Cabea (s o ponto valia uma fortuna), sua respeitabilidade, as maneiras e as atitudes, o
soberbo e vasto crculo de relaes, apagou-se  a falsa impresso inicial, deixando o sogro de
confundir-lhe o erudito fagote com popular berimbau de capoeira e a orquestra de amadores com
as serestas ao claro da lua.. Muito e rpido subiu o genro em seu conceito. No era o perfeito
prncipe encantado um dia antevisto em Pedro Borges, o estudante paraense, com seus rios, ilhas
e seringais. riquezas das mil-e-uma noites. Que mais pode desejar, porm, uma viva pobre, aos
trinta anos de idade? Dona Rozilda, satisfeita mais alm de toda a expectativa, confessou a Dona
Norma:
    - Com esse at eu casava... Um cidado que se presa, e que modos!
Dessa vez, ela acertou. Tambm j era tempo... Senhor de muita educao! Educao finssima;
doutor Teodoro, cordial e respeitoso, s a tratava de "minha cara sogra", querendo saber a todo
momento se ela de nada necessitava. Trazia-lhe pastilhas para a tosse, xarope para o catarro
crnico e lhe oferecera um guarda-chuva novo, ao v-la queixar-se de ter perdido o seu - antigo
do tempo de seu Gil  na confuso do desembarque, no porto.
     Chegara Dona Rozilda na inteno de assistir ao casamento, visita de poucos dias. Mas, ao
reconhecer as qualidades do genro, deu-se conta das perspectivas da vida em companhia do casal,
decidindo arranchar-se ali em definito, abandonando Nazareth das Farinhas, as obras pias do
reverendo Walfrido Moraes, o clube, a igreja, a presidncia do saboroso e cruel disse-que-disse
municipal.
     Sentia-se bem na pequena cidade, como j se constatou. Era algum, influente personagem,
xeretando  larga, impondo seus caprichos e maus-humores  nora j no extremo da pacincia e
j sem esperanas em milagres de santo: Nossa Senhora d Aflio ficara cega e surda a seus
rogos e promessas; para libertar-se, restava-lhe apenas esperar a morte. A morte da sogra,
entenda-se. Por vezes a boa Celeste punha-se a pensar no jubiloso acontecimento. Ah! velrio
impacientemente aguardado! Seria a sentinela mais festiva de Nazareth, falar-se-ia da guarda e da
encomendao do corpo da velha senhora em todo o Recncavo, os ecos chegariam  capital.
Dispunha-se Celeste a no olhar despesas nem trabalho.
     Dava-se bem em Nazareth, mas, com esse novo genro, preferia Salvador, e para ali ficar
armou Dona Rozilda seu plano de campanha. Fez-se adulona e insinuante, prestativa e bondosa,
devota do farmacutico. Doutor Teodoro a princpio sensibilizou-se. Em conversa com seu
amigo Rosalvo Medeiros, o representante de laboratrio, disse-lhe ter ganho, com o casamento,
no apenas a mais perfeita esposa, como tambm uma segunda me, sua sogra, aquela santa
velhinha.
     - Quem? - o prspero Rosalvo no acreditava em seus ouvidos.  Quem  a santa velhinha?
Dona Rozilda? - ps-se a rir como Dona Amlia no dia do noivado: ouvia-se cada uma... Dona
Rozilda, uma santa criatura, s mesmo Teodoro com sua ingenuidade...
     Mas, nem mesmo doutor Teodoro se enganou por longo tempo: a ranhetice, o dom da intriga,
a permanente irritao de Dona Rozilda logo se impuseram sobre seus melosos sorrisos e suas
palavras cativantes, comeando o genro a perceber o por qu do riso incontido e gaiato de Dona
Amlia e de Rosalvo. Foi quando Dona Rozilda veio lhe falar, muito maneira, dos inconvenientes
da casa pequena, com to poucos cmodos. Por que no alugar residncia mais condigna com
suas posses e relaes? Mais ampla, com maior nmero de quartos?
     Deu a entender, com habilidade, no estar Dona Flor satisfeita com aquela casa de pouco
conforto, cheia de lembranas ruins. Apenas, no querendo importunar o marido, silenciava seu
desgosto.
     Doutor Teodoro estranhou a sugesto perdulria da sogra e, mais ainda, o pretenso enfado da
esposa. No fora por acaso Dona Flor a primeira a salientar as convenincias e as vantagens de
ali
permanecerem: o aluguel barato, o mesmo de h oito anos, e a situao da casa, a dois passos da
Drogaria, alm de ser endereo conhecido da Escola de Culinria Sabor e Arte, tendo sua cozinha
adaptada s aulas, com fogo a gs e fogo a lenha? Para que casa maior se eram apenas os dois?
Para que buscar trabalho e despesa, se ali podiam caber alegres, ela, o marido e seu desejo de
felicidade? Assim argumentara Dona Flor ainda noiva, modesta e sensata.
     Por que ento essa repentina mudana? Por que sair para o desperdcio de um casaro
trabalhoso e caro? Para que esses luxos alm de suas posses? S para fazer figura?
     Dona Rozilda, em sua confusa alocuo, falara em prestgio, em "fazer boa figura". Era
doutor Teodoro sensvel ao argumento, cioso de prestgio e considerao, temendo a crtica da
sociedade. J Dona Flor no ligava para tais coisas e lhe dissera - quando discutiram sobre a
Escola - no se medir o valor de um homem pela figurao, por suas aparncias, e, sim, pelo que
ele realmente  e vale.
     Sendo assim, como mostrar-se contrariada, com queixas e reivindicaes? Doutor Teodoro
escutou atento o relambrio da sogra mas no quis debater o assunto:
     - No sabia, minha cara sogra, dessa disposio de minha querida esposa e no desejo discuti-
la. Mas posso lhe adiantar que tudo ser resolvido a contento de Flor.
     Deixando Dona Rozilda envolta em otimismo, retirou-se macambzio para a Drogaria. Se a
mudana de opinio de Dona Flor surpreendera doutor Teodoro, sua atitude o desgostara. Por
que no viera lhe falar ela prpria, com lealdade e franqueza? Porque enviara Dona Rosilda de
porta-voz? No desejava o farmacutico nenhuma dvida, nenhum desentendimento por mais
mnimo entre ele e a esposa. Dispunha-se a lhe dar quanto pudesse, a satisfazer seus desejos,
mesmo quando lhe parecessem caprichos, dentro dos limites de suas posses e at com algum
sacrifcio. Mas exigia sinceridade, lisura, confiana. Por que terceiros, por que intermedirios
entre eles, se eram marido e mulher? Doutor Teodoro, no fundo da farmcia, manuseando a
esptula, a triturar substncias, a pesar quantidades nfimas na balana de preciso, sentia-se
magoado e triste. Por que essa falta de confiana? Marido e mulher no devem ter segredos um
para o outro, nem intermedirios em suas relaes. Subnitrato de bismuto, aspirina, azul de
metileno, noz-moscada, as quantidades precisas, nem um gro a mais ou a menos. Assim o
casamento. Disps-se a pr o assunto em pratos limpos quanto antes.
     No quarto,  noite, a ss com a esposa, enquanto mudava a roupa resguardado pela cabeceira
do leito de ferro, lhe disse:
    - Minha querida, desejava lhe pedir uma coisa... J se enfiara Dona Flor sob os lenis,
esperando apenas o Osculo do marido para fechar os olhos e dormir:
    - O que, Teodoro?
    - Queria que voc, quando desejasse conversar alguma coisa comigo, me falasse voc mesma,
no mandasse ningum em seu lugar... - A voz do doutor no revelava zanga, seu acento era mais
abre a melancolia.
     Dona Flor ergueu o busto, surpresa. Apoiando-se no cotovelo. voltou-se para o marido a
enfiar as calas do pijama:
    - Que histria  essa, quando eu j mandei...?
     - Eu acho que marido e mulher devem ser francos um com o outro, no precisam de leva-e-
traz...
     - Teodoro, meu querido, por favor explique isso depressa, no estou entendendo nada...
     Vestido em seu pijama de listas, ele veio para junto da cama, sentou-se:
     - Se voc quer mudar de casa, por que no me falou pessoalmente?
    - Mudar de casa? Eu? Quem lhe disse?
     - Pois sua Me, Dona Rozilda. Me disse que voc estava se queixando, mal-satisfeita com a
casa, num desgosto...
     Dona Flor fitou o marido sentado na borda da cama, muito srio, uma ponta de tristeza nos
olhos. Deu-lhe vontade de rir: "tamanho homem e to sem malcia".
     - Mame? E voc pensou que eu tinha mandado? Voc ainda no conhece Mame, Teodoro.
O que ela est querendo, eu sei... Para que havia eu de querer casa maior? Quem quer  ela, com
um quarto onde se instalar de vez pra sempre, Deus me livre e guarde.
     - Mas, sendo assim, querida, para hospedar sua Me, a gente talvez possa...
    Dona Flor susteve o riso, olhou o marido bem nos olhos:
     - A gente deve usar de franqueza um com o outro, voc disse, Teodoro. Me diga, mas me diga
a verdade, no minta; voc gostaria da velha morando conosco para sempre?
     No era doutor Teodoro homem de mentiras tampouco de ofender os demais, menos ainda a
me de Dona Flor:
     -  sua Me,  minha sogra, se ela quiser e voc estiver de acordo.
     - Pois fique sabendo, meu querido, que eu no quero nem estou de acordo.  minha Me,
gosto dela, mas aqui vivendo com a gente, nem por todo o dinheiro do mundo. No h quem
ature a velha, Teodoro, voc ainda no conhece ela direito.
    Tomou da mo do esposo:
     - Nesta casa, meu querido, s eu e voc, mais ningum. Daqui a gente s sai para casa prpria.
Alis, o melhor, quando a gente puder,  comprar esta mesma...
     Respirou aliviado o farmacutico. Por Dona Flor seria capaz de sacrifcios, at de agentar
Dona Rozilda com seus mexericos. Mas, felizmente, tudo se esclarecera. No mudara Dona Flor,
modesta nos desejos, parca nos gastos, sensata. Quanto a Dona Rozilda, evolura a opinio do
doutor Teodoro, a santa velhinha dissolvia-se em peonha: No era sem razo que o
concunhado, o tal Morais, morasse no Rio, disposto a s voltar  Bahia quando a sogra
emborcasse. Outro cuja nica esperana residia na morte, pois, para o caso de Dona Rozilda, em
sua opinio, no existia alternativa.
     O doutor Teodoro, porm, menos experiente da sogra e muito mais gentil, de esmerada
educao, disse numa ltima fineza:
    - Coisas de velha, coitada... Na idade dela...
    Dona Flor afagou a mo do marido, homem to bom:
     - No  questo de idade, meu querido... Ela sempre foi assim...  minha Me, no me cabe
falar dela, uma filha no pode... Mas ela sempre teve esse gnio, desde mocinha... Nem meu Pai
suportou e era um santo. Se ela se metesse aqui, Teodoro, a gente ia terminar brigando...
    - Ns dois? Nunca, minha querida, jamais...
    Olhou-a quase comovido, numa ternura:
     - Nunca iremos brigar... Nem esconder nada um do outro, seja o que for. Contaremos tudo,
tudo...
    Beijou-a nos lbios, levemente.
    - Tudo... - repetiu Dona Flor num sussurro.
     Doutor Teodoro sorriu todo satisfeito, levantou-se foi apagar a luz. "Tudo, Teodoro? Tu crs
possvel? Mesmo os pensamentos mais recnditos, mesmo aqueles que a pessoa esconde de si
prpria, Teodoro?" Dona Flor via o torso forte do esposo sob o pijama, as largas omoplatas, o
cangote rijo, os msculos do brao. Mordendo os lbios, tratou de desviar o pensamento, pois
sendo segunda-feira no era dia dessas coisas. Sistemtico, o doutor mantinha nisso e em tudo a
mais perfeita ordem. To bom e generoso, porm, to delicado e atento, to cado por ela a
ponto de se dispor a suportar Dona Rozilda... Tamanha devoo compensava sua sistemtica, seu
rigor de horrios, regras, etiquetas.
    - "Tudo no, Teodoro, tu no sabes que obscuro poo  o corao da gente".

Captulo 4

     Descobriu Dona Flor desconhecidos e insuspeitados mundos, pelo brao de seu marido neles
penetrou, vindo a ser figura de realce, "gracioso ornamento" como sobre ela escreveu, justo e
gentil, dando conta da festa dos Taveiras Pires, o nosso exigente Silvinho, de indispensvel
citao.
     Nunca lhe ocorrera existir um universo s de farmacuticos, hermtico e fascinante: com seus
assuntos privativos, sua viso peculiar da vida, sua linguagem prpria, sua atmosfera de nitratos e
calomelanos. Universo cuja capital e cpula era a Sociedade Bahiana de Farmcia, com sede
prpria, um andar inteiro, limitando com outros mundos, mais ou menos importantes como o
dos mdicos, casta suficiente e poderosa, beneficiria do trabalho dos demais. Sim, de que
valeriam os mdicos - perguntavam os lderes da farmacologia - se no existissem os
farmacuticos? Por que ento essa pose, essa arrogncia? Igualmente presunosos, os
representantes de laboratrios; corteses e at humildes com os grandes e na hora de vender;
desatentos com os pequenos, por vezes rudes na hora de cobrar uma promissria em atraso. Mais
agradveis eram os caixeiros-viajantes,  com as malas de remdios e as ltimas anedotas. Toda
essa gente, da universidade e do comrcio, com seus ttulos, seu dinheiro, sua pose, erguia-se
sobre um vasto cho de oficiais e balconistas de farmcia, de mseros ordenados.
     Ao passar em frente  Drogaria Cientfica, ao cruzar seu passeio, ao adquirir um tubo de pasta
dentifrcia ou um sabonete, jamais percebera antes Dona Flor o forte hlito daquele mundo das
drogas, sua respirao. (Mundo onde mourejava seu marido, apoiado no canudo de doutor e mais
ainda nos conhecimentos resultantes da longa prtica nos laboratrios e balces), em sua
capacidade de trabalho e em sua honradez, buscando assegurar-se uma situao financeira e certo
renome cientfico. Situao modesta, modesto renome, suficientes no entanto para abrir a Dona
Flor as portas daquele mundo de iodos e sulfatos; para faz-la beneficiria dos programas
culturais e recreativos da Sociedade Bahiana de Farmcia: as assemblias na sede prpria, com
leitura e debate de teses e trabalhos sobre temas cientficos ou profissionais; os almoos, em datas
festivas - posse de nova diretoria, o Dia do Farmacutico - rega-bofes onde se reuniam diretores
e associados (com suas famlias) em ruidosa "confraternizao de classe" como repetia infalvel
doutor Ferreira, em seu infalvel  discurso. Sem esquecer o baile do fim do ano, em dezembro,
antes do Natal. Freqentou Dona Flor, com certa assiduidade sem exagero, as teses e os repastos.
Estabeleceu relaes com esposas de colegas do marido, a algumas visitou e foi por elas visitada,
rendendo-lhe essa troca de amabilidades trs ou quatro amigas e uma s aluna.
     Dona Sebastiana, esposa e brao forte do doutor Slvio Ferreira, secretrio-geral da Sociedade
e seu principal animador, mulherona alegre, tinha uma voz de trovoada e um riso contagiante.
Dona Rita, senhora do doutor Tancredo Vinhas, da Farmcia Santa Rita, constitua com o
marido um casal magro e agradvel, ele a fumar cigarro sobre cigarro, ela com uma pequena tosse
de tsica encruada. Dona Neusa, a loira Neusoca dos olhos gaios, era mulher de R. Macedo &
Cia. A companhia formavam-na os caixeiros, sendo Dona Neusa atirada a um caixeirinho novo.
Deles fazia coleo e os rebatizava com nomes dos remdios mais em moda. Houve Elixir de
Inhame, mulato grosso. Bromil parecia um menino de to jovem e frgil, ainda imberbe e
inocente, jia preciosa da rara coleo. Lindo era Emulso de Scott, labrego recm-chegado das
terras da Galcia, com faces de ma. Sade da Mulher foi o pequeno Freasa, que lhe fez
companhia quando ela convalescera de hepatite. Teve Regulador Gesteira, o Sabo Caboclo - um
negrinho azul, ai minha Nossa Senhora!, o Tiro Seguro, o Maravilha Curativa. Este ltimo
representou uma traio de Dona Neusa  ativa classe dos caixeiros de farmcia, da qual fora at
ento exclusiva: galante seminarista em frias nas vizinhanas, possua para a vida Neusoca
duplo sabor de pecado contra a lei dos homens e contra a lei de Deus.
     Dona Paula, esposa do doutor ngelo Costa, da Farmcia Gois, veio estudar culinria na
Sabor e Arte, revelando bastante vocao. Foi ela a nica aluna provinda das hostes da farmcia.
Outra, Dona Berenice, iniciou o curso, mas logo desistiu, incapaz de distinguir entre fil e ch-de-
dentro.
     Com Dona Gertrudes Becker, esposa do doutor Frederico Becker, proprietrio da rede de
Drogarias Hamburgo - quatro na cidade alta, uma na cidade baixa, outra em Itapagipe -,
representante de grandes laboratrios estrangeiros e presidente mais ou menos perptuo da
Sociedade, rei da magnsia e da urotropina, Dona Flor no trocou visitas. S descia Dona
Gertrudes de seu trono uma vez por ano, quando no baile de dezembro concedia tocar com a
ponta dos dedos as mos daquela pequena-burguesia aflita e sfrega com a qual seu marido tinha
identidade de negcios. Quanto ao doutor Frederico, se no ia aos almoos com gasosa e vinho
do Rio Grande, no faltava s reunies da Sociedade, presidindo-as, dando a ltima palavra sobre
qualquer assunto.
     Era um alemo baixote, de olhos azuis e doces e spero acento. Corriam lendas a respeito de
sua fortuna e tambm de seu ttulo de farmacutico, fornecido por distante escola alem quando
j era ele dono de trs farmcias. Adorava crianas, parando na rua para lhes dar bombons dos
quais trazia os bolsos sempre cheios.
     Mal completara Dona Flor dois meses de casada quando subiu pela primeira vez as escadarias
a conduzir s salas da Sociedade Bahiana de Farmcia, no segundo andar de um prdio colonial
no Terreiro de Jesus. No andar de baixo funcionava o Centro Esprita F, Esperana e Caridade
numa feroz concorrncia aos farmacuticos, pois mdiuns e irmos do astral obtinham curas
radicais de todas as enfermidades  base de receitas metafsicas, prescindindo de mezinhas, drogas
e injees.
     Ia Dona Flor ter a oportunidade nica de testemunhar o sensacional debate a ser travado
naquela noite na reunio da Sociedade Bahiana de Farmcia, em torno do trabalho do doutor
Djalma Noronha, tesoureiro do grmio: "Da crescente aplicao pela classe dos mdicos de
produtos manufaturados, com o conseqente declnio do receiturio manipulado, e das
imprevisveis conseqncias resultantes".
     Encontrava-se a classe dos boticrios dividida ante aquela tendncia da maioria da classe dos
mdicos, sendo uns entusiastas dos remdios fabricados e embalados nos laboratrios do sul,
partidrios outros das mezinhas tradicionais, pacientemente medidas nos fundos das farmcias, as
frmulas escritas e coladas aos vidros e caixas, garantido o produto pelo farmacutico com o aval
de sua assinatura.
     Durante a semana no tivera doutor Teodoro outro assunto, sendo ele prprio um dos
campees da escola tradicional. "De que valer o farmacutico, quando s existirem produtos
manufaturados? No passar de mais um balconista, um mero caixeiro em sua farmcia", iria
declarar pattico na reunio.
     No campo oposto, defendendo a industrializao dos remdios (e at sua nacionalizao) de
acordo com os tempos modernos e a tcnica avanada, Dona Flor teria ocasio de ouvir o doutor
Sinval Costa Lima, cujas descobertas relativas s faculdades medicinais da jurubeba lhe haviam
dado amplo renome, e a palavra fluente e arrebatada do clebre Emlio Diniz. Nem por ser seu
adversrio naquele debate, negava o ntegro doutor Teodoro o talento fulgurante do professor
Diniz:
    -  um Demstenes! Um Prado Valadares!
     Igualmente forte de intelectos o partido em cujas combativas fileiras cientficas se alinhara o
nosso caro Madureira, bastando citar o nome do doutor Antigenes Dias, ex-diretor da
Faculdade, autor de livros, velhinho de oitenta e oito anos, mas ainda com foras para afirmar:
     - Remdio feito por mquina no entra em minha farmcia... No se metia com sua farmcia
h mais de vinte anos e os filhos no s compravam e vendiam remdios manufaturados como
eram representantes na Bahia de poderosos laboratrios de So Paulo. "O velho est caduco",
explicavam.
     Tinham talvez razo os ingratos, andava o velho de miolo mole, rindo  toa. Mas, lcidos e
competentes eram os doutores Arlindo Pessoa e Melo Nobre - duas cabeas de primeirssima! - e
o prprio doutor Teodoro, cujo nome no deve ser objeto de injusto esquecimento pelo simples
fato de o termos como preclaro heri desta despretensiosa crnica de costumes. Sobretudo
quando ele prprio confessou  esposa possuir completo domnio da matria em debate,
ressaltando mais uma vez a importncia da assemblia: devia Dona Flor considerar-se uma
felizarda por ter ocasio de presenciar o histrico debate.
     Histrico e acadmico, pois, como o prprio doutor Teodoro dissera a Dona Flor, nem ele
nem nenhum dos mais ardentes defensores do receiturio manipulado deixavam de adquirir para
suas farmcias os produtos dos laboratrios. Como fazer frente  concorrncia, se desprovessem
seus estabelecimentos dessas malditas drogas to em moda? Sua posio no debate era assim
puramente de princpios, gratuita, terica, nada tendo a ver com as exigncias prticas do
comrcio, pois nem sempre, minha querida Flor,  possvel conciliar teoria e prtica, a vida tem
srdidas implicncias.
    No quis aprofundar Dona Flor essa contradio entre teoria e prtica, aceitando a assertiva do
doutor: "exatamente por isso  ainda mais louvvel a posio dos que defendem o receiturio
tradicional". Quanto a ela, era de pouco remdio e de muita sade, no se lembrando de quando
estivera doente (a no ser a insnia de viva).
     Foi realmente noite memorvel, como anunciara doutor Teodoro e deram conta as gazetas.
Breve, reduzida conta - queixou-se nosso doutor ao ver suas decisivas alocues e todas as
demais espremidas numa frase incolor com nomes incompletos: "intervieram na discusso, entre
outros, os doutores Carvalho, Costa Lima, E. Diniz, Madureira, Pessoa, Nobre, Trigueiros". S o
discurso do doutor Frederico Becker merecera algum destaque, louvores  "sua clareza de
exposio, seus valiosos conhecimentos, a lgica de seu raciocnio". Por que tanto desprezo da
imprensa pela cultura, por que tamanha economia de espao  reagia doutor Teodoro -, quando
sobravam pginas para os crimes mais hediondos e para os escndalos nudsticos das estrelas de
cinema, seus divrcios absurdos, pssimo exemplo para as nossas mocinhas?
     Relatrio extenso, com ampla anlise do debate, encontra-se na Revista Brasileira de Farmcia,
de So Paulo (Ano XII, volume IV, pginas 179 a 181). Financiada pelos grandes laboratrios,
no escondia a Revista sua posio a favor dos produtos manufaturados. No deixou, no entanto,
de conceder justo relevo "as brilhantes intervenes do doutor Madureira, intransigente e douto
adversrio, a quem rendemos nossas homenagens". "Intransigente e douto", quem o diz, com
toda sua autoridade,  a Revista Brasileira de Farmcia, no somos ns, incondicionais do doutor.
     Muito esforo fez Dona Flor para acompanhar e entender o impetuoso debate: manda a
verdade que se diga no lhe ter sido isso possvel. Por amor ao esposo e por amor prprio
gostaria de manter a ateno presa aos oradores, mas, desconhecendo teses e frmulas, soando-
lhe rebarbativas aquelas palavras e frases em lnguas mortas, no conseguiu concentrar-se nos
discursos.
     Seu pensamento perdeu-se vagabundo em matrias menos filosficas, indo dos problemas da
Escola, com os disse-que-disse de Maria Antnia to divertidos (chegou a sorrir em meio aos
fortes argumentos do doutor Sinval Costa Lima, o da jurubeba),  preocupao com Marilda,
cada vez mais obstinada e impaciente em sua deciso de exibir-se aos microfones, exemplo -
segundo doutor Teodoro - da pssima influncia das atrizes de cinema sobre a juventude.
Tornara-se respondona e desobediente, estabelecera relaes com um sujeito do meio
radiofnico, Oswaldinho Mendona, e o dito cujo lhe acenava com programas e cachs. Dona
Maria do Carmo, por sua vez, mantinha um controle total sobre os menores passos e gestos da
estudante, pondo-a de castigo, proibindo-lhe sair de casa.
     Quando Dona Flor se deu conta, quem estava ao microfone no era Marilda e, sim, doutor
Teodoro. Tentou seguir-lhe a dialtica, apreendendo os argumentos com que ele confundia os
adversrios. O rosto grave, a face circunspecta, os gestos polidos mesmo quando fogosos, era a
imagem do homem digno, do ntegro cidado a cumprir o seu dever  no momento seu dever de
farmacutico, honrando seu diploma de doutor (mesmo contra seus interesses de comerciante).
     Sempre a cumprir o seu dever, sempre integro cidado. Na vspera,  noite, com a mesma
competncia e sisudez, cumprira seu dever de marido ante a esposa, na cama. Por estar nervosa,
de sensibilidade  flor da pele (Marilda aparecera numa crise de lgrimas e soluos a falar em
suicdio: "ou cantar na rdio ou morrer", eis sua fantica plataforma), significara discretamente ao
marido, em dengues e negaas, sua vontade do bis, naquela noite facultativa, pois era quarta-feira.
     Sentira a breve vacilao do doutor, mas como j rompera a timidez e a pudiccia,
demonstrando seu anseio, nele persistiu. Sem mais hesitar, o doutor atendeu-lhe ao desejo e pela
segunda vez cumpriu gostosamente seu dever.
     Compreende agora Dona Flor, na sala de debates, a causa da indeciso do esposo: desejava
evitar a fadiga, querendo manter corpo e crebro em repouso para a noite seguinte, na Sociedade.
Entre seus vrios deveres dividia ele tempo e esforo.
     O bis da vspera no o cansara, no entanto, pois firme na tribuna permanecia em latinrio (ou
seria francs aquela lngua?): "Lanataglucsida C igual a etanico mais glucose mais 3 digitoxose
mais digoxigenlida", frmulas soando ao ouvido como versos brbaros.
     Vendo-o to solene e grave, ao doutor, com seu grego e seu latim, o dedo em riste, os colegas
a escut-lo com ateno e deferncia, Dona Flor d-se conta da importncia do esposo. No 
um qualquer, bem o diz Dona Rozilda, os vizinhos tm razo. Deve orgulhar-se dele, agradecer 
Divina Providncia, que lhe enviara to bom marido, ddiva do cu. Chegara ao demais na hora
exata, quando j no suportava seu estado de viva, na eminncia de dar corda e nimo a
qualquer atrevido, de abrir as portas de sua casa e as coxas ao primeiro vagabundo plido e
splice, como o Prncipe Eduardo das Vivas. Valha-nos Deus, do que escapara!
     Se o farmacutico no houvesse surgido no balco da Drogaria Cientfica no dia do trote dos
calouros, ela, Dona Flor, em vez de estar ali, cercada de considerao, naquela sala onde ilustres
doutores discutiam eruditos temas, rolaria provavelmente de mo em mo nos castelos, em
deboche e depravao, perdidas sua honra, suas amigas, suas alunas, terminando quem sabe
onde... Estremece no horror daquele pensamento. Suas palmas ao fim do discurso do doutor
Teodoro contm no s o entusiasmo mas a gratido. Ele a salvou e  um homem de respeito.
Deve orgulhar-se do marido.
     Da mesa diretiva para onde volta, doutor Teodoro busca com os olhos a esposa e recebe o
estmulo de um sorriso, prmio maior para seu esforo e brilho. A discusso continua: ocupa a
tribuna o doutor Nobre, cabea de muito tutano sem dvida, mas voz ciciada e neutra, em tom
menor, irresistvel convite ao sono.
     Dona Flor quer reagir mas suas plpebras pesam cada vez mais. Sua ltima esperana  o
doutor Diniz, tribuno famoso desde os tempos de estudante, professor notvel, autor de
"Galenica Digitalis" - communia & stalibisata", tratado definitivo. Mas nem ele nem os demais a
sucederem-no no debate conseguem evitar os cochilos  de Dona Flor. E no s de Dona Flor.
Dona Sebastiana dorme a sono solto: seu busto imponente sobe e desce e o ar escapa de sua
boca num assovio. Dona Rita tem os olhos apertados, de quando em quando tira uma pestana,
acorda em susto. Dona Paula resiste certo tempo, depois se entrega, a cabea no ombro do
marido. S Dona Neusa, com suas fundas olheiras, est fresca e repousada, s ela no sente o
mormao nem a monotonia das frmulas e dos conceitos, como se toda aquela cincia lhe fosse
familiar. Seus olhos acompanham os vaivns do rapazola empregado da Sociedade a encher de
gua um copo colocado na tribuna, para os oradores. J lhe escolheu apelido: 914, injeo de
muita fama, tiro e queda contra a sfilis.
     Dona Flor cabeceia, montou-lhe o sono no cangote. Muito ao longe parece-lhe ouvir a voz do
marido. Um esforo a traz  tona, doutor Teodoro discursa pela segunda vez. No entendo nada
disso, meu querido, frmulas de qumica e botnica, espessos argumentos. Perdoa-me se no
consigo resistir ao sono, sou uma vulgar Dona de casa, uma burra, por demais ignorante, no sou
feita para essas culminncias.
     Acordam-na os aplausos, bate palmas, sorri para o marido, envia-lhe um beijo com a ponta
dos dedos.
     A sesso pouco mais durou e as mulheres, libertas, reuniram-se em sorridente grupo para as
despedidas.
- O doutor Teodoro esteve magnfico... - comentou Dona Sebastiana (como o sabe, se dormira o
tempo todo?).
     - Doutor Emlio, que portento! - Dona Paula repete frases ouvidas em reunies anteriores. -
Doutor Teodoro, um sabicho.
    Descendo a escada, de brao com o marido, Dona Flor lhe diz:
     - Todo mundo lhe gabou, Teodoro. Lhe encheram de elogios. Todos gostaram e disseram que
voc se saiu muito bem...
    Sorriu modesto:
    - Bondade dos colegas... Mas talvez tivesse dito alguma coisa til ... E tu, que achaste?
     Dona Flor apertou sua grande mo honrada, seu bom marido:
     - Uma beleza. No entendi muito, mas adorei. E fico toda cheia de vento quando te elogiam...
    Quase lhe diz: "no te mereo, Teodoro", mas talvez ele, com todo o seu grego e o seu latim,
no a entendesse.

Captulo 5

     Se o mundo dos farmacuticos fora imprevista descoberta, imagine-se o secreto e quase
cabalstico universo musical da orquestra de amadores onde penetrou Dona Flor pela estreita
porta do fagote.
     Aqueles graves e respeitveis senhores, todos eles assentados na vida, com ttulos
universitrios ou com magazines, empresas, escritrios
- todos menos Urbano Pobre Homem, melodioso violino, simples caixeiro da Loja Beirute -
constituam uma espcie de comunidade fechada, com caractersticas de seita religiosa. "Sublime
religio da msica, misticismo de sonoridades, com seus deuses, seus templos, seus fiis e seu
profeta, o inspirado compositor e maestro Agenor Gomes", conforme a reportagem de Flvio
Costa, jovem jornalista fazendo seu aprendizado gratuitamente nas pginas de "O Lojista
Moderno", do generoso Nacife (nada cobrava ao foca pelos ensinamentos). A reportagem sobre
os amadores ocupara toda a ltima pgina do "Lojista", ao centro um clich em trs colunas da
orquestra completa e em trajes de rigor nos jardins do palacete do comendador Adriano Pires, o
qual, alis, logo no dia seguinte ao da sada do peridico, recebeu a simptica visita de seu diretor,
que veio lhe falar sobre as dificuldades inmeras de um jornal srio como o seu. Impossvel
sobreviver, se no pudesse contar com a compreenso  de homens como o titular do Vaticano,
corao e carteira sensveis a esses dramas da imprensa. Exibia o pasquim com a reportagem
("garoto inteligente o redator, um talento, mas um menino desses, comendador, nos dias de hoje,
cobra uma fortuna por ms"), o milionrio desamarrava a bolsa, enternecido ao ver-se junto ao
violoncelo, em meio aos seus irmos de seita. Seita com suas obrigaes, seus hbitos, um estrito
ritual e uma alegria semanal de pssaros: o ensaio nas tardes dos sbados.
     Chegada dos alguidares, do gral, dos piluladores, dos tamises, dos potes de loua com xidos e
venenos, com mercrio e iodo, seguia Dona Flor por entre trinados, pizicatos, pavanas e gavotas,
solos e suavssimos, na esteira do violoncelo e do obo, dos molinos e da clarineta, da flauta e do
trompete, da bateria e do fagote do marido, obedecendo ao piano condutor do maestro Agenor
Gomes, simpatia de pessoa. Vinha de Dona Sebastiana, de Dona Paula, de Dona Rita, da voraz
Neusoca devoradora de caixeiros, para o convvio ainda mais elegante de damas da nata, as
esposas daqueles lordes. Deles costumava dizer o banqueiro Celestino, quando obrigado a ouvi-
los num concerto (Ah! a vida de um banqueiro... H quem a suponha um fruir de delcias, sem
imaginar as caceteaes, as maadas...):
     - Cada desafinao de um manaco desses vale milhes... Aqueles gro-senhores
transformavam-se nos sbados  tarde em crianas alegres e despreocupadas, livres de
compromisso e obrigaes, de clientes e negcios, do dinheiro a ganhar com pressa e apetite.
Punham de lado as distncias sociais, confraternizando o atacadista com o engenheiro da
Prefeitura de magro salrio, o cirurgio famoso com o modesto farmacutico, o meritssimo juiz
ou o dono dos Emprios Nortistas  oito armazns na cidade - com o caixeiro da pequena loja.
     Tambm as senhoras to gradas e chiques abriam a intimidade de suas casas s esposas dos
demais musicistas sem lhes medir a fortuna e a origem social, recebendo todas elas com a mesma
afabilidade, inclusive si Maricota (por que si e no Dona? Porque ela mesma alardeava: "eu no
sou Dona, sou somente si Maricota e por muito favor").
     Alis si Maricota quase nunca aparecia pois, no tinha vestidos nem conversa  altura
daquelas "fidalgas de merda" como explicava  vizinhana num canto de rua, nos limites da
Lapinha com a Liberdade:
    - Que  que vou fazer l? S se fala de festa, de recepes, de almoos e jantares, uma
comilana que at d agonia na gente. Fico pensando nos meninos aqui em casa sem poder
encher a barriga direito... Quando no falam de comida e bebida,  s conversa de descarao:
que a mulher de fulano est metida com sicrano, que a outra est dando a deus e ao mundo, que
beltraninha foi pegada num castelo. Pelo jeito essas Donas s sabem comer e rebolar na cama,
nunca vi... Em sua revolta, Dona Maricota ("no sou Dona de nada, diga-me quando muito si
Maricota como a qualquer criada, no passo disso ") si Maricota no media palavras, boca spera
e realista:
      - Tudo no luxo, na seda, na estica... Que fiquem pra l, no alto de sua merdolncia, com seus
cocres, que eu passo sem elas... Urbano vai, porque no pode viver sem o tal ensaio... Se fosse
por mim ele no ia em casa de ricao nenhum, tocava aqui mesmo, na venda de seu Bi, com
Man Sapo e seu Bebe-e-Cospe. - Abria os braos num gesto de impotncia. - Mas, que posso
fazer...? Ele  mesmo um pobre homem...
      De tanto ela repetir o mote depreciativo, seu Urbano ficara conhecido como Pobre Homem,
dela lhe viera o apodo humilhante. Quanto a Man Sapo, era mestre na gaita, e seu Bebe-e-Cospe
dono de velha sanfona: os dois, aos domingos, tocavam suas modas e engoliam sua cachaa na
venda de seu Bi, ponto de encontro da mais elegante sociedade daqueles becos. Seu Urbano
tambm aparecia e por vrias vezes fizera-se ali aplaudir com seu violino, se bem aquele pblico
desse clara preferncia  gaita de Man Sapo,  sanfona de Bebe-e-Cospe. Si Maricota, nada
entendendo de msica, resmungava por ter de passar a ferro a roupa azul do marido, nica e
antiga (as calas comeando a puir nas ndegas), para os ensaios:
     - Se no podem ensaiar sem ele, pelo menos deviam pagar a engomadeira... Essa tal de
orquestra s d despesa, no vejo o pobre homem ganhar nada com ela...
     Ganhava paz de esprito, evolando-se na msica a agre Maricota, com seu odor a alho, suas
berrugas e seu falatrio. No ensaio, aos sbados, repetindo as mesmas msicas de sempre,
iniciando o estudo de uma ou outra nova melodia para o escolhido repertrio, Urbano Pobre
Homem repousava da mesquinhez da vida e, como ele, todos os demais senhores da orquestra,
os grados, os homens ricos. Mantendo uns a gravidade dos modos, despindo-se outros de toda
a solene compostura ao se colocarem em mangas de camisa para o ensaio, ao tomarem dos
instrumentos, todos eles revelavam a mesma alegria interior, uma pura inspirao a lhes varrer do
pensamento o quotidiano msero e mesquinho.
     Doutor Venceslau Veiga, o cirurgio egrgio, aps os primeiros acordes e o primeiro copo de
cerveja, sorria contente com a vida e com a humanidade. Toda a canseira da semana na sala de
operaes, a abrir peitos e barrigas, a atender enfermos, debruado sobre a morte, numa luta de
todos os instantes, cruel e v, toda a canseira acumulada ia-se nos primeiros acordes, apenas
vibrava o arco do violino. Doutor Pinho Pedreira rompia os elos de sua solido, solteiro e
misantropo, reencontrando em sua flauta a lembrana de um amor de adolescncia, de uns olhos
fulvos e fingidos. Adriano Pires, o Cavalo Pampa, - panos brancos de vitiligo pintalgavam-lhe as
mos e o rosto -, o milionrio, o grande atacadista, o scio de Bancos, o diretor de empresas e
indstrias, o comendador do Papa, ficava humilde ao lado do poderoso violoncelo,
compensando-se ali da semana de ambies ferozes e de ferozes golpes, da labuta com os
fregueses, os concorrentes, os empregados - todos eles uns ladres! -, no af de ganhar cada vez
mais, no medo de ser furtado, na agonia do tempo curto para tanta nsia de dinheiro e de poder,
e tambm da obrigatria convivncia com Dona Imaculada Taveira Pires, uma catstrofe. Ficava
no s humilde mas generoso e humano, sorrindo para o pauprrimo caixeiro, a seu lado, liberto
um da excelentssima Dona Imaculada, o outro liberto de si Maricota.
     Como si Maricota, a Comendadora vinha raramente aos ensaios. No por falta de vestidos e
conversa,  claro. Por falta de tempo, suas horas comprometidas com mil obrigaes, sendo ela a
primeira em importncia entre as damas da alta sociedade, e tambm porque achava aqueles
ensaios de uma sensaboria, paulificao infinita, eterna repetio de acordes, as mesmas msicas
durante meses, insuportvel!
     Antes assim, sem sua presena, sem a triste viso de sua carantonha angulosa, coberta de
cremes, o busto de jias e pelancas, e o infecto lornho. Assim era mais fcil a seu Adriano
apag-la dos olhos e da memria. A ela, s filhas e aos genros. As filhas, uns fracassos: duas
pobres infelizes para quem a vida se reduzia aos vestidos e aos bailes. Os genros, uns giglos,
cada qual mais intil e salafrrio, um esbanjando no Rio, outro pondo fora na Bahia o dinheiro de
seu Adriano, seu suor, seu sangue, sua vida. De tudo isso repousava o atacadista: dos milhes
acumulados, dos concorrentes em concordata e em falncia, do vazio, do egosmo, da tristeza de
sua gente. Ali, ao violoncelo, repousava. Ao lado de seu Urbano, os dois iguais, como iguais
eram, em sua verdade, a excelia Dona Imaculada e a esmulambenta si Maricota, ambos acerbos
tribufus.
     Aos sbados, infalveis, reuniam-se aqueles conspcuos cavalheiros, abandonando-se  msica
e  cerveja, nonchalantes e risonhos. Cada sbado numa casa diferente e a dona da casa oferecia
lauta merenda, mesa bem posta pelo meio da tarde. Vinham sempre duas ou trs esposas, alguns
amigos e outros tantos admiradores pois "h gosto para tudo" (como rosnou seu Z Sampaio, ao
voltar de uma dessas sabatinas  qual comparecera para atender a instncias musicais do
farmacutico). Dona Flor, efetiva e firme nos primeiros tempos, fora acolhida com gentil
cordialidade e ali brilhou mansa e afvel.
     No seleto mundo da msica erudita - e aqui vai o adjetivo pelo que vale, dele discordava Dona
Gisa como mais adiante se ver -, nesse ambiente impregnado de insignes sentimentos, no
tinham vez e lugar desigualdades de dinheiro e origem social, ali se diluam. as diferenas de
classe e de fortuna para que se formasse a super casta dos Filhos de Orfeu, irmos na arte. Em
fraterna intimidade, tratavam-se todos, inclusive o Pobre Homem que ali era o Violino Genial,
pelos prenomes e apelidos -: Lalau, Pinhozinho, Azinhavre, Raul das Meninas, Cavalo Pampo, o
mesmo se dando entre as senhoras ou quase o mesmo. Diziam-se Heleninha, Gildoca, Sussuca,
Toquinha, chamavam Dona Flor de minha santa, morena linda, belezoca, e lhe pediam conselhos
culinrios. No lhes cabia culpa se em algumas ocasies Dona Flor sobrava na conversa, sem
assunto, desconhecendo certos temas gratos e constantes naquele meio. Afinal, ela no jogava
bridge, no era scia dos clubes nem presena obrigatria na sociedade. Nesses hiatos de silncio,
Dona Flor buscava com os olhos o marido a soprar o seu fagote, a fisionomia plcida e feliz.
Sorria ento, pouco lhe importando a conversa das senhoras, sem que lhe pesasse o isolamento.
     Ao lhe anunciar doutor Teodoro ter sido sua casa escolhida para o prximo ensaio, ps-se
Dona Flor em brios: no ia ficar atrs de ningum. Quando o marido se deu conta, j ela estava
convidando Deus e o mundo, disposta a gastar inclusive suas economias num esparrame de
comida e de bebida. Foi um custo cont-la. Queria mostrar quelas ricaas que tambm em casa
de pobre se sabe receber.
     Tentou doutor Teodoro reduzir o rega-bofe: servisse no mximo uns doces e salgados, alm
da cerveja obrigatria. Se quisesse ser gentil e agradvel ao maestro, preparasse um gostoso
mungunz, prato da especial predileo de seu Agenor:
     - Alis ele merece... Tem uma surpresa para voc... E que surpresa!
     Ainda assim, apesar das advertncias do marido, Dona Flor serviu um lanche opparo e
superlotou a casa. A mesa era soberba: acarajs e abars, moquecas de aratu em folhas de banana,
cocadas, acas, ps-de-moleque, bolinhos de bacalhau, queijadinhas, quanta coisa mais, iguarias e
pitus, muitos e diversos. Alm do caldeiro de mungunz de milho branco, um espetculo! Do
bar de Mendez vieram os engradados de cerveja, as gasosas de limo e de morango, os guarans.
     Foi um sucesso o ensaio. Se bem s duas entre as esposas dos amadores tivessem aparecido,
apenas Dona Helena e Dona Gilda, a casa se encheu de gente, os vizinhos num assanhamento,
nervosas as alunas, as comadres em delrio (Dona Dinor quase morreu depois, de indigesto).
     A orquestra foi instalada na sala de aulas, onde, alm dos msicos, sentaram-se apenas
algumas pessoas gradas: Dom Clemente, Dona Gisa, Dona Norma, os argentinos (Dona Nancy
se vestiu de gala, numa elegncia que s vendo), doutor Ives, muito palpiteiro, como sempre
metido a entender de um tudo, cagando regras sobre msicas, citando peras e Caruso, "aquilo
sim que era voz!"
     Houve um instante de suspense: quando o maestro Agenor Gomes, de batuta em punho,
disse ter algo a revelar, uma surpresa para a Dona da casa, uma oferenda. Naquela tarde, pela
primeira vez, iriam ensaiar composio de sua autoria, romanza indita e recente, especialmente
criada "em homenagem a Dona Florpedes Paiva Madureira, adorvel esposa de nosso irmo em
Orfeu, doutor Teodoro Madureira". Um arrepio percorreu toda a assistncia e o silncio, at
ento bem pouco respeitoso, perturbado de risos e conversas, fez-se completo.
     Sorriu o bom maestro: para ele, aqueles msicos amadores eram como o prolongamento de
sua famlia, e com pavanas e gavotas, valsas e romanzas, comemorava os faustos de suas vidas, as
grandes alegrias, as fundas tristezas. Se morria pai ou me de um deles, se lhes nasciam filhos, se
algum tomara esposa, como sucedera com o farmacutico, desatava o maestro  inspirao e
para o amigo em riso ou choro compunha sua solidria pgina de msica.
     - "Arrulhos de Florpedes", anunciou o maestro, com doutor Teodoro Madureira em solo de
fagote". Certamente uma beleza. Mas ensaio  ensaio, no  concerto nem mesmo exibio. Se,
em outros nmeros, nos quais j se considerava a orquestra bem afinada, o maestro ainda
interrompia ora um ora outro, naquela obra indita foram de passo a passo ou melhor de nota a
nota, inclusive doutor Teodoro a solar em seu fagote. No era fcil acompanhar a melodia, sentir-
lhe a graa, a beleza suave como a da homenageada, mansa e terna.
     Ainda assim comoveu-se Dona Flor: com o gesto do maestro e com a devoo do
farmacutico, quase a tremer na busca da perfeita escala com que brindar a esposa. Em sua frente
 partitura e ele, numa tenso de nervos, quase rgido, a testa em suor, frias as mos, mas disposto
a exprimir nos sons graves do fagote sua alegria de homem vitorioso, de vida plena e realizada:
com seu dinheiro, sua farmcia, seu saber, sua oratria, sua paz e sua ordem, sua msica, sua
esposa linda e honesta e o respeito geral. Buscava aquele acorde, havia de alcan-lo. Dona Flor
baixou a cabea, com tanta honraria sentindo-se confusa e perturbada.
     Felizmente chegou a hora do intervalo, regalou-se o maestro a comer e repetir o mungunz,
fartaram-se os demais com aquelas gostosuras, encharcando-se de cerveja, gasosa e guaran, tudo
perfeito.

Captulo 6

ROND DAS MELODIAS

     Deslizou Dona Flor, mansa e corts, por aqueles mundos da farmcia e da msica de
amadores, outra vez nos trinques, em apuros de elegncia para no fazer feio nem passar
vergonha nos ambientes onde sua nova condio a introduzira. Quando jovem, antes do primeiro
matrimnio, conviva pobre em casas ricas, em palacetes de grados, era a mais bem vestida das
mocinhas, em caprichos de bom gosto, s Roslia, sua irm, se lhe podia comparar. Nenhuma
outra, por mais rica e perdulria.
     Outros ambientes, outros assuntos e conversas, novas relaes. Exigncias, compromissos,
vez por outra a obrigao de um ch, de uma visita, de um ensaio. Na residncia de um diretor da
Sociedade de Farmcia ou de um fidalgo da orquestra de amadores. L ia Dona Flor por entre
exclamaes da vizinhana, soberba em seu esmero, a loc em seu Donaire, vistosa pabulagem de
mulher. Engordara um pouco e aos trinta anos, lou e chique, era um pedao de morena, dessas
de apetite:
     - Um peixo... - ciciava entredentes seu Vivaldo da funerria. - As carnes assentaram, a popa
arredondou... Um petisco... Esse doutor Xarope est comendo pitu de rei...
     - Trata ela como rainha, lhe d de um tudo, passadio de nobreza - dizia Dona Dinor, que
previra doutor Teodoro na bola de cristal e lhe guardara constante fidelidade. - E que estampa de
homem...
     Vizinha recente, Dona Magnlia, janeleira fixa, perita em clculos sobre a competncia dos
passantes, advertia:
     - Ouvi dizer que nele  tudo grande,  um p-de-mesa... quem lhe dissera? Ningum: ela batia
o olho e pronto, ficava a par das propores, resultado de prtica constante e efetiva.
     - Pois os dois empatam na figura e na bondade - era a voz de Dona Amlia. - Casamento mais
certo quem j viu? Feitos um para o outro e levaram tanto tempo a se encontrar...
     - Foi preciso que ela sofresse horrores nas unhas do primeiro, do desalmado, do coisa -toa...
     - Assim ela pode dar mais valor ao que tem agora... Pode comparar...
     No queria Dona Flor medir nem comparar fosse o que fosse, apenas viver sua vida.
Finalmente uma vida no decoro e no regalo, no prazer do trato fino. Por que no a deixavam em
paz? Antes vinham lastim-la, em ladainhas de comiserao, compadecidos com sua sorte. Agora
eram loas ao acerto,  admirvel deciso daquele casamento,  felicidade dos esposos exemplares.
     A rua seguia de perto os passos de Dona Flor: seus vestidos, suas relaes da alta, a nova
ordenao de sua vida, com visitas, passeios e cinemas, e o prximo pleito eleitoral na Sociedade
de Farmcia. Mas, sobretudo, empolgou-se a vizinhana com a msica, tema palpitante trazido 
baila quase ao mesmo tempo pelo lauto ensaio da orquestra de amadores e por Marilda, a
estudante de pedagogia.
     A princpio a discusso se limitara a conceitos acadmicos e pretensiosos, numa porfia
arrebatada e rspida, quando entre o doutor Ives admirador de peras, e a exigente Dona Gisa,
duas culminncias do bairro. Contribura, para anim-la, destabocada e agre, Dona Rozilda, por
ali em visita. Mas quem ps no debate uma nota dramtica e emocionante foi a jovem Marilda,
deslocando-o do plano puramente intelectual para a realidade do choque entre geraes, entre
pais e filhos, entre o velho e o novo (como diria um filsofo da gerao mais jovem).
     Enquanto Dona Gisa, aps o ensaio da orquestra de amadores, repelia a classificao de
"msica erudita" (to grata aos preconceitos antigos de Dona Rozilda), empregada pelo doutor
Ives em referncia s valsas, e s marchas militares e as romanzas, em clandestino encontro a
jovem Marilda conspirava contra a paz da famlia e o sossego da rua, com o tal Oswaldinho e
com um senhor Mrio Augusto, diretor da Rdio Amaralina, recm- inaugurada e em busca de
talentos a baixo preo. Para Dona Gisa, a msica erudita era somente a grande msica imortal de
Beethoven e de Bach, de Brahms e de Chopin, de alguns raros e sublimes compositores: sinfonias
e sonatas, msicas para serem ouvidas no silncio e no recolhimento, para as grandes orquestras,
os regentes famosos, os intrpretes de classe internacional. Para apreciadores capazes de ouvir e
de entender. Ela vinha dessa msica, e no seu purismo sectrio, em seu extremo formalismo,
classificava tudo o mais de porcaria, "para quem no possui educao musical".
     Entenda-se, alis: naquela definio violenta- "tudo uma porqueira" - no inclua Dona Gisa a
msica dita popular, expresso do povo, ardente e pura. Aos sambas e s modinhas, aos
"spirituals", aos cocos e as rumbas, tinha respeito e estima e era fcil ouvi-la a assassinar, com seu
terrvel acento, a letra do ltimo samba em moda. No tolerava, isso sim, a fatuidade dessa
msica sem fora e sem carter, feita, em sua opinio, para o mau gosto da classe mdia, incapaz
de sentir a beleza e de se comover com os grandes mestres. Comovia-se Dona Gisa, ao ouvi-los
em gravaes de qualidade,  meia luz em casa dos amigos alemes, naquelas noitadas de tanto
gozo espiritual (e, de lambujem, um bom drinque e algumas anedotas).
     Doutor Ives abria a boca, num alarme: quanto pernosticismo, gringa metida a sebo! Onde
ficavam as peras - me diga, professora - "II Rigoletto", "O Barbeiro de Sevilha", "O Palhao",
"O Guarani", do nosso imortal Carlos Gomes - oua, Dona Gisa, nosso, brasileiro, nasceu em
Campinas -, a levar o nome da ptria amada aos palcos do estrangeiro por entre aplausos? Onde
ficavam essas maravilhas, com suas rias, seus duetos, seus bartonos e seus baixos, suas prima-
donas? Se isso no era msica erudita, ento o que era? Por acaso sambas e rumbas, modinhas e
tangos?
     Ora, si Dona Gisa, se assunte, porque nessa matria (como de resto em tudo mais) doutor
Ives  sumidade. Alteando a voz e o gesto de vitria, ele pergunta: onde ela encontrar algo de
mais refinado do que uma boa opereta como "A Viva Alegre", "A Princesa dos Dlares" ou "O
Conde de Luxemburgo"?
     Assente em bases concretas, a cultura musical do clinico resultava do conhecimento vivo -
quando estudante, indo ao Rio numa caravana, assistira das torrinhas do Teatro Municipal, com
entradas de favor, a algumas peras montadas e cantadas pela "Grande Companhia Musicale di
Napoli". Deslumbrou-se com os espetculos, com as melodias e as vozes dos bartonos e das
sopranos, dos tenores e dos contraltos. No os ouvira em discos de vitrola, Dona Gisa, e, sim, de
corpo presente, vendo-os no palco a brilhar no esplendor de seu gnio, a Tito Schippa, a Galli
Cursi, a Jesus Gaviria, a Bezanzonni, cantando a "Traviata", a "Tosca", "Madame Butterfly", "II
Schiavo" (tambm do nosso Carlos Gomes, minha cara). Vira depois todos os maravilhosos
filmes de cinema  no perdera um s com as melhores operetas interpretadas por Jan Kepura e
Martha Egerth, por Nelson Eddy e Jeanette Mac Donald. Por acaso os vira Dona Gisa? Todos,
sem perder nenhum?
      Em seu entusiasmo, doutor Ives trauteava trechos das rias mais conhecidas e at ensaiou um
passo de bal. Com ele era no duro, no fazia por menos, no lhe viessem com discos e com
lrias, pois no tocante a cultura musical no ficava a dever a ningum...
      - Isso, cultura! - Dona Gisa estendia as mos aos cus, ofendida no em seus brios mas em
ldimos conceitos - Cultura  outra coisa, seu doutor, mais sria... Tambm a msica, a verdadeira,
a grande... Muito outra coisa.
      Dona Norma, requisitada para rbitro, mantinha-se neutra, confessando:
    - No entendo nada... - Saiu do samba, da marcha, da msica de carnaval - que essas eu sei
todas... - sou zero noves fora zero... Opera vi uma, quando esteve aqui catando nqueis a
Companhia Billoro-Cavallaro j quase sem artistas, uma tristeza. Nem era uma pera inteira, s
uns pedaos da "Ada".
    - Tambm fui... - marcou outro ponto o doutor Ives.
     - No entendo nada mas ouo tudo, porque qualquer coisa me diverte, at sino em toque de
finados acho bonito. Topo tudo: concerto e pera, opereta nem se fala e sou doida por um
programa musical na rdio. Uma coisa  certa: no se tem nada igual, nada que se compare com
modinha de Caymmi. Mas, pra mim, tudo serve, tudo me diverte e passa o tempo, at esses
ensaios do doutor Teodoro, basta a gente no prestar muita ateno...
     Para Dona Rozilda era uma blasfmia comparar a msica da orquestra de amadores, papa-fina
para ouvidos delicados, com essa bombochata de moleques ao violo. Boa pessoa, Dona Norma,
bem casada, rica, mas seus gostos eram de gema... Por outro lado, a professora s por ser
americana era metida a catedrtica. Pode ser que Dona Gisa, l em seu pas, tivesse conhecido
coisa melhor, mais erudita, superior aos Filhos de Orfeu. Ela, Dona Rozilda, duvidava e
desconhecia. A seu ver eles eram o non-plus-ultra at prova em contrrio. Uns senhores daqueles,
da mais alta distino...
Sorridente e silenciosa, acompanhara Dona Flor os termos do debate, s abrindo a boca para
defender os ensaios da orquestra de amadores considerados por Dona Gisa, o "cmulo da
caceteao".
     - No seja exagerada...
     - Pois no ? E tem que ser assim, pois  ensaio. Onde j se viu convidar algum para ouvir
ensaio de msica?
     - Eles no tm culpa, a culpada sou eu que convidei... Nos ensaios deles vai quem quer,
amigos, pessoas da famlia. Quando tiver um concerto, vou lhe convidar e ai voc vai ver...
    Dona Gisa mantinha-se pessimista:
     - Num concerto, quem sabe? Mas ainda assim penso que esses diletantes, me desculpe, Flor,
no valem grande coisa...
     Valiam e muito, a acreditar-se nos redatores de jornais e crticos de msica, afinal obrigados a
entender do assunto. A cada exibio da orquestra - numa Estao de rdio ou no auditrio da
Escola de Msica - derramavam-se em louvores. Um desses crticos, um tal de Finerkaes, nascido
por assim dizer no seio da msica, pois de procedncia alem, num transporte de entusiasmo,
comparara os Filhos de Orfeu s "melhores orquestras congneres da Europa, s quais nada
ficam a dever, muito ao contrrio". Ao chegar de Munich, esse Finerkaes at que era bastante
sbrio em seus conceitos. O trpico o conquistou inteiro, perdeu a continncia e nunca mais
voltou a seu gelado inverno.
     Doutor Teodoro possui um lbum onde coleciona os programas dos concertos, notcias e
elogios, artigos sobre a orquestra, muita tinta impressa. Depois do casamento  Dona Flor quem
cuida desse repositrio dos sucessos, desses comprovantes da pequena glria do marido. A
ltima
notcia ali colada diz ter o maestro Agenor composto uma romanza em honra do casal Teodoro
Madureira, sua obra-prima, atualmente em ensaios. Os Filhos de Orfeu se propunham execut-la.
"Por falar em Filhos de Orfeu, quando essa excelente orquestra nos dar a graa de um concerto
insistentemente reclamado pelos amantes da boa msica na Bahia?", perguntava o jornalista.
Como se v, tinham os amadores fiis amigos, muitos e fanticos.
     Atenta  discusso sobre a orquestra, descuidara Dona Flor dos problemas de Marilda,
tambm eles de msica e de canto, de proibidas melodias. A ltima notcia sobre o conflito entre
Me e filha, Dona Flor a obtivera da prpria moa e se referia ao fato significativo de ter Marilda
conhecido, por intermdio de Oswaldinho, aquele Mrio Augusto da Estao Menina, a
Amaralina, e o dito cujo lhe prometera ouvi-la e, se lhe agradasse a voz, contrat-la para um
programa semanal. Oswaldinho nada conseguira na Rdio Sociedade, infelizmente.
               Os sucessos posteriores escaparam a Dona Flor. Muito ocupada naqueles dias, no
pudera conceder a Marilda a ateno devida. Assim sendo, s depois do drama, veio a saber do
xito da adolescente no teste ao microfone. Ficou o Mrio Augusto abobalhado com a voz e
(mais ainda) com a beleza da jovem, e disps-se a contrat-la para um programa de categoria,
num bom horrio, sbado  noite. Cach ainda pequeno, porm que mais podia desejar uma
estreante? Na bolsa a minuta do contrato, Marilda veio correndo para casa, embargada de
emoo.
    Dona Maria do Carmo rasgou o papelucho: "Lhe criei e eduquei para mulher direita, para se
casar. Enquanto eu for viva . . "
  - Mas Mame, voc tinha prometido... - Marilda lembrava a promessa feita pela viva no dia em
que a viu cantar num programa de calouros. - Voc disse que quando eu fizesse dezoito anos...
     - Ainda no fez...
    - Faltam s trs meses...
    - No deixo nunca, enquanto estiver sob meu teto. Nunca.
     - Sob seu teto? Pois vai ver.
    - Ver o qu? Vamos, diga.
     - Nada.
    Ainda procurou Dona Flor, clido peito amigo, de bom conselho e de conforto. Mas a vizinha
sara aps a aula vespertina e Marilda tinha pressa, pois caa  tarde e era demais a tirania,
insuportvel. Fugiu de casa.
     Juntara uns trapos, pares de sapatos, a coleo do "Jornal de Modinhas", os retratos de
Francisco Alves e Slvio Caldas, metera tudo na mala, tomou o bonde, aproveitando estar a Me
no banho.
     Foi direta  Rdio Amaralina. Ao sab-la fugida da famlia, em lgrimas e menor de idade,
alarmou-se Mario Augusto, muito responsvel, e nem sequer a quis ali no edifcio: fosse embora
quanto antes, no desejava encrencas. Saiu Marilda rua a fora e andou ao lu em busca de
Oswaldinho. Foi de endereo em endereo, da Rdio Sociedade para o escritrio de uma firma
comercial, onde o radialista fazia ponto. Dali seguiu para a cidade baixa onde ele tinha encontro
com uns patrocinadores, os poderosos Magalhes. Oswaldinho? O da Rdio? J fora embora,
talvez para os estdios, ela sabia o endereo? L se foi novamente para a Rdio Sociedade, na rua
Carlos Gomes: subiu o Elevador Lacerda, andou a rua Chile, e, cortando a Praa Castro Alves,
por fim, suada e tonta, deteve-se na porta da emissora. Oswaldinho no estava, mas o porteiro
lhe permitiu esperar e at lhe arranjou uma cadeira.
     Cansada e com certo medo, mas ainda cheia de raiva e disposta a tudo, ali permaneceu horas a
fio, vendo cruzar em sua frente artistas conhecidos, cantores afamados, e entre eles Silvinho
Lamenha, com uma flor na botoeira e imenso anel no dedo mnimo. Alguns olhavam para ela,
quem seria aquela moa to bonita? O porteiro, de quando em vez, sorrindo lhe dizia (querendo,
quem sabe, confort-la, condodo de sua aflio e de sua juventude):
     - No chegou ainda, mas no pode demorar. J era hora de ter vindo...
     Por volta das oito horas, noite feita, com os olhos ardendo e o corao em susto, perguntou
ao porteiro onde tomar um caf e comer um sanduche. No buf da prpria Rdio, fosse
entrando. L, vendo e ouvindo cantores e atrizes, seus dolos, ganhou novas foras, decidida a
esperar a vida inteira, se preciso, para cumprir seu destino de estrela.
     Retornou  portaria e pensou: "Mame, coitada, h essa hora j deve estar morrendo de
preocupao", misturando pena e remorso  raiva e a intrepidez. Pouco depois o porteiro da
tarde despediu-se, e seu substituto disse a Marilda no acreditar no retorno de Oswaldinho:
    - A essa hora? No vem mais...
     J quase s nove e meia, quando a custo ela continha o choro, um sujeito desdentado
encostou-se ao balco da portaria e, aps fit-la com insistncia, meteu-se de prosa e riso com o
porteiro, a lhe contar feitos de jogo, decorridos ali perto, no Tabaris. De sbito Marilda ouviu o
sujeito falar em Oswaldinho, e soube estar o seu amigo a jogar desde o fim da tarde, na mesa de
roleta. Muito alegre, no dizer do desdentado.
    - Tabaris? O que  isso e onde fica?
    Riu-se o tipo a fit-la com indecente gula:
    - Aqui pertinho... Se quiser lhe levo l... - doido para ver o escndalo, gozar as lgrimas e as
recriminaes, aquele Oswaldinho era mesmo a perdio das moas.
    Atravessaram a praa, o desdentado a tirar conversa, querendo saber se Marilda era esposa,
noiva ou apenas namorada. Para esposa, muito moa, para namorada, muito aflita... Na porta do
cabar, depararam com Mirando, que se retirava para o Place. Ao passar viu Marilda de relance,
foi andando. Mas logo a reconheceu e voltou rpido:
    - Marilda! que diabo est fazendo aqui?...
    - Ah! seu Miranda, como vai?
    Mirando conhecia demais o desdentado:
    - Bafo-de-ona, que  que voc faz aqui com essa moa?
    - Eu? Nada... Ela me pediu...
    - Pra vir aqui? Mentira sua... - j se exaltava Mirando. Marilda desculpou o outro: ela lhe
pedira, sim.
    - Pra vir aqui, no Tabaris? Fazer o qu? Me diga.
    Contou-lhe tudo, finalmente, e ele a trouxe de volta para casa, da qual no estavam to
distantes. Foram encontrar Dona Maria do Carmo como louca, num chilique, em pranto, atirada
ao leito, a gritar pela filha. Ao seu lado, Dona Flor, doutor Teodoro, Dona Amlia. Dona Norma
assumira o comando da turma de busca e salvamento, assistida por Dona Gisa. Arrancaram seu
Z Sampaio da cama (fulo de raiva) e partiram rumo  assistncia pblica,  polcia, ao necrotrio.
    Ao ver a filha, Dona Maria do Carmo abraou-se nela, a acarinh-la, num choro convulsivo.
Choraram as duas e se beijavam, em mtuos pedidos de perdo. Agastado, doutor Teodoro,
retirou-se, quase brusco, pois, mesmo contrariando Dona Flor, apoiara Dona Maria do Carmo
em sua primeira e implacvel disposio de aplicar na fugitiva uma surra daquelas, de criar bicho.
    Tentou demov-la Dona Flor, ganh-la para a causa de Marilda; tambm ela, quando mocinha,
tomara daquela medicina e de nada lhe servira o tratamento. Por que se obstinava Dona Maria do
Carmo em contrariar a vocao da filha?
     Que vocao nem meia vocao!, doutor Teodoro veio em apoio da viva, a menina precisava
de uma lio que lhe pusesse o juzo em ordem e lhe ensinasse a obedecer. Chegaram quase a se
exaltar, marido e mulher, um e outro intransigentes: Dona Flor na defesa de Marilda,
pobrezinha!; doutor Teodoro na defesa dos princpios, dos deveres dos filhos ante os pais, causa
sagrada. Mas no levaram adiante a discusso, pois logo o doutor se controlou e disse:
                - Minha querida, voc tem sua opinio e eu a respeito, sem com ela comungar. Eu
tenho a minha, nela fui educado,  a que me serve, fiquemos cada um com a sua opinio. Mas
no vamos discutir por isso, j que no temos filhos - "e no os teremos", poderia acrescentar,
pois, ainda noivo, Dona Flor lhe revelara sua infecunda condio.
    No restou entre eles rastro de azedume, ambos curvados sobre a dor da viva a pedir a
morte, se a filha no chegasse logo. Chegou Marilda e foi o que se viu. Doutor Teodoro, vencido,
retirou-se. Saram tambm Dona Amlia, Dona Emina, permanecendo apenas Dona Flor com a
Me e a filha e j estava o caso resolvido, de uma vez e para sempre: Marilda conquistara seu
direito ao microfone. Dona Flor demorou apenas um minuto, o suficiente para garantir o acordo,
a bno materna aos planos da futura estrela, e logo foi encontrar na sala de visitas seu
compadre Mirando.
     - Meu compadre, por que sumiu e nunca mais apareceu? Nem voc, nem a comadre com o
menino? Que foi que eu fiz para tanto lhe ofender? Pergunto mesmo antes de lhe agradecer o
bem que fez a Maria do Carmo e a Marilda. Por que brigou comigo?
     - No briguei, por que havia de brigar, minha comadre? Se no tenho aparecido,  que tenho
andado numa roda viva...
     - S por isso, por ocupado? Me desculpe, meu compadre, mas no creio.
    Mirando fitou a noite transparente, o cu distante:
     - Minha comadre sabe: entre marido e mulher ningum deve se meter, at uma sombra, at
uma lembrana pode ser ruim. Sei que minha comadre vive contente, anda por cima, isso  o que
eu desejo. Bem merece tudo isso e muito mais. Nem por eu no aparecer  menor nossa amizade.
    Era verdade, Dona Flor sorriu e andou para junto do compadre:
    - Tem uma coisa que desejo lhe pedir...
    - Mande, no pea, minha comadre...
     - No vai tardar o dia do caruru de Cosme e Damio, aquela obrigao...
     - Tenho pensado nisso, ainda outro dia disse pra patroa: "Ser que vai haver este ano o caruru
em casa da comadre?"
    - Qual  seu parecer, compadre? Que  que acha?
     - Pois eu lhe digo, comadre, que ningum pode andar dois caminhos de uma vez, um de ida,
outro de volta. A obrigao no era sua, era do compadre, se enterrou com ele, os ibejes se do
por satisfeitos  fez uma pausa. - Se era esse tambm seu parecer, comadre, ento fique
descansada, no est agindo mal com os santos nem cortando um preceito pelo meio...
     Ouviu Dona Flor pensativa, absorta como se pesasse medidas de viver:
     - Tem razo, compadre, mas no  s aos santos que a gente tem contas a prestar. Eu tenho
vontade de manter a obrigao, seu compadre levava o preceito muito a srio, tem coisas que a
gente no pode desmanchar.
    - E ento, comadre?
     - Pois pensei que podia fazer o caruru em casa do compadre. Eu vou l, no dia, ver o menino,
levo o necessrio, cozinho o caruru e ns comemos. Convido Norminha e mais ningum.
     - Pois seja assim, comadre, como quer. A casa  sua,  s dar ordens. Se eu tivesse certeza de
ter dinheiro, lhe dizia para no levar tempero algum. Mas, quem adivinha a noite de ganhar e a
noite de perder? Se eu soubesse, estava rico. Leva seus quiabos,  mais seguro.
     Tendo serenado, voltava doutor Teodoro. J conhecia Mirando de nome, sabedor de sua
fama e de seus feitos, trocaram breves cortesias.
    -  meu compadre, Teodoro, um bom amigo.
     - Precisa aparecer... - disse o doutor, mas no era um convite, apenas uma frase gentil: se ele
viesse, pacincia.
     Retornou Mirando  sua vida airada, Marilda acertava com a Me a visita de seu Mrio
Augusto para o outro dia, para juntos discutirem as condies do contrato e a data da estria.
    - Vamos, minha querida... - disse o farmacutico.
     J era tarde, mas ainda assim, para de todo repousar daquelas emoes e desapontos, foi o
doutor Teodoro em busca do fagote e da partitura. Dona Flor tomou assento numa cadeira e
ps-se a cerzir punhos e colarinhos das camisas do doutor, todos os dias ele mudava a roupa
branca.
     Na sala quieta e morna, doutor Teodoro ensaia o solo da romanza composta em homenagem
a Dona Flor. Curvada sobre a costura, ela ouve um tanto distrada, querendo pr em ordem
confusos pensamentos. Distante, a cabea longe dali, em outras msicas.
     Buscando dominar as notas em fuga no instrumento, captar o som mais puro e ardente,
vencendo as escalas da difcil melodia, j de todo calmo, sorri doutor Teodoro: afinal que lhe
importava o modo certo ou falso como educasse Dona Maria do Carmo sua filha indcil? No
era palmatria do mundo e seria idiota aborrecer-se com sua mulherzinha, to formosa e boa, por
tolas razes alheias. Evola-se o acorde justo, pulsa no ar, sozinho, harmonioso e puro.
     Vinha Dona Flor de outras msicas, mas no das altas notas clssicas de Bach e de Beethoven,
das sinfonias e sonatas, como Dona Gisa na meia luz requintada do alemo. Vinha das melodias
populares, das violas seresteiras, dos bomios cavaquinhos, das gaitas de riso cristalino. Devia
agora ajustar-se  orquestra de amadores,  grave melodia dos obos, dos trompetes, dos
violoncelos, aos acordes conspcuos do fagote. Tirar a cabea daquelas outras msicas a faz-la
desatenta, perdida em obscuros caminhos, no mistrio das encruzilhadas. Devia sepultar nos
ensaios do fagote, nas escalas da orquestra, as lembranas de melodias mortas, de um tempo
extinto, do que foi e j no era.
    O som do fagote vibra sobre as camisas do doutor.

Captulo 7

     Histrias de mulheres, somente duas. Pelo menos foram as que chegaram ao conhecimento de
Dona Flor. Ela, no entanto, punha a mo no fogo pelo marido, no acreditando na existncia de
qualquer outro rabo de saia na vida do doutor.
     Uma daquelas duas histrias, alis, a que envolvia Mirtes Rocha de Arajo, a fogueteira
carioca, no chegou a ser nada - apenas um qiproqu e uma decepo. Decepo certamente
efmera, pois no era a audaciosa de perder tempo em lamentaes; sacudiu os ombros, foi
avante.
      Casada com um funcionrio de Banco e tendo sido ele transferido para a Bahia, com melhor
ordenado e posto, lastimou-se Mirtes junto s amigas ntimas, infeliz com esse exlio para uma
cidade carente de atraes masculinas e sem a liberdade do Rio de Janeiro, onde ela conquistara
alguma reputao em atividades de adultrio. Com as horas livres e vazias, sem filhos e sem
outros afazeres, dedicava seu tempo e sua natural aptido  benfazeja brincadeira. Eram tardes
agradveis, em companhia de benvolos rapazes de muita competncia e cativante fsico, sem
correr nenhum perigo, tudo na mais discreta maciota. Onde, na Bahia; obter a mesma qualidade
masculina de um Serginho, por exemplo, "um suco", e a confortvel segurana do "rendez-vous
de Dona Fausta?
     Ins Vasques dos Santos, baiana orgulhosa do progresso de sua terra, sentiu-se ofendida com
tanto desprezo, sua cidade relegada  condio de lugarejo onde no existisse sequer com quem
trair o marido nem onde faz-lo em segurana. Por que insultava Mirtes a Bahia sem a conhecer?
Afinal no era Salvador to pequena aldeia nem de tamanho atraso...
     L iniciara Ins sua plantao de chifres e podia afirmar, com pleno conhecimento de causa,
existirem condies propcias ao exerccio da boa lavoura com seguro penhor de colheita farta.
Discretssimos castelos, bangals ocultos entre coqueiros em praias selvagens, com a brisa e o
mar, um sonho. Quanto a rapazes, havia cada um!
     Olhos cismarentos, a morder o lbio com os pequenos dentes, Ins Vasques dos Santos, ps-
se a recordar, quanta saudade! Sobretudo certo petulante capadcio, um perdido, um jogador;
mas que espetculo na hora da peleja, que andante cavalheiro! Ins, corao volvel porm
eficiente, conhecera em nua intimidade rapazes a granel. "Pois vou lhe dizer menina: no
encontrei at hoje nenhum igual a ele, ainda guardo o gosto de sua pele e sinto atrs da orelha a
ponta de sua lngua, ouo seu riso ao me tomar dinheiro".
     - A tomar dinheiro? - Mirtes sempre desejara conhecer um gigol. Deu-lhe Ins informaes e
endereo, magnnima. Escola de Culinria Sabor e Arte, entre o Cabea e o Largo Dois de Julho.
A professora, mulher dele, boa moa, no era feia, com seus cabelos lisos e sua cor de cobre.
Entrasse Mirtes de aluna, as aulas ajudavam a matar o tempo e logo o assanhado lhe botaria em
cima o olho, a mo e seu canto de sereia, ai.
     No se esquecesse de lhe escrever depois, contando e agradecendo. Ins no tinha dvidas
sobre as deleitosas conseqncias do conbio, teis alis a todos os parceiros, inclusive ao marido
festejado: com seu diploma de doutora em culinria, Mirtes poderia lhe servir quitutes baianos do
melhor sabor. A professora era de primeira, mestra na arte, tinha mos de fada.
     Jamais Dona Flor desconfiara, nem antes, nem agora de chamego entre o finado e aquela Ins,
no tempo sisuda magricela, curiosa de temperos. No fosse a posterior indiscrio da revoltada
Mirtes e talvez nunca viesse a conhecer mais aquela estrepolia do falecido. Mais uma, menos uma,
tinham sido tantas, e agora estava Dona Flor casada com um homem de outro estofo, com outras
normas de procedimento, impoluto. Quanto a Mirtes, apenas instalada na Bahia, buscou a Escola
para nela se inscrever. Quis Dona Flor convenc-la a esperar o incio de nova turma, j se
encontrando a atual no caruru, tendo dado o ef e o vatap, sem falar em algumas sobremesas
como doce de cco, beiju e ambrsia.
      Mirtes tinha pressa, impossvel esperar. Inventou prxima volta ao Rio, tempo curto em
Salvador, no lhe sobrando outra oportunidade para aprender ao menos uns quantos pratos, seu
marido era maluco por comida de dend. Dona Flor, a boba, ainda prometera nas folgas de
tempo lhe ensinar ao menos o vatap, o xinxim e o apet.
     No lhe ensinou nem aqueles nem outros pitus, pois foi rpida a passagem de Mirtes pela
escola. No tendo visto o marido da professora nos dois primeiros dias, no terceiro perguntou
por ele a uma colega que lhe disse ser difcil avistar-se o doutor durante as aulas, preso  farmcia
naquele mesmo horrio. "Doutor? Na farmcia?" No sabia que fosse farmacutico, aquela louca
Ins s lhe falara das qualidades esportivas do baiano, de seu trabalho fora da cama nada lhe
dissera. Mirtes at se enchera de esperanas: ia finalmente conhecer um verdadeiro gigol.
     Por acaso, naquele mesmo dia, logo depois desse dilogo, necessitou doutor Teodoro de um
documento, veio busc-lo. Pedindo milhares de desculpas, muito solene e cheio de dedos,
atravessara entre as alunas.
    - Quem ? - quis saber Mirtes.
     - Doutor Teodoro, o marido. Eu lhe dizendo ser difcil ele aparecer e em seguida quem se v?
O prprio . .
    - O marido dela? Da professora? Esse?
     - E de quem havia de ser?
     Ainda desculpando-se, na mo o papel recuperado, regressou o importuno  Drogaria. Mirtes
balanava a cabea de cabelos soltos e "platinum-blonde" (na ltima moda): ou Ins era doida de
se amarrar ou algo sucedera. Certamente a professora cansara-se das falcatruas do gigol e lhe
dera o fora, se no tivesse sido ele a partir com outra. Fosse como fosse, Dona Flor se dedicara
ao tipo oposto, ao homem srio e respeitvel, ao ver de Mirtes intil e impossvel, o tipo
vomitrio: o tabacudo nem reparara no fulgor de seus cabelos, passara por ela sem sequer a ver.
Tambm, antes assim... O idiota nem para marido lhe servia, capaz de ser daqueles cornos sem
classe e sem "fair plaq", que vingam a honra com tiros e facadas, obsoletos e melodramticos.
     No voltou  Escola, no lhe parecendo necessrio dar satisfaes  professora. Ao demais era
biqueira, de pouca comida (para manter-se magra, em forma, com seu tipo de "Vamp").
     Foi bater com os dentes mais adiante e soube ento da morte do fogoso garanho de Ins e
do novo casamento da viva com aquele tipo cego. Cego, sim, senhora, e da pior cegueira, a de
quem fecha os olhos para a vida, incapaz de enxergar a luz do sol e uns cabelos cor de prata.
      Veio a saber Dona Flor os detalhes daquela farsa atravs de sua amiga Enaide, por seu lado
amiga de Ins Vasques dos Santos desde os tempos de estudante e, por isso, confidente dos
equvocos baianos de Mirtes Rocha de Arajo, que resumia sua decepo numa frase quase
literria:
     - A minha aventura com um defunto... Faltava em meu carn.
     Numa frase e numa queixa: para conhecer doutor Teodoro, "aquela insipidez de homem,
aquele paspalho!", queimara os dedos no fogo de Dona Flor, na aula da frigideira de aratu. Que
ridculo! Para Dona Magnlia, em sua janela a janelar, oh! janeleira mais intrpida!, o fato de ser
srio e responsvel no retirava ao doutor o interesse, dando-lhe mesmo certo picante, certo qu.
Em sua semeadura de chifres, lavradora to eficiente quando a pedante carioca, a rapariga do
secreta de polcia aprendera a variar os seus xods, na cor, no aspecto e na idade, inimiga de
qualquer monotonia. Enquanto Mirtes, sectria, s pensava em rapazes sem juzo, Magnlia, a
anti-dogmtica, no se reduzia a uma frmula, a um figurino. Hoje moreno, amanh um loiro,
depois um escurinho, seguindo-se a inquieto adolescente um cinqento grisalho. Por que repetir
pratos com o mesmo tempero, de uma s cozinha? Dona Magnlia era ecltica.
     Quatro vezes por dia, ao menos, ao ir e vir de casa para a farmcia e vice-versa, o "soberbo
quarento" (segundo a bola de cristal de Dona Dinor) passava sob a janela, onde, em robe
decotado, Dona Magnlia plantara uns seios insolentes, to grandes e redondos quanto
oferecidos. Os rapazes do Ginsio Ipiranga, instalado em rua prxima, mudaram seus itinerrios,
para unnimes desfilarem em continncia sob a janela onde cresciam aqueles seios capazes de
amamentar a todos eles. Dona Magnlia enternecia-se: to lindos com suas fardas de colegiais,
alando-se os mais pequeninos nas pontas dos ps para a alegria de ver, o sonho de apalpar.
"Deix-los penar para aprender", discorria pedaggica Dona Magnlia, dando um jeito para
exibir ainda melhor os seios e busto (que o mais no lhe permitiam infelizmente expor na
moldura da janela). Penavam os garotos do colgio, gemiam os artesos da redondeza, caixeiros
transportando compras, jovens como Roque, o das molduras, velhos como Alfredo s voltas com
seus santos. Vinha gente de longe, da S, da Jiquitia, de Itapagipe, do Toror, do Matatu, em
peregrinao, apenas para ver aquelas faladas maravilhas. Um esmoler as trs da tarde, em ponto,
sob o sol, cruzava a rua:
    - Esmola para um pobre cego das duas vistas...
     A melhor esmola era a viso divina na janela: mesmo com o perigo do desmascaramento,
arrancando os culos negros, patolava os dois olhos de uma vez e arregalados naqueles dons de
Deus, bens da polcia. Se o secreta o perseguisse e o metesse no xadrez, sob a acusao de
impostura, de falsificao da mendicncia, ainda assim se daria o ceguinho por bem pago.
      Apenas doutor Teodoro, todo engravatado, na pompa de seu traje branco, nem erguia os
olhos para o cu exposto na janela. Curvando a cabea, num cumprimento de fina educao,
tirava o chapu a desejar bom dia e boa tarde, indiferente  plantao de seios que Dona
Magnlia cercara de rendas para obter maior efeito, para abalar aquele homem de mrmore, para
destruir aquela fidelidade conjugal, insultuosa. S ele, o morenao, o bonito, com certeza um p-
de-mesa, s ele passava sem deixar transparecer o impacto, a alegria, o xtase, sem ver, sem olhar
sequer aquele mar de seios. Ah! era demais, ultraje revoltante, insuportvel desafio.
      Mongamo, garantia Dona Dinor, conhecedora de todos os particulares da vida do doutor.
Aquele no era de trair mulher, no o tendo feito sequer com Tavinha Manemolncia, mulher
pblica se bem restrita em sua freguesia. Dona Magnlia, porm, tinha confiana em seus
encantos: "minha cara cartomante, tome nota, escreva o que lhe digo, no existe homem
mongamo, ns o sabemos, eu e vosmic. Espie na bola de cristal e se ela for de confiana lhe
mostrar o doutor na cama de um castelo - o de Sobrinha, para ser exata - tendo a seu lado, toda
pimpona, essa sua criada Magnlia Ftima das Neves".
     No se abalara o doutor com os olhos de desmaio da vizinha, com sua voz de convite a
responder-lhe o cumprimento, com os seios plantados na janela, crescendo  sombra e ao sol no
desejo dos meninos, no gemer dos velhos? Riu-se Dona Magnlia, tinha outras armas, ia
empreg-las, entrar em ofensiva imediata.
     Assim, em certa tarde de mormao, um peso no ar pedindo brisa e cafun, agrados de cama e
cantigas de ninar, Dona Magnlia transps os batentes da farmcia, levando na mo uma caixa de
injees para a nova tentao de Santo Antnio. Vestida de vero, com um trapo de fazenda
leve, ia mostrando riquezas ao passar, num desperdcio.
    - Pode o doutor me aplicar uma injeo?
     Doutor Teodoro media nitratos no laboratrio, a bata amidoada a faz-lo ainda mais alto e a
lhe dar certa dignidade cientfica. Com um sorriso ela lhe estendeu a caixa de injees. Ele a
tomou, depositando-a sobre a mesa, e disse:
    - Um momento...
     Dona Magnlia ficou de p a contempl-lo, cada vez lhe agradava mais. Um tipo, na boa
idade, de muita fora e valentia. Suspirou e ele, deixando os ps e a frmula, para a vizinha
ergueu os olhos:
    - Alguma dor?
     - Ah! seu doutor... - e sorriu como a dizer-lhe ser de cotovelo sua dor e ele a causa.
    - Injeo? - examinava a bula - Hum... Complexo de vitaminas... Para manter o equilbrio...
Esses remdios novos... Que equilbrio, minha senhora? - e sorria gentil como se achasse perda
de tempo e de dinheiro aquele tratamento de injees.
    - Dos nervos, seu doutor. Sou to sensvel, o senhor nem sabe.
      Tomava ele das agulhas com uma pina, retirando-as da gua quente, atento ao transpor o
lquido para a seringa, calmo e sem pressa, cada coisa de uma vez e em seu lugar. Um dstico,
pendurado sobre a mesa de trabalho, era uma declarao de princpios claramente exposta: "Um
lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar". Dona Magnlia leu, sabia de uma coisa e de um
lugar, maliciosa fitou a face do doutor; homem seguro de si, um figuro!
     Aps encharcar em lcool um capucho de algodo, suspendeu a seringa:
    - Levanta a manga...
    Voz de dengue e malcia, observou Dona Magnlia:
     - No  no brao, no, doutor...
     Ele puxou a cortina, ela suspendeu a saia, exibindo aos olhos do doutor riqueza ainda bem
maior e mais soberba do que aquela exposta diariamente na janela. Era uma bunda e tanto, das de
tanajura.
     Nem sentiu a picada, doutor Teodoro tinha a mo leve e segura. Agradvel sensao de frio
lhe deu o algodo calcado contra a pele no dedo do doutor. Uma gota de lcool correu-lhe pelas
coxas, ela novamente suspirou.
     Uma vez mais doutor Teodoro errou na interpretao daquele doce gemer:
    - Onde lhe di?
     Ainda a segurar a borda do vestido na ostentao dos quadris at ali irresistveis, Dona
Magnlia fitou o preclaro personagem bem nos olhos:
    - Ser que no entende, que no entende nada? No entendia mesmo:
    - O qu?
     J com raiva, ela largou a barra do vestido, cobrindo a desprezada anca, e, por entre os dedos,
falou:
    - Ser mesmo cego, ser que no enxerga?
     A boca, semi-aberta, a face parada, os olhos fixos, o doutor se
perguntava se ela no teria enlouquecido. Dona Magnlia, ante tamanho monumento de
estultcia, concluiu sua pergunta:
    - Ou  mesmo trouxa?
     - Minha senhora...
     Ela estendeu a mo e tocou a face do luminar da farmacologia, e com a voz novamente em
desmaio e dengue largou tudo:
     - No est vendo, tolo, que estou cada por voc, babada, doidinha? No est vendo?
     Foi se aproximando, seu intento era agarrar o cauteloso ali mesmo, pelo menos em
preliminares, e nem uma criana se enganaria ao v-la de lbios estendidos, de olhos em langor.
    - Saia! - disse o doutor em voz baixa mas de rude acento.
     - Meu mulato lindo! - e o atracou.
     - Saia! - o doutor repelia aqueles braos vidos, aquela boca voraz, plantado em seus
princpios, em suas convices inabalveis. - Fora daqui!
     Majestoso em sua virtude inflexvel, de seringa e de bata branca, o rosto indignado, se o
doutor estivesse sobre um pedestal seria o perfeito monumento, a fulgurante esttua da moral
vitoriosa sobre o vcio. Mas o vcio, ou seja a descomposta e humilhada Dona Magnlia, no
fitava o impoluto heri com olhos de remorso e contrio e, sim, de nojo e ira, em fria:
     - Broxa! Capado! Voc me paga, seu banana, seu chibungo velho!  e saiu para intrigar.
      Pobre Dona Magnlia, vtima do desprezo e do acaso, realmente em mar de urucubaca, pois
foram os mais imprevistos os resultados de sua intriga, redundando em fracasso seus planos de
vingana. Enftica e insultada (em seu recato, em sua honra de manceba sria), queixara-se ao
secreta da "perseguio daquele bode imundo, o farmacutico", um completo sem-vergonha a lhe
fazer propostas, a lhe repetir dichotes, a convid-la a ir com ele ver o luar nas areias de Abaet.
Estava o canalha a merecer uma lio, uns trancos pertinentes, talvez breve passagem pelo
xilindr com bolos de palmatria para lhe ensinar respeito s mulheres dos demais.
     Nada dissera antes para evitar barulho e para no dar desgosto  mulher dele, to boazinha.
Mas, naquele dia o tipo exagerara... Ela fora  farmcia tomar uma injeo e o patife quisera
meter-lhe a mo nos peitos, obrigando-a a sair correndo...
     Em silncio o secreta ouviu toda a histria, e Dona Magnlia, conhecendo-o bem, constatava
a raiva cada vez maior na face de seu homem: o doutor lhe pagaria caro a ofensa, pelo menos
uma noite de xadrez.
     Naquela tarde o policial se atritara com um colega, em conseqncia de erros de clculo na
barganha de uns mil-ris extorquidos a bicheiros. No dilogo um tanto spero a preceder a troca
de socos e bofetes, tendo o amsio de Dona Magnlia rotulado o companheiro de gatuno, dele
ouviu revelaes de estarrecer: "antes ladro, disse ele, do que chifrudo, corno manso como o
caro amigo". Acrescentara em seguida as provas de certas peripcias recentes de Dona Magnlia.
Em resumo lhe informou que s colegas da policia, eram cinco a se revezarem na tarefa de
decorar a testa do distinto. Sem falar no delegado de costumes. Se lhe pusessem uma lmpada em
cada chifre, dava para iluminar meia cidade, do Largo da S ao Campo Grande. Podia no ser
ladro, mas era a vergonha da polcia. Foram aos tabefes.
     De honra limpa na peleja, fez as pazes com o confrade e dele e de outros escutou informaes
de estarrecer: j tinha ouvido falar numa tal de Messalina? No  da zona no,  da Histria, e foi
a tal. Pois, junto de Dona Magnlia, era donzela pura...
     Acabrunhado, a vergonha da polcia jurou vingana, num plgio alis da ameaa de Dona
Magnlia ao farmacutico:
    - Vaca! Vai me pagar!
Assim, ouviu com ceticismo toda aquela lenga- lenga e, mal Dona Magnlia acabara de citar os
prprios seios com tanta dignidade defendidos dos pseudo-avanos do doutor, o detetive meteu-
lhe a mo nas fuas e lhe exigiu completa confisso.
     Surra de perito, de algum com experincia e gosto. Dona Magnlia contou o que fez e o que
no fez, inclusive casos antigos, sem ligao nenhuma com o polcia, e, de lambujem, a completa
verdade sobre suas relaes com doutor Teodoro. Completa verdade, em termos, pois ao
inocent-lo no deixou de opinar sobre o doutor: impotente, com muita figura  nenhuma
serventia, pois jamais algum lhe fizera a injria de resistir  paisagem de seu traseiro levantado
em guerra. Foi um alvoroo pela rua, um bafaf. Os tapas e os gritos, os palavres, trouxeram
para a frente da casa do secreta curiosa e fremente malta de vizinhos, comadres e alunos do
Ginsio. As comadres e em geral a vizinhana apoiavam a surra, bem merecida e bem aplicada,
com um nico defeito: haver tardado tanto. Os rapazolas do colgio sofriam cada bofete, cada
safano como se fora na prpria carne, sendo naquela carne de ternura e dengue por todos eles
possuda em adolescentes leitos solitrios. Houve noites nas quais ela dormiu, ubiqua fmea,
onipresente pastora de meninos, mestra do amor, em mais de quarenta camas juvenis num s
tempo de sonho e de arrebol.
     Quem, no entanto, penetrou na casa do secreta, foram Dona Flor e Dona Norma,
contentando-se os demais em aplaudir ou criticar, ningum queria encrenca com tira de policia.
     - Seu Tiago, o que  isso? Quer matar a desgraada? Vamos, solte ela... - gritou Dona Norma.
     - Bem merecia que eu acabasse com ela, essa vaca... - respondeu o esportista, aplicando uns
derradeiros golpes.
     - Pobrezinha dela... O senhor  um monstro... - disse Dona Flor, curvando-se sobre a moda
vtima do destino.
     - Pobrezinha? - o tira no podia com tamanha injustia. - Pois sabe o que esta pobrezinha
inventou sobre seu marido?
     - Sobre meu marido?
     - Pois veio me contar que o doutor estava atrs dela e que quis pegar ela hoje na farmcia, a
pulso. Quando eu apertei, confessou que era tudo mentira, que queria me intrigar com ele, para
eu ir tomar satisfao, que foi ela quem deu em cima e ele no topou. Isso sem falar no resto.
    Numa voz soturna perguntou:
     - A senhora sabe como estavam me chamando? "A vergonha da polcia".
     Naquela noite, ao sarem para o cinema, enquanto se aprontavam, Dona Flor ante o espelho,
pondo p-de-arroz, disse sorrindo ao doutor Teodoro:
     - Ento o senhor doutor anda querendo pegar as clientes que vo  farmcia tomar injeo...
Quis agarrar Dona Magnlia...
     Ele a fitou e se deu conta da pilhria: Dona Flor no mantinha o srio, lhe parecendo cmico
tudo aquilo. Por mais quisesse se enternecer com a lealdade do marido, no conseguia afastar a
imagem do doutor Teodoro de seringa na mo e a peituda Magnlia, descaradssima, a tentar
beij-lo. Marido direito estava ali, correto de toda a correo. Mas, que fazer se aquela histria se
lhe afigurava divertida, mais ridcula do que herica?
     - Maluca... Com que direito ela pensou que eu ia profanar meu laboratrio, abusar de uma
cliente?
     - No caso no era abuso, meu querido, ela mesma  quem estava se oferecendo...
     Ele baixou a voz, nunca perdera de todo a timidez ante a esposa, em assuntos como aquele:
     - Como poderia eu olhar para outra mulher, tendo voc, minha querida?
     Homem mais leal e correto no havia, Dona Flor lhe estendeu os lbios, ele a beijou de leve.
    - Obrigada, Teodoro, eu penso o mesmo a seu respeito.
     Na rua, nas esquinas, ao aperitivo no bar de Mendez, os homens comentavam a surra, seus
motivos e efeitos. Dona Magnlia fora recolhida em casa de parentes, estava em banho de gua e
sal, o secreta enchera a cara de cachaa.
     Seu Vivaldo da funerria levantava a questo: era ou no impotente o doutor Teodoro? No
s o afirmara a rapariga em alta voz (alis, aos gritos), como tambm - vamos convir - s um
eunuco seria capaz da recusa por ele oposta  tentao de Magnlia, s suas opulncias. Dava
para duvidar de sua macheza, isso dava. Moyss Alves, o fazendeiro de cacau, se exaltava, a
defender o boticrio:
     - Broxa? Mentira dessa sem-vergonha. Homem srio, com responsabilidade, voc queria que
ele se atracasse com a pecadora por cima dos remdios?
    Seu Vivaldo ainda assim permanecia critico:
     - Chuetar de um pedao desses... Na farmcia ou onde fosse... Se ela aparecesse l, no
"Paraso em Flor", com vontade de me dar, ia mesmo ali, num atade...
     Punha-se de acordo num detalhe: fosse por impotente ou por austero, doutor Teodoro
comportara-se mal ao expuls-la sem lhe marcar encontro:
    - Deus d nozes a quem no tem dentes...
Ecos dessas discusses, soltas nas esquinas e nos bares, acesas na cerveja e na cachaa, chegaram
aos ouvidos de Dona Flor e tambm os elogios gerais das amigas e vizinhas:
    - Se todo marido fosse assim, valia a pena...
     Indignara-se com o aleive contra o esposo e dissera a Maria Antnia, ex-aluna espalhafatosa e
alcoviteira, que veio visit-la s para futricar:
     - Se algum quiser saber se ele  homem de verdade, que venha aqui e eu mando ele mostrar...
    - Manda mesmo? - riu Maria Antnia em pndega e pagode. Riu tambm Dona Flor. Mesmo
irritada com o cochicheio, no podia conter o riso ante o grotesco da situao.
     Certa manh, tempos depois, quem apareceu foi Dionsia de Oxossi trazendo seu menino
gordo para tomar a bno  madrinha. Vinha pouco, ultimamente, de raro em raro. Contou o
desgosto que tivera ao descobrir um arranjo de mulher na vida do marido: cortando estrada com
o caminho, fazendo pouso aqui e ali, se metera ele com uma tipa em Juazeiro. Dionsia fora no
rastro de uma carta da perversa, fez um escarcu, ameaou mandar o traidor embora. Ameaa s,
minha comadre, qual  o homem que no tem suas desordens de mulher, que no pe chifres na
esposa? Mas sentira muito, at emagrecera, e s agora comeava a melhorar, pois o marido no
s terminara com a sujeita como nem mais dormia em Juazeiro.
     Dona Flor a consolou: quem no sofre essas contrariedades? Ela, Dona Flor, ainda no h
muito, tambm tivera o desprazer de uma descoberta a feri-la e a mago-la.
     - Tambm o doutor andou prevaricando? At ele? Bem eu disse a vosmic que nenhum
escapa de tropeo de mulher...
     - Quem? Teodoro? No, meu aborrecimento foi de outra coisa, diferente. Comadre Dionsia,
Teodoro  a exceo que confirma a regra
.  homem srio, por ele ponho a mo no fogo...
     Dera-se conta de repente Dona Flor, e quase o confessara a Dionsia, que, das duas histrias
de mulher acontecidas com o doutor Teodoro, a nica concreta, com princpio e fim, e a nica a
feri-la e a mago-la fundo, sucedera no com o segundo mas com o primeiro esposo: aquela
antiga histria, s agora revelada, entre Ins Vasques dos Santos e o falecido. Quando Dona Flor
se lembrava de Magnlia ou de Mirtes, logo a magra e sonsa Ins se erguia em sua frente, cadela
hipcrita, marafona!

Captulo 8

Duraram os ensaios da romanza cerca de seis meses at consider-la em perfeitas condies de
execuo o exigente maestro, mais exigente ainda naquele caso: obra de sua autoria e dedicada 
graa e bondade de Dona Flor, os "Arrulhos de Florpedes" eram seu ai-jesus.
     Todos os sbados  tarde, com sol ou chuva, numa ou noutra casa, l se reuniam eles a repetir
acordes para o prximo concerto j com data e local: da a uma semana na residncia dos Taveira
Pires.
     Haviam transcorrido aqueles meses na paz do Senhor, sem incidentes de monta, dignos de
especial registro,  exceo talvez da estria de Marilda "aos microfones do povo, os da Rdio
Amaralina, a Estao Menina, a mais jovem e a mais ouvida", a movimentar a vizinhana, a
comover a redondeza. Era como se todas aquelas ruas e becos estreassem pela voz da moa nos
ares da cidade, tal a agitao e o nervosismo.
     Dona Norma, capit, comandava a turma da torcida, delegao ruidosa, presente  Emissora
na data festiva. Um rateio entre vizinhos recolhera aprecivel mquia para uma lembrana: na
mo de seu Samuel das Jias - vendia jias e quanta coisa houvesse nesse mundo: casimiras,
tropicais, linhos, mveis, perfumes, tudo de contrabando e tudo de graa - obteve um amor de
relgio de pulso, moderno e original, com seis meses de garantia. "Suo, dezessete rubis, uma
barateza", afirmava seu Samuel, dando a impresso de vend-lo apenas para fazer um favor  sua
boa freguesa Dona Norma.
     A noite, seu Sampaio, a quem a compra excepcional fora exibida, constatou ter sido a esposa
mais uma vez ludibriada pelo velho mascate, o que se dava h vinte anos e se daria at um dos
dois bater as botas:
     - E se for ela a morrer primeiro,  capaz de na hora da agonia o velho Samuel lhe vender uma
extrema- uno, de contrabando... Nem suo nem to farto de rubis, fabricado em So Paulo
mas nem por isso mau relgio, " preciso acabar com essa mania de falar mal da indstria
brasileira to boa como qualquer outra", conclua nacionalista seu Z Sampaio.
     No dia da estria, como  natural e compreensvel, Dona Maria do  Carmo teve um faniquito
ao ver a filha em frente ao microfone e o espquer a anunciar-lhe as qualidades, "voz canora de
pssaro tropical". Tambm Dona Flor limpou umas lgrimas: tinha por Marilda ternura de me,
lutara para v-la ali e certa feita at se indispusera com doutor Teodoro por sua causa. Se a vitria
de Marilda pertencia a toda a vizinhana, era principalmente de Dona Flor. Para comemor-la,
trouxera os doces para a mesa oferecida em casa da moa, onde naquela noite abriram at uma
garrafa de champanha (oferta de Oswaldinho).
     Alm da estria da jovem cantora, saudada com simpatia pela crtica de rdio e pelo pblico,
houve ainda a viagem de Dona Gisa aos Estados Unidos, de improviso, dando lugar a fartos
comentrios. Nem sequer Dona Dinor com seu faro para adivinhar os particulares de toda
gente, nem ela imaginou jamais aquela notcia: falecera em New York um certo Mister Shelby e
deixara seus bens em herana a Dona Gisa. Quem era esse Mister e por que legara suas riquezas 
professora de ingls h tantos anos radicada no Brasil? A Dona Gisa no podiam perguntar, ela
embarcara da noite para o dia, sem aviso prvio e sem o protocolo das despedidas.
     Surgiram os boatos mais estapafrdios sobre o morto e sua fortuna. Disseram-no marido,
divorciado ou no, paixo antiga, caso de amor; mltiplas verses, honestas ou indecentes. Numa
coisa acordes: Dona Gisa abocanhava uma fortuna colossal, herana de milionrio mas milionrio
americano, rico em dlares e no em mil-ris.
     Ruiu toda a boataria quando o correio trouxe uma carta area para Dona Norma, que, antes
de abri-la, examinou longamente aqueles selos da estranja e a letra to familiar de Dona Gisa,
forte e difcil, parecendo caligrafia de doutor.
     De New York ela escrevia para anunciar a volta prxima: levara flores para o tmulo do
primo ("Primo? Acredite quem quiser... Era marido, se no fosse outra coisa", futricavam nas
esquinas e nos bares as comadres e os boas-vidas) e pusera em ordem seus assuntos. Realmente
herdara - sua nica parenta -, mas a herana reduzia-se a um automvel usado, objetos de uso
pessoal e de casa, umas poucas aes de companhias petrolferas do Oriente Mdio (convulso, as
aes em perigo). Vendera tudo e o apurado mal dera para pagar os gastos da viagem. Herana
mesmo o duvidoso primo s lhe deixara Monseigneur, um basset de linhagem pura, em breve nas
ruas da Bahia, pois Dona Gisa j estava tratando dos papis para traze-lo.
     E eis quanto sucedera naqueles meses, capaz de ser assunto desta crnica de Dona Flor e de
seus dois maridos. Fora disso, eram os ensaios, as sesses da Sociedade de Farmcia, as aulas da
Escola, visitas a parentes e amigos, idas ao cinema, o amor s quartas e aos sbados.
     Aos ensaios j no comparecia Dona Flor com a mesma assiduidade do comeo, sem os
considerar no entanto uma seca, uma estopada como algumas das esposas de membros da
orquestra, cuja opinio era pblica e notria. Por mais amiga do marido e solidria com suas
obrigaes e seus gostos, de quando em vez amolecia o corpo e gazeava o ensaio. Porque
realmente s mesmo eles, apaixonados pela msica, tinham condies para recolher naquela
montona repetio de melodias a paz interior e infinito prazer.
     Tampouco de presena pontual nas doutas reunies da Sociedade de Farmcia, com suas teses
e debates. Para que forar e ir? Para lutar a noite inteira contra o sono velhaco e fatal, buscando
manter-se atenta, sendo por fim vencida na vergonha dos cochilos? No resistira durante a sesso
inteira, nem mesmo quando o doutor Teodoro apresentara sua controvertida tese sobre os
barbitricos ("Da substituio dos infusos no tratamento da insnia por produtos orgnicos"); no
entanto, aquela fora noite apaixonante, de violentos debates, estando em jogo a reputao
cientfica do doutor. Tambm haviam entrado pela madrugada a discutir, e quando o esposo,
fremente e feliz, lhe ofereceu o brao, ela, que acordara com os aplausos, quase lhe pede
desculpas por ter dormido a sono solto, como se houvesse ingerido doses cavalares de infusos e
barbitricos. Ainda disse:
    - Meu querido...
     Mas ele, de to eufrico, nem reparava em seus olhos vermelhos, em sua face estremunhada.
    - Obrigado, minha querida. Que grande vitria!
     Arrasara, de uma vez para sempre, com os barbitricos cumprindo seu dever de cidado e
farmacutico. Na drogaria ele os vendia, a esses perigosos txicos, obtendo com eles, ao balco,
pingues lucros pois estavam no furor da moda. Erudito e estudioso farmacutico, e, ao mesmo
tempo, proprietrio de farmcia capaz e prspero, no se sentia o doutor incmodo ou dplice
com a contradio por acaso existente em sua conduta, pois observava com a mesma inflexvel
conscincia a nobre moral de cientista e a no menos digna moral de traficante.
     Acontecimento mesmo, a repercutir nas colunas dos jornais, a ser comentado em altas rodas,
movimentando costureiras, lojas de modas, alfaiates, cujo registro se torna aqui obrigatrio (nas
voltas que o mundo d quem sabe se um dia no iremos recorrer ao comendador Adriano Pires,
dono do dinheiro?), foi o concerto da Orquestra de Amadores Filhos de Orfeu no palacete em
festa do comendador do Papa, virtuose do violoncelo.
      Descrever aquela noitada de arte em seu esplendor completo, parece-nos impossvel tarefa,
acima de nossas foras e deste pobre estilo. Se algum quiser saber, por exemplo, dos trajes das
senhoras, de sua beleza e de seu chique incomparveis, ns o remetemos  coleo do jornal do
poeta Tavares, onde pode ler a cobertura feita pelo sempre brilhante Silvinho Lamenha, rbitro
nessa matria delicada. Quanto ao concerto propriamente dito, os interessados tm as opinies
expressas nas gazetas pelos crticos Fiserkaes e Jos Pedreira, alm da crnica de Hlio Basto,
homem de sete instrumentos, pois alm de pianista dava-se s letras e s belas-artes. Dona
Rozilda colecionou em Nazareth os recortes, quase todos eles referindo-se com louvores ao
doutor Teodoro e  "sua primorosa execuo no difcil solo de fagote na romanza de Agenor
Gomes, um dos pontos altos do concerto" (Coqueijo, "Pizicatos de um concerto", in "Gazeta da
Bahia").
     Naquela noite viu-se Dona Flor nas culminncias, no mais alto degrau da escada social,
ascendera e fora notada: "Gracioso ornamento, qual o costureiro parisiense a assinar o seu
vestido de moir fauve de decote drapeado, botando no chinelo muita gente boa?", como redigiu
Silvinho, o deus menino da sociedade. Estava presente toda a nata social, a gente mais importante
da Bahia, os personagens da poltica, do dinheiro, da intelectualidade, do Arcebispo Primaz ao
Chefe de Polcia, e entre eles, esnobes e enfastiados, aqueles vigaristas que haviam aplicado com
xito o golpe do ba, a comear pelos genros do comendador.
     Das imediaes do Largo Dois de Julho, alm do doutor Teodoro, apenas seu Z Sampaio,
colega de Cavalo Pampa no Clube dos Lojistas e seu antigo companheiro de colgio, recebera
convite. Recusou-se a ir:
     - No! Pelo amor de Deus... Deixem-me em paz, ando ruim do bao, preciso de repouso... V
voc sozinha, Norma, se quiser...
      claro que Dona Norma foi, no sozinha mas com Dona Flor e o doutor (como desprezar
um convite que era um privilgio? S mesmo seu marido, casmurro e anti-social, um bicho-do-
mato). O comendador dissera a Dona Imaculada: - Quero tudo do bom e do melhor...
     Foi tudo do bom e do melhor, Dona Imaculada podia ser uma provao cruel mas, justia lhe
seja feita, sabia receber. Contrataram (a peso de ouro) os servios do arquiteto Gilberbet Chaves
para a decorao dos jardins onde a orquestra tocaria.
     - No mea despesas, moo quero uma coisa boa, com palanque e tudo. Gaste o que for
necessrio... - o comendador avaro com empregados e com despesas midas, abria os cordes da
bolsa, empunhava o livro de cheques.
     Aquelas foram palavras de mel aos ouvidos de mestre Chaves, no medir despesas era com
ele. Gastou uma fortuna, mas que beleza! Parecia um jardim de contos de fada e o pequeno
anfiteatro era de uma audcia arquitetnica nunca vista na Bahia: "Gilberbet aprendam o nome
certo:  Gilberbet e no Gilberto ou Gilbert, como pronunciam certos rastaqueras - demonstrou
seu gnio ultramoderno" (Silvinho mais uma vez e no a ltima com certeza).
      Dona Flor, ao entrar, abriu a boca em admirao e pasmo. Dona Norma s pde articular
uma palavra:
    - Porreta!
      Dona Imaculada e o comendador recebiam os convidados, ela embrulhada em trapos vindos
da Europa, a empunhar seu lornho, ele mal-ajambrado apesar do smoking, da camisa de peito
duro do colarinho de ponta virada. Ao ver doutor Teodoro de fagote em punho, seu rosto
pintalgado de panos brancos se abriu num sorriso:
     - Carssimo Teodoro! Vamos dar a nota hoje... - feliz com o concerto e com o trocadilho.
     Erecta, Dona Imaculada estendia a ponta dos dedos para o beijo dos homens, a curvatura das
mulheres, como se uns e outras viessem lhe pedir a bno.
     - Que estrepe! - disse Dona Norma apenas se viu longe do lornho da comendadora.
     - Muito caridosa, porm...  Presidente da Sociedade de Assistncia aos Gentios da frica e
da sia... At j me escreveu sobre esse assunto - doutor Teodoro recebera h tempos uma
circular pedindo ajuda para as misses catlicas naqueles continentes, assinada pela
comendadora.
     Logo viram Urbano Pobre Homem, reluzindo em seu smoking recm sado do alfaiate (pago
pelo comendador ao saber que o violinista no podia comparecer ao concerto por falta de traje
adequado), a caixa do violino na mo. Sara de casa sob as vaias da esposa e ali buscava esconder-
se entre as rvores, passar despercebido. Doutor Teodoro arrastou-o ao anfiteatro, l deixaram os
instrumentos.
     Marcado para as oito e trinta, j passava das nove quando o maestro Agenor Gomes
conseguiu reunir seus msicos e dar incio ao concerto.
     Os convivas, bebericando pelas salas e jardins, no revelavam pressa e fora preciso o
comendador tomar, ele prprio, do microfone e berrar com raiva, a voz rspida:
     - O concerto vai comear, tomem logo seus lugares, vamos, vamos...
     Quem no atenderia quele apelo, ordem e no convite? Os rudos foram cessando,
cavalheiros e damas ocuparam as cadeiras, muitos homens permanecendo em p, na esperana de
escapulir. Verdadeira parada de elegncia, as mulheres exibindo jias de preo e decotes audazes,
os cavalheiros todos a rigor, o maestro envergando sua casaca. Na primeira fila, prximas a Dona
Imaculada, sentavam-se Dona Flor e Dona Norma. E o Arcebispo Primaz, s vsperas, segundo
diziam todos, do cardinalato.
     O maestro Agenor Gomes, emocionado da cabea aos ps ("j devia estar com o couro
curtido, mas ficou num p e noutro, a cada concerto, como se fosse o primeiro"), levantou a
batuta.
     A primeira parte foi ouvida com ateno e aplausos. A marcha de Schubert, tocada com
nfase e propriedade, e depois o primoroso violino do doutor Venceslau Veiga, na melodia de
Dodla, arrancaram palmas e at bravos de certos apreciadores e entendidos como o doutor Itazil
Bencio, "doubl de mdico e de artista" (Silvinho). Suava feliz o maestro Gomes.
      No intervalo, os convidados, como brbaros famintos, h meses sem comer, atiraram-se ao
rgio buf, onde, pela primeira vez em suas vidas, Dona Flor e Dona Norma viram e provaram
caviar.
     A Dona Flor, com seu paladar de mestra da cozinha, o to falado caviar - cada grama uma
fortuna - soube bem: " esquisito mas eu gosto". No concordou Dona Norma e, fazendo uma
careta, disse  amiga entre risos (gostava, isso sim, de champanha e j bebera duas taas):
    - Esse negcio tem um rano, no sei de qu...
     Riu tambm Dona Flor e, como doutor Teodoro se afastara para ir em busca de Urbano
Pobre Homem e obrig-lo a servir-se, recordou um dito do finado seu primeiro esposo, ao voltar
do Rio. Na viagem, Dona Flor no sabe onde, ele andara se fartando do tal de caviar e lhe
dissera, quando ela lhe perguntou que gosto lhe encontrara:
    - Tem gosto de boceta...  muito bom!
     Espocou Dona Norma em riso, um pouco tonta da champanha: fora um maluco o falecido,
um boca suja, um sem remdio mas to alegre, inesquecvel! "Menina, o finado tinha graa e
entendia desses gostos..."
     Voltava doutor Teodoro, trazendo pelo brao o Pobre Homem, Dona Flor apressou-se a lhe
preparar um prato, sem esquecer uma poro de caviar.
     Foi meio difcil juntar os convivas em frente ao anfiteatro para a segunda parte do concerto.
Logo os amantes da msica ocuparam seus lugares, mas eram minoria naquela massa de gente
apenas rica, a comer e a beber. O comendador, porm, deu ordens enrgicas aos empregados e
finalmente o maestro e a orquestra atacaram o "Simple Aveu".
     Aps a msica de Francis Thom, chegou-se ao momento culminante do concerto: o solo de
violoncelo executado pelo comendador Adriano Pires, o Cavalo Pampa. Aquele, sim, foi silncio
de verdade: at na copa e na cozinha a criadagem parou o trabalho e os garons suspenderam o
servio de bebidas at o fim do nmero. Dona Imaculada pessoalmente dera ordens no sentido
do silncio mais estrito.
     Esquecido de tudo, do mundo e de seus habitantes, o comendador do Papa, o seco
milionrio, naquela hora ao violoncelo era ntimo da alegria e da bondade, de repente um ser
humano.
     Aplausos infindveis quando terminou. De p no anfiteatro, apontando para o maestro e para
os colegas da orquestra, curvado, agradecia seu Adriano. Gritavam "bravos" e "bis", e no apenas
os entendidos, os da curriola da msica. Gritavam todos, destacando-se pela fora das palmas e
dos "bravos" o agiota Alrio de Almeida, que de msica no entendia neres: estava seus negcios
na dependncia de uma palavra do Cavalo Pampa.
    Como disse depois o Pobre Homem, o nmero do comendador deveria ter sido o ltimo do
programa, pois, aps ele, muitos convidados abandonaram a orquestra no jardim, foram para as
salas beber e conversar. Os que, sentados nas cadeiras, no se atreviam a sair, ouviram o resto do
concerto desatentos e alguns com certa impacincia. De quando em vez, um deles se enchia de
coragem e, pedindo desculpas aos vizinhos, dava o fora, indo se regalar no interior do palacete.
    Os Filhos de Orfeu, porm, nem percebiam essas deseres, prosseguindo com a mesma
afinao e qualidade. Os devotos da msica, sim, incomodavam-se com o movimento e o
cochicheio a aumentar. Dona Norma fez "psiu", voltando-se para trs quando doutor Teodoro
iniciou seu solo de fagote (os olhos na direo de Dona Flor). Dona Imaculada, atenta anfitrioa,
voltou-se tambm e fitou com seu lornho os impacientes. Foi quanto bastou: fez-se o silncio e
ningum mais teve a ousadia de querer se levantar.
    Os sons do fagote cresciam no ar, sobrevoavam o jardim, vinham tecer um halo de amor em
torno dos cabelos de to negros quase azuis de Dona Flor.
     Dona Flor semicerrara os olhos, ouvindo e reconhecendo atravs daquele solo de romanza
quanto ele lhe dera, seu bom marido. Ali estava ela onde nunca imaginara, sentada nos jardins da
casa mais aristocrtica da Bahia, tendo a seu lado a ouvir complacente, Sua Eminncia, o Senhor
Arcebispo Primaz, com sua prpura e seu arminho.
    Tanto lhe dera, tanto: paz e segurana, tranqilidade, ordem e conforto, quanto ela desejou e
ele pde adivinhar, projeo e nem um s desgosto, nem um sobressalto. Agora ia buscar no
ventre magro do fagote a grave nota de seu amor, de sua devoo. Ningum poderia desejar
melhor marido.
     Dona Norma, na hora de aplaudir, olhou para a amiga: havia uma lgrima na face de Dona
Flor. "Lgrimas de felicidade", sorria a boa vizinha, contente ela tambm com o sucesso do
doutor:
    - Doutor Teodoro tocou divinamente...
    A prpria Dona Imaculada, da cadeira prxima, dignou-se elogiar:
    - Seu marido saiu-se muito bem...
    Na grande sala de recepes as danas comearam apenas morreram os sons da orquestra, no
pot-pourri da "Viva Alegre", derradeiro nmero. No jardim, os ouvintes  frente o Primaz,
cumprimentavam o maestro e os msicos, cercando o comendador. Dona Flor no apagara a
lgrima da face, e o doutor, ao v-la comovida, se deu por bem pago dos seis meses de ensaio.
     Da sala vinham em busca de Hlio Basto para debulhar ao piano sambas e foxes, tangos e
boleros, improvisavam um arrasta-p. Doutor Teodoro, de fagote em punho, props a retirada:
mais de meia noite... Dona Norma pediu cinco minutos apenas, o tempo de emborcar mais uma
taa de champanha: "adoro!"
     Emborcou duas e no txi ria sem saber por qu, contente da vida. Dona Flor tomara entre as
suas as mos de seu marido, seu bom marido. Comentaram o concerto e a festa, ambos
magnficos. Tanta coisa de comer e de beber, tudo do melhor, o comendador gastara um
dinheiro.
     - Um exagero... - disse o doutor. - At caviar... Do verdadeiro, russo...
      Dona Norma, no bem-estar da champanha, piscou o olho para Dona Flor e dirigiu-se a
doutor Teodoro, numa voz de malcia s compreensvel a elas duas:
    - E caviar lhe agrada, doutor?
     - Sei que  acepipe para deuses, ainda hoje provei, porque no se deve perder uma ocasio
como essa, quando se pode comer manjar to caro. Mas vou lhe confessar, Dona Norma, no
consigo adaptar meu paladar ao gosto...
    - E que gosto o senhor acha que tem o caviar?
     Sorria pcara Dona Norma, numa euforia, descontrada. Dona Flor baixara a cabea, quem
sabe para esconder um sorriso de motejo. Doutor Teodoro procurou com que comparar o gosto
ainda recente da iguaria, nada encontrando:
     - Para ser franco no recordo nada com o mesmo gosto. Aqui para ns, que ningum nos
oua, que gosto mais ruim!
     - Ruim? - desmanchava-se em riso Dona Norma - Eu tambm acho... Mas h quem ache
bom, no  mesmo, Flor?
     Mas Dona Flor no ria, na sombra a face circunspecta, quem sabe triste ou apenas comovida?
Fitava a noite como se no ouvisse o riso da amiga. Apertando a mo do marido, lhe disse a meia
voz:
     - Uma beleza a msica e tua execuo, Teodoro.
    - Melhor no sei fazer... Sou um amador, mais nada.
     Para que melhor? Quem sou eu para exigir de ti, querido meu, seja o que seja? Que te trouxe
eu, que bens coloquei no meu prato da balana com igual para equilibrar com o teu, to pleno: do
dinheiro  romanza no fagote, do saber  fina educao, e essa limpidez, essa decncia? Nada te
trouxe, nada de acrescentei, e no sou translcida e perene, no tenho essa tua luz meridiana, sou
feita tambm de sombras, de matria noturna e transitria. Sou to pequena para tua altura,
Teodoro.
     No abrigo de bondes, esperando transporte, Urbano Pobre Homem os viu passar. Nas mos,
a caixa do violino e um embrulho com salgados e doces para Si Maricota.

Captulo 9

     O professor Epaminondas Souza Pinto, circunspecto e monarco, amava os provrbios e as
frases feitas, encontrando nesses ditos um resumo da sabedoria dos sculos, a expresso de
verdades eternas.
     "A felicidade no tem histria, com uma vida feliz no se faz romance", respondeu, quando
Chimbo, aquele parente importante do finado, lhe perguntara por Dona Flor, a quem no via h
anos, desde o absurdo carnaval ("h quantos anos, dois ou trs?") do enterro do estrina.
    - Pois casou de novo e  feliz... Faz um ano, mais ou menos, que uniu sua sorte  do doutor
Teodoro Madureira...
    - E qu mais lhe sucedeu?
    - Que eu saiba, nada... - e, para no perder a ocasio, colocou o adgio: - Como bem diz o
povo, a felicidade no tem histria...
    Chimbo, experiente da vida, concordou:
    -  isso mesmo. Quando sucede alguma coisa  quase sempre para aporrinhar o juzo da
gente... Se eu lhe contasse... Oua... Abriu o peito: naquela sua idade, provecta, professor!, fora se
meter com moa de dezenove anos- donzela no, mas quase. Um velhaco, aplicando o golpe do
noivado, comera-lhe os tampos, mas o fizera atabalhoadamente, com muita pressa, deixando uns
restos de cabao que Chimbo, vindo consolar e proteger, arrematara... Resultado, meu nobre
professor: a moa de barriga e ele com aquela responsabilidade...
     O professor Epaminondas Souza Pinto, de vida ilibada, no teve conselho nem consolao
para o desassossego do ilustre homem pblico, e,  falta de um bom parecer, deu-lhe parabns
pela "auspiciosa gravidez".
    Tampouco temos ns consolo ou prudente aviso para mestre Chimbo, sequer tempo e espao
- e de todo esse incidente aproveitamos apenas a verdade contida no refro: na feliz existncia de
Dona Flor e do doutor Teodoro nada mais aconteceu cuja narrativa se imponha, no sendo
nosso desejo alongar essa crnica, j substanciosa, com o relato de um quotidiano de bonanas,
montona e inspida matria anti-literria.
    A prpria Dona Flor, noticiarista de miudezas em sua parca correspondncia familiar, em carta
 irm Roslia, s vsperas do primeiro aniversrio de seu matrimnio com o farmacutico; dizia-
lhe nada ter a contar, de importncia.
     Enchera as pginas com notcias dos parentes vizinhos (durante aqueles anos Roslia acabara
conhecendo de nome aquela gente toda, atravs da irm). Contara de Tia Lita com seus achaques,
tio porto no envelhecia. Dona Rozilda sempre em Nazareth, pobre Celeste! Marilda, de sucesso
em sucesso, agora na Rdio Sociedade e com a promessa de gravar um disco. De Dona Norma
relatava uma histria, uma graa (" preciso conhecer Norminha pessoalmente, vale a pena"):
convidada numa tera-feira para ir no sbado seguinte a um batizado, se recusara "porque no
sbado j estou comprometida com um enterro". "Como pode saber que no sbado tem um
enterro, Norminha, se ainda  tera-feira?" Ora, como... Estava um conhecido seu para esticar, e
certamente o faria na noite de sexta para o sbado para assim aproveitar a semana inglesa e ter
um enterro. Dona Gisa, de regresso, trouxera de New York um cachorro, desses "que so
direitinho uma lingia", e, para Dona Flor, uma prenda linda, um broche. Mas, "imagine s,
Roslia, o que foi que a maluca da gringa deu a Teodoro: uma camisa toda cheia de mulheres
nuas, voc j pensou no doutor vestindo um trem desses? Educado como ele , no disse nada,
at agradeceu sem se zangar, mas a camisa eu guardei no fundo de minha gaveta para ele no
ficar toda hora vendo e com raiva de Gisa que  assim mas  muito boazinha". Quem estava
doente, sem sair de casa, era Dona Dinor, "imagine o sofrimento dela, com as juntas
emperradas, um reumatismo brabo, sabendo as coisas por terceiros". Ficou reduzida a botar
cartas para as visitas e a prever desgraas para todo mundo, numa irritao. At Dona Flor
ameaou, consultando os naipes: "me disse para tomar cuidado pois no h bem que sempre
dure, nunca vi boca de tanta praga, t'esconjuro".
      Tirante essas coisas rotineiras, nada havia a contar: "nada acontece, sempre a mesma vidinha
sem novidade". O doutor pretendera comprar a casa onde moravam, mas um dos herdeiros da
Drogaria decidiu vender sua parte e ir-se para o Rio. Doutor Teodoro consultara Dona Flor: "o
que lhe parecia mais certo e razovel: adquirir a casa ou a parte na farmcia?" Ao lhe perguntar,
argumentava: aquela parte lhe garantiria o controle da firma, scio majoritrio. Quanto  casa,
mais tarde a comprariam, quando pudessem. O proprietrio no tinha outra sada seno vender, a
renda do aluguel era ridcula.
     Em verdade, o doutor j formara opinio e decidira como melhor agir, e se demandava
conselho a Dona Flor fazia-o por gentileza e boa educao; "o tempo passa e o doutor no muda,
a mesma polidez, o mesmo sistema, o mesmo trato, sempre igual, um dia atrs do outro. Posso
dizer o que vai acontecer a cada instante, no passar das horas, e sei cada palavra, porque hoje 
igual a ontem".
     Transcorrendo assim a vida, suave e plcida, nesse lento e invarivel ritmo, como temer
mudana, como levar a srio as previses da cartomante de meia-tigela e entrevada, mais amadora
em seus baralhos e em suas adivinhas do que o prprio comendador Adriano Pires ao
violoncelo?
     At que ela, Dona Flor, no levaria a mal se algo sucedesse, um imprevisto qualquer a romper
a rotina dos dias igualmente felizes e pacatos. " at um pecado, minha irm, falar assim quando
se tem a vida que eu tenho, depois de haver comido o po amargo, mas a mesma coisa todo dia
cansa, at quando a gente est no bom e no melhor. Aqui pra ns lhe digo, mana saudosa, que
mesmo com essa vida to feliz, por todos invejada, por vezes me d uma agonia, to sem p e
sem cabea, difcil at de explicao, um no sei qu... Natureza ruim dessa sua irm que no sabe
apreciar como devido o quanto mereceu do cu sem para tanto ter merecimento: vida to
tranqila e um bom marido."
     Naquela ocasio, tendo ido num domingo  missa na Igreja de Santa Tereza, com sermo de
Dom Clemente ("Por que, Senhor, a paz no habita o corao dos homens?"), aps o oficio
dirigiu-se  sacristia na inteno de convidar o sacerdote para o primeiro aniversrio de seu
consrcio com o doutor Teodoro. No seria uma festa, propriamente: reuniam apenas os amigos
ntimos em torno a um clice de licor e uns doces, comemorando, ao mesmo tempo, a escolha
do boticrio para segundo tesoureiro da recm eleita diretoria da Sociedade Bahiana de Farmcia.
     - L estarei, com todo o prazer, para felicit-los por esse ano de harmonia conjugal, esse
exemplo de unio abenoada por Deus...
     Retirou-se Dona Flor, e o padre de marfim, numa autocrtica a seu sermo um tanto
pessimista, sorriu alegre: eis ali algum, Dona Flor, cujo corao era morada da paz, eis um ser
humano satisfeito e feliz com sua vida, desmentindo seu sermo de sombras e de dvidas.
     A meio caminho, pelo corredor, Dona Flor se deteve em frente ao extravagante grupo
composto pela imagem barroca de Santa Clara e pela madeira antiga e popular onde fora
esculpido aquele anjo de cinismo e de candura to igual ao finado, com a mesma insolncia e a
mesma graa irresponsvel.
     Coitada da santa: sua santidade, por maior e mais defensa, por mais forte de virtude, no
resistia ao olhar de frete do tinhoso, rendendo-se a ele a pobre bem-aventurada, entregues seu
decoro e sua vida, por ele pondo a perder sua salvao j conquistada, trocando pelo inferno o
paraso, por que, sem ele, de que valem o paraso e a vida?
    Ali, diante do grupo inslito em madeira e frete, Dona Flor ficou parada longo tempo, e a nave
de pedra e cal, imenso barco, levantou ncora e partiu, singrando os ares num mar azul de
nuvens, cu a fora.

Captulo 10

     Esmerou-se Dona Flor e a festinha foi das mais distintas, um sucesso completo a coroar o
primeiro aniversrio do "feliz conbio de duas almas gmeas", como disse, com estilo e acerto, o
doutor Slvio Ferreira, secretrio geral (reeleito) da Sociedade Bahiana de Farmcia, levantando
sua taa num brinde aos esposos, "ao nosso prezadssimo segundo tesoureiro e  sua digna
consorte, Dona Flor, exemplo de prendas e virtudes".
     Dona Flor anunciara a Dom Clemente a restrita presena de "alguns amigos prximos" mas,
ao franquear a porta, o padre deparou com a casa cheia, e no apenas de vizinhos. O prestgio do
doutor Teodoro e a simpatia de Dona Flor haviam trazido quele festejo ntimo um nmero
considervel de pessoas: dirigentes da classe farmacutica colegas da orquestra de amadores,
representantes comerciais, alunas e ex-alunas da Escola Sabor e Arte, alm de velhos amigos,
alguns importantes como Dona Mag Paternostro, a ricaa e o doutor Lus Henrique, o
"cabecinha de ouro". Antes mesmo de cumprimentar o casal, Dom Clemente abraou esse
"festejado beletrista": sua "Histria da Bahia" vinha de obter um prmio do Instituto "cobiada
lurea consagradora de um valor autntico" (vide Junot Silveira, "Livros & Autores", in "A
Tarde").
      Em matria de cultura, alm do discurso do doutor Ferreira, rico em tropos de retrica,
houve um pouco de msica. Doutor Venceslau Veiga executou duas rias ao violino, entre
aplausos. Aplaudida tambm  e muito - a jovem cantora Marilda Ramos Andrade, "a voz meiga
dos trpicos", apesar de lhe faltar acompanhamento: apenas Oswaldinho marcando o ritmo ao
pandeiro.
      Nessa improvisada hora de arte, doutor Teodoro fez um bonito, exibindo-se em nmero de
verdadeira sensao: tocou, ao fagote, todo o hino nacional, arrancando palmas no fim,
entusisticas.
      Fora disso, comeram e beberam, rindo e conversando. Na sala de visitas plantaram-se os
homens, na outra sala as mulheres, apesar dos protestos de Dona Gisa para quem essa separao
de sexos era um absurdo "feudal e maometano". Apenas ela e mais duas ou trs senhoras se
arriscavam a participar da roda masculina onde corria a cerveja e sucediam-se as anedotas, sujeitas
 censura de Dona Dinor, ainda alquebrada e dolorida mas impertrrita:
     - Essa Maria Antnia  uma debochada... Fica metida no meio dos homens a ouvir patifarias...
E ainda arrasta Dona Alice e Dona Misete ... Quanto  gringa, essa  a pior de todas... Vejam
como estende o pescoo para ouvir...
     Em compensao vejam Dona Neusa Macedo (& Cia.), exemplo de bom comportamento, na
roda das mulheres, ponderada e discreta, dando ateno a Ramiro, um mocinho de seus dezessete
para dezoito anos, filho dos argentinos da cermica. Se no fosse por ela, no teria o adolescente
com quem se entreter, pois os outros jovens cercam Marilda e lhe pedem sambas, valsas, tangos e
rancheiras, enquanto ele s deseja contar de suas pescarias: "peguei um vermelho, tinha cinco
quilos!"
     - Oh! - dizia ela em xtase - Cinco quilos? Que colosso! E que mais pescou? - que nome
colocar num pescador audaz? "leo de Fgado de Bacalhau" iria bem, e os olhos de Neusoca se
iluminam.
     O argentino, ao chegar com a esposa e o filho, deparou na porta com seu Vivaldo da funerria
"Paraso em Flor". Juntos foram felicitar os donos da casa e, de regresso  sala dos homens, o
portenho Bernab, com sua franqueza um tanto incivil, comentou a elegncia de Dona Flor, cujo
vestido matava de inveja todas as mulheres presentes e, de quebra o nervoso Miltinho, chibungo
que fazia as vezes de arrumadeira  alis excelente - em casa de Dona Jacq, emprestado para
ajudar na festa. ("Dona Flor hoje est abusando, est de cachupeleta").
     - Quem faz mulher bonita  dinheiro... - disse seu Hector Bernab. - Repare a elegncia de
Dona Flor e como est formosa...
     Seu Vivaldo reparou, gostava alis de reparar nas mulheres e de medir contornos, curvas,
reentrncias.
    - Para dizer a verdade, ela sempre foi elegante e graciosa, no to bonita,  certo. Agora est
mais mulher, um pancado, mas no creio que seja do dinheiro...  da idade, meu caro, ela est
na medida exata. Maluco  quem gosta de meninota, nem juntando dez se pode comparar com
uma sinh na fora da idade, arrebentando os coletes...
      - Mire os olhos dela... - disse o argentino, pelo visto ele tambm um apreciador.
      Olhos de quebranto, perdidos na distncia, como se entregues a voluptuosos pensamentos.
Seu Vivaldo quisera saber que pensamentos assim ternos inspirava o farmacutico, a ponto de
tornar to cismarenta Dona Flor. Ela ia de uma sala a outra, atendendo seus convivas, gentil e
prazenteira, perfeita Dona de casa. Realizava no entanto tudo aquilo maquinalmente.
     Seu Vivaldo ps a mo no brao do argentino: no  dinheiro que faz mulher bonita, seu
Bernab,  o trato,  o descanso do esprito, a felicidade. Aqueles olhos de quebranto e as ancas
de requebro se deviam  alegre paz de sua vida.
     Curiosa a expresso de seu olhar... Quando a vira antes com aquele mesmo olhar perdido,
como se olhasse para seu prprio corao? Seu Vivaldo busca na memria e a reconhece: era
aquele mesmo olhar do velrio do finado. Com idntica expresso, distante, recebia ento os
psames como hoje os parabns, os olhos fitando mais alm do tempo, como se no existissem
em seu redor nem lgrimas de luto nem risos de festejo, apenas solido. Sua beleza, deu-se conta
seu Vivaldo, vinha tambm de dentro dela, numa dimenso que lhe escapava.
     Na sala onde as mulheres se reuniam, o tema da atual vida feliz de Dona Flor mais uma vez se
imps. Vrias senhoras presentes, as da orquestra e as da farmacopia, pouco sabiam daquele
desastroso primeiro casamento e do marido.
     As vizinhas e as xeretas outra coisa no desejavam seno contar e comparar: contaram e
compararam a lc de parler. Para elas no havia diverso melhor: nem as anedotas picantes que
faziam os homens (e as sem vergonhas como Maria Antonia) rir s gargalhadas na outra sala, nem
ficar em torno a Marilda a pedir-lhe velhos sambas, velhas valsas, em hora da saudade, como
Dona Norma, Dona Maria do Carmo, Dona Amlia, e os rapazolas (todos eles por Marilda
apaixonados), nada se podia comparar com o prazer do falatrio. O primeiro casamento, fiquem
sabendo, carssimas amigas, fora o inferno em vida.
     Essa felicidade do segundo matrimonio faz-se ainda maior e mais preciosa, tem mais valor,
por comparao e por contraste com o erro do primeiro, uma provao, um desastre, uma
desgraa! Quanto sofrera a pobre mrtir nas mos do monstro recoberto de vcios e ruindades,
um satans: chegara at a lhe bater.
     - Meu Deus! - Dona Sebastiana, aflita, punha a mo no peito vasto.
     Como sofrera! Tanto quanto pode sofrer uma dedicada esposa, em humilhao na rua da
amargura, trabalhando para sustentar a casa e ainda a jogatina do devasso, sendo o jogo, como 
pblico e notrio, o pior dos vcios e o mais caro. Se agora era feliz, bem desgraada fora!
      Da copa, Dona Flor escuta essas memrias de sua vida, os olhos na distante bruma. Com
Dona Gisa no crculo de anedotas, com Dona Norma na roda das serestas, ningum abriu a boca
para defend-lo, ao falecido.
      Por volta da meia noite, despediam-se os ltimos convidados. Dona Sebastiana, ainda na
emoo da narrativa daquele martirolgio a durar sete anos - como suportara, coitadinha? - tocou
a face de Dona Flor num desvelo e lhe disse:
     - Ainda bem que agora mudou tudo e voc tem o que merece...
     Marilda, ofuscando com sua luz de estrela os jovens estudantes, partiu a cantarolar um tango-
cano de serenata, aquele: "noite alta, cu risonho, a quietude  quase um sonho...", o de Dona
Flor, enterrado no carrego do defunto.
     Doutor Teodoro, um sorriso de satisfao, foi levar  porta os convivas derradeiros, um grupo
ruidoso, envolvido em discusso interminvel sobre os efeitos da msica no tratamento de certas
enfermidades. Discordavam doutor Venceslau Veiga e doutor Slvio Ferreira. Para no perder o
finzinho do debate, o dono da casa acompanhou os amigos at o bonde. J no se ouvia o canto
de Marilda.
     Sozinha, Dona Flor deu as costas a tudo aquilo; os doces, as garrafas de bebida, a
desarrumao das salas, os ecos das conversas na calada, o fagote a um canto, mudo e grave.
Andou para o quarto de dormir, abriu a porta e acendeu a luz.
     - Voc? - disse numa voz clida mas sem surpresa, como se o estivesse esperando.
     No leito de ferro, nu como Dona Flor o vira na tarde daquele domingo de carnaval quando os
homens do necrotrio trouxeram o corpo e o entregaram, estava Vadinho deitado, a la godaa, e
sorrindo lhe acenou com a mo. Sorriu-lhe em resposta Dona Flor, quem pode resistir  graa do
perdido, quela face de inocncia e de cinismo, aos olhos de frete? Nem uma santa de igreja,
quanto mais ela, Dona Flor, simples criatura.
    - Meu bem... - aquela voz querida, de preguia e lenta.
    - Por que veio logo hoje? - perguntou Dona Flor.
     - Porque voc me chamou. E hoje me chamou tanto e tanto que eu vim... - como se dissesse
ter sido o seu apelo to insistente e intenso a ponto de fundir os limites do possvel e do
impossvel. Pois aqui estou, meu bem, cheguei indagorinha... - e, semi levantando-se, lhe tomou
da mo.
     Puxando-a para si, ele a beijou. Na face, porque ela fugiu com a boca:
    - Na boca, no. No pode, seu maluco.
     - E por que no?
     Sentara-se Dona Flor na borda do leito, Vadinho novamente se estendeu a la vonte, abrindo
um pouco as pernas e exibindo tudo, aquelas proibidas (e formosas) indecncias. Dona Flor se
enternecia com cada detalhe desse corpo: durante quase trs anos ela no o vira e ele
permanecera igual como se no tivesse havido o tempo. - Tu est o mesmo, no mudou nem um
tiquinho. Eu, engordei.
     - Tu est to bonita, tu nem sabe... Tu parece uma cebola, carnuda e sumarenta, boa de
morder... Quem tem razo  o salafra do Vivaldo... Bota cada olho em teu pandeiro, aquele
fstula...
     - Tira a mo da, Vadinho, e deixa de mentira... Seu Vivaldo nunca me olhou, sempre foi
respeitador... Vai, tira a mo...
    - Por que, meu bem...? Tira a mo, por qu?
     - Voc se esquece, Vadinho, que sou mulher casada e que sou sria? S quem pode botar a
mo em mim  meu marido...
     Vadinho pinicou o olho num deboche:
     - E eu o que  que sou, meu bem? Sou teu marido, j se esqueceu? E sou o primeiro, tenho
prioridade...
     Aquele era um problema novo, nele no pensara Dona Flor e no soube contestar:
     - Tu inventa cada coisa... No deixa margem pra gente discutir...
     Na rua, de volta, ressoaram os passos firmes do doutor Teodoro.
     - L vem ele, Vadinho, vai-te embora... Fiquei contente, muito contente, nem sabes, de te
ver... Foi bom demais.
    Vadinho bem do seu, a la godaa.
     - Vai embora, doido, ele j est entrando em casa, vai fechar a porta.
    - Por que hei de ir, me diga?
    - Ele chega e vai te ver aqui, que  que eu vou dizer?
     - Tola... Ele no me v, s quem me v s tu, minha flor de perdio...
    - Mas ele vai deitar na cama...
    Vadinho fez um gesto de lstima impotente:
     - No posso impedir, mas, apertando um pouco cabe ns trs...
    Dessa vez ela se zangou deveras:
     - Que  que tu pensa de mim ou tu no me conhece mais? Por que me trata como se eu fosse
mulher-dama, meretriz? Como se atreve? No me respeita? Tu bem sabe que sou mulher
honesta...
     - No se zangue, meu bem... Mas, foi voc quem me chamou...
    - S queria te ver e conversar contigo...
     - Mas se a gente nem conversou ainda...
    - Tu volta amanh e a ns conversamos...
     - No posso estar indo e voltando... Ou tu pensa que  uma viaginha de brinquedo, como ir
daqui a Santo Amaro ou a Feira de Sant'Ana? Pensa que  s dizer "eu vou ali, j volto?" Meu
bem, j que vim eu me instalo de uma vez...
    - Mas no aqui no quarto, aqui na cama, pelo amor de Deus. Veja, Vadinho, mesmo ele no te
vendo, eu fico morta de sem jeito. No tenho cara para isso - e fez sua voz de choro, jamais ele
tolerou v-la chorar.
    - Est bem, vou dormir na sala, amanh a gente resolve isso. Mas, antes, quero um beijo.
    Ouviam o doutor no banheiro a se lavar, o rudo da gua. Ela lhe estendeu a face, pudorosa.
    - No, meu bem... Na boca, se quiser que eu saia...
      O doutor no tarda: que fazer seno sujeitar-se  exigncia do tirano, entregar-lhe os lbios?
      - Ai, Vadinho, ai... - e mais no disse, lbios, lngua e lgrimas (de pejo ou de alegria?)
mastigados na boca voraz e sbia. Ah!, esse sim, um beijo!
      Ele saiu com sua nudez inteira, to belo e msculo! Doirada penugem a lhe cobrir braos e
pernas, mata de pelos loiros no peito, a cicatriz da navalhada no ombro esquerdo, o insolente
bigode e o olhar de frete. Saiu deixando o beijo a lhe queimar a boca (e as entranhas).
      Transpondo a porta, doutor Teodoro lhe fez os devidos elogios.
     - Festa de primeira, minha querida. Tudo em ordem, nada faltou, tudo perfeito. Assim  que
eu gosto, sem um deslize... - e foi mudar a roupa atrs da cabeceira do leito de ferro, enquanto ela
vestia a camisola.
    - Felizmente tudo correu bem, Teodoro.
      Para comemorar o aniversrio, escolhera aquela camisola de rendas e babados da noite de
npcias em Paripe, obra de Dona Enaide, e desde ento guardada. Viu-se ao espelho, bonita e
desejvel. Teve vontade que Vadinho a visse, mesmo de relance.
     - Vou l dentro beber gua, volto num minuto, Teodoro. Era capaz do outro ter adormecido,
na fadiga da longa travessia. Para no acord-lo, foi pelo corredor na ponta dos ps. Queria
apenas v-lo por um instante, tocar-lhe a face se dormido, mostrar-lhe (de longe) a transparente
camisola, se desperto.
     Chegou apenas a tempo de enxerg-lo, partindo atravs da porta, nu e com pressa. Ficou
parada e glida, uma dor no corao; ofendido, hei-lo de retorno, e ela para sempre s. No mais
seu rosto fino onde pousar os lbios, no mais se exibiria de camisola em sua frente (para que ele
estendesse a mo e a arrancasse rindo), nunca mais. Ofendido, ele partira.
     Antes assim, talvez. Com certeza, antes assim. Era mulher direita, como olhar para outro
homem, mesmo aquele, tendo seu marido na cama a esper-la, de pijama novo (presente de
aniversrio de casrio)? Antes assim; Vadinho indo embora e para sempre. J o vira, j o beijara,
no desejava mais. Antes assim, repetia, antes assim.
     Desprendeu-se dali, andou para o quarto. Por que to logo de retorno? Por que de volta assim
to de repente, se, para vir, atravessara o espao e o tempo? Quem sabe, ele no se foi de vez?
     Quem sabe, sara de passeio, para lanar uma olhadela na noite da Bahia ver como andava o
jogo, como o tinham cultivado em sua ausncia - sara apenas em inspeo, em ronda, do Place
ao carteado de Trs Duques, do Abaixadinho,  casa de Zez da Meningite, do Tabaris ao antro
de Paranagu Ventura.

Parte V

DA TERRVEL BATALHA ENTRE O ESPIRITO E A MATRIA, COM
ACONTECIMENTOS
SINGULARES E PASMOSAS CIRCUNSTANCIAS, POSSVEIS DE OCORRER
SOMENTE NA
CIDADE DA BAHIA, E ACREDITE NA NARRATIVA QUEM QUISER

(com um caro de atabaques e agogs e com Exu a tirar uma cantiga de sotaque: "J fechei a porta
j mandei abrir. ")

ESCOLA DE CULINRIA SABOR E ARTE

COMIDAS E QUIZILAS DE ORIXS

(Informao prestada por Dionisia de Oxssi)

     Toda quarta feira Xang come amal e nos dias de obrigao come cgado ou carneiro (ajap
ou agutan).
    Ew, orix das fontes, tem quizila com cachaa e com galinha. Iy Mass come conqum.
Para Ogum guardem o bode e o akik que  galo em lngua de terreiro. Omolu no suporta
caranguejo.
De espelho e leque, de melindre e dengue, Oxum gosta de acar e de ipet feito com inhame,
cebola e camaro. Para acompanhar carne de cabra, sua carne predileta, sirvam-lhe adun: jub de
milho em dend e mel de abelhas.
     Oxssi, encantado de maior respeito, rei do Ketu e caador,  cheio de quizilas. Na floresta
enfrenta o javali mas no come peixe se o peixe for de pele, no tolera inhame e feijo branco, e
no quer janelas em sua casa - sua janela  o mato.
     Para a guerreira que no teme a morte nem os eguns, para Yans, no ofeream abbora, no
lhe dem alface ou sapoti, ela come acaraj. Feijo com milho para Oxumar, para Nanan caruru
bem temperado.
     Doutor Teodoro  de Oxal, logo se v pelo modo srio e pela compostura. Quando est
luzindo terno branco e leva seu jagote igual a um pssaro, parece Orolujan; Oxal velho, o maior
dos orixs, o pai de todos. Suas comidas so ojoj de inhame, eb de milho branco, cata sol e
aca. Oxal no gosta de temperos, no usa sal nem tolera azeite.
     Dizem ter sido o sob Didi quem fez o jogo para o finado e os bzios por trs vezes
confirmaram: o santo de Vadinho era Exu e nenhum outro. Se Exu  o diabo, como consta por
a? Talvez Lcifer, o anjo decado, o rebelde que enfrentou a lei e se vestiu de fogo.
     Comida de Exu  tudo quanto a boca prova e come, mas bebida  uma s, a cachaa pura.
Nas encruzilhadas Exu aguarda sentado sobre a noite para tornar o caminho mais difcil, o mais
estreito e complicado, o mau caminho no dizer geral, pois Exu s quer saber de reinao. Exu
mais reinador o de Vadinho.

Captulo 1

      No tardaria o crupi a anunciar a ltima bola, eram a madrugada e o cansao. Em desespero,
Madame Claudette andou de jogador a jogador, estendendo, de um a um, a mo de pedinte. J
no conseguia sequer dar  voz e aos olhos entonao de convite, toque de malcia, promessa de
doce pagamento. J no tinha nem um resqucio de amor-prprio, apenas medo da fome, de
morrer de fome. J no dizia, com seu puro acento parisiense: "mon chri", "mon petit coc",
"mon chou", apenas suplicava, numa voz de dentes podres, uma ficha, ao menos uma das
pequenas, de cinco mil-ris. No para jogar: para remir, garantindo o de-comer do outro dia.
     Se a houvessem atendido quando penetrara, frustrando a vigilncia do porteiro ou
comovendo-o (havia ordens para barrar-lhe a entrada), ento colocaria a ficha na roleta para
multiplic-la com certeza e obter o dinheiro para o aluguel vencido da pocilga no sobrado do
Pelourinho onde habitava com ratos e baratas (umas baratas negras e cascudas: subiam-lhe pela
cama, um nojo). Cada manh era acordada aos gritos e escarros, pelas ameaas de despejo
imediato do Fedorento, preposto da senhora Dona Imaculada Taveira Pires, proprietria daquele
e de muitos outros cortios, cuja renda total o comendador lhe destinara, para suas caridades.
     O aluguel, quem sabe?, talvez ainda conseguisse um prazo, um dia ou dois, se o Fedorento
aparecesse disposto a "aliviar a matria", como ele dizia, e ela lhe satisfizesse as necessidades.
Preo terrvel, no dizer dos que conheciam o Fedorento (mesmo conhecendo tambm Madame
Claudette e sua extrema decadncia; perto dele Madame era perfume e flor).
     Prxima dos setenta - se l no chegara ainda -, quase calva, uns ralos cabelos, cacos de
dentes, olhos de catarata, j no tinha ela como professar o honrado ofcio no qual um dia fora
excelsa majestade, quando os clientes faziam fila na sala da penso de mulheres onde o exercitava
com requinte. Desembarcara em Salvador na fora e no encanto dos quarenta anos, parecendo
vinte e cinco, via Buenos Aires, Montevidu, So Paulo, Rio, "sensao de Paris" e do alto
meretrcio da Bahia, num tempo to distante que dele Madame Claudette no guardava seno
dbil memria, no lhe servindo assim aquele fausto nem mesmo como fonte de alegria.
     Foi descendo aos poucos, rua a rua, da Penso Europa, na Praa do Teatro, supra-sumo do
chique, onde os coronis do cacau rasgavam notas de quinhentos e aprendiam, em curso intenso,
as finuras glicas do prazer, foi baixando de hierarquia e preo at chegar, numa viagem de anos e
anos, implacvel,  ltima imundcie no sop das ladeiras, nas sarjetas do Julio e do Pilar, do
Beco da Carne Podre. E, por fim, nem isso. Viveu ento nos quartos miserveis sua amarga
fome. Num trotoar escuso, oferecia-se por um nquel nas esquinas mais sombrias, "mich de
Paris, mon coc". Certa ocasio um negro no comeo da cachaa lhe disse quase afetuosamente,
dando-lhe um nquel:
    - V criar seus netos, vov, voc no serve mais pra puta...
     No tinha netos, nem um s parente, nem um s amigo, nada. Tampouco vestidos elegantes
para usar, os trapos derradeiros eram um misto de remendos e de sujo. Vendera, pea a pea,
tudo quanto possura. A ltima jia, a que conservara por mais tempo (tinha sido herana de
famlia), dela se desfizera certa madrugada, h uns dez anos (mais ou menos, Madame Claudette
h muito deixou de contar meses e anos), quando j no declnio exercia na rua So Miguel, mich
barato. Vadinho, parceiro insensato mas galante, lhe oferecera montes de dinheiro e levara o
colar azul- turquesa.
      Naquela hora, ali diante da mesa de roleta, no instante exato de fazer o jogo, no giro da
derradeira bola, Madame Claudette sem fichas, sem vintm e sem esperanas, recordou Vadinho.
Com lucro ou perda, em noite de sorte ou de urucubaca, jamais deixara ele de lhe oferecer pelo
menos uma ficha de dez tostes e seu palpite. De uma feita, ele quase estoura a banca no Cassino
Tabaris, saiu com os bolsos abarrotados de dinheiro, foi para a zona festejar com uma cambada
de amigos, bebendo aqui e ali. L chegando distribura, entre as mulheres, como um rei da
Carochinha, cdulas de cinco e de mil-ris, algumas de vinte e de cinqenta. Foi um delrio, as
vagabundas o carregaram em procisso.
     Se Vadinho fosse vivo, se estivesse ali, uma ficha ao menos lhe daria, garantindo-lhe um bife
com feijo e o mao de cigarros, fazendo-o ao demais com aquele seu sorriso trfego, com
insolente graa, a lhe dizer: "A seu dispor, Madama, a seu servio". Madame respondia: "Merci,
mon chou", ia jogar. Mas, Ah! ele morrera moo, num carnaval, se no lhe falha a memria gasta.
     No momento exato em que o recordou, ento sucedeu: ia Chastinet, o crupi perfeito,
recolher e pagar a ltima bola, as mos cheias de fichas - de cem, de duzentos, de quinhentos: as
de quinhentos eram grandes, de madreprola, uma beleza - quando lhe deu uma coisa, uma
agonia, como se lhe atravessassem o corpo. Soltou um grito rouco e breve, suspendeu os braos e
abriu as mos, as fichas rolaram no tapete.
     Ativos os malandros se precipitaram, foi uma confuso de homens e mulheres curvados na
disputa. S Madame Claudette, de to confusa e em desespero, nem teve foras para se atirar
naquele rolo, ficou parada, enquanto Chastinet, j recomposto, punha-se de joelhos para recolher
as sobras. Tambm Granuzo, chefe da sala, veio correndo para salvar o que pudesse. Sobrou
ficha para todos, menos para ela, atnita.
     No decote de pelancas, sentiu Madame Claudette a mo lhe colocar uma das grandes, das de
madreprola, das de quinhentos, dinheiro de sobra para pagar o quarto e garantir uma quinzena
de almoos.
     "A seu dispor, Madama, a seu servio", pareceu-lhe ouvir aquela ver de astcia e picardia.
"Merci, mon chou". respondera num costume antigo. Tomou o caminho da caixa para remir sua
fortuna, sendo demasiado velha e sofrida para buscar explicao. Um dos jogadores certamente,
com generosidade e rapidez, lhe pusera no decote uma daquelas fichas afanadas. "Merci, mon
vieux", fosse quem fosse.

Captulo 2

      Dona Flor despertou em sobressalto: j doutor Teodoro tomara seu banho e fizera a barba,
comeava a mudar a roupa.
    - Dormi demais...
     - Minha querida, voc deve estar morta de cansada,  natural. No  brincadeira preparar um
brdio como o de ontem e depois receber as pessoas, atend-las... Voc precisa descansar. Por
que no fica na cama? Eu me arranjo com a empregada...
    - Na cama? Se no estou doente...
     Saiu do leito de ferro, arrumou-se s pressas: tomavam juntos o caf pela manh, e Dona Flor
fazia questo de pr o cuscuz no fogo, somente ela preparava a massa ao gosto do marido, leve e
fofa, para isso usando uma pitada de tapioca em p.
     Cansao, sim, mas no da festa; fatigada da noite insone, o ouvido  escuta como nos outros
tempos,  espera dos passos pela rua, altas horas. Alm da preocupao: notara, por acaso
Teodoro, alguma diferena em seus modos quando do festejo principal com que encerraram as
brilhantes comemoraes do aniversrio. No era quarta-feira nem era sbado mas Dona Flor
tinha vestido a camisola nupcial e o doutor dissera:
     - Que lembrana mais gentil, querida. H ocasies que se impem e me perdoe se hoje abuso,
rompendo o calendrio... - era sempre to prudente e delicado, que mulher no ficaria cativa de
sua educao?
     Aquiesceu Dona Flor, mas com os sentimentos em desordem. Seus lbios machucados, a
boca em fogo, a adusta lngua guardavam o sabor picante de Vadinho, seu ardido gosto, e assim o
beijo com que o doutor invariavelmente dava incio a seus transportes, lhe soube chocho e
inspido.
     De todo confusa, ela se perdeu, rompendo-se a coordenao justa e perfeita a faz-los
unssonos no prazer casto porm impetuoso. Conturbada, no acompanhou o marido passo a
passo como de hbito, e l se foi ele primeiro enquanto Dona Flor s no bis (pois houve bis)
conseguiu soltar-se da priso dos nervos tensos. Jamais se dera assim, com tanto desacerto, quase
uma repetio da noite de equvocos de Paripe. Por sorte, se ele a percebera estranha e esquiva,
atribura desencontro e modos  fadiga,  trabalheira das comemoraes de aniversrio.
De manhzinha, quando uma luz ainda encardida pela noite veio esbater-se nas paredes, Dona
Flor ouviu passos na distncia, e ento adormeceu de um sono pesado, como se houvesse
ingerido entorpecentes. Enfiou as chinelas, a bata de flores sobre a camisola, passou o pente nos
cabelos, saiu para a cozinha. Ao chegar  sala, porm, percebeu o coisa-ruim estendido no div,
em sua impudica nudez. Tinha de acord-lo mesmo antes de temperar o cuscuz (da cozinha
chegava o suave aroma do caf coado pela ama). Dona Flor tocou o ombro de Vadinho, ele abriu
um olho, resmungando:
    - Me deixa dormir, cheguei faz pouco...
     - Tu no pode dormir aqui, na sala...
     - O que  que tem?
    - J te disse, fico sem jeito...
     Ele fez um gesto impaciente:
    - E eu com isso...? Me deixa em paz...
    - Tu j comea com teus modos brutos... Por favor, Vadinho...
    Ele abriu de novo os olhos, e preguioso lhe sorriu:
    - T bom, tola. Vou para o quarto... O meu colega j saiu?
     - Colega?
    - O teu doutor... No somos os dois casados contigo, teus maridos?
Colegas de babaca, meu bem... - olhava-a com astcia e impudncia.
    - Vadinho! No admito essas pilhrias...
    Falara alto e da cozinha veio a voz da empregada:
     - Falou comigo, Dona Flor?
    - Estou dizendo que j vou fazer o cuscuz...
    - No se zangue, meu bem... - disse Vadinho levantando-se.
     Estendeu
a mo para agarr-la
- Oh! nudez mais indecente! - Mas ela fugiu.
    - Tu no tem juzo...
     No corredor cruzaram-se os dois homens e vendo-os passar um pelo outro, Dona Flor sentiu
ternura pelos dois, to diferentes mas ambos seus esposos na igreja e no juiz "Os dois colegas"
pensou a rir da graa chula. Logo se conteve: "Meu Deus, estou ficando cnica que nem
Vadinho". Alis, o cnico lhe piscava um olho cmplice, enquanto punha a lngua para o doutor, a
mo num gesto pornogrfico. Dona Flor zangou-se. No, no estava direito e ela no podia
tolerar tais capadoagens, esses gracejos porcos, maneiras de moleque, as grosserias e os abusos.
J era tempo de Vadinho aprender a se comportar numa casa de respeito.
    O doutor, escanhoado, de colete e palet, novinho em folha:
    - lype estamos um tanto quanto em atraso, minha querida... "Meu Deus, o cuscuz" - correu
Dona Flor para a cozinha.
    - Senti uma coisa pegar e comprimir meu peito...
    - Uma dor?
    - No... Mais bem um agrado...
     Recompunha-se com esforo Dona Flor, Vadinho sumira no seu grito de aflio.

Captulo 3

     Ao fim da aula do turno matutino, quando tiravam a sorte para escolher quem levaria a
compoteira de baba-de-moa para casa, Dona Flor sentiu sua presena mesmo antes de v-lo.
     At ento no se acostumara com o fato de ser apenas ela a enxerg-lo e, ao dar com Vadinho
junto  mesa, todo nu e exibido, estremeceu. Mas, como as alunas no reagiam ao escndalo,
recordou-se de seu privilgio: para os demais seu primeiro marido era invisvel. Ainda bem.
     Continuavam as alunas a rir e a pilheriar como se entre elas no se encontrasse um homem nu
em plo, a consider-las e a medi-las com olho clnico, demorando-se nas mais bonitas, um
abuso. L vinha ele perturbar outra vez as aulas, meter-se com as alunas, igual  antes. Por falar
nisso, Vadinho lhe devia explicaes, o acerto de contas em atraso, antigas: aquela prfida Ins
Vasques dos Santos, a lambisgia.
     Muito pachola, na maciota, num passo leve, quase passo de dana, ele rodeou trs vezes a
abundante Zulmira Simes Fagundes, crioula augusta, opparos quadris, soltos, independentes,
seios de donzela (ao menos pareciam), secretria particular do poderoso magnata senhor
Pelanechi Moulas, muito particular, no dizer do povo.
     Tendo lhe aprovado as ancas com distino e louvor, Vadinho quis tirar a limpo de uma vez
por todas o enigma dos seios: seriam mesmo de bronze ou apenas de extraordinria rigidez? Para
tanto elevou-se no ar e, pondo-se com os ps para cima e a cabea para baixo, espiou pelo decote
do vestido da princesa da nao nag.
     Emudeceu Dona Flor, estarrecida: no o vira ainda a se evolar, pelo a vontade no ar como em
terra firme, mantendo-se ali da maneira que melhor lhe convinha: de p ou estendido em
horizontal, inclinado ou de cabea para baixo - como naquele instante a enxerir os peitos da
soberba.
     No era dado s alunas v-lo,  certo, porm algo deviam sentir na atmosfera, pois estavam
por demais nervosas, rindo e falando  toa, numa espcie de pressentimento. Dona Flor foi
ficando brava, Vadinho ultrapassara todas as medidas.
     Ultrapassou-as realmente quando, no satisfeito com espiar, meteu a mo decote abaixo para
decidir, em definitivo, a matria-prima daquelas criaes divinas: eram de carne e sangue ou de
milagre?
     - Ai - gemeu Zulmira - esto tocando em mim...
     Dona Flor perdeu a cabea ante tanta canalhice, explodiu num grito:
    - Vadinho!
    - Quem? O qu? Como? O que  que tem? O que foi? - as alunas nos e excitadas cercavam a
companheira e a professora. - Que foi que disse, Dona Flor? E voc, Zulmira?
    Zulmira explicou num suspirar dengoso:
    - Senti uma coisa pegar e comprimir meus peitos...
    - Uma dor?
    - No... Mas bem um agrado...
    Recompunha-se com esforo Dona Flor, Vadinho sumira no seu grito de aflio.

Captulo 4

      Por duas ou trs vezes naquele fim de tarde, Vadinho lhe repetira com voz matreira, num
sorriso de motejo:
     - Vamos ver quem pode mais, minha santa... Tu com teu doutor e teu orgulho, e eu...
    - Tu, com qu?
    - Eu, com meu amor...
     Era um desafio e Dona Flor, forte da revelao que ele lhe fizera pouco antes (no a tomaria a
pulso, s por bem, com o consentimento dela), se prontificara a aceit-lo, disposta a correr o
risco, possuindo para tanto carter ntegro e nimo valente. Quem atravessou, meu arrogante, o
inferno da viuvez sem se queimar, no tem medo de caretas nem de sedutores:
    - Coloco minha honestidade acima de tudo...
    Vadinho comeara a rir:
     - Tu est falando igualzinho o doutor, meu bem. Toda estrambtica, toda monarca, parece um
professor...
    Foi a vez dela rir:
     - Sou professora, j era antes de conhecer ele e de conhecer voc. E por sinal uma professora
muito cotada...
    - Professora de quitutes e no de presuno...
    - Tu acha mesmo que fiquei presunosa? Que mudei?
     - Tu nunca vai mudar, meu bem. Tua nica presuno  tua honra. Mas eu j comi ela uma
vez, vou comer outra... Por mais professora que voc seja, meu bem, na vadiao  minha aluna.
E eu vim para acabar de te formar...
     Nesse pagode, com risos e pilhrias, e com ternura, ficavam a conversar at quase a hora da
janta. Dona Flor, cheia de vento e de jactncia: jamais Vadinho dobraria seu capricho de mulher
honesta, rompendo sua virtude de casada. Quando da outra vez, ela era uma adolescente coibida,
no soubera regular as emoes do primeiro amor e l se fora sua honra na virao de Itapo.
Hoje  mulher vivida na dor e na alegria, conhece o preo e a significao de cada coisa. Vadinho
vai ficar cansado de esperar. Mas ele no acreditava naquela invencvel resistncia:
    - Tu vai me dar quando menos tu espere... Como da outra vez... E tu sabe por qu?
    - Por qu?
    Arrogante e insolente, ele explicou:
    - Porque tu gosta de mim, e no fundo, l bem no fundo onde nem tu mesmo enxerga, tu t
doidinha pra me dar...
      Vadinho pleno de astcias, de presepadas. Dona Flor firme em sua decncia fundamental:
      - Desta vez tu vai perder... O tempo e a cantiga...
     Foi um fim de tarde sereno e cheio de encanto. Comeara, no entanto, difcil e desagradvel.
      Quando, aps as aulas vespertinas, Dona Flor saiu do banho e ante o espelho foi se perfumar
e pentear, seminua, apenas de porta-seios e calola, um rudo de aprovao veio de qualquer parte
do aposento. No entanto, antes de entrar e de sair do banho, ela examinara o quarto, constatando
a ausncia de qualquer dos seus maridos: o doutor ainda na farmcia, e Vadinho virara alcanfor
desde o escndalo do primeiro turno.
      Pois bem: l estava o tinhoso, em cima do guarda-roupas, balanando as pernas. Ao lusco-
fusco, naquela meia sombra, parecia da mesma madeira do anjo posto no corredor da Igreja de
Santa Tereza. Seu olhar caa sobre os ombros de Dona Flor com tal cupidez a ponto da gula
escorrer como um leo sobre ela, sobre seu corpo mido. "Meu Deus!", murmurou Dona Flor,
apanhando a bata para vesti-la s carreiras.
     - Por que isso, meu bem? Ser que eu no te conheo toda, todinha inteira? Onde  que no te
beijei ainda? Que tolice  essa? que besteira ...
Num salto de bailarino - que leveza de movimentos! - seu corpo nu atravessou a luz e a sombra,
veio aterrissar com elegncia no leito de ferro, sobre o novo colcho de molas:
     - Minha filha, esse colcho novo  uma nuvem,  bom demais. Meus parabns.
     Fatigou-se indolente, uma rstia de luz lhe marcava o sorriso satisfeito no rosto sensual e
tentador. Dona Flor, na sombra, o contemplava.
     - Vem aqui, Flor, vem deitar junto de mim, vamos vadiar um pinguinho. Deita aqui, vamos
rebolar nesse colcho cutuba... Ainda no amuo do acontecido com as alunas - aquele
despropsito de Vadinho meter a mo nos peitos de Zulmira e a peste gostando, pois, mesmo
sem enxergar a sem-vergonha, ficara toda esmorecida, num dengue de desmaio -, Dona Flor
reagiu brusca:
     - Acha pouco o que fez? No contente, ainda vem se esconder para me espiar? Voc no
ganhou modos nesse tempo, podia ter aproveitado...
     - No fique assim, meu bem... Deite aqui, juntinho de mim.
    - E ainda tem coragem de me chamar para deitar junto de voc! O que  que voc pensa de
mim? Que no tenho honra nem brio?
    Vadinho no queria discusso:
     - Meu bem que zanga  essa? No fiz nada demais... Rabeei o olho um nadinha na anatomia
da moa... S de curiosidade para saber como so feitos os caprichos de Pelancchi Moulas.
Dizem que ele mama naqueles peitos... - riu e depois baixou a voz. - Venha meu bem sente aqui
junto de seu maridinho, j que no quer se deitar, tem medo. Sente para gastar um dedo de prosa,
no foi voc mesma quem disse que a gente precisa conversar?
    - Eu sento e depois voc quer me pegar a pulso...
      - Ah! se eu pudesse... Ento tu pensa que se eu pudesse te pegar a pulso, sem teu
consentimento, eu estava aqui te adulando, perdendo tempo? A fora, meu bem, nunca vou te
querer: escreva isso que  a palavra de Vadinho...
    - Tu t proibido de me pegar a pulso?
     - Proibido? E por quem? No tem deus nem diabo para me proibir seja o que for. Tu no
sabe disso ou tu viveu comigo sete anos e no me aprendeu?
    - E por qu ento?
    - Alguma vez eu te peguei a pulso? Uma s, me diga...
     - Nunca...
     - E ento? Eu mesmo me proibi, nunca precisei pegar mulher a pulso, e uma vez que
Mirando quis agarrar uma negrinha  bruta, no areal do Unio, eu no deixei... O Degas aqui,
meu bem, s quer aquilo que lhe do e quando  dado de boa vontade, de corao. A pulso, que
gosto pode ter seno ruim?
    Fitou-a longamente, voltando a sorrir:
     - Tu vai me dar, Florzinha linda, e eu estou doido que chegue a hora de comer a peladinha...
Mas  tu quem vai me dar, quem vai abrir as pernas, pois eu s te quero quando tu tambm
quiser. No te quero com gosto de dio, meu bem.
     Ela sabia que era a pura verdade: o orgulho se elevava no peito do (primeiro) marido como
uma aurola, um resplendor. No de santo, propriamente, mas de homem, de homem macho e
arretado.
     Ento Dona Flor acomodou-se na borda do leito, com Vadinho estendido junto a si, a espi-
la. Com os nervos relaxados, a la vont, desarmada contra ele. Mal sentara, no entanto, e j o
trapaceiro descia a mo pela cintura at a nfora do ventre. Levantou-se indignada:
     - Tu no presta mesmo... Cheguei a pensar que tu falava de corao, que tu era homem de
palavra... E logo tu desmente, tu vai metendo a mo...
     - E por acaso estou te pegando a muque, te tomando  fora? S porque pousei a mo em teu
umbigo? Senta aqui e ouve, meu bem: no vou te comer a pulso, mas isso no quer dizer que no
faa tudo, tudo, que no use todos os recursos para que voc me d de sua prpria vontade. Toda
vez que puder te tocar, vou te tocar, quando puder te dar um beijo, vou dar. No te engano,
minha Flor, vou fazer tudo, tudo, e depressa, pois estou doido para te comer todinha, cheguei
morto de fome.
     Era um desafio: sua honra de mulher honesta contra o fascnio de Vadinho e sua lbia, sua
pabulagem, sua picardia.
    - No te engano, Flor, vou te passar o conto e quando esse teu doutor menos pensar est com
sua coroa de chifres na cabea. Alis, meu bem, com aquela cabeorra e alto como , ele vai ficar
um bocado bonito, vai ser um p de corno da melhor espcie.
     Um desafio? Pois muito bem, senhor meu primeiro marido e garanho de fama, Don Juan dos
castelos e da zona, finrio sedutor de moas e casadas, o Degas, o porreta: por mais astuto, no
me vais comer outra vez a peladinha. Com toda tua astcia, com toda tua lbia, com tua
prosopopia inteira, meu porreta, no me deixarei vencer nem iludir: sou mulher honesta, no
vou sujar meu nome nem o de meu marido. Aceito o desafio. E assim tendo pensado e decidido,
voltou a sentar-se no colcho:
     - No fale isso, Vadinho,  feio... Respeite meu marido... deixe essas conversas, vamos falar de
coisas srias. Se eu te chamei como tu dizes, foi para conversar contigo, s vezes me apertava
uma saudade, o desejo de te ver, de falar com voc. No foi com idia de descarao. Por que
voc faz um juzo to ruim a meu respeito?
     - Eu? Quando fiz mau juzo de voc?
     - Fui tua mulher sete anos, voc andava solto pela rua e no era s no jogo, vivia na cama de
tudo quanto era mulher perdida da Bahia, e, no se contentando, se meteu com moa e com
mulher casada, umas sujeitas ainda piores do que as raparigas... E, por falar nessas sonsas, s
agora descobri que tu andou de rabicho com uma tal de Ins, uma tsica que foi da Escola h
muito tempo...
     - Ins? Magricela? - buscou nome e figura na memria tima, de facadista, e l encontrou a
esbelta Ins Vasques dos Santos com seu voraz focinho e seu apetite. - Aquilo? Puro osso e
pele... Nenhuma importncia, no liga para isso, meu bem. Xixica somente e das piores. Ademais,
faz tanto tempo que se deu, por que puxa logo isso, tropeo to antigo, coisa passada?
     - Tropeo antigo, coisa passada mas eu s soube outro dia... Tu imagina a vergonha, Vadinho?
Tu morto e enterrado, eu casada de novo, e tuas sem-vergonhices ainda me perseguindo... Por
essas e outras  que te chamei, porque ainda tinha contas a ajustar. No foi para isso que tu
pensas...
     - Mas, meu bem, fosse para o que fosse, j que estou aqui, que mal tem a gente vadiar um
minutinho? Vamos aproveitar e tirar a barriga da misria. Tu anda um pouco precisada, eu, nem
se fala...
    - Tu devia me conhecer, saber que no sou mulher de enganar marido. Sete anos tu pintou o
diabo comigo, me judiou de todo jeito. Todo mundo sabe e fala pela rua...
    - E tu liga pra essa cambada de bruacas?
    - Tu judiou de mim e no foi pouco, fui de verdade. Se eu fosse outra, tinha te largado ou te
enchido de chifres e de vergonha. Eu fiz isso? No, eu agentei firme porque sou mulher direita,
Vadinho, graas a Deus. Nunca olhei pra nenhum homem enquanto tu foi vivo...
    - Sei disso, meu bem...
    - Sabendo disso, como  que tu quer que eu engane Teodoro, meu marido tanto quanto tu e
homem direito e bom. Me trata na palma das mos,  homem srio, nunca me traiu com outra.
Nunca, Vadinho, nunca. Uma vez, at... - suspendeu a frase pelo meio.
    - At o qu, meu bem? - pediu ele com voz muito da macia. - Conte o resto...
    - Pois houve muita mulher atrs dele e ele, nem te ligo...
     - Mulher tanta assim? No exagere, meu bem, foi uma s, e era Magnlia, a maior vaca da
Bahia, e ele fez um papelo. Onde j se viu um homem de maior, doutor e tudo, ficar que nem
donzelo, com medo de mulher, s faltou pedir socorro. Uma vergonha... Voc sabe o nome que
puseram nele depois desse fiasco? Doutor Cristel, meu bem...
     - Vadinho, pra com isso. Se quiser conversar direito, muito bem, mas vir aqui para mangar de
meu marido, isso no... Fique sabendo que eu gosto muito dele, aprecio demais a maneira como
ele me trata, e nunca irei desonrar seu nome...
     - Quem puxou a conversa foi voc, meu passarinho. Mas fale a verdade: de quem  que voc
gosta mais? No minta...  de mim ou dele? ...
     Deitara a cabea no colo de Dona Flor e ela mexia em seus cabelos. Cismarenta, no
respondeu  pergunta comprometedora.
     - Nunca vou enganar ele, Vadinho, ele no merece...
     Vadinho respirava de leve, um sorriso inocente de criana. Dona Flor tomou-lhe o peito, mata
de pelos loiros, doce tepidez. Ele disse e era uma afirmao, no mais uma pergunta:
    - Tu gosta mais de mim, meu bem. Tenho certeza.
     - Ele s merece que eu lhe d amor...
     A mo de Dona Flor na cicatriz da navalhada: gostava de sentir a lembrana da rixa anterior a
seu conhecimento, o talho largo e fundo, briga da adolescncia, logo aps a fuga do colgio,
Vadinho mais fanfarro e capadcio. To bonito!
     A doura da tarde penetrava no quarto em sombra e luz, numa sonolncia de brisa.
     - Meu bem - disse ele -, eu tinha uma saudade to danada de ti, to grande, que pesava no meu
peito como uma tonelada de terra. Faz tempo que eu queria vir, desde que tu me chamou pela
primeira vez. Mas tu tinha me prendido com o mokan que Didi te deu e s agora eu pude me
livrar e vir... Porque s agora tu me chamou deveras, com vontade, precisou mesmo de mim...
    - Tambm tive saudade o tempo todo... No adiantou tu ser ruim Vadinho, quase morri
quando tu morreu...
     Dona Flor sentia uma coisa dentro de si, vontade de rir ou de chorar indiferentemente, mas
em surdina, bem baixinho. To suave a caricia da mo de Vadinho em seu brao, em seu cangote,
em sua face, e a cabea repousando em seu colo, buscando posio mais cmoda, pesada e
quente em suas coxas, dando-lhe um calor e uma dormncia. Cabea linda de cabelos loiros.
Dona Flor foi baixando o rosto pouco a pouco, Vadinho suspendera o seu, de sbito lhe tomou
da boca e no a pulso.
     Arrancou-se Dona Flor do beijo e dos braos onde j se via desfalecente.
    - Meu Deus! Ai Meu Deus...
    No era um desafio  toa. No podia permitir-se um s minuto de abandono, o menor
descuido, se no quisesse que o tinhoso a engabelasse.
     Assobiando, todo pachola, levantou-se Vadinho com um sorriso de debique e foi bulir nas
gavetas do armrio. De puro curioso ou, quem sabe, para deixar Dona Flor recolher sem
constrangimento, pelo quarto, os restos de sua fora de vontade, de sua proclamada deciso.

Captulo 5

     Quando o doutor chegou para a janta, Dona Flor se reintegrara por completo em sua inata
decncia e ainda mais fortalecera a deciso de manter-se digna do marido, preservando-lhe sem
mcula o nome e o conceito, e lmpida a fronte onde fulgiam idias, fervilhavam conhecimentos.
"Jamais mancharei o nome que me ofereceste, nem plantarei cornos em tua testa, Teodoro: antes
prefiro morrer."
     O importante era no facilitar, no dar chances, no permitir ao astuto comover os seus
sentidos, obtendo a cumplicidade da matria vil e desprezvel, matria capaz - como lhe ensinara
a propaganda ioga nos tempos famintos da viuvez - de atraioar seus impolutos sentimentos e de
lhe vender a honra. Se Vadinho pretendesse continuar a v-la, tinha de conter-se nos limites do
decoro, das relaes platnicas, pois outras no se podiam permitir Dona Flor e o marido antigo.
     No escondia Dona Flor - no tentava sequer faz-lo - a ternura pelo ex-finado, seu primeiro
e grande amor. Fora ele quem a despertara para a vida, fazendo da mocinha tola da Ladeira do
Alvo uma fogueira de altas labaredas, e ensinando-lhe alegria e sofrimento. Sentia por Vadinho
uma ternura funda, comovida, um no sei qu, mistura do bom e do ruim, sentimento de anlise
difcil e de impossvel explicao para ela prpria.
     Estava contente, feliz de v-lo, ao maligno; de falar com ele e rir de seus achados, de suas
maluquices; feliz at com os ais do corao novamente em nsia, a esper-lo na noite imensa
atenta aos seus passos no silncio da rua, insone; comendo da banda alegre e da banda podre,
como antes. Mas agora no passava tudo aquilo de amorosa amizade, sem outras implicaes,
sem maiores compromissos, sem indecncias de cama. A cama, ah, eis o perigo! Cho de
trampas, territrio de derrotas.
     Hoje, novamente casada, feliz com o segundo esposo, s podia manter com o primeiro castas
relaes, como se aquela despudorada e desmedida paixo de sua mocidade se houvesse
convertido, com a morte de Vadinho, em pudico embarao de romnticos namorados, despindo-
se da violncia da carne para ser puro esprito imaterial (o que alis se impunha por essas e por
todas as demais razes). Cama e gozo de corpo s com o segundo, com o doutor Teodoro, as
quartas e aos sbados, com bis e doce afeto. Para Vadinho sobrava o tempo do sonho, tempo
vazio em meio a tanta felicidade ou, quem sabe?, de tanta felicidade decorrendo.
      Se Vadinho concordasse em encarar assim a situao, respeitando tal acordo, muito bem: esse
platnico sentimento cheio de doura e a presena discreta e alegre do rapaz seriam perfume e
graa na vida de Dona Flor, to pautada em ordem, compensando certa monotonia sensaborona
que parece fazer parte integrante da felicidade. Mirando, filsofo e moralista (como fartamente
aqui se comprovou), proclamara certa feita em seu castio dialeto baiano:
     - A felicidade  bastante cacete, assaz maante, em resumo: uma aporrinhao...
     No quisesse, porm, sujeitar-se Vadinho a tais limites, e Dona Flor no mais o veria,
rompendo de vez relaes e sentimentos, mesmo aquele afeto espiritual que de to inocente no
chegava a ser pecado ou desconsiderao, ameaa  flgida testa de seu ntegro e respeitado
esposo.
     Assim, tranqila com essas reflexes, forte de nimo, e tendo chupado uma pastilha de hortel
para limpar a boca do gosto de pimenta e mel daquele beijo impudico, Dona Flor recebeu doutor
Teodoro com a mesma afetuosa mansido, o mesmo terno sculo de todas as tardes, tomou-lhe
o jaqueto e o colete e lhe trouxe a fresca veste do pijama. O doutor, para jantar, para o estudo na
escrivaninha, para as notas do fagote, punha o palet de pijama sobre a camisa e a gravata, era
seu -vontade.
     Durante a comida, Dona Flor notou na voz e nos modos do esposo uma gravidade maior,
atingindo as raias do solene. O boticrio era de hbito um tanto quanto formal, como se sabe.
Mas, naquela tarde, o rosto fechado, o silncio, o comer desatento revelavam preocupao e
desassossego. Dona Flor observou o marido enquanto lhe passava a travessa de arroz e lhe servia
o lombo cheio (cheio com farofa de ovos, lingia e pimento). O doutor tinha algum problema
srio, sem dvida, e Dona Flor, boa esposa e solidria, logo se inquietou, ela tambm.
     Quando chegaram ao caf (acompanhado de beijus de tapioca, um man do cu), doutor
Teodoro finalmente disse, ainda assim a custo:
     - Minha querida, desejo conversar com voc assunto de muita relevncia, de nosso mtuo
interesse...
    - Fale logo, querido...
     Mas ele tardava, inibido, buscando as palavras. Que assunto to difcil seria esse, interrogava-
se Dona Flor, a fazer o doutor to inseguro? Voltada para o desassossego do marido, esquecera-
se inteiramente de seus prprios problemas de duplo matrimnio.
    - O que , Teodoro?
     Ele a fitou, tossiu:
    - Quero que fiques inteiramente  vontade, que decidas como melhor te parecer e convier.
    - Mas, o que, meu Deus? Fala de uma vez, Teodoro...
     - Trata-se da casa... Est  venda...
    - Que casa? Essa onde moramos?
    - Sim. Voc sabe que eu tinha juntado o dinheiro para comprarmos essa casa como era de seu
desejo. Mas quando j amos fechar o negcio, tudo pronto...
    - Sei... A farmcia...
      -...surgiu a oportunidade de adquirir mais uma quota da farmcia, exatamente a que me dava a
maioria, garantindo-nos a propriedade da Cientfica... Eu no podia vacilar...
     - Voc fez bem, agiu com acerto, o que foi que eu te disse? "A casa fica para depois", no foi
isso?
     - O que sucede agora, minha querida,  que a casa foi posta  venda e por uma ninharia...
    - Posta  venda? Mas a preferncia era nossa...
     - Era, porm...
     Detalhou o assunto: o proprietrio metera-se com uma fazenda em Conquista e dera em criar
gado, enterrando dinheiro grosso em bezerros e novilhas, entrara na corrida do zebu. Sabia Dona
Flor o que era a "corrida do zebu"? J tinha ouvido falar? Pois bem, nessa corrida l se ia tambm
a sonhada casa prpria... O proprietrio a pusera  venda e por quantia nfima. Quanto 
preferncia, segundo ele, se bem inquilina antiga e excelente, perdera Dona Flor qualquer direito
a invoc-la aps ter desistido da compra, com o negcio j fechado, em fase de cartrio. No
podia ficar esperando que doutor Teodoro terminasse de abocanhar todas as quotas dos
herdeiros da farmcia, para ento pensar na casa. Tencionava vend-la de imediato. De que lhe
valia o imvel de aluguel ridculo, onde os Madureiras viviam quase de graa? Negcio bom era
criar zebu, boi resistente, o quilo da carne valendo um dinheiro. Enterrado na fazenda, entregara
a venda da casa ao departamento de imveis do Banco do amigo Celestino. E candidatos no
faltariam, com certeza, ante o preo convidativo.
     Como sabia doutor Teodoro de tudo aquilo? Muito simples: Celestino lhe contara em seu
despacho, na Matriz do Banco. Convocou o farmacutico por telefone, "largue essas drogas a e
venha urgente", e lhe expusera a situao, terminando por lhe perguntar: por que Teodoro no
fazia um esforo e no comprava a casa? Um negcio da China, impossvel transao melhor, o
maluco oferecia o imvel praticamente por nada, o necessrio para um lote de bezerros, naquele
desatino do zebu.
    - Quando o zebu parar de correr, mestre Teodoro, vai enterrar muita gente boa... Daqui do
Banco no sai um vintm para essa especulao : .
 Compre a casa, meu caro, no discuta.
    Tinha razo o portugus no que dizia sobre a casa e o zebu, tambm o doutor desconfiava
daquela loucura de bezerros, vacas e touros. Mas onde arranjar capital, se ainda h pouco
despendera todas as economias na aquisio da quota da farmcia e tomara dinheiro ao Banco,
emprestado pelo prprio Celestino, papagaios de prazo estrito.
    O banqueiro considerou o boticrio, tipo honesto, cheio de escrpulos, incapaz de lesar quem
quer que fosse. No era homem para correr o risco de operao bancria sem a certeza de
absoluta cobertura -- doutor Teodoro no jogava nunca. Sorriu Celestino: como a vida era
surpreendente! Aquela mansa Dona Flor, tmida presena e de tempero insupervel, tomara em
casamento os dois homens mais opostos, um o contrrio do outro. Imaginou-se oferecendo
dinheiro emprestado a Vadinho, como agora o fazia ao droguista. As mos nervosas do rapaz
tomariam da caneta e firmariam quanto papel pusessem em sua frente, desde que tais assinaturas
lhe rendessem uns mil-ris para a roleta.
      - Arranje um pouco de dinheiro para completar o preo pedido e eu lhe consigo o resto sobre
uma hipoteca da prpria casa. Veja...
      Tomava do lpis, fazia contas. Obtivesse o doutor uns poucos contos de ris, com o resto
no se preocupasse: hipoteca de prazo longo, juros baixos, todas as facilidades. O que o
portugus lhe propunha era negcio de pai para filho: Celestino conhecia Dona Flor desde seu
primeiro casamento, comera sua comida, tinha-lhe estima. Estimava igualmente ao doutor
Teodoro, homem de bem, reto de carter. Em sua alocuo, s no citou Vadinho, em deferncia
ao segundo esposo e por estar morto o capadcio. Mas naquele instante recordava seu perfil e
sua picardia, e essa lembrana o fizera sorrir complacente e dilatar de mais seis meses o prazo da
hipoteca.
     - Agradeo sua oferta, no esquecerei sua generosidade, meu nobre amigo, mas no tenho
neste momento nenhum dinheiro disponvel para completar o capital necessrio. No tenho
tampouco onde busc-lo. E  uma grande pena, pois Florpedes muito deseja adquirir a casa.
Mas, no h jeito...
     - Florpedes... - murmurou Celestino, "nome absurdo". Diga-me uma coisa, seu doutor
Teodoro Madureira, voc em casa trata sua mulher de Florpedes?
     - Na intimidade, no. Chamo-a de Flor, como todos, alis.
     - Ainda bem... - impediu com um gesto a explicao do doutor, seu tempo era um tempo
precioso de banqueiro. - Pois, meu caro, segundo estou informado, Dona Flor ou Dona
Florpedes, como vosmic prefira, tem umas economias bem razoveis na Caixa Econmica...
Mais do que suficientes para completar, com a hipoteca, o necessrio para a compra da casa , .
    O doutor nem se recordara do dinheiro da esposa:
     - Mas esse dinheiro  dela, fruto de seu labor, nele no tocarei jamais,  um dinheiro sagrado...
     Mais uma vez o banqueiro mediu o farmacutico na cadeira em sua frente: Vadinho tomava
os nqueis da mulher para ir jogar, e por vezes os arrancava  fora, na brutalidade. At lhe batia,
segundo ouvira contar.
     - Bonitos sentimentos, meu doutor, dignos da cavalgadura que  vossa merc... - o portugus
ia da maior finura  grosseria total. - Burro  o que voc , burro como um patrcio desses que
carregam piano e quebram pedras na rua... Diga-me l: de que vale esse dinheiro de Dona Flor
metido numa caderneta da Caixa? Ela, desejando ter sua casa prpria, e aqui o cavalheiro para
manter uns escrpulos de merda  de merda, sim senhor -, deixa passar uma ocasio nica. No
so casados com comunho de bens?
     Doutor Teodoro engoliu em seco a cavalgadura, o burro e a merda, conhecia bem o
portugus e lhe devia favores por demais.
     - No sei como falar com ela...
     - No sabe o que? Pois aproveite a hora da cama que  a melhor para se discutir negcios com
a esposa, meu caro. Eu s discuto esses assuntos com a patroa quando j estamos os dois
deitados e sempre me dei bem. Oua: dou-lhe vinte e quatro horas de prazo. Se amanh s
mesmas horas voc no aparecer, mando vender a casa a quem der mais... E agora, deixe-me
trabalhar...
     No na cama, mas na mesa, nas primeiras sombras da noite, ante o alvo beijou de tapioca
molhado em leite de cco, doutor Teodoro relata a conversa do banqueiro a Dona Flor,
omitindo os palavres e a cavalgadura:
    - Por meu gosto, voc no bulia nesse dinheiro da Caixa...
    - E o que fao com ele?
    - Seus gastos... Pessoais...
     - Que gastos, Teodoro, se voc no me deixa pagar nada? Nem a mesada de minha me...
Voc paga tudo e ainda se zanga quando eu reclamo. Nesse tempo todo, s fiz botar dinheiro na
caderneta; s tirei duas vezes, um pinguinho de cada uma, para comprar tolices para voc. Para
que guardar esse dinheiro sem serventia? S se for para meu caixo, quando eu morrer...
     - No fale bobagem, minha querida... A verdade  que a mim, como marido, cabe a
obrigao...
     - E por que eu no tenho o direito de concorrer para a compra de nossa casa? Ou bem voc
no me considera sua companheira para um tudo? Ser que s sirvo para arrumar, cuidar de suas
roupas, fazer a comida, ir com voc para a cama? - Dona Flor se exaltava - Uma criada e uma
rapariga?
     Ante a inesperada exploso, doutor Teodoro ficou sem palavras, um baque no peito, a mo
segurando o garfo com o pedao de beiju. Dona Flor baixara a voz, agora num queixume:
     - A no ser que voc no me ame, me despreze tanto que nem queira que eu lhe ajude na
compra de nossa casa...
     Talvez em todo o tempo de casado, mais de um ano, doutor Teodoro no se houvesse
comovido tanto, quanto naquele jantar. Num repente de tmido exclamou:
    - Voc sabe que eu a amo, Flor, que voc  minha vida. Como duvida? No seja injusta.
    Ela, ainda exaltada, declarava:
    - No sou tua mulher, tua esposa? Pois bem, se voc amanh no for ao Banco, quem vai sou
eu e fecho negcio com seu Celestino...
     Doutor Teodoro levantara-se, veio por ela e a tomou num abrao estreito, apaixonado. Dona
Flor acolheu-se  no peito largo do doutor, tambm ela apaixonada. Sentaram-se no sof, Dona
Flor no colo do esposo, rosto contra rosto, numa ternura quase sensual.
    - Voc  a mais direita, a mais sria e a mais bonita das esposas...
    A mais bonita no, meu Teodoro... Fitou-o nos olhos bondosos, banhados em felicidade.
     - Bonita no... Mas te garanto, Ah! isso te garanto, que sria eu sou, que sou mulher direita.
     E tendo dito, buscou com os lbios a boca do doutor e a tomou na sua num beijo de amor:
seu bom marido, nico a merecer sua ternura e o gozo de seu corpo.
     A noite entrou inteira pela sala e do meio de sua sombra Vadinho contemplou a cena. Passou
a mo na testa, inquieto; virou as costas, saiu rua a fora, descontente.

Captulo 6

      Foi a partir daquela conversa entre Dona Flor e doutor Teodoro que os acontecimentos
comearam a se precipitar, num ritmo cada vez mais clere e confuso.
     Sucederam ento tais coisas na cidade capazes de assombrar (e assombraram) at mesmo as
criaturas mais familiares do prodgio e da magia, como a vidente Aspsia, recm-chegada todas as
manhs do Oriente, seu verdadeiro habitat, para as Portas do Carmo, onde era "a nica a usar o
sistema da cincia espiritual em movimento"; como a clebre medium Josete Marcos
("fenmenos de levitao e de ectoplasma"), cuja intimidade com o alm  sobejamente
conhecida; como o Arcanjo So Miguel de Carvalho, em sua tenda de milagres no Beco do
Calafate; como a doutora Nair Sac, "diplomada pela Universidade de Jpiter", a curar toda e
qualquer enfermidade com passes magnticos na rua dos Quinze Mistrios; como Madame
Deborah, do Mirante dos Aflitos, detentora dos segredos dos monges do Tibet, em permanente
gravidez resultante de coito espiritual com o Buda vivo, sendo ela prpria, "revelao suprema do
futuro", capaz com seus dons de adivinha de "prever e garantir casamentos ricos em prazo curto
e revelar os nmeros premiados da loteria"; sem falar em Teobaldo Prncipe de Bagd, j um
tanto caduco.
     E no s essas competncias se assombraram. O espanto atingiu mesmo aqueles ntimos do
mistrio da Bahia, aqueles que o criam e o preservam, seus depositrios atravs do tempo: mes e
pais-de-santo, yalorixs e babalorixs, babalas e iakekers, obs e ogs. Nem a prpria Me
Senhora, sentada em seu trono no Ax de Op Afonj; nem Menininha do Gantois, com sua
corte no Ax lamass; nem Tia Massi da Casa Branca, do venerando Ax t Nass, nem mesmo
ela com a sabedoria de seus cento e trs anos de idade; nem Olga de Yans danando soberba e
arrogante em seu terreiro do Alaketu; nem Nzinho de Ew; nem Simplcia de Oxumar; nem
Sinh de Oxssi, filha de santo do falecido pai Procpio do Il Ogunj; nem Joozinho do
Caboclo Pedra Preta; nem Emiliano do Bogum: nem Marieta de Tempo; nem o caboclo Neive
Branco na Aldeia de Zumino Reanzarro Gangajti; nem Lus da Murioca, nenhum deles pde
controlar a situao e explic-la a contento.
      Viram deflagrar-se a guerra dos santos, nas encruzilhadas dos caminhos, nas noites das
macumbas, nos terreiros e na vastido dos cus, em ebs sem precedentes, despachos nunca
vistos, feitios carregados de morte, coisa-feita e bruxaria em cada esquina. Os orixs em fria,
todos reunidos do mesmo lado, completos em suas espcies e naes; do outro lado, Exu, a
sustentar sozinho aquele egun rebelde, ao qual ningum oferecera roupas coloridas nem o sangue
de galos e ovelhas, nem um bode inteiro, nem sequer uma conqum de Angola. Vestira-se com as
roupagens do desejo, com os ouropis da paixo imorredoura e em sacrifcio desejava to-
somente o riso e o mel de Dona Flor.
     Nem mesmo Yans (epa hei!), a que enxota as almas, a que no teme os eguns e os enfrenta, a
que comanda os mortos, a guerreira cujo grito amadurece as frutas e destri exrcitos, nem
mesmo ela conseguiu impor-se autoritria e destemida; aquele bab de Exu lhe tomou o alfanje
e o eruexim. Tudo no vice-versa, tudo pelo avesso, era o tempo do contrrio, do ora-veja, o
meio-dia da noite, o sol da madrugada.
     Prosternados na hora do pad, as yalorixs e os babalorixs, a partir de certo instante j no
mais quiseram intervir: cabia aos encantados encontrar a deciso no fogo da peleja. Apenas o
babala Didi, porque Assob de Omulu, mago de If, guardio da casa de Ossain, e sobretudo
por ter o posto de Koriko Uluktum no terreiro dos eguns, na Amoreira, tentou enrolar outra
vez nas palhas do mukan o egun desperto de seu sono pelo amor. F-lo a pedido de Dionisia de
Oxssi mas foi em vo como se ver mais adiante.
     No se diga que Cardoso e S se assombrou, no  ele cidado de se assombrar, nem
tampouco de sustos e espantos fceis. Mas sofreu um abalo, Ah! isso sofreu, no h como
esconder a realidade, e dizendo-se que mestre Cardoso e S se surpreendera tudo est
definitivamente dito e dada  medida desmedida do inslito, do absurdo clima da cidade. Foi
naqueles dias que o povo, em lucidez e raiva, atacou a sede do monoplio estrangeiro da energia
eltrica, exigiu a nacionalizao das minas e do petrleo, ps a polcia em fuga e cantou a
Marselha sem saber francs. Tudo teve princpio naquela ocasio.
     Dona Flor no se deu conta imediata da situao, ao contrrio de Pelancchi Muulas, cujo
sangue calubrs intuiu e logo depois indicou sentido e direo para os sucessos naquela mesma
noite do lasquin. Alguns dias bastaram para convencer Pelancchi. Apavorado - sim, apavorado
esse homem sem medo e sem entranhas, esse bandido da Calbria,  esse moderno gngster 
maneira de Chicago, esse duro jogador -, mandava seu chofer Aurlio, de toda a confiana, ao
terreiro de me Otvia Kissimbi, yalorix da nao Congo, indo ele prprio em busca do filsofo
mstico e astrlogo Cardoso e S, nicos seres capazes de lhe valer em to terrvel emergncia, de
lhe salvar o reino e a majestade.
     Majestade e reino, pois Pelancchi Moulas era soberano do mais poderoso truste da Bahia, rei
do jogo e da contraveno, jogando legalmente a roleta, a lebre francesa, o bacar. o lasquin, no
Place, no Tabaris, no Abaixadinho, nas grandes casas e nas pequenas onde seus prepostos
mantinham-se atentos aos dados e baralhos, aos crupis e chefes de sala, e lhe traziam diria e
gorda fria da ronda, do vinte-e-um, do sete-e-meio. Rarssimas casas escapavam a seu controle,
uma ou outra apenas: a de Trs Duques, a de Meningite, o antro de Paranagu Ventura. Sobre
todas as demais estendia as garras vidas e aduncas (e bem tratadas por manicura exclusiva,
mulatinha feita pelo velho Barreiros, pai daquele advogado Tibrcio, um especialista: modelara
trinta e sete mulatas em diferentes mes e cada qual mais de arromba e de arrelia).
     E o imenso imprio ilegal (em aparncia) do jogo do bicho? S a Pelancchi era permitido
bancar sob garantia da polcia, e, se algum inconsciente se atrevesse a fazer-lhe concorrncia, logo
aplicavam as zelosas autoridades ao infame marginal, o rigor mximo da dura lex, sed lex.
     No havia em todo o Estado da Bahia homem de mais poder, civil ou militar, bispo ou pai-de-
santo. Pelancchi Moulas mandava e desmandava.
     Administrador, governante do mais complexo e mais rico dos imprios, o do jogo,  frente de
um exrcito de subordinados, mestres de sala, crupis, fiscais, banqueiros, faris, proxenetas,
espies, secretas de polcia e guarda-costas, era o Papa de uma seita com milhares de crentes
submissos, fanticos escravos. Com suas propinas sustentava e enriquecia ilustres figuras da
administrao, da intelectualidade e da ordem pblica, a comear pelo Chefe de Polcia,
concorrendo para obras pras e financiando a construo de igrejas.
     Diante dele, de que valiam Governador e Prefeito, comandantes terrestres, areos ou
submarinos, o Arcebispo com sua mitra e seu anel? No havia poder na terra capaz de
amedrontar Pelancchi Moulas, velho italiano de cabelos brancos, de riso afvel e de olhos duros,
quase cruis, fumando um terno cigarro em piteira de marfim, a ler Virglio e Dante, pois, alm
do jogo, s gostava mesmo de poesia e de mulatas.

Captulo 7

     O negro Arigof andava aperreado, urucubaca assim era demais. Montara em seu cangote h
quase um ms, desde quando, ao descer desprevenido as escadas do sobrado onde tinha seu
quarto de solteiro, dera um chute no embrulho com o eb. Mandinga brava, coisa feita posta em
seu caminho para lhe atrasar a vida. Rasgara-se o papel esparramando-se a farofa amarela, as
penas pretas de galinha, as folhas rituais, duas moedas de cobre e pedaos de uma sua gravata
ainda bastante nova, de tric. A gravata deu-lhe a pista certa: vingana de Zara, iaba sem corao,
incapaz de sofrer desaforo sem logo dar o troco.
    Certa noite. Arigof, perdidas a calma e a elegncia de fidalgo, lhe aplicara um par de tabefes em
pleno Tabaris, para ela tomar modos de gente, no mais lhe aporrinhar a pacincia. Zara era
muurumim de nao, mas praticava caboclo e angola e tinha poderes junto aos inkices.
      Feitio dos mais fortes, boz violento, quem preparara para Zara despacho to fatal? Com
certeza algum entendido na escrita, bom nas folhas e forte na maldade. No houve esconjuro que
desse jeito, o eb prendera a sorte do negro no fundo de um poo e ele se arrastava mendigo
pelas casas de jogatina, perdendo em todas elas. J pusera no prego seus pertences melhores: o
anelo de prata verdadeira, o corrento de ouro com figas de guin e um pequeno chifre de
marfim, o relgio adquirido ao marinheiro loiro de um navio, roubado talvez num camarote de
milionrio: to bonito e cutuba que o espanhol do Sete, com todo seu conhecimento de jias,
assobiara de emoo  sua vista, oferecendo-lhe mais quinhentos mil-ris se o negro se dispusesse
a vend-lo em lugar de empenh-lo.
     Crioula mandingueira, nascida na feitiaria, Zara lhe secara a sorte. Preocupado, Arigof
perguntava-se onde andaria o resto de sua gravata de tric. Certamente amarrado aos ps de um
caboclo ou de um inkice, junto com seu retrato, aquele pequeno, feito para carteira de identidade:
o negro sorrindo, o dente de ouro  mostra. Arigof o ofertara em prova de amor  iab sem
corao e agora imaginava seu rosto crivado de alfinetes na camarinha do santo, para o despacho
se refazer cada manh e lhe apagar de um golpe e para sempre a boa estrela.
     J tomara banho de folhas e fora rezado por Epifnia de Ogun. Por trs vezes a iy mor
tivera de renovar seu mao de folhas, pois caam murchas apenas lhe tocavam o corpo, to
grande o carrego de malefcio no cachao de Arigof.
     No aperreio de tamanha urucubaca, ia o negro pela rua Chile considerando as agruras da vida.
Vinha do restaurante e seu destino imediato era a casa de Teresa. Waldomiro Lins o levara a
jantar aps a tarde desastrosa, na espelunca de Zez da Meningite, onde o negro perdera os
ltimos nqueis. Arigof, de raiva, comera de vez o almoo, a janta e a ceia.
     - Voc est esganado de fome, Arigof, o que  que h? - perguntou o outro ante aquele
exagero de apetite.
    O negro respondeu num pessimismo definitivo:
     - No sei se volto a comer nunca mais...
     - Doente?
     - De azar, meu irmozinho. Amarraram minha sorte nos ps de um encantado, de um
caboclo, se no foi de um orix de Angola, que aquela peste  gente dos inkices. Estou no alvu,
seu mano.
     Contou de seu caiporismo; diluam-se palpites infalveis, no acertava uma. Apostasse nos
dados ou nas cartas, na mesa de roleta, perdia sempre. Os parceiros j o olhavam de travs, como
se ele transmitisse urucubaca:
    - Meu azar pega, maninho...
     Narrativa cheia de detalhes, na esperana de que Waldomiro Lins, moo de posses e alegre
camarada, lhe socorresse no embarao, emprestando-lhe umas pelejas para o jogo da noite.
Falhou o golpe, pois em vez de dinheiro o amigo lhe serviu conselhos; s havia um jeito de
escapar de urucubaca assim to negra, era fugir do jogo por uns tempos. Deixasse passar a mar
de m sorte, extinguir-se a fora do eb, no fosse louco. Se teimasse, acabaria de tanga, com as
cuecas empenhadas. Ele. Waldemiro Lins, aprendera a respeitar sorte e azar e certa feita levara
mais de trs meses sem ver baralho, dado ou mesa de roleta.
     Subindo a rua Chile. Arigof d razo ao amigo: a teimosia no passava de pura estupidez,
obstinao de maluco, bem melhor era visitar Teresa da Geografia, branca arretada por um negro
forte, motivo daqueles tabefes em Zaira. Na casa de Teresa, estendido na cama ao lado da branca,
churupitando uma cachaa com limo, poderia esquecer tantas derrotas, descansar sua urucubaca
no tapete. Sim, dessa vez o negro Arigof fora derrotado, s lhe restava a fuga vergonhosa. Tinha
razo Waldomiro Lins, homem experiente e de bom conselho.
    Disposto a tomar o rumo da devassa geografia de Teresa, a negreira, no ia Arigof de todo
satisfeito. No era de seu hbito nem de seu prazer fugir de uma batalha mesmo quando em
desespero, derrotado por antecipao. Lembrou-se de outro Waldomiro, seu amigo exemplar e
insubstituvel: Vadinho, infelizmente morto, competente e audaz, inigualvel em matria de jogo
e em geral. Ele, poderia lhe valer, se vivo fosse.
    H muitos anos, uma noite, aps semanas de azar absurdo, quando j sem vintm e sem ter
onde busca-lo, entrava Arigof no Tabaris e dera com Vadinho soberbo de altivez e fichas
apostando alto. Tomou-lhe o negro uma ficha e o exemplo de vitria: ganhou noventa e seis
contos em minutos, nunca se vira igual.
    Fora uma noite de alucinaes: Arigof mandara fazer meia dzia de ternos de uma vez,
atirando pelejas de quinhentos na cara do alfaiate. Noite fantstica e descomunal no Castelo de
Carla, ele pagando todas as despesas, noite lendria nas memrias do jogo na Bahia.
    Engraado: recordava Vadinho e sua padulagem e no era que lhe parecia ouvir distintamente
aquela voz de insolncia?
- Ento negro fujo, onde enfiou sua valentia? No cu da branca? Quem persegue a sorte no
merece ganhar, tu sabe disso.
    Desde quando tu  aluno de Waldomiro Lins? Tu j no era professor quando ele veio jogar
pela primeira vez?
    Arigof chegou a parar em meio a rua Chile, como um pateta, to viva e prxima lhe parecia a
voz de Vadinho em seu ouvido.
    Nascendo do mar, a lua comeava a cobrir de ouro e prata a cidade da Bahia.
- Deixa os ossos da branca pra depois, negro covarde, tu est com medo de feitio, ento tu no 
filho de Xang? Deixa a branca para depois de ter partido a urucubaca pelo meio, hoje  tua noite
de festejo. Vadinho esporreteado, tinha palpites mais loucos, e era igual na sorte e no azar, o
mesmo sorriso trfego e insolente. Quem sabe, pensou Arigof Vadinho do alto da lua estaria
vendo com sua urucubaca s costa, despido do corrento de ouro, do anel de prata, do relgio
cobiado pelo espanhol do sete?
    - Cad sua coragem negro? Cad o negro Arigof trs vezes macho? Waldomiro Lins, prudente
e fino jogador, lhe aconselhara a no persistir contra o azar, a se encolher, escondido no leito da
amante, to alva e to sabida: Teresa recitava de memria os rios da China, os vulces dos Andes,
os cumes das montanhas. Quando via o negro Arigof, enorme e nu, e ela toda dengosa, saudava
ao mesmo tempo o pico do Himalaia e o eixo da terra: pouca vergonha de Teresa! Com tanto
caiporismo e com Teresa a espera-lo s mesmo um doido voltaria naquela noite ao carteado.
    - Vai que eu te garanto negro frouxo... - A voz de Vadinho em seu ouvido.
    Arigof o procurou em derredor, pois chegava a sentir o bafo de seu hlito. Era como se o
amigo do passado o tomasse pela mo e o conduzisse para as escadas do Abaixadinho ali to
perto.
     - Nunca tive medo de caretas... - Disse o negro.
Teresa o esperaria mastigando chocolates, em volta nos lagos Canadenses, nos afluentes do
Amazonas.
Sem um tosto no bolso, Arigof penetrou no abaixadinho, foi se colocar ante a mesa do lasquin.
    Antnio Dedinho, o crupi, preparava o cahier de seus baralhos para recomear o jogo. As
caras em derredor eram de perdedores, no refletiam entusiasmo, a sorte toda para a casa. Nem
um s amigo a quem Arigof pudesse afanar ficha ou dinheiro. Antnio Dedinho anunciou uma
banca de cem contos e virou duas cartas sobre a mesa: a dama e o rei.
    - Na dama... - ouviu Arigof a ordem de Vadinho. Ningum para emprestar sequer cinco mil-
ris. Havia um homem bem vestido, alinhado num terno branco fichas na mo, habitu mas
desconhecido por ali: talvez do interior Arigof retirou da gravata o alfinete vistoso, uma chave
atravessando um corao, presente de Teresa. Mas o ouro era metal dourado e os brilhantes vidro
sem valor, assim o desmoralizara o espanhol do sete, recusando-se a receb-lo em empenho.
Exibindo a prenda, Arigof dirigiu-se para o ricao de terno branco:
    - Meu distinto, empreste-me uma ficha, uma qualquer, e fique com esta jia de garantia. J lhe
pagarei, meu nome  Arigof, e aqui todos me conhecem.
    O lorde lhe estendeu uma ficha de cem:
- Guarde seu broche, se ganhar me paga e lhe desejo sorte.
    A ficha sobre a dama. Arigof esperou sozinho, pois da roda ningum quis arriscar, num
desnimo. Nem o homem de branco, preferindo peruar o jogo. Antnio Dedinho virou a
primeira carta e foi logo a dama. Arigof recolheu as fichas. Dedinho volteou novas cartas e, por
coincidncia, repetiram-se a dama e o rei. Novamente Arigof ps seu dinheiro nas mos da dama.
Antnio Dedinho puxou uma carta do cahier e, maior coincidncia ainda, essa primeira carta era
de novo a dama. Novas cartas e crescendo a coincidncia, j agora digna de nota: pela terceira vez
foram vistos na mesa a dama e o rei. Arigof firme na dama e junto com ele apostou o homem de
branco. Chegaram os primeiros curiosos. Antnio Dedinho tirou a carta do cahier e, por mais
incrvel, a primeira carta, pela terceira vez, era a dama. Por sinal, de ouros, a lembrar Teresa.
"Meu Deus", disse uma rapariga, nervosa. Nervosa no s pelo fato de ter-se por trs vezes
repetido a dama, mas porque era sempre a dama a primeira carta, alm de se haverem repetido
por trs vezes, sobre a mesa de apostas sempre as mesmas cartas: dama e rei.
    No por trs vezes, mas por doze caram sobre a mesa a dama e o rei e por doze vezes acudiu
a dama ao chamado de Arigof e era sempre a primeira carta a ser virada. Agora, no s o homem
de branco mas vrios outros apostavam no palpite do negro, que punha trs contos em todas as
paradas, o mximo permitido.
    Plido de morte, o medo no corao, Antnio Dedinho preparou um novo cahier. Lulu, o
fiscal da sala, estava agora ao lado de Dedinho e seguia atento o embaralhar das cartas. Em torno
 mesa crescia o grupo agitado. Vinha gente do bacar e da roleta.
    Antnio Dedinho exibiu o cahier aos jogadores, dele retirando duas cartas: cresceu sua palidez,
tremeram suas mos pois as cartas eram a dama e o rei. Arigof sorriu: quebrara o azar, rompera o
eb e fora buscar a sorte com as mos e os dentes e com a lembrana de Vadinho. Se houvesse
outro mundo, se ficassem os mortos por a , de alm, vagando no cu ou no espao, como diziam
certos especialistas no assunto, ento talvez Vadinho o estivesse vendo do alto da lua derramada
em ouro e prata sobre o mar e o casario. Orgulhoso, certamente, da valentia de seu amigo Arigof,
negro macho, vencedor da urucubaca e dos feitios.  pelo jeito, Vadinho estava era ali mesmo na
sala, bem junto de Arigof, e retado da vida, pois tendo o negro resolvido, aps profundos
clculos cabalsticos, mudar de carta e carregar no rei (era impossvel que a dama ainda repetisse,
inteiramente impossvel), ouviu a voz brava do amigo, numa ordem dura:
- Na dama, negro filho da puta.
    E a mo de Arigof, independente de sua vontade, como se obedecesse a uma fora superior,
depositou as fichas na dama. Cerrando os dentes, olhos em pnico, Antnio Dedinho retirou a
primeira carta: dama. Movimento geral, exclamaes, risos nervosos e foi chegando cada vez mais
gente para ver o impossvel.
     Gilberto Cachorro, o gerente da espelunca, com seu ar desconfiado de rafeiro, postou-se ao
lado de Lulu, disposto a desmascarar a tramia (que outra coisa podia ser seno batota e grossa?)
Em suas fuas repetiu-se o absurdo vrias vezes e a banca de cem contos estourou. Alvoroada e
alegre, a dama era sempre a primeira carta. Onde a batota, grossa ou fina, Cachorro?
    Antnio Dedinho voltou-se vencido para o gerente, esperando suas ordens mas Cachorro
apenas o olhou com desconfiana e nada disse. O crupi preparou novos baralhos,
vagarosamente, na vista de todos e com o maior apuro:
    - Banca de cem contos...
     Virou duas cartas: dama e rei. Havia um silncio de morte e agora todos queriam apostar na
dama. Vinha gente da rua e do Tabaris, onde a notcia espantosa j chegara. A nova banca no
durou.
     A uma ordem de Gilberto Cachorro, Lulu saiu disparado para o telefone. Na sala o
impossvel virava ramerro, a dama a se repetir e sempre de primeira. O homem de branco disse
em voz alta:
- Vou-me embora seno tenho uma coisa, meu corao no agenta. Jogo h mais de dez anos
em Ilhus e Itabuna, em Pirangi e em gua Preta. J vi muita trapaa, fraude de todo tipo, mas
igual a essa nunca vi. E digo mais: estou vendo e no acredito.
     Arigof quis lhe pagar a ficha e convid-lo para a ceia em casa de Teresa, mas o homem
recusou:
     - Deus me livre e guarde. Tenho medo de feitiaria e s pode ser feitiaria. Fique com sua
ficha que eu vou remir as minhas antes que sumam ou se desfaam.
     Lulu retornara e no tardou a juntar-se a ele e a Cachorro a figura circunspecta de um crioulo
idoso, de culos, muito calmo, o professor Mximo Sales principal testa-de-ferro de Pelancchi
Moulas, seu homem de confiana.
     Ao receber o telefonema de Lulu, o magnata recusara-se a acreditar na histria sem ps nem
cabea. Com certeza Lulu voltara a beber e agora o fazia durante as horas de trabalho, num abuso
imperdovel. A cabea canosa repousada na tepidez dos seios de Zulmira Simes Fagundes, em
doce intimidade, Pelancchi mandara Mximo Sales tirar a limpo to esdrxula balela. O mais
certo era no passar tudo aquilo de mais um porre de Lulu:
     - Se ele estiver bbado, professor, no vacile, por obsquio: despea-o imediatamente. E me
telefone o resultado...
     Mal tivera tempo o testa-de-ferro de dar-se conta do fenmeno e da sbria compostura de
Lulu e l se ia a banca de cem contos pelos ares, nos dedos de Arigof.
     Antnio Dedinho, enxugando o suor na testa exangue, olhou o trio em sua frente. Tinha
filhos a criar e para outro emprego no servia, ai, meu Deus! Os trs o fitavam de travs, o
professor Mximo ciciou: "prossiga". Com sua roupa azul, seus culos sem aro, seu anel de rubi,
Mximo Sales parecia um respeitvel catedrtico de carapinha embranquecida no estudo e nas
viglias cientficas. To formal e digno que todos o tratavam de professor, inclusive Pelancchi, se
bem s fosse mesmo formado em contraveno, em fichas e baralhos. Nessa ctedra era
realmente sumidade, competncia total, notrio saber, doctor angelicus.
    Antnio Dedinho, vtima do destino, preparou novo cahier e tudo se repetiu como um
pesadelo. Como disse Amesina (seu lindo nome era formado com Ame de Amrico, seu pai, e
com Sina de Rosina, sua me), meretriz dada  leitura do "Almanaque do Pensamento" e de
outras fontes esotricas, tratava-se do "esperado sinal do fim do mundo". Mximo Sales fez
algumas perguntas a Cachorro e a Lulu (de quem aspirou o inocente hlito) e, largando aquele
dilvio de damas, dirigiu-se ao telefone.
     Eis porque Pelancchi Moulas surgiu na sala, com Zulmira a tiracolo. Abriram alas para ele
passar e assim ver bem de perto seu dinheiro diluir-se ao lasquin. A banca de cem contos
estourou em sua cara.
    Com um gesto de rei, Pelancchi Moulas afastou Antnio Dedinho e na vista de todos os
presentes fez uma vistoria no cahier: os doze reis se acumulavam no fundo da caixa, eram as
ltimas cartas. Os trs empregados - Mximo, com sua pose doutoral, o rafeiro Gilberto e Lulu,
fiscal de sala - trocaram um olhar sabido. Antnio Dedinho viu-se inocente e condenado.
Pelancchi Moulas, os olhos frios, azuis de crueldade, fitou primeiro o crupi e os trs
funcionrios, depois a multido em torno, faces vidas e tensas, jogadores nos limites finais do
absurdo. A frente de todos, o negro Arigof: montanha do Himalaia, altura imensa, eixo do
mundo, no dizer entendido de Teresa, gegrafa e negreira. Arigof sorria, coberto de suor e fichas.
     Sorriu tambm Pelancchi Moulas para Zulmira,  sua retaguarda, preparou ele prprio um
novo cahier e fez o anncio da banca como se declamasse um verso:
    - Banca de duzentos contos.
    Nem por ser ele Pelancchi Moulas, senhor do jogo, de barao e cutelo, majestade e tudo mais
quanto se sabe e no vale a pena repetir, nem por isso mudou a sorte, que j no era sorte e sim
prodgio: l vinham rei e dama e dava a dama de primeira carta. Quando a banca estourou antes
do cahier chegar ao meio, Pelancchi Moulas examinou a caixa com o resto dos baralhos: l no fim
(o fim do mundo... repetia Amesina, a profetisa) estavam juntos os doze reis inteis.
    Largando as cartas, Pelancchi Moulas sussurrou algo e Gilberto Cachorro traduziu em voz
alta:
    - Por hoje o jogo se suspende...
    Arigof retirava-se por entre manifestaes de simpatia, seguido por admiradores e damas
ardentes e enxeridas. Remiu as fichas, comprou champanha, rumando para a casa de Teresa,
branca arretada por negro, uma capacidade em geografia e em jogos de cama. O negro foi-se
cheio de empfia e de orgulho: com ele no podiam nem a urucubaca nem o feitio, nem a clera
de iab muurumim.
               Pelancchi Moulas deixou-se ficar a refletir. Lulu balanava as mos, Gilberto Cachorro
sentia-se  incapaz de explicar, mas concordava com Mximo Sales: ali havia batota, sujeira,
safadeza das maiores. Nufrago num mar de damas, Antnio Dedinho aguardava a sentena. Era
preciso tirar tudo a limpo, disse solene o professor. Pelancchi Moulas encolheu os ombros:
fizessem o necessrio, inquritos e pesquisas, chamassem a polcia se preciso. Quanto a ele, tinha
uma desconfiana, seu sangue calabrs era sensvel ao mistrio, s - emanaes do alm.
     Tambm o eram os seios de Zulmira Simes Fagundes, bronze e veludo. A primeira
secretria, a prima-dona, a favorita de Pelancchi Moulas, se retorcia de repente em riso e dengue:
    - Uma coisa nos meus peitos, ai, Pequito, tem uma coisa me fazendo ccega, ai que coisa mais
maluca... At parece assombrao...
    Pelancchi Moulas fez o sinal da cruz.

Captulo 8

     Aqueles foram dias confusos, de correria e de canseira, dias de emoes. Doutor Teodoro e
Dona Flor numa azfama, de um lado para outro, do Banco para o cartrio, do cartrio para
diferentes reparties municipais. Ela vira-se obrigada a suspender as aulas at o fim da semana,
ele quase no aparecera na farmcia. Celestino, com sua habitual franqueza lusitana, avisou a
Dona Flor:
     - Se quer mesmo comprar a casa, largue por uns dias a porcaria dessas aulas. Seno, adeus...
     Surgira outro candidato e, no fosse a boa vontade do banqueiro, eles teriam perdido mais
uma vez a chance de realizar o negcio. Tambm agora estava tudo praticamente concludo,
faltando apenas assinar a escritura definitiva: o cartrio tardaria uns dias a apront-la. Mas j fora
pago o sinal ao antigo senhorio e para isso haviam usado o dinheiro da caderneta da Caixa
Econmica, as economias de Dona Flor.
     Pelo brao do marido, apoiada em sua fora e em seu saber, Dona Flor andara meia Bahia
naquele fim de semana. Quase no parara em casa, apenas as horas de comer e de dormir, e nem
mesmo nesse pouco tempo pde descansar. Como faz-lo com Vadinho presente, postando-se a
seu lado apenas ela aparecia, e cada vez mais atrevido, disposto a lev-la  desonra, ao adultrio?
     Adultrio? Adultrio, como? - perguntava o maligno, se sou teu marido? Onde j se viu
mulher tornar-se adltera por se haver entregue ao marido legtimo? No lhe jurara ela
obedincia ante o juiz e o padre? Onde j se viu, minha Flor de maracuj, casamento assim
platnico? Um
absurdo...
     O amaldioado tinha falas de acar, lbia fina, lgica e retrica, sabia os argumentos capazes
de confundi-la e sua voz era um acalanto:
     - Meu bem, no foi para dormir juntos que a gente se casou? E ento?
     Dona Flor ainda trazia no brao o peso do brao do doutor, ainda sentia seu odor suado nas
ladeiras, em busca da burocracia. A voz de Vadinho a perturbava - como descansar, se devia estar
atenta, se no podia abandonar-se um segundo sequer sem correr perigo? Perigo de ir-se na
msica de sua voz, entontecida por suas palavras, tocada por sua mo traioeira, por seu lbio.
Quando se dava conta, hei-la presa em seus braos, tinha de soltar-se com  violncia. No se dera
e nunca se daria.
    No se dera ou, pelo menos, no se dera de todo, porque algo lhe permitira nesse tempo de
dias cansados: carcias pequenas e inocentes. seriam assim to pequenas e inocentes?
    Certa tarde, por exemplo, chegando estafada das reparties e do cartrio (o doutor ainda fora
 farmcia, preparar receitas), Dona Flor despiu o vestido, arrancou sapatos e meias e se estendeu
no leito de ferro, assim mesmo de corpinho e combinao. Havia silncio e brisa na casa vazia e
Dona Flor suspirou.
    - Cansada, meu bem? - Era Vadinho deitado junto a ela.
    De onde viera, onde se escondera, que Dona Flor no o vira?
    - To cansada...  para descobrir um papel numa repartio se perde uma tarde... Nunca
pensei...
    Vadinho tocava-lhe o rosto...
    - Mas tu est contente, meu bem...
    - Sempre quis ter minha casa...
    - Eu sempre quis te dar essa casa...
    - Voc?
    - No acredita? Tem razo... Pois fica sabendo foi a coisa que eu mais desejei: poder um dia te
dar essa casa. Um dia eu haveria de ganhar tanto dinheiro no 17 que a pudesse comprar... Ia
chegar com a escritura sem te dizer nada antes... S que no deu tempo... Se no
. Tu no acredita, no ?
    Dona Flor sorriu:
    - Por que no hei de acreditar?
    Sentia a boca de Vadinho na altura de seu rosto, quis libertar-se de seus braos envolventes:
    - Me deixa...
    Mas ele tanto rogou que ela lhe permitia a cabea loira ao lado da sua e consentiu em descansar
no aconchego do seu peito. Inocentemente,  claro.
    - Tu jura que no vai tentar...
    - Juro...
     Foi um momento de doura, Dona Flor sentindo no pescoo o hlito de Vadinho e aquelas
mos a defenderem seu descanso. Uma delas lhe acariciava o rosto, tocava-lhe os cabelos,
apagando a fadiga. To cansada ela adormeceu.
    Ao acordar, as sombras da noite haviam chegado e tambm doutor Teodoro:
    - Dormiu, minha querida? Voc deve estar morta, coitada... Alm de gastar suas economias,
ainda essa labuta...
    - No digas tolices, Teoro... - E, pudica, cobriu-se com o lenol.
    Na semi-escurido do quarto ela procurou Vadinho, no o viu. certamente partira, ao sentir os
passos do doutor. Ser que ele anda com cimes de Teodoro? - Perguntou-se Dona Flor num
sorriso. Vadinho negava,  claro, mas Dona Flor tinha certa desconfiana. Doutor Teodoro de
pijama, Dona Flor ps abata, levantando-se. O marido lhe deu as mos:
     - Que trabalheira, hein, minha querida? Mas vale a pena, agora possumos nossa casa. Eu no
descansarei, porm, enquanto no pagar a hipoteca e no depositar na Caixa todo o dinheiro que
voc empregou na transao.
     Juntos, quase abraados, a mo do farmacutico na cintura de Dona Flor, saram do quarto
para a sala de jantar. Ali encontraram Dona Norma, desejosa de novidades sobre a compra da
casa.
     - Parecem dois pombinhos... - disse a vizinha ao v-los assim enamorados, e logo o doutor se
encabulou, afastando-se da esposa.
     No dia seguinte, pela manh, Dona Norma voltou para discutir com Dona Flor assuntos de
costura. Apontando-lhe o pescoo nu, gracejou:
     - Esse teu namoro com teu marido est ficando escandaloso...
    - Hein? O qu?
     - Ento eu no vi ontem, voc e o doutor no maior idlio, vindo do quarto, ainda
agarradinhos?
     - Voc est falando de mim e de Teodoro? - perguntou, ainda em susto.
     - E de quem havia de ser? Voc est ficando broca? O doutor anda saindo do srio... E antes
do jantar, hein? A funo continuou depois? Tambm, havia que festejar a compra da casa...
     - Que conversa, Norminha... No houve funo nenhuma...
     - Ah! minha santa, isso no. Voc com todas essas marcas de chupo no pescoo, cada qual
mais bonita, e a me dizer que no houve nada... Eu no sabia que o doutor era do tipo
sanguessuga...
     Dona Flor passara a mo no pescoo, correra para o espelho do quarto. Marcas vermelhas,
arroxeando-se, tomavam-lhe todo um lado do colo. Um escndalo.
     Ah! Vadinho mais perjuro, mais louco e mais tirano... Ela sentira um afago de lbios e
reclamara. Mas ele lhe perguntou que mal fazia tocar-lhe o pescoo, se no era sequer um beijo,
apenas lhe aflorava a pele com a boca. Na carcia, Dona Flor adormecera, Ah! Vadinho mais sem
jeito!
     Arrancou-se do espelho, vestiu uma blusa de gola alta a lhe esconder as marcas acusadoras.
Que diria o doutor se visse esses roxos sinais de outros lbios que no os seus, alis incapazes de
tais deboches e depravaes? Voltou  sala:
    - Norminha, minha filha, pelo amor de Deus no v fazer pilhrias com Teodoro sobre esses
assuntos... Voc sabe como ele , todo encabulado... E to discreto...
    -  claro que no vou tirar graola com o doutor, mas, Florzinha, que ele est saindo do srio,
isso est... Discreto ele foi noutros tempos, minha santa, agora se soltou... At parece Vadinho,
que s faltava fazer as coisas na vista dos vizinhos...
     Dona Flor sentiu o som de um riso e uma presena, Dona Norma no se dava conta,
felizmente: o maligno surgia do ar e para cmulo vestia aquela camisa de mulheres nuas, trazida
da Amrica por Dona Gisa para o doutor. S a camisa a cobrir-lhe o peito, o resto a mostra, mais
indecente ainda.

Captulo 9

     - Que mal h nisso, meu bem? Que  que tem? Deixa minha mo ficar a, no estou te tirando
pedao, nem te alisando, estou com a mo parada, o que  que tem? - mantinha a mo discreta
sobre as alturas dos quadris redondos, mas apenas obtida a muda aquiescncia, a mo no se
continha, indo e vindo das ancas para as coxas - vasto territrio pouco a pouco conquistado.
     Assim, com as mos, o hlito, os lbios, as palavras macias, com o olhar, o riso, a inveno, a
graa, com o queixume, a briga, o dengue, Vadinho cercara a fortaleza, dita irredutvel por Dona
Flor, pondo abaixo muralhas de dignidade e pudiccia. Num avano constante e firme, em
obstinado assdio, reduzira hora a hora o campo de batalha.
     A cada encontro ocupava nova posio, caam basties, rendidos pela fora ou pela astcia: a
mo sabida ou bem o lbio de promessas mil, todas elas vs - "s um beijo, meu bem, s um... L
se foram os seios, as coxas, o colo, as ancas, a bunda de cetim. Agora tudo isso era dele, terreno
livre de censuras para a mo, para o lbio, para a carcia de Vadinho. Quando Dona Flor se deu
conta, sua honestidade e a honra do doutor viram- se encurraladas em derradeiro reduto, quanto
lhe restava ainda inclume. O mais, esse cho ardente de batalha, ele o tomara quase sem ela
perceber.
     Dona Flor vinha disposta a reclamar as manchas roxas do pescoo, sinais devassos,
estarrecedores, vinha disposta a proibir quaisquer intimidades, mas ele a envolvia num abrao,
sussurrando explicaes ou fazendo burla de seu pudor e de sua seriedade, e dentro em pouco
lhe
mordiscava a orelha, num afago de arrepios.
     Fazia-se urgente e imprescindvel pr cbro, de uma vez para sempre, quelas relaes
equvocas j to distantes da terna estima, da inocente amizade amorosa, do platnico sentimento
que Dona Flor imaginara possvel quando do regresso de Vadinho. Ao medir a extenso do
perigo, a esposa virtuosa encheu-se de medo e brio, dispondo-se a colocar um paradeiro naquela
situao absurda. Onde j se viu mulher com dois maridos?
     Sentada no sof, refletia Dona Flor sobre a delicadeza do assunto - devia conduzir a discusso
com muita habilidade para no magoar Vadinho, para no o ofender; afinal ele viera em ateno a
seu chamado -, quando o tinhoso surgiu e a tomou nos braos. Enquanto Dona Flor buscava
maneira de iniciar a conversa, Vadinho enfiou-lhe a mo por baixo dos vestidos, tentando atingir
exatamente aquele ltimo reduto ainda inclume, cofre forte a conter sua dignidade de mulher e a
honra do doutor.
    - Vadinho.
     - Deixa eu ver a peladinha, meu bem... Estou morto de saudades da bichinha... E ela de mim...
     Levantou-se Dona Flor numa exploso de clera. em violncia e fria. Tambm Vadinho se
aborreceu e foi spero e desagradvel o bate-boca. Talvez Vadinho no mais esperasse a brusca
reao de Dona Flor, pensando-a j de todo conquistada.
     - Tira a mo de cima de mim, no me toque mais... Se ainda quiser me ver e conversar
comigo, tem que ser de longe, como conhecidos e nada mais . .. j te avisei que sou mulher
honesta e que estou muito feliz com meu marido...
    Vadinho respondia zombeteiro:
     - Teu marido, esse paspalho, esse boc... S tem tamanho... Que  que ele sabe dessas coisas,
esse frouxo?
     - Teodoro no  um ignorante como voc, no  um capadcio,  um homem de muito
saber...
     - Muito saber... Pode ser que para fazer um xarope ele seja uma capacidade... Mas para o que 
bom, para a vadiao, ele deve ser a maior toupeira desse mundo... Basta olhar para ele,  um
capo...
     Dona Flor encarou Vadinho, nunca ele a vira to indignada:
     - Pois fique sabendo que est muito enganado, quem  que pode saber da capacidade dele
seno eu? E eu estou mais do que satisfeita... No sei de homem melhor do que ele. Em tudo e
nisso tambm... Voc nem chega aos ps dele.
    - Puf! - fez Vadinho, num rudo desrespeitoso e vulgar.
     - Me deixa em paz, no preciso de voc para nada... E no me toque nunca mais...
     Estava decidida: no lhe permitiria mais intimidades, nem abraos, nem os tais beijos
inocentes, nem que junto a ela se estirasse para "conversar melhor". Era uma mulher honesta,
uma esposa sria.
    - Se voc estava to satisfeita, por que me chamou?
     - J te disse que no foi pra isso... E j me arrependi de ter chamado...
     Depois, sozinha, perguntou-se se no fora por demais grosseira e violenta. Vadinho ficara
escabriado, ofendido, de cabea baixa. Sara porta a fora e durante todo o resto do dia ela no o
viu. Quando ele viesse na hora do crepsculo, ela lhe explicaria suas razes com boas palavras.
Cnico e insolente, Vadinho tinha por vezes, no entanto, reaes inesperadas, era capaz de
compreender os escrpulos de Dona Flor e de reduzir suas relaes aos limites impostos pelo
decoro e pela honra.
    Todas as tardes, Dona Flor, terminadas as tarefas quotidianas, e aps o banho, envolta em
perfume e talco, deitava-se no leito para uns minutos de repouso. Ento, invariavelmente
Vadinho junto a ela se estendia e sobre as mais diversas coisas conversavam (e enquanto
conversavam, l ia ele derrubando basties, tomando-a contra seu peito, dobrando-lhe a
vontade). Quando se dispunha a reclamar, ele a distraa falando dos lugares de onde viera, e Dona
Flor toda curiosa, cheia de perguntas, no tinha foras para proibies.
    - E a terra, vista de l, como , Vadinho?
    -  toda azul, meu bem.
    Descia-lhe o tentador a mo pela anca ou a levava ao seio, Dona Flor querendo saber:
    - E Deus, como ele ?
     - Deus  gordo.
    - Tira a mo da, tu est  me embromando...
                Vadinho ria, a mo a conter o seio trgido, o lbio a buscar a boca de Dona Flor,
como saber se era verdade ou bem mentira? Hlito de brasas, ardido hlito de pimenta, doura de
brisa, virao do mar, ai Vadinho mentiroso e sem-vergonha... Assim ele ia tomando ela pouco a
pouco, restava apenas o ltimo reduto, seu recato derradeiro.
    Naquele dia, porm, ela em vo o esperou, ele no veio. Inquieta, Dona Flor rolou no leito,
debatendo-se em nsia e dvida. Teria ido embora, de volta, magoado em seu orgulho, ofendido?
Teria ido embora para sempre?
     Dona Flor estremeceu a esse pensamento. Como novamente viver sem a sua presena? Sem
sua loucura, sem sua graa, sem sua tentao?
                Fosse como fosse, porm, devia passar sem ele, se quisesse permanecer honesta,
mulher direita. Era a nica soluo vivel, aquele impasse no continha outra porta de sada.
Terrvel medida, provao sem tamanho, mas que fazer? Impunha-se a drstica ruptura: se
Vadinho continuasse ali, no havia fora de decncia nem deciso de virtude capazes de impedir
o irremedivel. Dona Flor no se engana: que eram as conversas seno pretexto para as carcias,
para aquela luta to tremenda e to deliciosa?
     Como resistir  lbia de Vadinho? No a convencera ele, e Dona Flor no se deixava
convencer, que,  exceo da posse completa, tudo mais era brincadeira sem maldade, jogos de
primos, no implicando em desonra nem mesmo em indecncia? No havendo posse, desonra
no havia, mantinham-se intactas sua dignidade e a testa insigne do doutor.
     Pela segunda vez Vadinho adormecera seus escrpulos com a mesma cantiga de ninar, a
mesma modinha com que a embalara nos distantes tempos do namoro no Rio Vermelho e na
Ladeira do Alvo. Ela fora no acalanto e quando abriu os olhos j ele lhe comera cabao e honra
de donzela junto ao mar de Itapo.
    Novamente agora Vadinho chegava ao cais de seu porto derradeiro,  fmbria mais recndita
de seu ser. Ao menor descuido de Dona Flor, num instante qualquer de incontido anseio, ele lhe
comeria no mais o cabao de donzela mas a honra de um marido e a decncia de uma esposa.
                De uma esposa modelar, de um marido exemplo dos bons maridos. Quando o pobre
menos pensasse, em sua testa floresceriam chifres, e seria a maior das injustias. As sementes
desses injustos cornos j estavam plantadas pelas mos de Vadinho, por sua boca de beijos, por
seu calor de homem a acender em Dona Flor gula e pecado.
     Sim, s havia uma soluo, nica e certa: Vadinho retornar para de onde viera, s assim
estariam garantidas a honestidade de esposa e a testa do droguista. Dona Flor ia romper o
corao, ia sofrer demais, mas onde outro caminho, outra porta de sada? Ela lhe explicara
gentilmente suas razes: "Perdoa, meu amor,  impossvel continuar assim, j no posso mais.
Perdoa-me se te chamei, foi tudo culpa minha, adeus, deixa-me em paz..."
     Em paz? Ou em desespero? Fosse como fosse, pelo menos honesta, mulher direita, fiel a seu
marido.
     Vadinho no apareceu. Nem na cama, na hora do crepsculo, nem depois, na sala, na hora do
jantar. Costumava vir fazer macaquices, obrigando Dona Flor a morder os lbios para no rir
quando, metido na camisa de mulheres nuas, saa bailando e se exibindo; ou para no se irritar ao
v-lo por detrs da cadeira do doutor a lhe pr chifres na testa com os dedos, o pervertido!
     Chifres inexistentes, pois ela no se dera, guardara inclume o reduto onde a honra verdadeira
se contm (o resto era bobagem, como Vadinho lhe dizia e como sabem quantos dessas coisas j
trataram.
     Esperou at a hora de dormir, ele no veio.  realmente, Vadinho partira ofendido, era
orgulhoso e duro, capaz de enfrentar de cabea erguida a provao mais rude. Quem sabe, partira
para sempre. Ai, meu Deus, nem sequer se despedira.

Captulo 10

     A desapario de Vadinho ocorrera na quarta-feira pela manh e Dona Flor passou o dia
desarvorada, na aflio de no o ver, no receio de t-lo novamente perdido e no contraditrio
desejo de que assim fosse, pois, ela o sabia, s essa partida definitiva, para sempre e nunca mais,
era capaz de lhe salvar o lar feliz.
     Ora, nas noites das quartas-feiras, assim como nas dos sbados, como j se disse e repetiu, o
metdico doutor honrava a esposa e dela se servia, cumprindo prazeroso suas obrigaes
matrimoniais, grata tarefa Com bis aos sbados (no nos esqueamos) e com o mesmo ritual de
sempre, onde o prazer no exclua o respeito, um prazer envolto em pudiccia, coberto com o
recato (e com o lenol).
     Aps o desacerto da noite do aniversrio de casamento, noite do retorno de Vadinho, as
relaes de cama entre Dona Flor e doutor Teodoro reencontraram sua normalidade, Dona Flor
dando-se ao esposo com modstia e com ternura, e dele recebendo plena e total satisfao, aos
sbados repetida.
     Alis, Dona Flor nunca fora to viva no prazer com o bravo farmacutico como ultimamente:
em verdade empregava-se agora com mais ternura do que modstia, o doutor a sentia ansiosa e
apaixonada, perdendo por vezes a conteno discreta, pondo-se a gemer e a suspirar, num
assanhamento. Alegrava-se o doutor com tais provas de amor e de satisfao. Engrandecia-se o
amor de sua esposa com o passar do tempo, e tambm ele a amava ainda mais, se era possvel.
     Houve mesmo uma noite de folgana extra, fora do estrito calendrio, a noite daquele dia em
que se completaram os trmites, no Banco de Celestino e no cartrio de Marback, para a compra
da casa. Esse festejo do acontecimento, o doutor o cumpriu feliz, achando justo romper, por tal
motivo, a sistemtica ordenao da vida noturna do casal.
     Ele prprio, ao sair naquela tarde do quarto para a sala, o brao na cintura de Dona Flor, a
cabea da esposa em seu ombro reclinada, e ao perceber o sorriso malicioso de Dona Norma,
sentira o apelo do amor disperso no ambiente, vindo de Dona Flor e comovendo-o. Ele prprio
pensara em celebrar a data considerando que "uma extravagncia uma vez na vida outra na morte
no chega a ser abuso nem ameaa  sade fsica ou moral dos cnjuges (desde que no se
converta em hbito, evidentemente)".
                Se a compra da casa influra sobre Dona Flor, levando-a a provocar o esposo e a obter
sua aquiescncia e colaborao naquele extra, ela no se dera conta. O fogo a queim-la a muito
fora aceso pelas demarches bancrias, por hipoteca, recibos e escritura. A compra da casa ainda
mais a prendia ao doutor, sem dvida, mais forte seu afeto. O que a levava, porm, a exigir prazer
e posse extemporneos, era a fogueira erguida por Vadinho, suas carcias, sua mo de afago, sua
boca de beijos, a descarao ao crepsculo, roxas marcas no pescoo. Agora, quando o doutor
crescia sobre ela, envolto nu lenol, ao cerrar os olhos Dona Flor j no enxergava um pssaro
gigantesco e, sim, Vadinho finalmente a possui-la, a faze-la gemer e suspirar. Uma confusa dos
diabos.
     Guardava-se Dona Flor de ponderar sobre mais essa encrenca, j tinha muito com que se
consumir. Quanto ao doutor, dispunha-se seriamente a programar um extra para cada quinze
dias.
     Na noite daquela quarta-feira da briga com Vadinho, Dona Flor se sentia perplexa e agitada,
bem precisada de acalmar os nervos. Pensava em Vadinho sumido, talvez para sempre. Era a
volta  existncia calma, o fim dos dias tensos, quando se vira entre dois maridos, ambos com
direito a seu amor e ela sem saber como agir, chegando em certos momentos a mistur-los e
confundi-los, na maior das atrapalhaes. Quem sabe, agora, poderia retornar ao tranqilo
ramerro de antes do regresso de Vadinho, quando seu corpo s se despertava s quartas e aos
sbados?
     Assim, naquela quarta-feira  noite, escondendo sob os lenis as marcas dos beijos de
Vadinho em seu pescoo, e sufocando no corao o medo de sua ausncia, Dona Flor acolheu
seu esposo Teodoro, com ele iniciando o discreto e doce ritual. Apenas, porm, o doutor crescera
sobre ela, qual confortvel guarda-chuva, o riso de Vadinho ressoou aos ouvidos de Dona Flor e
a fez estremecer.
     Primeiro foi a alegria de v-lo ali, equilibrado nas grades do leito, ele no tinha partido para
sempre como Dona Flor temera. Depois alegria fez-se raiva, ao enxergar seu riso de deboche,
aquele falso ar de piedade no rosto de zombaria e pagodeira.
     Estava a divertir-se o coisa-ruim, suspendendo a ponta do lenol para melhor apreciar e
escarnecer. Dona Flor ouvia sua voz dentro do peito, seu riso libertino, de troa e de debique:
     -  isso que voc chama de vadiao?  esse o doutor Sabe-tudo, o mestre das putas, o rei da
sacanagem? Essa porqueira, meu bem? Nunca vi coisa mais inspida... Se, eu fosse tu, pedia a ele,
em vez disso, um frasco de xarope: cura tosse e  mais gostoso... Porque o que ele est
fazendo, meu bem,  a coisa mais triste que eu j vi...
     Ela ainda quis dizer "pois eu gosto e muito", mas no pode. O doutor chegava ao fim e ela se
perdera nos risos de Vadinho, morta de vergonha (e de desejo).

Captulo 11

     Dona Flor em aflio, desatinada, temendo por sua honra, por seu lar feliz, tudo em perigo.
Que dizer ento de Pelancchi Moulas? Rua seu imprio como sob um terremoto ou uma
revoluo.
     Nunca se vira nada igual desde o comeo do mundo e das apostas. J sucedeu,  certo, sorte
extraordinria, assim como azar descomunal e, por mais de uma vez, um jogador, com fortuna e
deciso, estourou a banca de um cassino. So acontecimentos raros e sempre limitados. Fora
disso h a batota. Mas tambm a trapaa  logo descoberta, sobretudo se persistente e repetida.
Nesse mundo de incertezas, nada mais seguro do que a receita e o lucro dos concessionrios dos
cassinos e do bicho, da jogatina: ganham de muitos, perdem para uns poucos, so uns gr-
senhores, vivendo  tripa forra. Melhor negcio, mamata mais rendosa, s mesmo a Presidncia
da Repblica.
     Contra Pelancchi Moulas, porm, levantavam-se baralhos, dados e roletas, acontecia tudo
quanto no tinha explicao. O absurdo, o inacreditvel, o impossvel, era necessrio ver para
crer, e ainda assim, vendo com os olhos que a terra h de comer, muita gente repetia as palavras
daquele homem de Ilhus, ao assistir ao torneio das damas de Arigof: "estou vendo e no
acredito".
     Em matria de jogo, o professor Mximo Sales vira tudo em sua vida, inclusive um homem
morrer do corao ao acertar um pleno na roleta e outro se matar engolindo uma pastilha de
veneno, morte feia. Nunca pensara em deparar com o inexplicvel, era um ctico, tinha os ps na
terra e a cabea fria. Adolescente vendera pule de bicho em Porto Alegre, em Manaus foi gerente
de uma tasca clandestina, crupi no Rio, marreteiro no Recife, bancara ronda em Macei, viveu
de pquer nos garimpos, conhecia todos os segredos, cada ladroeira.
    - Ento, professor, que  que me diz? Quais os resultados de seu inqurito? De concreto, o
qu? - a voz de Pelancchi, seus olhos maus e o medo.
     De concreto nada, Mximo Sales dava a mo  palmatria. Dados e baralhos tinham sofrido
os exames mais minuciosos, tambm mesas e caixas, nenhum indcio. Veio a polcia, um delegado
com fama de muito competente, vrios secretas, interrogaram os empregados, sob a orientao
de Mximo. Exaustivamente, sem levar em conta posto, idade, sequer as relaes de intimidade
com o patro. Nem Domingos Propalato, irmo de leite de Pelancchi, foi poupado. S Zulmira
escapou de tal humilhao, mas nem por ser quem era, o professor a inocentava:
    - Vai-se ver e essa tipa  da quadrilha.
       Para Mximo s uma quadrilha, e das mais bem organizadas, poderia ter montado aquela
batota extraordinria. Uma quadrilha - internacional, faltando aos trapaceiros locais competncia
para tanto; tampouco a possuindo os do Rio ou de So Paulo. S especialistas europeus ou
americanos, de Monte Carlo ou de Las Vegas, seriam capazes de faanha como a do bacar:
durante duas noites seguidas, na mesma mesa de bacar, no Tabaris, deu o ponto todas as vezes e
nem uma vez a banca, o velho Anacreon ganhando uma fortuna. Ele e todo mundo pois
verdadeira multido acompanhou o jogo do sortudo. Sortudo? Para Mximo, Anacreon era
apenas cmplice dos bandidos.
     Bancava, em nome da casa, o melhor banqueiro de bacar da cidade, qui do norte do Brasil,
Domingos Propalato. No um empregado qualquer, mas o patrcio, o compadre, o irmo de leite
de Pelancchi Moulas. Nascidos na mesma aldeia, com diferena de dias, a me de Domingos em
seu farto seio amamentara o futuro milionrio. Capaz de matar e morrer pelo fraterno, estava
Propalato acima de qualquer suspeita. Em frente a ele, o velho Anacreon. Mais que suspeito.
    Onde arranjara o palpite e o dinheiro para o jogo? Todos sabiam da msera situao a que
descera o velho: to por baixo, reduzido a vender pule de bicho no caf de Raimundo Pita Lima.
    Ao demais - somava Mximo nos dedos - o velho tinha audcia e experincia. Muito antes de
Pelanechi Moulas estabelecer seu imprio na Bahia, j Anacreon era figura popular nas rodas do
jogo clandestino, perseguido e roubadssimo. Hbil no trao do baralho, na queda dos dados,
quem mais antigo e mais constante na mesa da roleta, em frente ao bacar na batida da ronda, do
vinte-e- um, do sete-e-meio? Um patriarca.
     Passavam-se os anos, surgiam e desapareciam geraes, s o velho Anacreon se mantinha
igual, com altos e baixos certamente, fases boas e ruins, sem jamais no entanto ter exercido outro
ofcio alm do jogo.
     Rapazes que se fizeram  sua sombra, j no jogavam, transformados em pessoas srias e
respeitveis, como Zequito Mirabeau, Guerreiro, Nelito Castro, Edgard Curvelo, e at Giovanni
Guimares. Um de seus primeiros camaradas, Bittencourt, rpido chegara a diretor do servio de
guas, engenheiro competente. No esqueceu o amigo, lhe props um emprego de contnuo,
garantia para os dias de velhice. Comovido Anacreon chorou abraado a Bitencurtt mas nunca foi
assinar o contrato e tomar posse:
- S sirvo para jogar, pra nada mais...
    Alguns "uns poucos, felizmente", ocupando cargos importantes ou casados com mulheres
ricas, no ousavam se quer lembrar aqueles tempos de juventude e boemia. Outros tinham
morrido em plena mocidade e Anacreon vivia a lhes recordar os nomes e os feitos: O alegre Ju,
prncipe da faccia, do gracejo, da pilhria fina: o belo Divaldo Miranda, rico e elegante cabo-
verde: o gordo Rossi, uma simpatia de rapaz, doido por samba e por cachaa: certa vez, bbado
urinava em pleno salo do Place, na vista das senhoras, e s no foi linchado porque Anacreon,
puxando da navalha, virou fera e lhe garantiu a retirada: Vadinho, o inesquecvel, o seu amigo
mais dileto, o mais louco e divertido, o melhor, o mais retado, um porreta.
    Porreta, sim, o mais porreta! Mesmo morto e enterrado ha uns bons trs anos, no suportara
ver o velho Anacreon anotando pules de bicho nos fundos do caf, num miser daqueles, a moral
na lama. Aparecendo-lhe em sonho - sonho que mais parecia realidade, pois Anacreon nem se
quer dormira, um cochilo quando muito aps o magro almoo -, Vadinho lhe aconselhou foce
sem falta ao Tabaris naquele mesmo dia e no seguinte, e na mesa de Domingos Propalato
apostasse no ponto e s no ponto, a noite toda. Sempre no ponto, jamais na banca. Como
arranjar dinheiro? Tomando algum de emprstimo a Raimundo, a sua revelia: bom sujeito, o
dono do caf no ia fazer caso de alguns mil-ris. Ao demais, na manh seguinte Anacreon
coberto de ouro, novamente fregus do bicho e no empregado de bicheiro, reporia com juros os
nqueis do emprstimo nas apostas do caf de Raimundo.
    Depois foi o que se soube, assombro e comentrio da cidade: aquela sensao ao bacar, o
ponto repetindo por duas noites sem descanso Domingos Propalato perdendo a calma pela
primeira vez em seu longo ofcio, Mximo Sales, com ar de parvo, saindo a correr em busca de
Pelancchi Moulas.
    O prprio Anacreon, em toda a sua gloriosa crnica de contraventor, nada vira comparvel a
essa sua sorte e ao azar da banca. Mas no competia discutir o acontecido: palpite de Vadinho era
para ser honrado e no desperdiado em tolas discusses. Homem de amplos horizontes.
Anacreon acreditava no destino e em sua boa estrela, e para ele, em se tratando de ficha e baralho
o impossvel no existia.
    Quando a Peancchi Moulas, apenas penetrou na sala, leu o pnico nos olhos perplexos de
Domingos Propalato. Vindo colocar-se ao lado do irmo de leite, ouviu-lhe a voz num sussurro e
em desespero, era como se ouvisse sua sentena de morte:
    Dio cane, pecchiccio! Siamo fututi! Simples pau mandado da fatalidade, Propalato virou a
carta, deu o ponto.

Captulo 12

     "Sono fregato, sono fututo!", repetiu Pelancchi Moulas quando, em seguida a Anacreon,
chegou a vez de Mirando.
                 De todos os rapazes daquela gerao, Mirando fora o nico a permanecer o mesmo
jovial bomio, como se o tempo no passasse, varando as noites por entre as emoes do jogo.
     Um domingo de manh, estando em casa a cuidar dos passarinhos nas gaiolas, Mirando
ouviu distintamente a mensagem de Vadinho: naquela noite, na roleta do Place, o 17. Melhor
amigo no possura Mirando, ele e Vadinho tinham sido como mabaas de to inseparveis.
Tambm o nome de Vadinho no lhe saa da boca nem sua lembrana da memria. Como
esquece-lo, se no mais houvera amigo igual?
    Naquele dia, porm, era diferente. A recordao de Vadinho adquiria uma consistncia de
presena, como se ele ali estivesse ajudando Mirando junto s gaiolas a desatar no assobio o
canto do curi e do canrio.
     Mirando fora convidado pela negra Andreza para almoar sarapatel em sua casa. Pelo
caminho a voz lhe repetiu o palpite e o fez tambm na mesa de toalha alva onde recendiam o
sarrabulho e o molho de pimenta. 17 era o nmero de sorte de Vadinho, jamais, porm,
favorecera a Mirando.
    Naqueles trs anos, em homenagem ao amigo falecido, Mirando arriscara algumas vezes seu
parco capital no 17, sempre com prejuzo. Novamente o faria, se Vadinho o desejasse, o amigo
era merecedor de muito mais.
              Apenas naquele domingo no tinha capital nenhum e entre os convidados de Andreza -
o carpina Waldemar, Zuca, um empregado do servio rural com os salrios em atraso, o pedreiro
Rufino e mestre Pastinha - s Robato Filho talvez pudesse dispor de algum para emprestar. O
nome de Vadinho veio  baila e Robato declamou, erguendo o copo de cerveja, a ode do poeta
Godofredo, mas, quanto a dinheiro, estava liso, sem vintm.
     De bucho cheio, com a alma leve (nada como um bom sarapatel para lavar a alma num
domingo), Mirando se bateu inutilmente pelas ruas, atrs de numerrio. Se arranjasse dinheiro
suficiente haveria de perder algum no 17. Seu nmero era o 3, sendo-lhe simptico igualmente o
32. Um desperdcio jogar no 17, e ele o fazia como se depositasse flores no tmulo de Vadinho.
     Mas, sendo domingo, onde obter dinheiro? Todo mundo no futebol ou no cinema, ningum
na rua. Dois ou trs amigos disponveis negaram-se a lhe financiar a sorte, uns pessimistas.
     Quando j sem esperanas, lembrou-se de sua comadre, Dona Flor. Nunca recorrera a ela
para questes de jogo, s para atender  sade dos meninos e certa vez para um conserto no
telhado de sua residncia pois o senhorio recusara-se a cumprir as obrigaes de proprietrio,
revelando-se mesquinho e desalmado:
     - Chovendo dentro de casa? Em cima dos meninos? Por mim, seu Mirando, pode chover
quanto quiser em cima de quem for; pode cair a parede, o telhado, a cumieira, que me importa? A
casa  minha? Pois a casa mais parece de Vossa Senhoria, meu caro amigo. J vo mais de seis
anos que eu no vejo a cor de seu dinheiro...
     E se encontrasse o doutor Teodoro? Depois do novo casamento da comadre, Mirando s
uma vez a visitara, no querendo impor sua presena ao farmacutico que no teria certamente
gosto em v-lo, to parecido era ele com Vadinho, sua cpia ou seu retrato, no no fsico - um
loiro, outro mulato - mas na moral ou, como preferiam alguns, na falta de moral.
     Naquela tarde, porm, no tinha Mirando outro recurso: ou incomodar a comadre ou desistir
do jogo.
     - Olhe quem nos aparece... - disse Dona Gisa a Dona Flor, as duas sentadas em cadeiras na
calada.
     - Meu Deus, ele se mostrou a Mirando... - pensa Dona Flor em susto pois ao lado do
compadre vinha o ex-finado, todo faceiro e nu (abandonara a camisa de mulheres provocantes).
     No, Mirando no o enxergava. Ainda bem. Saudando Dona Flor e Dona Gisa, o compadre
pediu noticias da sade do doutor.
     - Est timo. Foi a uma reunio na Sociedade de Farmcia...
- E eu que no sabia que voc estava aqui sozinha...  disse Vadinho, mas s Dona Flor o ouviu e
no lhe fez caso.
     Dona Gisa ainda conversou um pouco, mas logo depois pediu licena, pretextando deveres de
ingls a corrigir. Mirando sentou-se na cadeira vaga:
     - Minha comadre, me desculpe, vim aqui lhe incomodar mas  que estou numa preciso
medonha...
    - Algum doente em casa, meu compadre?
     Quase inventa uma doena, um filho com febre, necessitado de remdio e mdico. Mas por
que afligir a comadre, alm de lhe abiscoitar os cobres?
    - No, comadre, no  nada de doena...  mesmo jogo...
     - Ainda bem, compadre.
    Via-se de repente Mirando contando tudo e com detalhes: - a voz dele, igualzinha comadre,
me mandando ir jogar hoje sem falta. Que eu no deixe de ir...
     Dona Flor o via; ali, sentado no beiral da janela, sob a lua da tarde, Vadinho lhe punha olhos
de frete. Ela fazia por no ver, mas, mesmo no querendo, sua vista se esgueirava para a nudez
do moo, a pele branca e lisa. a penugem de ouro, o corte da navalha, a boca oferecida.
    - De quanto necessita, meu compadre? - Pouca coisa...
      Foi em busca do dinheiro, Vadinho a acompanhou, no quarto a envolveu nos braos e num
beijo. Dona Flor, a pobre, nem gritar podia, com o compadre na porta,  espera. Sua resistncia
se desmanchou no beijo.
     - Ai, Vadinho... - gemeu ao fim e ela prpria ento lhe ofereceu os lbios, perdidas a razo e a
pudiccia.
      Vadinho a veio trazendo para a cama, buscando ao mesmo tempo desnud-la. No fosse ter
ouvido os passos do compadre dentro de casa, talvez Dona Flor deixasse ali, naquela hora, sua
honra de mulher casada, de esposa honesta. No ltimo momento voltou a si, trancou as pernas,
desprendeu-se do beijo e da vertigem, saiu de baixo de Vadinho:
    - Que maluquice... Com o compadre a...
    - Est l fora...
    - Est na sala... Me deixe, que vergonha! - Ajeitou os cabelos com os dedos, se comps. Na
sala de jantar Mirando bebia gua, ela lhe deu a cdula amassada no suor de sua mo.
     - Obrigado, comadre, nem sei como lhe agradecer. Se eu no ganhar hoje no ganho nunca
mais.  uma certeza,  como se o compadre estivesse junto de mim a me dar sorte.
    Na porta da rua, Mirando riu e revelou seu plano:
    - S que ele est querendo que eu jogue no 17 e eu vou jogar  no 3 e no 32, que no sou
doido. Uma vez, comadre, acertei quatro plenos seguidos no 32, foi uma sensao.
    - Idiota!
     - Ouviu, comadre? Ouviu ele falar? Era a voz dele ou no? Me diga...
     Dona Flor, o corpo mole, o corao descompassado, a boca ardida e seca, falou baixinho:
     - No ligue no, compadre, s vezes ele tambm me atenta...
     Mirando no entendeu. Naquele dia, alis, estava tudo atrapalhado, sem explicao e sem
sentido. Como a noite a nascer de sbito e de uma s vez para os lados do poente, adiantada
sobre a hora, sem esperar as cores em roxo do crepsculo, uma noite toda azul. O relgio de
Mirando marcou a hora do jogo, ele no podia perder uma s parada, uma bola sequer.
    - Adeus, minha comadre, amanh venho lhe pagar...
     - Precisa no, compadre. Se ganhar compre uns bombons para os meninos, d em meu
nome... Fez uma pausa, completou baixando a voz: - ... e no de seu compadre...
     O beijo de Vadinho lhe aflorou a face como se fora a virao daquela noite azul.
    - At logo, meu bem... De noite eu venho lhe tirar da cama... Me espere... Como sem falta me
espere...

Captulo 13

     Era noite de domingo, os sales superlotados. A orquestra atacou um fox, os pares saram
para a pista de dana, Mirando reconheceu o argentino Bernab e Dona Nancy. Na caixa,
trocou os cem mil-ris de Dona Flor por fichas. Ps duas no bolso, das menores: "essas so para
o 17 de Vadinho, mais tarde". Dividiu as outras em dois grupos uniformes: metade para o 3,
metade para o 32.
     Na mesa da roleta sorriu para Loureno Mo-de-Vaca, o crupi, seu velho conhecido. Com
mo certeira, atirou uma ficha para o 3, outra para o 32. E eis que voltearam as duas no ar e
foram ambas juntas cair no 17. No momento exato em que Loureno anunciava jogo feito.
     Deu,  claro, o 17. E nunca mais pararia de dar, para todo o sempre e certamente, se  meia
noite e pouco, sob o pretexto de defeito na bacia da roleta, Pelancchi Moulas no ordenasse a
suspenso do jogo.

Captulo 14

     No apartamento de Zulmira, no regao da cabrocha, na bem-aventurana de seus fartos seios,
Pelancchi Moulas ouvia o relatrio do professor Mximo Sales: a bacia e a mesa da roleta,
desmontadas pea por pea, sujeitas a todos os testes, no revelaram vcio ou defeito, nenhum
sinal de bandalheira.
    - Eu j sabia...  intil... - gemeu o pobre rei. Ali, naquele endereo conhecido apenas de uns
poucos, escondia-se o grande homem, o dono da cidade, o chefe do governador, fugindo aos
chatos e s aporrinhaes. Em seu escritrio ("Pelancchi Moulas, empresrio"), era um desfile
permanente, da manh  noite: indivduos de variada espcie, comisses de todo tipo, cada qual
com sua lista, sua carta, seu pedido, seu problema, seu aleijo, sua vigarice. Vinham todos em
busca de dinheiro.
     Dinheiro para construir igrejas, comprar sinos, contribuies para hospitais e obras pias, para
asilos de velhos e reformatrios de crianas, ajuda para caravanas de estudantes ao sul e ao norte
do pais. Jornalistas e polticos, vidos, insaciveis, necessitando todos eles de um dinheirinho para
salvar a ptria, a moral crist, a civilizao, e o regime, da tenebrosa e fatal causa da subverso e
do atesmo. Literatos com planos de revistas e originais de livros: "o senhor  amigo da cultura,
das letras e das artes, da poesia;  o prprio Mecenas redivivo" (Pelancchi tinha vontade de dizer:
"Mecenas  a puta-que-os-pariu"; em vez disso soltava uma pelega de vinte ou de cinqenta,
conforme fosse o mordedor um jovem gnio ou um velho sonetista). Reformadores, moralistas,
catlicos, protestantes, esotricos, todos os que combatiam os maus costumes e a anarquia, o
perigo comunista e o amor livre, o inquo abandono das regras da gramtica portuguesa (o
pronome oblquo a iniciar as frases), e o escandaloso decote dos mais nas praias (exibindo tudo,
at as vsceras). A Associao das Mes de Famlia em Permanente Viglia contra o lcool, a
Prostituio e o Jogo, sendo as mes de famlia principalmente Antnio Chinelinha, no comeo
de sua carreira promissora; a Sociedade Protetora das Misses na Oceania; a Campanha contra o
Analfabetismo, do Major Cosme de Faria; a Devoo de So Genaro e o Clube Carnavalesco das
Alegres Morenas do Cabula. Enfermos de todas as enfermidades, da lepra ao cncer, da bubnica
ao beribri, da doena de Chagas  doena de So Guido, e os batalhes de cegos, de pernetas, de
cots, sem falar nos malucos e naqueles que vinham pedir dinheiro, pura e simplesmente, sem
nenhum pretexto, com a cara mais limpa desse mundo.
     Pelancchi descansava de tudo isso no apartamento e nos seios de Zulmira, refgios agora mais
que nunca preciosos: s neles cabendo o medo pnico a acomet-lo, a domin-lo. Ali ouvia os
seus auxiliares: relambrios, baboseiras.
     No se dando por vencido, Mximo Sales expunha um plano audaz e simples: por que no
aproveitar a roleta desmontada e pr tudo aquilo em pratos limpos? Como? Ora, como...
Empenando a bacia da roleta, de tal forma a fazer impossvel a bolinha cair no setor do 17.
Truque velho como o prprio jogo da roleta. Sem dvida perigoso, desonesto certamente; mas,
no sendo assim, como obter a prova derradeira?
     Mximo mantinha sua posio inicial: todos aqueles supostos absurdos, onde Pelancchi via a
mo negra do destino atroz, no passavam de batota monstruosa, obra de uma quadrilha-
estrangeira!  mancomunada com fiscais e crupis, com Arigof e Anacreon, com Mirando.
     Que quadrilha, que estrangeiros, sono fregato, sono fututo! Para Pelancchi Moulas todo
aquele convers de Mximo Sales era perda de tempo, nada mais. Nem quadrilha nem batota.
Muito pior: seus inimigos, para arruin-lo, lanavam mo de foras sobrenaturais, incontrolveis,
extraterrenas.
     Em seu caminho nem sempre fcil, Pelancchi semeara dios profundos, mortais inimizades.
Quando preciso, sua mo fora pesada e dura, deixando  sua passagem um rastro de pragas e de
juras de vingana. Agora via-se acuado, em meio ao feitio e  bruxaria.
     Pelancchi no temia os homens nem a luta, um rude adversrio. Mas aquele gngster
moderno, aquele filho do sculo, das luzes e da tcnica, refugiava-se sob os cobertores ao
primeiro ronco do trovo, no medo da fulgurante luz dos raios, apenas um menino da Calbria,
pequeno campons filho da superstio e da misria.
    - Maledetto, sono stregato!
    Pois muito bem - disse Mximo Sales, que s temia os homens e no acreditava em almas do
outro mundo, livre-pensador e ctico, buscando para cada fenmeno explicao racional e lgica
-, pois muito bem, tiremos isso a limpo. Vamos empenar a roleta e j veremos.  proibido e
desonesto, eu sei, e ao senhor no agrada tal recurso, nem a mim. Trata-se, porm, de recurso
extremo, e mais desonesto  o que esto fazendo com o senhor, no lhe parece? Se com a roleta
empenada ainda der o 17 - e o senhor bem sabe que  impossvel dar -, eu concordarei consigo: 
mesmo coisa do diabo e entregaremos a soluo aos macumbeiros.
     Pelancchi Moulas encolheu os ombros: se era para tirar a prova e s para isso, fizesse Mximo
o que melhor lhe parecesse, viciasse a roleta mas com todo o cuidado e discrio.
    - Eu mesmo me encarrego do trabalho, fique descansado. - E por uma noite s...
    - De acordo, s a noite de hoje.
     Esfregando as mos, Mximo partiu a executar sua tarefa delicada. A Pelancchi Moulas tudo
aquilo parecia intil. Chegara o tempo de pr sua fortuna e seu destino em mos mais
competentes que as de Mximo e as da polcia. Se havia algum capaz de descobrir a explicao
daquele enigma, esse algum era Cardoso e S, o carismtico filsofo cuja mente sublime se
projetava no alm, nos pramos do infinito, um claro no espao csmico, desvendando o
passado e o futuro, pois ele vivia ao mesmo tempo no ontem, no hoje e no amanh, nos
luminosos cumes, nos abismos negros.
     Zulmira tampouco tinha dvidas: era coisa-feita, o demnio solto. Ela no lhe contara antes
para no aumentar suas preocupaes, j tendo Pequito tantos motivos de aborrecimento: no
Place, na vspera, na hora da suspenso do jogo, como j anteriormente sucedera, um invisvel
lhe tocara os peitos e lhe fizera ccegas. No contente - que horror, meu Deus! - por suas saias se
meteu e lhe beliscou a bunda:
    - Veja, Pequito... Espie...
     Suspendeu a bata. Por baixo reluzia a pele cor de cobre, onde ele pde ver, em roxo-azul, a
marca dos dedos de Vadinho, definitiva prova do ignoto:
    - Acidente! - disse o calabrs e, fazendo das fraquezas foras, naquele obscuro mistrio
mergulhou.

Captulo 15

     Insensato e insolente! Vadinho sempre fora assim e no mudara nos anos de ausncia:
    - De noite venho lhe tirar da cama. Me espere...
     Como se Dona Flor fosse a ltima das marafonas, to dissoluta a ponto de se entregar ao
deboche diante do esposo adormecido. No leito de ferro, doutor Teodoro dorme o famoso sono
dos justos, a nobre figura em plcido repouso, a respirao uniforme, como se roncasse ao ritmo
do fagote.
     Dona Flor contempla a face honrada do marido e uma onda de ternura a domina: homem
melhor no existe, esposo to perfeito. nimo forte, carter impoluto, tambm dito adamantino,
Dona Flor decide romper de uma vez para sempre aquele enredo dbio e insustentvel, indigno
de sua condio e honestidade.
     Melhor esperar na sala, transferir para l sua viglia, tambm mais seguro: no correria o risco
de ver-se nos braos de Vadinho no mesmo quarto onde dormia o outro esposo (o bom e
probo). Porque, escrava dos sentidos, corpo devasso, vil matria, teme Dona Flor entregar-se de
repente. J no lhe obedece sua vontade, somem suas foras apenas Vadinho surge, e, se ele se
aproxima, uma vertigem a toma e sua virtude fica  merc do sedutor. No era mais Dona de seu
corpo, a matria indcil no mais obedecia a seu esprito, e, sim, ao desejo de Vadinho.
     Ainda no se dera,  bem verdade, mas talvez por que nos ltimos dias Vadinho quase no se
deixara ver, outra vez entregue  jogatina,  vida airada, sumido.
     Assim naquela noite. Fora to categrico, to incisivo: "me espere, sem falta me espere, venho
lhe buscar na cama". No lhe tinha sequer considerao, prometia vir e se deixava ficar no jogo.
Se no estivesse em casa de mulheres. Dona Flor anda pela sala, abre a janela, espia a rua, conta
os minutos.
     Tantas juras de amor, proclamada paixo, palavras mentirosas. Dona Flor ali sozinha, a
esper-lo, e ele incapaz de lhe sacrificar uma s jogada. Talvez ainda venha, aps a derradeira
bola.
     O jogo, porm, j terminou. Dona Flor conhece os horrios, todos os detalhes dos cassinos
lhe so familiares, essa espera de Vadinho se iniciara h muitos anos. Onde andar ele, qual a
festa a prend-lo, por quem trocou a promessa feita a Dona Flor? Vadinho, por que assim abusas
de meus sentimentos, por que no vens, se prometeste vir e eu te espero no desprezo de meu
prprio ser? Que me importam honra, decncia, lar feliz, nobre marido? S me importa tua
presena, por que a anunciaste a meu desejo?
     Pela manh, na aula de culinria, Dona Flor, nervosa e desatenta, quase perde o ponto do
arroz de hauss. No fundo da sala, a voz de Zulmira Simes Fagundes, a contar muito excitada:
     - Meninas,  um sortilgio, ando com um medo... Vocs no se lembram que outro dia aqui na
aula senti uma coisa me alisando o seio? Pois no  que essa histria continua...
    As alunas se viram no maior assanhamento:
     - O qu? Como? Conte...
    - Ontem de noite eu estava no Place...
     - Voc no perde soire do Place...
    - Faz parte de meu trabalho...
    - O que eu queria, era um trabalho assim...
     - Conte, Zulmira...
    - Pois ontem de noite eu estava no Place com meu patro e teve uma coisa na roleta, s dava
o 17 . ..
    Dona Flor ouvia, pensativa.
    - Na hora de maior complicao, senti o mesmo invisvel tocando nos meus seios e depois... -
baixou a voz -... me deu um belisco nas ndegas...
    - Belisco de invisvel? No diga... - duvidava uma senhora pouco afeita a mistrios e de
traseiro chocho.
    - No acredita? Pois ainda tenho a marca.
    No se dispondo a passar por mentirosa, Zulmira levantou a saia e exibiu a anca de fazer inveja
mesmo s colegas mais bem servidas em matria de quadris. Um tanto desbotada, l estava a
marca dos dedos de Vadinho. Em silncio, Dona Flor saiu da sala.
     Durante todo o dia, Dona Flor o esperou, apenas triste. Vadinho no veio. Nem na segunda
noite. Toda aquela paixo era mentira, o delrio de amor era falsidade e hipocrisia. Dona Flor em
viglia a esper-lo, e o traste bem de seu no jogo ou por debaixo das saias de Zulmira a lhe
beliscar a bunda. Vadinho cnico e irresponsvel, fingido e desleal, sem corao. Dona Flor livre
de toda contradio, livre ao mesmo tempo da pudiccia e do desejo, apenas triste.

Captulo 16

     Na hora da vitria, o professor Mximo Sales no se enchia de empfia; ao contrrio:
modesto, atribua seu sucesso a provrbio antigo, frmula provada: "para escroque, escroque e
meio". Um erudito sem soberba, um verdadeiro humanista. No lhe viessem mais, porm, com
histrias de almas do outro mundo e conversas de encantados e feitios. Bastara empenar a roleta
para toda a bruxaria se dissolver na evidncia da trapaa, faltando agora to somente descobrir o
responsvel, o chefe, o cabea da quadrilha e ajustar suas contas. Inocente do compl, Loureno
Mo-de-Vaca disparava a bolinha na bacia da roleta: na vspera s dera o dezessete, hoje nem
uma s vez em toda a noite. No rosto de Pelancchi Moulas, a tenso diminura. S tinha medo do
sobrenatural, de mais nada. Mas que fora cabalstica era essa, incapaz de se sobrepor ao truque
da roleta? Mximo despira a batota da mscara de mistrio, e Pelancchi, com seu brao longo e
influente, alcanaria o responsvel, fazendo-o pagar com juros o dinheiro fcil, a audcia, a
insolncia, e sobretudo as horas pusilnimes, o medo exposto. o pnico a lhe corroer o corao.
Entre Zulmira e Domingos Propalato, novamente em paz com o mundo, Pelancchi sorri aos
jogadores: no existe sorriso mais cordial e afvel.
     Enquanto isso, Mirando, desertor e bbado, dormia no castelo de Carla, no formoso e
discreto boudoir em rosa. Na vspera, quando Pelancchi Moulas, em visvel descontrole,
ordenara a suspenso do jogo, Loureno Mo-de-Vaca, o crupi, e Domingos Propalato, ali
presentes, no foram os nicos a se verem enfim libertos daquele indecifrvel pesadelo. Em meio
a um mar de fichas, no menos aliviado se sentiu compadre Mirando, to absurdo e apavorante
era aquele assunto.
     Enquanto a roleta cantava o 17, Mirando se manteve entre a euforia e o terror. Euforia
devida  sorte desbragada e terror devido    ausncia de qualquer limite a essa sua sorte diablica.
Naquela noite os diques da fortuna se romperam e a Mirando pertenciam todas as fichas dos
cassinos. Mas, era mesmo dele, Mirando, aquela sorte?
      Tudo muito suspeito e estranho: a voz de Vadinho em seu ouvido, a partir da manh de
passarinhos, na hora do sarapatel e pela rua a fora. A visita a Dona Flor as estranhas palavras, as
frases obscuras, e ele a ouvir o insulto do finado, como se, alm de Mirando e da comadre,
tambm Vadinho fosse parte na conversa. Depois aquela mgica das fichas: indo cair no 17
quando jogadas no 3 e no 32. No meio da noite quisera Mirando, de teimosia e prova, de novo
apostar em seus nmeros prediletos e os carregou de fichas. Mas l se foram as fichas, por conta
prpria e ningum sabe como, aparecer no 17. Afinal, o que era Mirando? Um jogador ou um
joguete do destino?
      Saindo do Place, arrogante milionrio e aflito corao, dirigiu-se ao castelo de Carla, local
propicio a comemoraes de feitos grandiosos como aquele e, nas horas de agonia, lar acolhedor.
Confiou sua dinheirama  gorda italiana, senhora da integridade e do escrpulo, (autorizando-a, 
claro, a despender na festa, o necessrio, sem mesquinhez). Temia o excesso de carinho das
mulheres outra sbita afeio dos mltiplos amigos quando rolasse bbado. Porque, naquela
noite Mirando se dispunha a tomar o porre de sua vida, nele afogando os termos daquele
enigma, as parcelas daquele desvario.
     A festa, regida pela gorda Carla, entrou pelo dia e os mais resistentes, como os literatos
Robato Filho e Aureo Contreiras (sempre com uma flor  lapela do casaco) e o jornalista Joo
Batista, almoaram no castelo, na manh seguinte, uma feijoada genial e arrasadora, com cachaa
e vinho verde. S aps tal maratona, Mirando tombou escornado e foi conduzido em padiola
pelas meninas como um corpo morto. Gentis, elas o despiram e lhe deram um banho morno, de
bacia; em perfume e talco o envolveram, estendendo-o por fim dormido em leito de colcho de
barriguda, no boudoir reservado aos hspedes de honra, todo em cetim e rosa.
     Mirando e alguns convidados mais sensveis, como a j citada Amesina - Ame de Amrico
seu pai, Sina de Rosina, sua me -, haviam percebido no ambiente a presena de uma fora
irreprimvel, a dirigir a festa. Como explicar, seno assim, o nmero da gorda Carla na dana dos
sete vus, espetculo sublime e monstruoso?
     Tambm Mximo Sales, se bem ctico e realista, livre-pensador, teve a impresso de estar
sendo observado, quando, naquela tarde, na sala de jogo (com a ajuda apenas de Domingos
Propalato, irmo de leite de Pelancchi), executava, com percia e conscincia, com a perfeio de
um artista, a difcil tarefa de empenar a roleta. Por vezes foi to forte a estranha sensao, que
teve de suspender o trabalho e percorrer a sala com os olhos, em busca da invisvel testemunha.
     Por volta da meia noite, quando o jogo atingia a maior animao, no fundo de seu sono de
pedra, pesado de cansao e lcool, Mirando ouviu a mesma voz da vspera. A comeo
imprecisa, logo clara e igual  de Vadinho. a voz lhe ordenava retornar  mesa de roleta, com
urgncia: para o Place, depressa, v jogar no dezessete. No dezessete e s no dezessete. Vamos!
     Abrindo os olhos, Mirando viu-se sozinho com as sombras da noite e aquela voz. Encolhido
entre os lenis, morto de medo, tapou os ouvidos com o travesseiro, no queria ouvir. Em plena
festa, na vspera, Anacreon lhe perguntara: "Tu ouviu tambm a voz de Vadinho cochichando
em teu ouvido? Amigo como ele no tem dois. Mesmo depois de morto, no esquece a gente."
     Mirando no queria ouvir mas ouvia, distintamente ouvia: estava possudo, enfeitiado, com
um egun montado em seu cangote. Precisava ir quanto antes ao candombl de me Senhora para
rezar o corpo e oferecer um galo aos orixs, talvez um bode.
     Por sobre o travesseiro, a voz prosseguia intimativa, quase ameaadora. Mirando no viu
outra sada, mais digna, menos humilhante, seno abrir a boca no mundo, clamando por socorro,
pondo o castelo em polvorosa. Pedindo desculpas ao meritssimo desembargador, cliente ilustre e
tardo, entregue  sua competncia, a boa Carla foi atender o apavorado hspede. Quando o
tomou nos braos e o escondeu nos seios, Mirando lhe jurou, pela alma de sua me e pela
felicidade de seus filhos, jamais voltar ao jogo, jamais em sua vida. No haveria fora humana (ou
sobre-humana) capaz de faz-lo outra vez tocar em fichas.

Capitulo 17

     Quando o telefone chamou, Giovanni Guimares dormia h mais de duas horas. Com o
casamento habituara-se a deitar e a acordar cedo, hbitos, na opinio da esposa, extremamente
saudveis. Para uma boa sade e para uma carreira de sucesso nada to til e necessrio,
sobretudo a quem perdera antes tantas noites, a levar vida extravagante e censurvel.
     Eis a um homem - o conhecido jornalista Giovanni Guimares  cuja vida se transformara
por completo e em pouco tempo. De um dia para outro, como se diz. Prova das excelncias de
matrimonio com mulher dedicada e enrgica, pouco disposta a concordar com abusos e
descaramentos. Giovanni mantivera sua alegria fcil, seu riso espontneo, suas mentiras, seus
exageros. Na aparncia era o mesmo, o boa prosa, aquele que sabia todos os detalhes da vida da
cidade - polticos, financeiros, adulterinos, todos. Mas, s na aparncia. Porque o bomio
incorrigvel, o noctvago, o jogador, esse tinha acabado, para espanto de muitos.
     Certa feita, a famlia, alarmada com as notcias que chegavam ao latifndio de Urandi, mandou
 Bahia um primo coletor, com fama de carrana, para examinar a situao do filho prdigo. O
coletor hospedara-se com Giovanni no apartamento do celibatrio, na Piedade, e, para bem
cumprir a delicada misso, o acompanhou em seu roteiro durante uma semana inesquecvel. Ao
voltar, resumira o diagnstico numa nica palavra: "Irrecupervel!"
     Assim parecia, ao menos: esbanjando os salrios e a renda da herana nos antros de jogo e por
ai alm, Giovanni trocara o dia pela noite, aparecendo na repartio apenas para receber o
ordenado. Crivado de dvidas, simpatizante de idias suspeitas, de que lhe adiantavam o prestigio
de jornalista, o brilho da inteligncia, a simpatia irradiante a faz-lo amigo de toda gente.
      Reintegrado em sua coletoria, na religio e na famlia, o parente considerava extremamente
improvvel a regenerao de Giovanni: s se ele fosse um imbecil chapado para abandonar
aquelas delcias e sobretudo uma delas, gracioso ornamento da casa de Zaz, de nome Jucundina,
mais conhecida por Coisinha Doce. Com gua na boca, o coletor dizia  famlia em prantos:
      - Percam as esperanas...  um detraqu... Nunca vai endireitar.
      Pois endireitou. Quando j considerado caso perdido, um incorrigvel, aconteceu-lhe o amor
e em dois meses atingiu o casamento. Houve quem lamentasse a noiva: "Coitada, vai arrenegar o
dia em que casou, esse Giovanni  um maluco". . Assim diziam por no conhecer a moa, no
engano de sua aparncia tranqila, dos modos quase tmidos. Seis meses depois do casamento, o
carrana do serto, tendo voltado  capital, balanou a cabea: "Coitado de Giovanni!" e saiu s
pressas para a casa de Zaz, talvez Coisinha Doce ainda estivesse disponvel e aceitasse ir
conhecer o campo, a vida rural.
     Giovanni era outro, ningum mais o vira em mesa de jogo ou em farra de qualquer espcie.
Uma vez cada dois meses arriscava dez tostes no bicho e era tudo. Beleza de mulher s em tela
de cinema. Fora disso, senhor da maior considerao, perfeito funcionrio, pai de famlia como se
deseja, de brao pela rua com a esposa, no outro brao a filha Ludmila, um trem de risco. Quadro
comovente!
     Surgiram-lhe um comeo de calvcie, idias conservadoras, hbitos monarcos e a ambio de
terras e bovinos: como se v, homem completamente recuperado para a sociedade, a famlia e o
latifndio.
     Assim, dormia Giovanni h mais de duas horas, quando soou o telefone. Saindo da cama,
tonto de sono, tomou do aparelho: quem seria?
    -  Giovanni? - perguntaram do outro lado.
     -  sim. Quem fala?
-  Vadinho quem fala, Giovanni. Venha correndo ao Place e jogue no dezessete, jogue sem
medo que vai dar, eu lhe garanto. Mas venha depressa, venha correndo...
    - Vou nesse instante.
     Evitando fazer barulho, vestiu-se rpido. Ainda bem que a esposa no acordara, no tendo ele
tempo para explicaes, com tamanha pressa de sair a ponto de esquecer chaves, documentos,
carteira com dinheiro. Na esquina ia passando um txi, ele o tomou e s quando foi pagar a
corrida, na porta do Place, deu-se conta da falta da carteira.
    - Esqueci a carteira...
     - No tem nada, seu doutor... Depois vou cobrar no jornal... - Giovanni reconheceu o chofer,
Cigano, sempre a postos pela madrugada.
     Reconheceu o chofer mas no a si prprio. Giovanni Guimares. Que diabo estava fazendo
ali, em frente  porta do Place,  uma hora da manh? Um telefonema o acordara, era Vadinho a
lhe recomendar o dezessete. Ora, Vadinho morrera h uns quantos anos, antes dele, Giovanni, se
casar. Um sonho, com certeza, uma espcie de alucinao. Mas, sonho ou pesadelo, como j viera
at ali e o mal estava feito - sara de casa  noite e s escondidas: ai, impossvel evitar as
conseqncias -, s lhe restava aproveitar-se do palpite. O ar da noite e da liberdade o envolvia e
Giovanni se sentiu quase um heri ao subir as escadas para o jogo.
     Apesar da hora tardia, era grande o movimento no salo, sobretudo junto  mesa da roleta.
Giovanni foi saudado com real entusiasmo:
    - Bons olhos o vejam...
     - Que milagre foi esse?
    Aproximando-se de Pelancchi, o jornalista consultou:
    - Posso fazer um vale? Sa to apressado que esqueci a carteira e o talo de cheque...
    - Quanto quiser... A caixa  sua...
    - Apenas o necessrio para testar um palpite... Sonhei com o 17...
    - O 17?
     No rosto de Mximo Sales alargou-se o sorriso, mas Pelancchi Moulas sentiu um baque, um
pressentimento. Giovanni escreveu o vale e, tomando das fichas, ps duas sobre o 17.
    - Hoje no deu uma s vez. - Comentou algum.
- Jogo feito... - a voz de Loureno Mo-de-Vaca.
    A bolinha girou na bacia empenada da roleta, impossvel dar o 17. A face de Mximo Sales
bem aventurada como a de um santo, tensa a de Pelancchi Moulas.
- Preto. Dezessete. - anunciou Loureno Mo-de-Vaca.

Captulo 18

    Tarde de sbado, de melancolia e chuva, to difcil ficar sozinha, com sua tristeza. Nem isso
conseguia Dona Flor.
     De guarda-chuva e capa de borracha, l se fora doutor Teodoro com o fagote para o ensaio
em casa do doutor Venceslau. Dona Flor se desculpara: com enxaqueca e sem graa para
conversas sobre figurinos e recepes, sobre a vida alheia. Tampouco se dispunha  monotonia
do ensaio. Isso no lhe disse,  claro; ao contrrio, lastimou no ouvir, mais uma vez, a nova
composio do maestro Agenor Gomes, to de seu agrado, lnguida valsa em homenagem a
Dona Gisa, de quem o msico se fizera amigo: "Suspiros ao luar do Mississipi."
      Dona Gisa, alis, h pouco viera convidar Dona Flor para uma demonstrao de capoeira,
nuns terrenos baldios para as bandas de Amaralina: gringa sapeca, sempre com novidades. Como
ir, se nem ao ensaio fora, o corpo mole, o nimo desfeito? O mesmo respondera ao doutor Yves
e a Dona Emina, fiis da matin aos sbados e quase sempre no mesmo cinema. Tambm Dona
Norma a quisera levar:
     - Venha peruar a bisca, o jogo no impede que se converse.
     - Obrigada, Norminha. Se eu estivesse com disposio, teria acompanhado Teodoro. Deixei
ele ir sozinho...
    Dona Norma concordava:
     - Vi quando ele passou para o bonde. Ia desolado, com uma cara de enterro. Esse teu marido
te adora, Flor.
     Uma injustia no t-lo acompanhado ao ensaio: o marido lhe pedia to pouco em troca de
tanto amor e devoo. Enquanto o outro... Nem queria pensar no coisa-ruim, no maligno. Por
que o corao da gente  assim contraditrio? Por que ela deseja, afinal, permanecer sozinha? A
maior alegria do doutor Teodoro era tocar seu fagote nos ensaios, com Dona Flor presente, a
ouvi-lo e a anim-lo. E ela se deixara ficar, para que, seno na esperana do outro vir, mesmo de
fugida, de sua eterna noite de jogo.
     Talvez, sim, mas para lhe dizer toda a verdade, para mand-lo embora, para romper toda e
qualquer relao com ele. Seria mesmo assim? Para lhe dizer essa verdade, ou a outra: "Toma de
mim, Vadinho, toma- me toda, j no posso esperar." Qual das duas verdades lhe diria? Ai, nessa
batalha do esprito com a matria, ela  apenas um pobre ser em desespero.
     Da casa ao lado chega a voz de Marilda, num canto de amor. Quase noiva a estudante de
pedagogia, a jovem estrela da radiodifuso, no tendo sido feito ainda o pedido oficial porque o
pretendente, rico de cacau e de preconceitos exige que ela abandone o Rdio. Cantar s para ele e
para mais ningum. Muito custara a Marilda ver-se ante os microfones, cobrindo a cidade com
sua pequena voz melodiosa. Por que pagar to alto preo ao noivo? Confiante, vinha pedir
conselho a Dona Flor. Mas Dona Flor j no sabia aconselhar ningum, nem a si prpria, perdida
em confuso. No era mais uma pessoa s e igual, inteira e ntegra: estava dividida em duas, a
honesta e a salafrria, seu reto esprito de um lado, do outro a matria em nsia. Um desacordo.
     Doutor Teodoro partira sob a chuva, o fagote defendido pela capa, para ele s existem duas
coisas sagradas nesse mundo: Dona Flor e a msica. Pela esposa e pelo canto do fagote, se
preciso fosse, sacrificaria farmcia e benefcios, teses de cincia e seu conceito na sociedade.
Homem direito, exemplo dos maridos.
    O outro era um capadcio, um vagabundo, no passava disso. Disposto a desonr-la pela
segunda vez, no entanto no sacrifica nada para obt-la, sequer um minuto de seu tempo
estrina. Assim fora da primeira vez, no abrira mo de nada, nada lhe concedera para Dona Flor
as sobras do tempo de deboche. "Me espere vou ali j volto", nunca mais voltava. Belzebu de
trampas e de lbia.
    Marilda, aos ps de Dona Flor, ajoelhada:
     - Florzinha, me diga o que  que eu vou fazer? O canto  minha vida, mas mame diz que
minha vida  o casamento,  ter um lar, marido e filhos, que o resto  capricho de menina. Tu,
que me diz?
     Que pode Dona Flor dizer? "Vai-te embora, maldito, deixa-me honrada e feliz com meu
esposo" ou bem "toma-me em teus braos, penetra minha ltima fortaleza, teu beijo vale o preo
de qualquer felicidade", que lhe dizer? Por que cada criatura se divide em duas, por que 
necessrio sempre se dilacerar entre dois amores, por que o corao contm de uma s vez dois
sentimentos, controversos e opostos?
     - Tens que decidir entre uma coisa e outra: carreira ou casamento.
     - E por que tenho de decidir, por que no posso me casar e continuar cantando, se gosto dele
e gosto de cantar? Por que optar se quero as duas coisas? Por que, me diga?
     Por que, Dona Flor? Pela janela aberta, chega a voz do namorado em busca de Marilda, e a
moa suspende o rosto, mostra a formosura de medalha, parte correndo. Dona Flor a
acompanha com o olhar: Vadinho  o vento que espalha sua cabeleira e lhe rodeia as pernas.
    - Vadinho! Com Marilda, no. No admito!
     Rindo, ele se acocora aos ps de Dona Flor, onde Marilda estava, e lhe abraa as pernas, deita
a cabea em seu joelho.
    - Me deixa em paz... - diz Dona Flor, a voz de queixa.
     - Por que voc  assim comigo, meu bem? Sempre zangada?
     O cnico ainda pergunta por que, como se no lhe houvesse dito:     "eu venho j, sem falta
me espere". Noites de insnia, dias de amargura, aflita espera. A nica notcia do coisa- -toa
Dona Flor a teve escrita a belisces na bunda de Zulmira. Sim, senhor, e ainda pergunta.
     - Mas, se tu disse que no queria mais me ver, que eu me fosse embora, no foi mesmo?
Ento eu fui me divertir um pouco com Pelancchi,  um pagode, s falto morrer de tanto rir...
    - Com Pelancchi ou com a secretria dele?
    - T com cime, minha negra? Eu bem que pensei: sumo por uns dias, ela vai ficar pedindo a
Deus que eu volte, ela est doidinha pra me dar, no agenta mais...
    - Quem te disse? Pois  mentira. Sou mulher honrada, tira a mo da.
     Mo e lbio a lhe queimarem a pele, lbio sobre sua boca, mo no escondido de seu ventre,
em seu ltimo reduto. Cresce na chuva a moleza do corpo, rompem-se as derradeiras resistncias.
Ao mesmo tempo em que se diz honrada e irredutvel, ela lhe entrega a boca sem sequer lhe
cobrar a ausncia e os suspiros de Zulmira. Aquela vertigem a domin-la, Dona Flor sem foras
para opor-se aos avanos de Vadinho, para defender o limite final de sua honra. Ah! Se ao menos
tivesse a quem pedir socorro! Vadinho est com pressa, deve voltar ao jogo, veio s carreiras:
"Vamos vadiar na cama, meu amor." Ela se pe de p, nos braos dele, j no resiste, que lhe
importam honra e marido? "Onde quiser, meu amor".
    - Posso entrar, minha comadre?
    Dionsia de Oxssi foi cruzando a porta e foi dizendo:
     - Que  que tem, minha comadre? Est to plida.. .
     Sentando-se de novo, salva por milagre, Dona Flor murmura:
     - Foi Deus quem lhe mandou, comadre Dionsia. S voc pode me ajudar. Sente aqui, junto
de mim.
    - O que  que vosmic tem, comadre? Est tremendo toda...
     Dona Flor segurou as mos da iaw de Oxssi:
     - Comadre, preciso que algum d um jeito de me livrar de Vadinho, que mande ele ir embora
e no deixe mais me perturbar pois faz tempo que est me perturbando, e eu j no sou eu, j
nem sei o que fao, minha vontade se acabou.
    - O finado meu compadre?
     - Arranje para ele voltar para seu sossego, porque seno nem sei, comadre, o que ir
acontecer... Nem posso lhe contar... Toda hora ele quer me levar com ele, ainda agora quando
voc chegou estava querendo, e me deu uma leseira, quase que eu vou... Se continuar, acaba me
levando ...
    Dionsia cobriu a boca com a mo para no gritar:
     - Ai, comadre, corre pressa,  preciso fazer logo alguma coisa. Vou agora mesmo falar com pai
Didi, por sorte sei onde ele est cumprindo obrigao. Essas coisas de egun no  para qualquer.
S para quem usa o basto de oj. Ai, meu Deus, comadre...
     - Didi? - Dona Flor de sbito se recorda do negro magro no mercado das flores a lhe dar o
mokan para o tmulo de Vadinho. - V, comadre, v depressa, se h algum capaz de me salvar 
ele. Seno, comadre, estou perdida, uma desgraa sem remdio vai acontecer.
    - Agorinha mesmo...
     Saiu Dionsia protegida por seu colar de Oxssi, toda pequena no medo dos eguns; forte,
porm, no desejo de salvar a vida da comadre: desgraa sem remdio que outra coisa pode ser
seno a morte? Depressa, Dionsia, mais depressa, pelos caminhos esconsos e estreitos at as
portas do reino de If: em sua encruzilhada encontrars o babala e seus poderes.
     - Meu pai - disse a ia ao lhe beijar a mo -, o finado quer levar minha comadre, salve ela,
amarre o egun em sua morte - e lhe contou a histria, aquilo que da histria ela sabia.
     Naquela mesma hora, todo molhado, regressava doutor Teodoro. Devido  chuva, no
houvera ensaio. Bebeu uma gota de licor, precauo contra a gripe, vestiu o palet de pijama. e
tomando do fagote executou para Dona Flor msicas escolhidas de seu seleto repertrio.
Ouvindo-o, foi-se reerguendo Dona Flor do susto e da tristeza, do nojo de si mesma, mulher
casada de virtude frgil. No tens mais nada a temer, Teodoro, eu te amo e sou tua e somente
tua, hoje, neste sbado com direito a bis, e amanh e para sempre. Nenhum corao deve conter
dois amores a um s tempo, mandei arrancar metade de meu ser, e aqui estou, de novo inteira e
ntegra, a ouvir tua msica ao fagote; aqui estou, Teodoro, tua honrada esposa.
     No outro lado da noite da Bahia, um claro se acendeu e dentro dele o babala fez o jogo dos
bzios com a prece de Dionsia, filha de Oxssi. A chuva ento se virou em tempestade, o trovo
rugiu, as luzes se apagaram, o mar se ergueu em fria, e os orixs, cavalgando raios e coriscos, um
a um foram atendendo ao chamado do Asob. Todos disseram sim, menos Exu que disse no.

Captulo 19

     O recado de Pelancchi Moulas alcanou o mstico Cardoso e S na Igreja do Passo, de visita a
seu tmulo como o fazia a cada aniversrio de sua morte. Daquela sua morte, quando se chamara
Joaquim Pereira, potentado baiano falecido em seu solar do Corredor da Vitria, nos idos de
1886. Velrio de estrondo, enterro com grande acompanhamento de irmos maons e de colegas
do comrcio atacadista, com o Governador da Provncia e carpideiras, com missa de corpo
presente.
     Multiplicavam-se os tmulos de Cardoso e S pelo mundo a fora. Mmia descoberta na
Grande Pirmide, pea de museu, soterrado nas neves eternas dos Alpes, quando os cruzou na
vanguarda dos exrcitos de Anbal, e nas areias do deserto rabe, Zalomar em seu cavalo zain.
Morreu na Frana pelo menos duas vezes, outras tantas na Itlia, e a Inquisio entre torturas o
matou na Espanha, por alquimista e hertico; rico e pobre mendigo e cardeal vendeu tmaras no
Egito, na porta do Mercado, nas margens do Nilo, ao tempo de Ramss II; contemplou as
estrelas do hemisfrio oriental, hebreu de barbas de algodo, o clebre sbio matemtico Allhq
Fouch, nascido e morto antes de Cristo.
     Na Bahia, alm do jazigo perptuo na Igreja negra do Passo, ele repousava tambm na Igreja
do Baiacu, na Ilha de Itaparica, onde foi morto em guerra contra os holandeses, aos trinta e trs
anos de idade, em 1638, quando na pele do belo, forte e libertino servidor do rei de Portugal,
Francisco Nunes Marinho Capito Mor da Costa, perito em ndias.
     Toda essa imensa experincia - e muito mais, pois vrios tomos se fariam necessrios para
contar a multiplicidade de sua vida ou de suas vidas, todas elas plenas de feitos e amores - se
acumulava agora no frgil arcabouo de Antnio Melchades Cardoso e Silva (Cardoso e S para
os eleitos), modesto funcionrio dos arquivos municipais, mestre de cincias ocultas, herdeiro da
Chave de Salomo, filsofo universal e hindustnico e capito do cosmos.
    - Vamos, seu Cardoso, que o patro me disse que levasse o senhor de qualquer jeito. O
homem est uma pilha... - disse Aurlio, chofer de Pelancchi.
    - Vamos, eu s estava lhe esperando...
     - O senhor sabia que eu vinha?
     O sbio riu da pergunta, gargalhada clara e solta, no existia ningum mais alegre e satisfeito,
to plenamente feliz.
     - O que  que eu no sei, Aurlio? Sei do negativo e do adjunto.
        Quanto a Aurlio, no pensava discutir nem do negativo nem do adjunto, a simples
presena de Cardoso e S j o punha nervoso. No carro, ao lado do chofer, o capito do cosmos
ia saudando invisveis.
    - Boa tarde, brigadeiro...
     Cad o brigadeiro? Ali, sentado em frente ao mar, na fresca da tarde? Onde, seu Cardoso?
Aurlio no consegue ver nenhum senhor, com farda ou de simples jaqueto. Nem a todos 
dado ver, meu caro, s a alguns.
     - Meus respeitos, minha senhora, beijo-lhe os ps. Tampouco a vs? Toda elegante, chapu de
plumas e vestido de cauda, foi a mais bela de seu tempo, noutro tempo. Por ela dois rapazes se
mataram na flor da idade. Agora pela orla martima vo os trs, de brao dado, em galanteio e
riso. Teus olhos esto cegos, mseros olhos de matria, pois nem a ela enxergas, no esplendor de
sua realeza.
    - Deus me livre e guarde, seu Cardoso...
     Ri o mestre sua gargalhada, a rua se povoa de espectros, o chofer tenso ao volante, no lhe
agrada conduzir tanto mistrio.
     - Ento as coisas no correm bem no jogo? - pergunta Cardoso, de repente.
    - O senhor sabia? - ser que ele sabe mesmo tudo?
     Mas eis que Cardoso oculta o rosto e se esconde. De quem? Da moa loira e esportiva a
caminho da praia? Dela mesmo, meu caro; sabes quem ela ?  Joana d'Arc, e sabes quem 
Cardoso e S? Pois no  outro seno o cardeal francs Pierre Cauchon, legado do Papa, cuja
mo medrosa assinou a sentena de morte da Donzela. Por toda parte ele a v, seus olhos
inocentes, seu loiro perfil de sacrifcio. - Eu era dbio, frvolo, imoral, covarde...
     No apartamento de Zulmira, Pelancchi espera impaciente o mago do Hindusto, o nico
capaz de somar as parcelas do impossvel.
     - Demorou, seu Cardoso...
     - Nunca chego nem antes nem depois, sempre na hora exata. Saudou Zulmira, envolta em
gazes esvoaantes, bem a conhece Cardoso e S de outras pocas, quando  frente das Amazonas
ela cruzava o vale na montaria rdega, o nico seio  mostra, farto. Farto ainda o conserva (ao
nico e tambm ao outro), no porm  mostra, uma lstima  pensa mestre Cardoso, quase puro
esprito decantado em tantas encarnaes, no ainda, porm, to completamente a ponto de no
ser sensvel a certas excelncias dessa porca vida material onde se cumpre pena.
    - H dois dias lhe procuro...
    - De que tem necessidade? De pressa ou de soluo?
     Os olhos parados, fixos no alm, o suor na testa ampla, os fluidos em derredor. Concentrao
intensa:
    - Deu o revertrio na roleta, no foi?
     Pelancchi volta-se para Zulmira, como a lhe dizer: "Vs, ele adivinha tudo". Mesmo  tenda
espiritual onde Cardoso habita com sua pobreza e cinco filhos (jamais cobrou um real para fazer
o bem), chegam os rumores da cidade e, naqueles dias, de outros assuntos no se conversou na
cidade alm dos acontecidos no Place, no Tabaris, no Abaixadinho, nas mesas de roleta e bacar,
de lasquin. Mistrio ou batota, milagre ou trapaa nunca se tivera notcia de azar to grande
quanto o de Pelancchi Moulas. Chegaram tais comentrios aos ouvidos do mestre,  verdade.
Mas, se no os tivesse escutado, isso por acaso o impediria de saber? Quando necessitou Cardoso
e S de ouvir para saber?
     - Hoje de manh, quando conversei comigo mesmo, antes de sair de casa, eu me disse:
Pelancchi vai mandar me chamar, est nas trevas, precisando de um pouco de luz.
     - De um pouco? No, de muita luz... Esto querendo acabar comigo, Cardoso, me liquidar de
uma vez...
     Contou aqueles impossveis; sentado em sua frente, Cardoso e S ouviu impvido o relato de
espantos. Balanava a cabea, talvez a confirmar alguma idia ou a antever uma certeza. Por entre
as finas gazes do peignoir e por discreto rabo do olho, Cardoso e S via e comovia-se com um
palmo de coxa de Zulmira, atenta  dramtica narrativa do rei do jogo. Tal viso carnal no
perturbava S, pois a beleza no perturba o sbio, no  imoral nem se ope ao esprito. Ao
demais, descansa a vista.
     Vista cansada: seus olhos imateriais viam atravs do espao, varavam o tempo, fitos no atrs e
no adiante. Quando Pelancchi terminou seu conto de azares sem medida, Cardoso e S j tudo
esclarecera, os termos do problema e sua incgnita, tinha resposta e soluo:
    - So marcianos... - disse, categrico.
     Riu em seguida seu riso colossal, como se tudo aquilo no passasse de divertida brincadeira,
como se no estivesse custando uma fortuna diria aos cofres de Pelancchi.
     - Marcianos? Que marcianos?... Seu Cardoso, no me venha com balelas... Confio em voc,
no me deixe na mo. O que  que os marcianos tm que ver com isso? So meus inimigos, isso
sim.  coisa-feita. Marciano quem  que j viu, ningum sabe se existe. Mas feitio existe, e os
espritos ruins e o mau-olhado...
         - Voc nunca viu porque  um peso de carne... Os marcianos, j lhe disse... Nem inimigo
nem coisa feita... Os marcianos so muito curiosos, vivem bulindo em tudo quanto  mquina,
querem tirar a limpo cada coisa, e para eles mentalidades superiores, no existe nem sorte nem
azar...
- Marcianos? - quis saber Zulmira sempre vida de aprender.  Na terra? Desde quando?
    Sobretudo no vamos confundir e comparar Cardoso e S com cartomante ou ocultista desses
por a, aos montes, curvados sobre bolas de cristal, ou com videntes de ptica reduzida, ou com
adivinhos de meia-pataca, quiromantes chinfrins. Cardoso e S era professor do mistrio, um
sbio do obscuro, um cientista j muito alm da astrofsica e da relatividade.
    - Faz muito tempo que os primeiros marcianos desembarcaram na terra. Apenas trs humanos
assistiram ao desembarque...
     - O senhor era um dos trs?
    Sorriu modesto, continuou:
               - Um dia desses, eles vo se mostrar, e a a humanidade vai levar um choque... - riu sua
gargalhada, achando uma graa infinita no susto da humanidade. - Por ora so invisveis... S
Alguns eleitos .
    Zulmira, curiosa de saber:
    - O senhor, que pode ver, me diga como eles so. So bonitos?
     - Junto a eles ns somos uns bicharocos hediondos.
    Ficou absorta a cabrocha, cismarenta, num devaneio:
    - Quer dizer, seu Cardoso, que foram os marcianos que me passaram a mo e me beliscaram?
Ai, e eles tambm so disso?
     - Disso o qu? - solcito, Cardoso pediu detalhes. Que mo, que belisces e em que pontos de
sua anatomia?
    Zulmira contou, ainda alarmada, inocente vitima desse deboche interplanetrio, dessa
bolinagem de ectoplasmas.
    - Mostrei a Pequito, ele viu as marcas. Mostrei tambm s colegas, na aula de culinria, na
escola de Dona Flor. Dona Flor ficou numa impresso, quase tem um desmaio.
     Mostrou a todo mundo, s no mostrou a Cardoso e S: por que essa preveno com ele?
Sem um exame in loco (como diria o cardeal Cauchon), impossvel definir o fenmeno. Um tanto
agastado, Cardoso e S respondeu:
    - Os marcianos? No creio... Com eles  s na transmisso de pensamento.
     S na transmisso de pensamento? Que trouxas..., considerou Zulmira, voltando a fazer as
unhas. Quanto a Pelancchi, ainda tinha dvidas:
    - Marcianos? E se no for?
    - Deixe comigo e resolvo tudo...
     Pelancchi confiava em Cardoso e S, tivera ocasio de constatar a grandeza universal de seu
saber. Mas, para assunto to complexo, talvez valesse a pena no se reduzir ao mstico do
Hindusto; consultar, quem sabe, outros poderes mgicos. Me Otvia, por exemplo.
    Cardoso e S renovando o fumo do cachimbo, o olhar perdido mais alm da janela e do
horizonte, partiu na rstia de luz, sua voz vinha de longe:
    - Tenho muito prestgio com os marcianos, no faz ainda quatro dias fui com eles de visita a
Marte, andei todo o planeta, tem uma cidade s de prata e outra s de ouro... L, os peixes voam
pelos ares e o mar  um jardim de flores...
     Agora no enxergava sequer as pernas de Zulmira, o seio farto nas rendas do decote, numa
nave de luz chegara a Marte. "Est em transe", sussurrou Pelancchi com respeito, e Zulmira
comps as rendas do peignoir.

Captulo 20

     As portas do inferno se abriram e o anjo revel transps a entrada do quarto de dormir (e
amar) de Dona Flor, aceso o olhar em frete, a boca num convite e todo inteiro nu. Se nem uma
santa resistiu a esse olhar, ao apelo desse riso, a esse peito aberto, como poder faz-lo Dona
Flor? Onde ests, comadre Dionsia, com teu colar de Oxssi e com o eb composto pelo oj?
Depressa, Dionsia, depressa com o babala e com o mokan para amarrar o tinhoso na noite de
seu sono eterno. Se este continua vivo, Dona Flor no pode responder por sua honra e pela testa
do doutor. Toda uma vida honesta, o exemplar comportamento, a decncia, a respeitabilidade, e
eis que esse invejvel capital corre perigo: amanh o bom nome de Dona Flor, smbolo de
virtudes, vai estar na boca do mundo, na lama, no desprezo. Amanh outra mulher, apontada a
dedo, coberta de remorso e de vergonha.
     Dona Flor recolhe o olhar de frete no centro de seu ser, fretada; em gozo responde a seu
convite, oferecida.
     Ao mesmo tempo  Dona Flor alerta e valorosa ante o perigo, honrada e austera,
intransigente, e  Dona Flor com a maior pressa de se dar, antes que seja tarde. Qual das duas a
verdadeira Dona Flor? A que fecha a porta com estrondo ou a que abre em silncio, fresta a
fresta, a porta de seu corpo? A chuva no telhado.
     Noite de sbado aps a tarde de enxaqueca, a vertigem, a visita de Dionsia, o concerto de
fagote: tudo isso parece to distante! o tempo de Dona Flor  um tempo de batalha, j no se
mede por horas e minutos, um tempo de recusa e de desejo, longo e sofrido. Noite de sbado,
noite do doutor com bis: no banheiro ele se prepara para a discreta e deleitvel festa dos sentidos.
Em repouso Dona Flor o aguardava, esposa submissa e grata. Mas, Ah! o astuto se acomoda aos
ps da cama e lhe ordena, dedo em riste:
    - Tu hoje no vai dormir com esse bosta, que eu no deixo. Nem que eu tenha de fazer um
esporro de lascar.
     Era um absurdo, um abuso, um despropsito, mas - entenda quem quiser o corao
humano... - Dona Flor sentiu-se satisfeita a ponto de rir e de lhe perguntar (em vez de expuls-lo,
ofendida e indignada):
    - Est com cime dele, hein? O Degas, com cime...
    - Tenho  vontade de voc, meu bem - respondeu todo na maciota, estendendo-se na cama a
la godaa. - J esperei demais... Onde j se viu eu ter de conquistar minha legtima, com quem
dormi durante sete anos? Se acabou, no espero mais. Como hei de ter cime desse teu doutor de
droga, se no tenho com ele briga ou competncia? Casou contigo,  teu marido e, tirante a
vadiao onde no d no couro, no mais at  um bom marido, reconheo. No lhe tiro seu
direito. S hoje, ele me desculpe: vai ficar no alvu, quem vai vadiar  o porreta aqui, que entende
do riscado e  bom no balanc e na estrovenga.
    - V esperando, tem muito que esperar...
     Todo inteiro nu, a boca ardida, o olhar de frete e a mo a subir por seus caminhos, ele a
domina: Dona Flor, escrava de Vadinho, livre s em palavras, pura pabulagem. No fora sempre
assim? Seu orgulho e sua pudicidade sumiam nas mos dele, Dona Flor obediente s suas ordens
de marido e dono. Orgulho e pudiccia, decncia, moral, dignidade, de que vale tudo isso, se ele a
deseja e por ela veio (bem sabeis de onde, de onde no se vem).
    - Eu estava nas profundas, preso, de mos e ps atados, me deu trabalho demais me
desamarrar para vir te ver, meu bem. Mas tu me chamou, e eu vim, atravessando o fogo e o frio,
o nada e o no. Chego e tu me nega o po, a gua de beber, por qu?
    - Ai, Vadinho...
    - Por que tu me trata assim, como a um co? Terminou, meu bem. Ou hoje ou nunca mais.
Quando esse barata tonta aparecer, diz a ele que tu no se sente bem, no est com disposio.
Depois a gente vai arrosar a peladinha.
    - Ah! isso no... Sou mulher sria e honrada, no vou trair meu marido, quantas vezes j te
disse?
    O doutor, saindo do banheiro, no pijama limpo, recende a sabonete. Seu aspecto  aprazvel,
sincero seu sorriso, honesto o olhar. Vadinho colhe na mo a rosa azul de Dona Flor: Ah! Dona
Flor como podes ser assim calhorda?
    - Teodoro, meu querido, me perdoa por hoje, no me sinto bem, estou indisposta. Deixamos
para amanh, se voc no se incomoda.
     Doente? O doutor se inquieta. J pela tarde, ela se queixara. No seria mais do que uma
simples indisposio? Onde est o termmetro? O xarope, as plulas, a caixa de medicamentos?
No preciso de nada disso, meu querido, no te aflijas, vai dormir, amanh estarei boa,
completamente boa...
                 ...e ao teu dispor . . - diz numa promessa Dona Flor. Como posso de repente ser
assim, to sem sentimentos, to sem orgulho, sem decncia, sem moral? - interroga-se Dona Flor,
sentindo pelo alarmado esposo uma ternura grata e certo gosto pela farsa: na face o beija. Mas
doutor Teodoro no se conforma: ela deve tomar um comprimido, umas gotas, um sedativo ao
menos para dormir de um sono s, despertar tranqila e repousada. Vai pelo remdio e pela gua.
Apenas ele sai, Dona Flor sente-se presa de Vadinho.
     - Maluco! Me solta, ele j est voltando...
    Vadinho considera, objetivo e imparcial:
              - No  mau sujeito, esse teu segundo... Muito ao contrrio.  Sabe, meu bem, cada vez
simpatizo mais com ele... Entre ns dois, tu est muito bem servida. Ele para penas e cuidados,
eu para a gente vadiar...
     O doutor traz a moringa de gua fresca, dois copos e um pequeno vidro com um lquido
incolor:
     - Tintura de valeriana, vinte gotas em meio copo dgua e voc vai dormir e descansar,
querida.
Ergue o conta gotas, com ateno e calma mistura o sedativo  gua. Algum trocou os copos
enquanto doutor virou as costas por um instante? Quem? Vadinho ou Dona Flor? Mas, se assim
foi, como o doutor, farmacutico e competente, no reconheceu o gosto ativo da valeriana?
Houve um milagre? Se houve a esta altura dos acontecimentos um milagre a mais, um milagre a
menos, j no causa a ningum surpresa ou mossa. Pode ser tambm que no tivesse havido
troca, apenas Dona Flor no bebera o sedativo, e o profundo sono do doutor se devesse to-
somente  chuva no telhado e  sua conscincia limpa. Teve tempo apenas de beijar a esposa.
     - Encornou... - disse Vadinho, aplicando o termo justo. Agora, ns, meu bem...
     - Aqui, no... - pediu Dona Flor, gastando os ltimos resqucios de pudor e de respeito ao
segundo esposo. - Vamos pra sala...
     Na sala, as portas do cu se abriram, irrompeu o canto da aleluia.
"Onde j se viu vadiar de camisola?", Dona Flor to despida quanto ele, um da nudez do outro se
vestindo e completando. Lana de fogo a trespassou, pela segunda vez Vadinho lhe comeu a
honra, primeiro a de donzela, agora a de casada (outras mais tivesse e ele as comeria). L se foram
pelos prados da noite at a fmbria da manh.
     Nunca se dera assim; to solta, to fogosa, to de gula acesa, to em delrio. Ah! Vadinho, se
sentias fome e sede, que dizer de mim, mantida em regime magro e insosso, sem sal e sem acar,
casta esposa de marido respeitador e sbrio? Que me importam meu conceito na rua e na cidade,
meu nome digno? Minha honra de casada, que me importa? Toma de tudo isso em tua boca
ardida, de cebola crua, queima em teu fogo minha decncia inata, rasga com tuas esporas meu
pudor antigo, sou tua cadela, tua gua, tua puta.
     Foram e vieram, acorreram e acudiram, e nem bem de volta, j outra vez partiam, de chegada
e regresso. Tantas saudades e tantas metas a cumprir, todas alcanadas, algumas repetidas.
     Insolente e bem-amada, porca e linda, a voz de Vadinho a lhe dizer tanta indecncia, a lhe
recordar douras de outro tempo.
    - Tu te lembras da primeira vez que te senti? Os ranchos vinham pela praa, tu se encostou em
mim...
    - Tu  que me abraou e me passou a mo...
     Ele lhe passava a mo e a reconhecia:
    - Teu rabo de sereia, tua barriga cor de tacho, teus peitos de abacate. Tu cresceu, Flor, est
mais opulenta, tu  gostosa da cabea aos ps. Vou te dizer: j colhi muita xoxota em minha vida,
uma boa safra: nenhuma como a peladinha,  a melhor de todas, te juro, minha Flor...
    - Que gosto tem? - Dona Flor despudorada e cnica.
     - Tem gosto de mel e de pimenta, e de gengibre...
     Falava e Dona Flor em ais se desfazia: Vadinho mais maluco, mais tirano, fogo e virao.
Vadinho, no te vs embora, nunca mais. Se partires outra vez, morrerei de pena. Mesmo que eu
te pea e rogue, no vs embora; mesmo que eu te mande e ordene, no me deixes...
     S serei feliz se no estiveres, se partires, eu bem sei; contigo no h felicidade, s desonra e
sofrimento. Mas sem ti, por mais feliz, no sei viver, no vivo, ai, jamais me deixes.

Captulo 21

    Domingo era dia de acordar mais tarde, e quando Dona Flor acordou, naquela manh de
domingo ainda chuvosa, viu o rosto do doutor curvado sobre o seu, a observ-la numa devoo,
a mo posta em sua face:
    - Dormiu bem, querida? Febre no tem...
             Sorriu Dona Flor se espreguiando, contente de possuir to bom marido, de ver-se alvo
de tanta solicitude; os braos lhe passou pelo pescoo e um beijo lhe deu agradecida:
    - No sinto mais nada, Teodoro. Foi tolice...
              Uma leseira, uma preguia, um prazer de cio, uma vontade de cama, de permanecer
naquele calor e na dedicao do farmacutico. Manh sem compromissos, colcho de mola, a
chuva no telhado, o devotamento do marido, santo esposo. No aconchego de seus braos...
neles se acolheu:
    - Que preguia, meu querido...
    - E por que voc no fica descansando? Ontem no passou bem, descanse hoje at mais tarde.
Se quiser, trago o caf aqui.
     To merecedor e cativante:
    - S fico se voc ficar tambm, querido. S fico junto com voc.
    Doutor Teodoro sem malcia, um menino apesar da posio social, do saber, e da idade:
    - E que... - riu, encabulado -...se ficar deitado junto de voc no assumo responsabilidade
alguma se...
    Dona Flor, a voz dengosa:
    - Corro o risco, Teodoro... - escondeu o rosto no travesseiro.
    Estava um tanto descomposta, um seio crescia junto ao peito do doutor, saltava a curva da
anca de entre os lenis, exibindo sua cor de tacho antigo. O olho do doutor tmido e voraz, a
mo contida.
    - Voc andou se batendo na cama, minha querida, veja a marca... Mais de uma... Teve mau
dormir.
    Ela ficou pequena e seu corao parou:
     - Onde?
    - Aqui... Pobre querida... - a mo aproveitadeira subia pela coxa e mais alm.
     Dona Flor entre as pernas do marido apagou aquelas ndoas de mau ou bom dormir (ou de
no dormir). As bocas se encontraram e ela estremeceu: o sabor do beijo puro (mas ardente), o
inesperado prazer daquele amplexo, a chuva no telhado, o calor da cama, a timidez do doutor
Teodoro, a mo sem experincia por isso talvez de mais deleite, o desejo nos olhos baixos do
marido, no peito arfante e tudo em plena luz, Oh! embarao. Dona Flor de novo estremeceu:
uma delcia. "Para as penas e os cuidados, seu bom marido." S para isso? Cada homem tem seu
gosto prprio, j dizia Maria Antnia, sua ex-aluna perita em macho e cama, "cada um tem sua
prepotncia, uns sabidos, outros no. Mas, se a gente souber aproveitar, Ah! todos so bons..."
Dona Flor sente-se invadida de desejo, um desejo diferente, nascido da preguia, da timidez de
Teodoro, de seu acanhamento.
    - Voc est me devendo, meu querido...
     - Eu? O qu? - perguntou o doutor, ru inocente, no era mesmo um menino grande e tolo?
     Testa larga, de intelectual, fronte de insignes pensamentos, homem to bobo! Dona Flor
correu-lhe a mo curiosa pela testa, riu de mansinho, nunca to mansa Dona Flor e to dengosa:
    - Pois me deve sim senhor, ontem me faltou...
     - No seja injusta, quem faltou...
     - Se sou eu quem deve, ento se pague, que eu no gosto de dever - oculta o rosto nas mos,
rindo toda cheia de malcia, Dona Flor.
    Que outra coisa deseja o nobre farmacutico? Saiu at do srio:
     - Pois vou cobrar com juros...
     Homem metdico, cumpridor de leis e ritos, veio doutor Teodoro colocar-se na posio
habitual e tomou do lenol para cobrir o amor com recato e com o respeito que lhe so devidos,
entre esposos. Mas no lhe deu tempo Dona Flor: de improviso atirou com o lenol fora da
cama, com o recato, com o respeito, e o doutor se viu nos braos dela. Nunca mais ele esqueceu
essa manh de chuva, esse domingo bento, esse dia santo e feriado, esse extra sem igual, extra e
super para tudo dizer e definir com exatido.
     Depois Dona Flor se enrolou como um novelo, nos lbios um sorriso, no embalo da chuva
adormeceu, de um sono bom dormiu, to sossegada e satisfeita que s vendo.

Captulo 22

     Nada mudara, nenhuma diferena, um domingo como todos os demais, e Dona Flor a mesma
pessoa de sempre. Igualzinha. Sofrera as penas do inferno, certa que ia ser um fim de mundo: a
gente tem cada surpresa nessa vida...
     Alis, estando de planto a Drogaria Cientfica isso tornava esse domingo um tanto diferente,
pois o doutor ia atender  numerosa clientela - uma s farmcia aberta para populao to
grande. Assim, quando Dona Flor saiu do quarto j no encontrou o marido. Teve, apesar disso,
manh das mais movimentadas.
     Primeiro, Marilda com seu noivado em crise; e Dona Maria do Carmo, quase em faniquito:
prosseguir cantando ou casar? Na vizinhana, as mulheres opinavam praticamente unnimes,
com exceo de Dona Gisa. Mas a americana era conhecida por suas idias estrambticas, boas
talvez para os Estados Unidos, mas esdrxulas, quando no perigosas para o Brasil. No s
defendia o divrcio como chegara ao absurdo de declarar, em alto e bom som, numa discusso
com Dona Jacy e Dona Enaide, que a virgindade no passava de coisa obsoleta e mesmo
prejudicial  sade: os hospcios, segundo a gringa, esto cheios de donzelas. Imagine-se!
                As demais repetiam, com moral e convico, ser o casamento o nico objetivo legtimo
da mulher, destinada por Deus a cuidar de sua casa, a zelar por seu marido, a procriar filhos e a
cri-los, contente e concorde. A frente desse bravo exrcito, Dona Maria do Carmo, no desejo de
ver a filha estabelecida, como ela prpria dizia:
    -  preciso estabelecer essa menina em seu lar. O rdio no oferece garantias e  um perigo.
     Um perigo? A roda se exaltava: no um, porm mltiplos perigos cercam as cantoras, as
artistas, raa, alis, j de si um tanto equvoca, de conduta suspeita, na opinio de Dona Dinor,
pessoa, como sabemos, de moral severa e rgida, cada vez mais intransigente no combate  sem-
vergonhice e  libertinagem. De p atrs, apenas ouvia falar em artista, em palco, em rdio.
Quanto aos diretores, cantores, msicos, eram todos uns pulhas, uns gavies de olho nas
infelizes, as garras afiadas.
     Ainda h pouco uma jovem cantora, moa de excelente famlia, - das relaes de Dona
Enaide, "pessoas distintssimas" - fora internada s pressas num hospital, a esvair-se em sangue,
e, quando o mdico foi ver a causa da hemorragia constatou aborto e muito do malfeito por uma
curiosa de canto de rua. A moa s no morreu por ter sido entregue aos cuidados do doutor
Zezito Magalhes, cuja competncia todos conhecem. No morreu, o mdico lhe restituiu a vida,
mas os trs vintns comidos, isso nem o bom doutor Zezito, com toda a sua competncia, pode
lhe dar de novo. Nem ele nem ningum, pois, como disse Dona Dinor, "ainda no se inventou
virgindade de reposto".
    - Em compensao - considerou Dona Norma - quem inventar vai enriquecer. J pensaram? E
s chegar na farmcia, na Cientfica para no ir mais longe, e pedir: "Doutor Teodoro, me d a
duas xoxotas novas, uma pra mim, outra para minha irm... E uma mais barata, que  para a
empregada l de casa...
     Riram todas, se bem nada daquilo tivesse a ver com Marilda, moa direita, na opinio geral da
vizinhana. Por isso mesmo no podia ela vacilar entre o casamento com o fazendeiro e os
magros pr-labores do rdio.
    Grande foi o assombro por conseqncia, quando, naquele domingo, Dona Flor, ao ser
solicitada mais uma vez por Marilda, aconselhou-a a mandar o noivo retrgrado e prepotente
lamber sabo, mantendo-se na Rdio onde no tardariam a lhe oferecer melhor salrio. Dona
Maria do Carmo, vendo a filha, forte daquele inesperado apoio, inclinada a romper o namoro,
veio tomar satisfaes, quase briga com Dona Flor:
     - Se fosse sua filha, duvido... Nem parece nossa amiga...
     A discusso pegou fogo, envolvendo a vizinhana, mas Dona Flor manteve seus pontos de
vista:
    - Isso  puro carrancismo...
     Terminou o bate-boca em choradeira, a prpria Dona Maria do Carmo vacilante entre o
sucesso da filha e a segurana do casamento. Dona Flor conquistara a opinio da maioria. Dona
Norma resumiu:
     - Tambm v ser monarca assim no inferno. O tempo da escravido j se acabou.
     Foi Dona Flor para a cozinha preparar o almoo - nos domingos de planto no ia para a casa
dos tios no Rio Vermelho - e ali Dionsia de Oxssi a encontrou:
    - Licena, minha comadre...
     Vinha buscar dinheiro e trazia pressa, pois o eb estava em curso e a roda das iaws  sua
espera para danar  tarde e pela noite a dentro. Antes, havia muito o que fazer, a obrigao era
das maiores, e complicada de preceitos. O babala jogara os bzios e os orixs tinham
respondido. Para lhe garantir tranqilidade, livr-la de olho mau, de qualquer doena, das
ameaas do egun inconformado a atra-la para sua morte, Dona Flor devia cumprir obrigao de
monta, no um despacho simples, no um eb qualquer. Exu, cabea do finado, se pusera em
contra, em p de guerra. Dionsia dissera ao oj para no medir despesas. Sendo caso de vida ou
morte, e com Exu em armas, de travs e pelo avesso, o dinheiro no conta e corre pressa, muita
pressa: sua comadre Dona Flor mal se mantinha em p. Diante de tudo isso o prprio Asob
adiantara do seu para as despesas mais urgentes; um carneiro, duas cabras, doze galos, seis
conquns, doze metros de pano. Sem falar no resto, extensa relao escrita a lpis em papel
pardo, de embrulho. Cada compra com seu custo e mais vinte mil-ris destinados ao peji de
Ossain para ele abrir os caminhos pelo mato onde se esconde Exu.
     Mas, ali chegando, Dionsia encontrava Dona Flor to bem disposta, to de si contente, at
nem parecia a mesma de ontem pela tarde. Fizera mal por acaso em ter autorizado tanta despesa?
     Fizera bem, pois na vspera, a prpria Dona Flor assustada, ordenara todas aquelas
providncias.
    - Obrigada, minha comadre, por tanto trabalho que eu lhe dou. Agora, no entanto, j nada
importa, bem ou mal tudo se resolveu.
    - O finado deixou de perturbar?
    Dona Flor sorriu com embarao e disse:
     - Ou eu deixei de me assombrar. J no preciso de mais nada.
     E agora suspender o trabalho era impossvel. Durante a noite e pela madrugada tinham feito o
sacrifcio dos animais, e ao primeiro claro do sol, puseram diante de cada orix a gamela com
sua comida ritual. Por todo o domingo,  tarde e  noite, os preceitos continuariam com os orixs
presentes no terreiro. Suspender, parar no meio, no prosseguir, dando o feito por no feito,
impossvel, comadre, em eb de tanto ax. Das conseqncias fatais e imprevisveis, do castigo
cruel dos encantados, quem escaparia com vida? Nem ela prpria, Dionisia, apesar de simples
intermediria.
    Agora era ir at o fim. Mesmo que a comadre se considerasse livre de ameaas, o eb era uma
garantia a mais para seu sossego. J o dinheiro fora gasto; j haviam os orixs bebido o sangue
quente dos animais na hora da matana e aceito os pedaos preferidos de sua carne ao alvorecer;
j estavam cobertos com suas armas e seus emblemas, e o grito de Yans j ressoara na floresta.
Para Dona Flor era a certeza de que jamais voltaria o finado a perturb-la, amarrado para sempre
 sua morte.
     Dona Flor contou as cdulas, ps um dinheirinho a mais, novamente agradeceu a Dionsia a
ingrata trabalheira e quis ret-la para o almoo: galinha ao molho pardo e lombo de porco feito
no conhaque, bolo de fub, manga e sapoti na sobremesa. Mas Dionsia tinha pressa de voltar
para o terreiro onde, no ronco dos atabaques, Oxssi reclamava seu cavalo predileto.
    Nos domingos de planto, aps o almoo (o doutor comendo s carreiras, sem sequer
perceber o gosto dos quitutes, na nsia de voltar para a farmcia, entregue ao molecote dos
recados), Dona Flor mudava a roupa, e sem atender aos protestos do esposo vinha fazer-lhe
companhia, confort-lo no trabalho em dia de descanso. Punha-se a seu lado no balco,
ajudando-o a despachar, toda nos trinques, numa linha e numa estica to cutubas como se fosse
de visita a Dona Mag Paternostro, a milionria, ou a festa em casa da comendadora Imaculada
Taveira Pires. Toda aquela elegncia, toda aquela boniteza s para ele; doutor Teodoro sentia-se
pago e bem pago.
             Assim naquele domingo: Donaire e formosura, feitio e dengue, Dona Flor ostentava o
colar antigo de turquesa, presente de Vadinho. Nada mudara, domingo idntico a tantos outros
na tarde de planto. Tudo igual: a rua, a gente, o doutor e ela, Dona Flor. Ningum a apontara a
dedo, ningum se apercebera de nada, ningum a reconhecera adltera e culpada, nem mesmo
Dona Dinor metida a adivinha e peonhenta. O mesmo sol de antes, a mesma chuva (agora fina
poeira d'gua), as mesmas conversas e os mesmos risos, a considerao inalterada. Pensara que ia
ser um fim do mundo, na rua e dentro dela: que ia romper seu corao, antes a morte. Em vez
disso, tudo igual: como a gente se engana nessa vida...
     Do balco, despachando uma freguesa, doutor Teodoro lhe sorri, todo besta e ftuo ao v-la
to formosa. Ela lhe sorriu tambm e de relance lhe espiou a testa: nem sinal de chifres. Que
tolice, Dona Flor, que significa esse gosto repentino pela farsa?
     Entre ela e o doutor nada se alterara, tampouco. Apenas a memria da manh na cama,
persistia a fazer mais ntima aquela tarde de planto. Tambm persiste a lembrana da noite no
sof, amor de gula e violncia, a cavalgada impudica sob a chuva, aleluia de Vadinho. Na tarde
serena, na paz tranqila do domingo, o aguilho do desejo morde seu corpo. Quando vir... ele de
novo, o doidivanas, o tirano, o maligno, o tinhoso, o seu primeiro? A noite, com certeza, quando
o doutor, cansado do trabalho, dormir o sono dos justos e felizes.
     Naquela doce paz, boa esposa solidria com o segundo esposo, cumprindo seu dever a ajud-
lo no planto, e  espera da noite libertina com o primeiro, um pensamento de sbito a inquieta.
Comadre Dionsia dissera que jamais Vadinho voltaria a perturb-la, amarrado para sempre nas
cordas do despacho. Meu Deus, e se assim fosse?

Captulo 23

     Me Otvia Kisimbi rezou o corpo de Pelancchi e tanto ele como Zulmira tomaram banho de
folhas com sabo de cco. As penas dos galos sacrificados foram postas nas encruzilhadas dos
caminhos. Me Otvia defendeu Pelancchi pelos quatro cantos e pelas sete portas e lhe disse para
esperar os resultados. Mas o rei do bicho tinha pressa, foi bater em outras freguesias.
     A vidente Aspsia apenas desembarcara do Oriente, trazida nas auras da manh, e mal vestira
sua farda (um tanto gasta) de adivinha, quando recebeu a visita de Pelancchi, dinheiro grosso em
sua frente. Se bem a pitonisa no fosse sensvel ao tinir do ouro - vivendo da graa dos cus e em
jejum total dos prazeres desse mundo como recusar as pelejas, quando, ao demais, se lhe exigia
trabalho to difcil?
     Lanando mo do "sistema da cincia espiritual em movimento", patente sua, exclusiva, partiu
para o alm e gemeu palavras roucas, debatendo-se como se a quisessem estrangular. No era
espetculo dos mais aprazveis, e o professor Mximo Sales, de natural ctico, um cabea-dura,
teve vontade de ir-se embora. Mas Pelancchi mantinha-se firme, numa tensa expectativa,
segurando a mo trmula de Zulmira, a quem o sobrenatural afetava enormemente depois que os
invisveis demonstraram interesse por seus peitos e por seus quadris (e, quem sabe?, pelo mais).
Zulmira, secretria e confidente, leal ao lado do patro, conforto dos aflitos, e que conforto!
     Babando desfeita e de olho arregalado, a sacerdotisa do Oriente retornou das esferas siderais
e, ao fitar Pelancchi, seu corpo estrebuchou, um grito rasgou-lhe o peito magro - tbua rasa, triste
de se ver. Pediu mais dinheiro, Ah! era um trabalho extenuante, tudo escuro de breu nos crculos
do alm, to negra a sina de Pelancchi! Um dinheirinho para velas. Talvez, com aquele reforo de
iluminao, desse para ela desmascarar a trama inteira. Guardou as notas na gaveta, acendeu velas
simblicas e,  sua luz, seus olhos de vidente reconheceram os inimigos de Pelancchi:
    - Vejo trs homens na beira de um caminho e os trs lhe querem mal...
      - Ah! - gemeu Pelancchi. - Me diga, singra mia, como so...
     Demorou-se ela num esforo para enxergar, Pelancchi tinha pressa:
    - Olhe se um no  careca e se o outro no  um gordo? O terceiro...
    - Deixe que ela mesma diga do terceiro... - sugeriu Mximo Sales, enxerido da pior espcie. -
Afinal, quem  a adivinha?
    A pitonisa, mesmo em transe fulminou com o olhar o canalha a lhe fazer mais rdua a
caridade: quem disse ser de ganho fcil seu dinheiro? Roncou, bufou, mordeu os pulsos, deu
socos na cabea: era por acaso fcil esse dinheiro de Pelancchi? Difcil e arriscado:
    - O primeiro dos trs - anunciou com voz de tmulo -  um homem calvo.
    - Grande novidade... - rosnou Mximo, o crpula.
     - O segundo  um senhor gordo, bem gordo...
    - E o terceiro, como ? - exigia o tal de Mximo.
     - O terceiro no vejo ainda bem, est nas trevas...
     Pelancchi no se continha:
    -  isso mesmo, sempre escondido, maledetto! Veja se no tem bigodes e o nariz quebrado...
     Mas a pitonisa certamente no o ouviu, na distncia do alm, buscando ver:
    - Agora estou enxergando: usa bigodes e... esperem, estou vendo... tem o nariz quebrado...
    - So os Strambi, no tem dvida. - Pelancchi quis saber como agir para os afastar de seu
caminho, a esses Strambi implacveis.
    Para expuls-los da Bahia, para conduzi-los aos nobres sentimentos do perdo e ao Levante
mais longnquo, Aspsia, extenuada, exigiu uma quantia um tanto forte. Pelancchi j puxava da
carteira, mas Mximo Sales, decididamente um traste imundo, outra vez se meteu onde no era
chamado, e obteve substancial abatimento.
     Pelas mos de Aspsia foram-se os Strambi, mas no o azar no jogo. Pelancchi seguiu o seu
calvrio, sua via-crucis de adivinha e ocultista.
    Josete Marcos pelo menos era bonita e jovem, constatou Mximo Sales: uma exceo na
confraria em geral composta dos argaos mais chinfrins. Por que - perguntava-se o professor de
contraveno - o outro mundo se servia de tais espantalhos? Por que eram to sujas as salas de
consulta, os templos das revelaes, to forte a inhaca do mistrio, o aftim das almas? O ctico
Mximo conclura ser o alm um tanto fedorento e sujo.
    Salve Josete Marcos, esguia e loira, e limpa! A saleta onde os recebeu tinha flores num vaso e
escarradeiras. Depois de ouvi-los, ali os deixou com seu marido e ajudante; foi orar na sala de
levitao e da vidncia. O marido, Mister Marcos, tambm jovem, com um ar simptico de
malandro diplomado, explicou nada cobrar Josete pelos benefcios distribudos aos povos por
intermdio de sua mediunidade. Tudo gratuito, os espritos no aceitavam nada e Josete recebia
apenas o estritamente necessrio para as injees e os remdios (tudo to caro hoje, a vida
subindo de tal forma) com que refazer a sade abalada aps cada sesso; ao desprender
ectoplasma - e ela no fazia economia, como os senhores constataro pessoalmente -, seu
organismo, j de si frgil, atingia o extremo da debilidade, com perigo de vida. Pelancchi, cheio de
esperana e pena, foi generoso, e Mister Marcos embolsou.
     Na outra sala - a dos fenmenos -, forrada de cortinas roxas, era quase total a escurido. De
robe branco, estendida numa cadeira, Josete com seus fluidos, o marido ordenou aos quatro -
Pelancchi, Zulmira, Domingos Propalato e Mximo - que se dessem as mos para estabelecer a
corrente do pensamento. Assim fizeram e uma pequena lmpada, nica na sala, se apagou.
     Logo tiniram campainhas, ouviram-se guinchos como miados, e uma luz andou nos ares em
volta das cortinas, arrancando um grito histrico de
Zulmira. Quanto a Pelancchi, nem gritar podia, e Propalato, trmulo, suava, os dentes apertados.
Aquela luz e aqueles guizos eram o prprio irmo Li U, sbio chins da dinastia Ming,
absolutamente autntico. Segundo Mximo Sales, incorrigvel, em vez do sbio Li U, luz e som
no passavam do sabidrio Marcos, um vivo a gozar boa vida s custas daquele lindo ectoplasma.
Mas, sendo Mximo Sales lngua de trapo e incru, suas opinies no tm valor nem merecem
maior crdito e aqui as consignamos to-somente para manter a exatido da narrativa.
     Crdito e confiana merece Josete, toda dissolvida em ectoplasma e falando uma lngua
estranha, como de menino, talvez chins antigo ou mais possivelmente a lngua portuguesa de
Macau, pois dava para se entender com certo esforo. Segundo o sbio Li U, a causa de toda a
confuso era uma Dona, itlica e rancorosa, a quem Pelancchi fizera uma falseta.
    - Loira ou morena? - perguntou o calabrs.
     - Morena e bonita, uns vinte e cinco anos...
     - Vinte e cinco? Quase quarenta, e era uma vbora. No me cabe culpa... Por favor, cara mia,
diga ao chins que eu no tive culpa...
     Se chamava Anunciata, parecia perseguida e ingnua signorina,
buscando proteo: Oh! que putana mais putana. Ele, sim, Pelancchi, era ento um ragazzo,
povero ragazzo de dezessete anos...
     No mpeto desses ludibriados dezessete anos, marcara com uma flor de sangue o rosto da
traidora, acrescentando uns cortes pelo queixo, de quebra e malvadez. Sendo menor, escapou
Pelancchi da cadeia, enquanto Anunciata, no hospital, jurava vingana, viva ou morta. Agora,
tantos anos depois, vinha cumprir sua promessa de dio naquele dramalho italiano. Anunciata,
seu primeiro amor: to carina, to putana.
     Pelancchi, ainda hoje, no se arrepende do que fez. Mulher sua no  para ser tambm de
outro,  sua e de mais ningum. Zulmira se encolhe no escuro: cada perigo nesse mundo!
     O sbio chins, por mais algumas caixas de injeo, livrou Pelancchi da lembrana de
Anunciata e de seu dio. Para os detalhes matemticos, como preo e pagamento, serviu de
intermedirio Mister Marcos, mediador das almas e gerente espiritual daquela tenda. Foi-se
Anunciata com sua flor de sangue e as quebras pelo queixo, mas no se foi o azar.
     O Arcanjo So Miguel de Carvalho, envolto numa espcie de lenol, turbante na cabea, no
descreveu fisionomias nem citou nomes, mas foi positivo e imediato. Tomando das mos de
Pelancchi, fitara-lhe os olhos: no espao sideral um inimigo cruel o perseguia, homem a quem o
calabrs ofendera gravemente desencarnado a pouco tempo. O Arcanjo logo o percebeu com seu
faro angelical:
     - Est de p, bem nas suas costas.
     Houve um movimento geral de recuo, e o prprio Mximo Sales, por via das dvidas,
colocou-se junto  porta.
    - Faz pouco que morreu?
     - Sim. E a briga foi por causa de mulher... - prosseguiu o Arcanjo, tendo respirado fundo seus
poderes mgicos.
     Pelancchi identificou Digenes Ribas. Tomara-lhe a esposa, mulata mais pedante, um
descalabro de boniteza, manceba esplendida e matreira. Digenes, proprietrio lesado e
inconformado, exibiu punhal e ameaas. Pelancchi, j poderoso senhor da jogatina, para lhe calar
a boca e a pedido da mulata - a quem Digenes perseguia com xingas e calnias - mandou-lhe
aplicar uma surra, encarregando do trabalho uma equipe de especialistas. Ao sair da mo dos
mdicos, Digenes Ribas sumiu para sempre, Pelancchi s por acaso veio a saber de sua recente e
triste morte, na misria. Quanto  mulata, piv do drama, com o passar do tempo revelou-se
insuportvel. Pelancchi a trocou por uma grosa de baralhos com um suo.
     Com sua flamante espada, o Arcanjo varreu Digenes, muita prosa e pouca ao, um pobre
esprito, de terceira, um cornuto. No cobrou muito, pois no era explorador de crentes e, sim,
benfeitor da humanidade, como lhes disse. O cornuto retirou-se com seus chifres, mas o azar
manteve-se e cada vez maior.
     Doutora Nair Sab, mdica de clnica geral e cirurgi, diplomada com distino e louvor pela
Universidade de Jpiter, quarentona feia como a necessidade, curava enfermos com passes
magnticos. Na conjugao dos astros, e a preo conveniente, descobriu pelo menos seis
inimigos de Pelancchi, logo identificados sem a menor possibilidade de erro. A doutora de Jpiter
liquidou os seis em prazo recorde, e, de lambujem, curou a Pelancchi de uma lcera do duodeno
e a Propalato, de pertinaz reumatismo. S no venceu o azar do jogo.
     Madame Deborah, sessentona, na opinio de Mximo no valia o dinheiro nem como
espetculo: pouco afirmativa, queixando-se de dores no ventre (grvida h mais de trinta anos,
concebera e ia parir o Apocalipse), um bafo evidente de cachaa e um catarro crnico, metida
nuns trapos de cigana. De srio s constatou uma tal de Carmosina, amor antigo de Pelancchi,
por ele abandonada sem d nem piedade, o rei do jogo no mantinha estrepes. Teve Madame
Deborah dificuldades em despachar a tipa, mas por fim o conseguiu, ajudada por uns tragos de
parati tomados de um vidro de remdio para tosse. Depois quis vender a Pelancchi palpites para
o bicho, infalveis. O azar,  claro, prosseguiu.
     O nico a no cobrar foi Teobaldo Prncipe de Bagd, velhinho mirrado, todo de branco, os
olhos azuis e fixos, a face de bondade, a boca de enigmas. No quis dinheiro nem esprtula de
qualquer espcie, no revelou tampouco inimigo visvel ou invisvel, macho ou fmea. Se os viu
em torno ao rei do jogo ou na distncia do infinito, guardou segredo. Apenas disse, com lgrimas
nos olhos, tocando o ombro de Pelancchi:
     - S o Mestre do Absurdo pode lhe salvar. S ele e mais ningum.
    - Onde posso encontrar esse cavalheiro?
     Velho de mais de oitenta anos, desde os vinte e poucos a anunciar o fim do mundo, resistindo
 descrena e  perseguio,  cadeia e ao hospcio, jamais vencido, implacvel profeta do Velho
Testamento, Teobaldo Prncipe de Bagd esclareceu:
     - Onde menos se espera, ele se encontra... - e tendo dito, fechou os olhos e pegou no sono.
     No apartamento de Zulmira, na solido propcia ao pensador, Cardoso e S punha em ordem
os ltimos detalhes de seu plano de combate: j marcara entrevista com os marcianos, tinha
amigos entre eles.
    - E ento? - perguntou a Pelancchi.
    Cansado e pessimista, o rei do jogo ergueu os ombros:
     - Por acaso voc sabe onde posso achar o tal Mestre do Absurdo? J ouviu falar?
     - O Mestre do Absurdo? Quer encontrar com ele - a gargalhada do mstico sacudiu a sala.
    - Com urgncia.
    - Pois aqui o tem, em sua frente. Eu sou o Mestre do Absurdo.
     No bacar, no lasquin, no grande e pequeno, na roleta, Arigof, Anacreon, Giovanni
Guimares e a multido a seguir os seus palpites, estouravam bancas sobre bancas, jamais
perdiam. Nem uma s vez.
    - Voc? Pois ande depressa. Se durar mais uma semana, estarei falido.
    - Depressa, Cardosinho - suplicou tambm Zulmira.
    O Mestre do Absurdo sorriu ao tratamento ntimo e  zelosa secretria:
    - Fiquem descansados,  para j.
    "Olhar de guia, irresistvel", pensou Zulmira.

Captulo 24

     De brao dado chegaram da farmcia Dona Flor e doutor Teodoro na hora do jantar. Ele,
aps breve repouso, voltaria ao trabalho, prolongando-se o planto at as dez da noite, estafante.
    - Pobre querido... - disse Dona Flor.
    - Voc hoje vai dormir cedo, minha querida, ontem estava febril - recomendou o bom marido.
    Dona Flor to satisfeita, de repente inteira e uniforme, no mais contraditria, dividida ao
meio, em luta o esprito e a matria. Apenas um temor: se ele no voltasse, o seu primeiro? Se
no viesse?
     Mas ele veio, e apenas o doutor se foi para a farmcia (de capa e guarda-chuva, pois de novo
aumentara o aguaceiro), eis Dona Flor e Vadinho no leito de ferro, sobre o colcho de molas, a
vadiar.
    - Voc est plido e cansado, te acho magro.  que voc no tem dormido, nessa vida de jogo
e de orgia. Precisa descansar, meu amor.
     Isso ela lhe disse num intervalo de carcias lentas, aps o embate de fogo e tempestade.
    Vadinho plido, muito plido, como se lhe fosse o sangue, mas sorridente:
    - Cansado? Um pouquinho s. Mas tu no imagina como tenho rido s custas de Pelancchi.
Daqui a pouco...
    - Daqui a pouco? Voc vai pro jogo? No vai ficar comigo a noite toda?
    - A nossa noite  agora. Depois, meu bem,  a vez de meu colega, o outro teu marido.
    Dona Flor se encheu de brios, reformulando decises dramticas:
     - Com ele nunca mais... Como ia poder? Nunca mais, Vadinho. Agora s ns dois, tu no v
logo?
    Ele sorriu na maciota, no leito estirado a la godaa:
    - Meu bem, no diga isso... Voc adora ser fiel e sria, eu sei. Mas isso se acabou, para que se
enganar? Nem s comigo, nem s com ele, com ns dois, minha Flor enganadeira. Ele tambm 
teu marido, tem tanto direito quanto eu. Um bom sujeito esse teu segundo, cada vez gosto mais
dele... Alis, quando cheguei, te avisei que a gente ia se dar bem, os trs...
    - Vadinho!
    - O que , meu bem?
    - Voc no se importa que eu te ponha chifres com Teodoro?
     - Chifres? - passou a mo na testa lvida - No, no d para nascer chifres. Eu e ele estamos
empatados, meu bem, os dois temos direito, ambos casamos no padre e no juiz, no foi? S que
ele te gasta pouco,  um tolo. Nosso amor, meu bem, pode ser perjuro se quiseres, para ser ainda
mais picante, mas  legal, e tambm o dele, com certides e testemunhas, no  mesmo? Assim,
se somos ambos teus maridos e com iguais direitos, quem engana a quem? S tu, Flor, enganas
aos dois, porque a ti, tu no te enganas mais.
    - Engano aos dois? A mim, no me engano mais? Gosto tanto de ti - Ho! voz de celeste acento
dentro dela a ressoar -, com amor tamanho que para te ver e te tomar nos braos, rompi o no e
outra vez eu sou. Mas no queiras que eu seja ao mesmo tempo Vadinho e Teodoro, pois no
posso. S posso ser Vadinho e s tenho amor para te dar, o resto todo de que necessitas quem te
d  ele; a casa prpria, a fidelidade conjugal, o respeito, a ordem, a considerao e a segurana.
Quem te d  ele, pois o seu amor  feito dessas coisas nobres (e cacetes) e delas todas necessitas
para ser feliz. Tambm de meu amor precisas para ser feliz, desse amor de impurezas, errado e
torto, devasso e ardente, que te faz sofrer. Amor to grande que resiste  minha vida desastrada,
to grande que depois de no ser voltei a ser e aqui estou. Para te dar alegria, sofrimento e gozo
aqui estou. Mas no para permanecer contigo, ser tua companhia, teu atento esposo, para te
guardar constncia, para te levar de visita, para o dia certo do cinema e a hora exata de dormir -
para isso no, meu bem. Isso  com o meu nobre colega de chibiu, e melhor jamais encontrars.
Eu sou o marido da pobre Dona Flor, aquele que vai acordar tua nsia e morder teu desejo,
escondidos no fundo de teu ser, de teu recato. Ele  o marido da senhora Dona Flor, cuida de tua
virtude, de tua honra, de teu respeito humano. Ele  tua face matinal, eu sou tua noite, o amante
para o qual no tens nem jeito nem coragem. Somos teus dois maridos, tuas duas faces, teu sim,
teu no. Para ser feliz, precisas de ns dois. Quando era eu s, tinhas meu amor e te faltava tudo,
como sofrias! Quando foi s ele, tinhas de um tudo, nada te faltava, sofrias ainda mais. Agora,
sim, s Dona Flor inteira como deves ser.
     As carcias cresciam, os corpos se queimavam em labaredas: - Depressa, meu bem, que  curta
nossa noite. Vamos depressa vadiar, daqui a pouco partirei para a perdio, que  meu destino, e
ser a hora de meu colega em ti, meu scio, meu irmo. Para mim tua nsia, teu secreto desejo,
teu cho de impudiccia, teu grito rouco. Para ele as sobras, as despesas, e o planto, teu respeito
grato, o lado nobre. Tudo perfeito, meu bem, eu, tu e ele, que mais desejas? O resto  engano e
hipocrisia, por que ainda queres te enganar? Quase a toma-la,     ainda lhe disse:
     - Pensas que vim te desonrar e, no entanto, vim salvar tua honra. Se eu no viesse, eu, teu
marido, com legais direitos, diz, minha Flor, fala a verdade no te enganes: que iria suceder se eu
no viesse? Vim impedir que tomasses um amante e arrastasses teu nome e tua honra pela lama.
    (Nunca sequer pensaste, jamais admitiste sequer a idia de um amante, mulher ntegra, viva
honesta, esposa honrada, fiel a seus maridos? E que me dizes do Prncipe das Vivas Eduardo de
Tal, tambm conhecido por Senhor dos Passos? J no te lembras dele junto ao poste? Ficavas na
fresta da janela, e se eu no envio Mirando s pressas, sabre meu luto darias de comer 
peladinha, um jardim de chifres em minha cova.)
     Sua voz celeste, sua apetncia e o gosto ardido de gengibre, de pimenta, de cebola crua e o sal
da vida (e a verdade verdadeira). Meu bem, agora esquece tudo, tudo,  o tempo da vadiao, e tu
bem sabes, Flor, que a vadiao  coisa santa, coisa de Deus, vamos, meu bem.
     Vadinho mais embrulho, Vadinho mais herege, Vadinho mais tirano, vamos depressa.

Captulo 25

     Com a cabea reclinada nos seios de veludo e bronze de Zulmira Simes Fagundes, o mstico
Cardoso e S...
     Cardoso e S? Sim, no se trata de engano ou erro, de troca de nomes, mas de real e
(lastimavelmente) momentnea substituio de pessoas fsicas. No era Pelancchi Moulas, o rei
do jogo, o imperador do bicho, patro do Governo e de Zulmira, quem se reclinava, no uso de
seus direitos privativos, sobre os seios da cabrocha, gozando do calor e do conforto de tais
prendas. Quem o fazia, alis com certo -vontade surpreendente, era o nosso sempre inslito
Mestre do Absurdo e intrpido Capito do Cosmos, esse quase puro esprito imaterial.
     Como chegara Cardoso e S quelas alturas e grandezas? Pois, pedindo. Enquanto se
empenhava na soluo dos problemas de Pelancchi, freqentando-lhe os sales de jogo, em
sucessivas conferncias com os chefes marcianos (entrevistara inclusive o Guia Genial, o
tenebroso e benemrito ditador de Marte, at ento inacessvel a qualquer humano), foi pedindo a
Zulmira, pedindo-lhe com insistncia e adulao, e a velha frmula demonstrou mais uma vez sua
eficcia.
     Pedira, de comeo, e por mera e meritria curiosidade cientfica, para ver aquelas marcas
deixadas pelos invisveis em "vossos magnos quadris de amazona". J no existem marcas,
respondia ela, apenas a lembrana. Mesmo assim, quis Cardoso e S ver o lugar (estudar o
fenmeno "in loco"). Sem o qu, impossvel perfeito diagnstico. A cincia  exata.
     Foi-lhe ento mostrado o amplo local, e ele demorou-se (a pressa  inimiga da cincia) a
estud-lo: a cor, a solidez, a arquitetura, tudo em verdade de primeira. Zulmira ia deixando,
risonha e encabulada: no era Cardosinho quase um puro esprito, liberto da vileza da matria?
Quase.
     - Igual s montanhas de Marte, na conformao e nos abismos, - revelou o Gegrafo dos
Planetas.
     Tendo saciado (em parte) a curiosidade por aquele territrio, e sabedor de detalhes referentes
aos seios, pediu-lhe para ver tais maravilhas, as vertentes e os cumes, invocando para tanto razes
estticas, alm das cientficas. Habituada por Pelancchi ao culto do belo e da poesia, como
recusar-se a splica to pertinaz quanto cortes, despida de qualquer resqucio de safadeza,
provinda de pessoa to correta? - perguntou-se Zulmira e consentiu.
     Mestre Cardoso e S, respeitoso artista, falara apenas em contemplar por um instante aquelas
"obras mestras do Supremo Artfice do Universo", mas, ao v-las soltas, foi to grande seu deleite
esttico que perdeu a cabea de vez e por completo. Se ele, quase puro esprito imaterial, se
entregou s intemperanas da matria, como exigir de Zulmira, frgil mortal, mais rgida conduta?
Assim, nesse pedir e dar-se, sucedeu.
     Ao demais, fosse Palancchi Moulas realmente generoso, quisesse premiar como devido o
esforo descomunal do astrlogo e alquimista a seu servio, e daria Zulmira de presente a
Cardoso e S, desobrigada de qualquer encargo ou compromisso para com o jogo e seu senhor,
fosse de datilografia ou de recreao, reservando-se Pelancchi apenas o grato prazer de assegurar
as despesas (altas) da opulenta. Porque o Grande Capito, cumprindo sua palavra, resolvera o
problema do jogo, salvara a fortuna do calabrs, libertando-o do azar e daquela confuso de
marcianos.
     Uma coisa  certa e indiscutvel, ao menos: naqueles dias aconteceu a desero de Giovanni
Guimares, o ltimo a se retirar.
     O primeiro foi Anacreon. O velho patriarca, educador de geraes, homem de respeito e cs,
certa noite dirigiu seus passos para o covil de Paranagu Ventura, e naquele centro da batota,
onde cada carta era marcada, de novo se sentiu um jogador. Porque o ganhar sem fim no era
jogo, no era uma disputa entre ele e a sorte, uma batalha contra o banqueiro e a bola da roleta,
contra a carta e o dado. Tomava da ficha, punha na carta, no nmero, recolhia o ganho. Que
gosto tinha aquilo, mgica mais sem graa? Que fizera ele, Anacreon, o perfeito jogador, o
pedagogo da roleta, para merecer o castigo dessa sorte irreversvel?
     Isso era ganhar, no era jogo. A emoo do jogo  o no saber,  o risco, a raiva de perder, a
alegria de acertar, o ganho e a perda.  seguir a bola na bacia da roleta, em seu giro louco e em
seu imprevisvel nmero de sorte, cada vez um nmero diferente. Quando repetia por acaso, que
emoo! Agora Anacreon nem olhava para a bola, ela ia obediente cair no nmero onde ele
depositara fichas. E as cartas dos baralhos? E os dados? Que crime cometera para merecer
castigo assim?
     O velho Anacreon era feito de uma pea s, de honestidade e de decncia, um jogador com o
prazer do jogo, o prazer de no saber, de arriscar. Agora no corria risco, sabendo antes mesmo
do comeo. Uma vergonha.
     Arrebanhou os cobres fceis e l se foi ao encontro de Paranagu Ventura:
     - Isso aqui - disse-lhe o negro - no  o cassino de Pelancchi, no me venha com farromba.
     Riram os dois: ali era preciso mais que sorte, era preciso coragem e olho vivo para no se ser
roubado. Mas Anacreon naquela noite no se importava de perder, no azar ou na batota. S no
queria aquela sorte de milagre, o lucro sem graa, sem luta, sem prazer. Assim  a natureza
humana.
     Arigof, tendo comeado antes, ainda tardou uns dias a partir para a espelunca de Trs
Duques, para o antro de Zez da Meningite, onde o jogo era jogo de verdade. Por que a demora?
Diga-se tudo: o ganho fcil ameaara corromper o ntegro carter de Arigof. Dera na mania de
sustentar mulher, de gastar com amante, numa inverso total dos bons costumes. Enchia Teresa
de presentes, tendo lhe comprado um globo em relevo e um pssaro cantor para lhe embalar o
sono. Queria a todo o transe assumir as despesas de aluguel, de armazm e as demais.
     Sentindo-se frustrada e ofendida, a gegrafa fez-lhe ver o absurdo e o ridculo da situao: a
ela, Teresa Negritude, competia sustentar a casa e o negro macho, ela tinha seu orgulho, sua
honra a defender. Um ou outro presente, ainda v; o pssaro a deixava comovida mais da a
querer contribuir para o aluguel, Ah! era um despropsito.
     Arigof, graas a Teresa, viu em tempo o abismo ante seus ps; j no ia ao cassino pelo jogo e,
sim, pelo dinheiro. Onde sua inteireza de homem e seu prazer de jogador? Reencontrou-se na
espelunca de Trs Duques, no antro de Zez da Meningite, e outra vez Teresa lhe abriu seu mar
de espumas, sua branca latitude.
     Quanto a Mirando, j se sabe o que lhe aconteceu: a promessa feita em hora de terror.
Permaneceu bomio, a povoar a noite com suas histrias e seu sorriso, sua cachaa longa: nunca
mais jogou, porm. No quis sentir novamente to prxima a presena do impossvel.
     Giovanni Guimares, ao retornar aos sales do Place, no era mais o antigo jogador, fizera-se
alto funcionrio e fazendeiro. Assim sendo, por seu gosto passaria o resto da vida a ganhar no 17,
pondo em terra e bois, em pastos de capim, o dinheiro de Pelancchi. Mas sua esposa e a
sociedade censuraram sua volta ao jogo e o simptico jornalista, membro recente das classes
conservadoras, dobrou-se ao lar e ao crdito bancrio, tornando a dormir cedo. No saiu do
Place para o antro de Trs Duques ou de Zez, para o covil de Paranagu Ventura. Foi para seu
leito de casado, para sua respeitabilidade. Moveram-no srias e excelentes razes, sem dvida,
no porm do mesmo teor moral das de Anacreon e de Arigof.
     Assim, correram paralelas as trs aes e juntas chegaram a seu destino: o acordo
interplanetrio do Capito dos Cosmos com os marcianos, o jogo de pedir e dar, inocente
brincadeira em que se entretinham o mstico e a amazona para iludir o tempo; e o fastio dos
amigos de Vadinho.
     A vitria de Cardoso e S s no abalou as convices materialistas do professor Mximo
Sales, renitente e cabeudo. Tudo claro para ele: esse Cardoso, com sua aparente maluquice e
essas conversas para boi dormir, s podia ser o chefe da quadrilha e Zulmira sua cmplice. Os
dois se conheciam h muito tempo e eram amantes, s mesmo Pelancchi, corno velho, no se
dava conta. No sendo assim, como explicar ento o acontecido?
     Surpreendente, inslito Cardoso e S, Cardosinho para os ntimos, como Zulmira: quem o
diria to familiar das coisas do amor? No s do amor em nosso astro msero e minsculo, mas
tambm nos planetas mais progressistas, nas galxias mais ricas. Catedrtico na doce disciplina
que ministrava  aluna atenta. Atenta e perguntona:
    - Em Saturno, como , me diga, Cardosinho. Como beijam, se no tm boca, como pegam se
no tm mo...
    Ressoava a gargalhada de Mestre do Absurdo:
     - Vou lhe mostrar agora mesmo...
     Zulmira tinha medo que Pelancchi descobrisse aquele afeto espiritual, aquela mstica ligao
de almas irms, vendo maldade e vcio onde s havia curiosidade cientfica e deleite esttico.
    - Se Pequito entrasse agora e visse a gente assim? Ele  capaz de nos matar. Uma vez, jurou...
    O Grande Iluminado disse:
    - Fao assim com as mos e ficamos invisveis.
     Fez assim com a mo e lhe ensinou certos costumes dos habitantes de Netuno, cada coisa!

Captulo 26

     Cada dia mais plido, mais abatido, Dona Flor curvada sobre sua face:
    - que tens, Vadinho, meu amor?
    - Um cansao...
     A voz arfante, os olhos baos, as mos descarnadas. Para Dona Flor era aquela vida sem regra
e sem horrio, no havia organismo capaz de suportar desgaste to grande e to constante.
     Da outra vez sucedera de repente: quando todos o julgavam forte e so, arrogante de vigor e
de energia, Vadinho desabou entre os caretas em pleno carnaval, com a fantasia de baiana e toda
a sua animao. De repente caiu, mortinho da silva. To moo ainda, moo e bonito, gabola e
farrombeiro, e, no entanto, o corao em pandarecos, por dentro todo gasto. Dona Flor viera
abrindo caminho por entre os mascarados e os ranchos, sustentada por Dona Norma e Dona
Gisa, e o encontrou defunto, sorrindo para a morte. Ao lado, de sentinela, Carlinhos
Mascarenhas, vestido de cigano, em silncio o sublime cavaquinho; o luto na praa era de guizos,
lantejoulas e cores vivas.
     Mas agora a morte chega dia a dia, a morte ou o que seja. Primeiro, plido e descarnado, logo
aps lvido e fluido. Sim, fluido e quase transparente. No era a magreza dos enfermos, no tinha
dor nem febre. Perdendo densidade, tornava-se incorpreo, ia sumindo.
     A princpio Dona Flor no deu importncia ao caso; sendo Vadinho arreliento e dado a
molecagens, um farsante, talvez estivesse apenas armando uma esparrela, para rir de seu susto e
burlar de seu espanto. Vadinho no perdia os velhos hbitos, voltara o mesmo capadcio de
antes, a fazer troa de um tudo, a divertir-se s custas dos demais. Que o dissesse Dona Rozilda,
em pnico: um pagode.
     A velha aparecera de improviso, com as grandes malas anunciadoras de permanncia longa.
Doutor Teodoro engoliu o choque e, no uso de sua boa educao, acolheu com fidalguia a sogra
"sempre bem vinda a esta sua casa". Com o passar dos anos, a ruindade de Dona Rozilda
encruara, um poo de veneno. Apenas chegada, j a peonha corria pela casa e pela rua:
      - Teu irmo  um molengas, um banana, tem sangue de barata. A mulher manda nele, aquela
remelenta. Vim para ficar.
      "Meu Deus, d-me pacincia...", rogou Dona Flor; e o doutor Teodoro perdeu qualquer
esperana. Para aquela ameaa monstruosa, "vim para ficar", havia apenas duas solues: ou
envenenar a pestilenta, e no tinha coragem para tanto, ou um milagre, e j no estamos em
tempos de milagre. Engano do doutor, como bem sabemos e ele logo comprovou. Menos de
vinte e quatro horas aps o desembarque, Dona Rozilda regressava a Nazareth, correndo para o
navio como se o inferno inteiro lhe mordesse os calcanhares. No o inferno inteiro mas
certamente Satans ou Lcifer ou Belzebu, o Co, o Sujo, no importa o nome e o ttulo: o diabo,
o pior deles, aquele que um dia fora seu genro para desgraa sua e de sua filha. Puxava-lhe o
cabelo e uma vez a derrubara; o dia inteiro a lhe soprar nomes feios nos ouvidos, em xingas
obscenos, ameaando-a de tabefes e de pontaps na bunda, propondo-lhe imundcies.
     - Esta casa est mal-assombrada, te arrenego! No ponho mais os ps aqui... - denunciou,
arrebanhando as malas.
     Um milagre sucedeu, ainda  tempo de milagres... - pensou humilde o doutor, no se achando
merecedor de tanta graa, de merc tamanha.
     - O maldito anda solto, quis me matar... - tendo completado sua informao, partiu Dona
Rozilda s pressas, rua a fora.
     - Est caduca... - diagnosticou doutor Teodoro, com alvio e competncia.
     Dona Flor sorriu em concordncia com o doutor, solidria com seu desafogo, e em resposta
ao piscar de olho de Vadinho. Na porta, o tinhoso na s gargalhadas, mas j um tanto imaterial e
fluido.
     Foi-se-lhe acentuando aquela palidez, Vadinho cada vez menos concreto, quase gasoso,
transparente, e, em certo momento, Dona Flor pode ver atravs de seu corpo.
    - Ai, meu amor, voc est se esvaindo em nada...
     Pela primeira vez, Dona Flor sentia Vadinho sem foras para agir, confuso e perdido. Onde
sua flama, sua arrogncia, sua picardia?
     - No sei, meu bem... Esto me levando embora... Por mais que eu no queira ir. Ser que tu
no me desejas mais? S tu podes me mandar embora. Enquanto me quiseres, me desejares,
enquanto puseres em mim teu pensamento, estarei vivo e aqui. Flor, que fizeste?
     Lembrou-se Dona Flor do eb. Bem sua comadre Dionsia lhe avisara. Cabia-lhe toda a culpa,
pois recorrera aos orixs e suplicara que levassem Vadinho de retorno  sua morte.
    - Foi o feitio...
    - Feitio? - a voz de gua, desfeita num sussurro.
     Contou-lhe tudo, recordando a tarde de sbado, quando, j nos braos de Vadinho, tivera a
honra salva por Dionsia de Oxssi e, em desespero, encomendou o despacho. O babala Didi se
encarregara do trabalho, logo Didi que tinha a mo sobre a cabea de Vadinho, seu pai pequeno.
    - Que fizeste, Flor, minha flor perdida, e para qu?
     - Para salvar minha honra...
     De nada adiantara, de qualquer forma acontecera. Mais urgente do que o despacho fora a
fora do desejo desatado na lbia de Vadinho. Depois do acontecido, quisera Dona Flor
suspender a obrigao, mas era tarde, o sangue j correra em sacrifcio.
    - Ah! Tu me mandaste embora, de volta me mandaste, no tenho outro jeito seno partir.
Minha fora  teu desejo, meu corpo  teu anseio, minha vida  teu querer, se no me queres eu
no sou. Adeus, Flor, j vou embora, esto me amarrando com um mokan e se acabou.
    Foi sumindo em sua vista, se dissolvendo em nada.

Captulo 27

     L se foi Vadinho, territrio de combate na guerra dos santos, despojo dos orixs, egun sem
cemitrio.
     Dona Flor, por que no aproveitas?  tua ltima chance, tua oportunidade derradeira para a
honra, a decncia, o recato, a virtude, as leis morais de tua rua, de tua gente, de tua classe. Tens
ainda essa porta de sada, o eb encomendado por Dionsia e feito por Didi, o Asob. Se bem
nos custe apoiar em feitios e orixs, abuses do povo, a salvao da moral em perigo, da virtude
e dos preceitos da sociedade, da civilizao enfim, que outro jeito? O importante, Dona Flor,  te
recuperares perante Deus e tua conscincia, ovelha de volta ao bom redil, purificada. Perante os
homens no  preciso, pois eles (felizmente) ignoram o teu mau passo.
     Se deixas Vadinho partir, ser fcil esquecer aquelas poucas noites de descarao, a louca
cavalgada e os ais de amor. Tudo isso pode ter sido to-somente um sonho, um delrio de febre,
uma alucinao ou apenas simples e tolos pensamentos nas horas vazias de uma vida inteira de
decncia e de felicidade. Nada te ser cobrado, no ters remorsos, vivers em paz com teu
esposo e com tua conscincia. A derradeira chance, Dona Flor, de praticares a virtude, de
permaneceres sustentculo da moral, dos bons costumes. Deixa Vadinho em sua paz de morto,
s ou no mulher honesta?
     Para onde vais, Dona Flor, e com que foras? Para que libert-lo do no ser?
     Sem amor no poderei viver, sem o seu amor. Melhor ser morrer com ele. Se eu no o tiver
comigo, irei em desespero procur-lo em quanto homem passe em minha frente, buscarei seu
gosto em cada boca, ululante, esfomeada loba correrei as ruas. Minha virtude  ele.

Captulo 28

     A cidade se elevou nos ares e os relgios marcaram ao mesmo tempo, meio-dia e meia-noite
na guerra dos santos: todos os orixs reunidos para enterrar Vadinho, egun rebelde e seu carrego
de amor, e Exu sozinho a defend-lo. O raio e o trovo, a tempestade, o ao contra o ao e um
sangue negro. Deu-se o encontro na encruzilhada do ltimo caminho, nos limites do nada.
     Na crista do oceano, Yemanj toda de azul vestida, longos cabelos de espuma e caranguejos.
No rabo de prata trs sexos lhe nasceram, um branco de algas, outro de verde limo, o terceiro de
polvos negros. Com seu leque de metal, o abeb, abanou ventos de morte. Comandava uma frota
de cascos de navio, um exrcito de peixes a saudava em sua lngua muda, odia!
     As florestas curvaram-se ante Oxssi, o caador, o rei de Ketu. Naquela guerra, ele cavalgou
trs montarias. No arremesso da manh um javali; o cavalo branco no arco do minguante, e de
madrugada seu cavalo foi Dionsia, de suas filhas a mais bela, a predileta. Por onde passasse, com
o of e o eruker, morriam os animais, tudo quanto houvesse, na guerra sem quartel.
     Cobra imensa, Oxumar vinha nas cores do arco-ris, macho e fmea ao mesmo tempo.
Coberto de serpentes, a cascavel e a jararaca, a coral e a vbora, e seguido por cinco batalhes de
hermafroditas. Empurraram Vadinho por uma ponta do arco-ris, era um macho retado quando
entrou, saiu sestrosa rapariga, donzela derretida. Com seu tridente Exu desfez o arco-ris.
Oxumar enfiou o rabo pela boca, anel e enigma, subilatrio.
     Ogun malhou o ferro e temperou o ao das espadas. Eu com suas fontes, Nan com sua
velhice. Rei da guerra, Xang cercado de obs e de ogans, na corte de esplendor, disparando raios
e coriscos. A seu lado, Oxun toda faceira, em dengue desmanchada. Omolu, com seu espantoso
exrcito, comandando a bexiga negra e a lepra de milnios, o escarro podre e o pus, todas as
doenas. Vadinho, tsico e pestilento, cego e surdo. Exu mastigou as doenas, uma a uma,
curandeiro de tribos africanas.
     Empunhando o paxor de prata, lana invencvel. Oxal era dois: o moo Oxogui e o velho
Oxoluf. Ao seu passo de dana todos se curvavam. Precedendo-o, vinha Yans, a que governa
os mortos, me de guerra. Seu grito emudeceu o povo e, como um punhal, rasgou o corao
exposto de Vadinho.
     Juntos vieram em formao cerrada, com suas armas, suas ferramentas, sua lei antiga.
Achando pouco serem tantos, convidaram os orixs da nao grunci e os de angola, os inkices
congoleses e os caboclos. Todas as naes, do sul ao norte, contra Exu e seu egun. Partiram para
o choque derradeiro.
     Ento as donzelas da cidade desnudaram-se e saram a se oferecer nas ruas e nas praas. Logo
nasciam os filhos, aos milhares. Iguais, pois eram todos filhos de Vadinho, todos canhotos e pelo
avesso. Pelo mar navegavam casas e sobrados, o farol da Barra e o solar do Unho; o Forte do
Mar transportou-se para o terreiro de Jesus, e nos jardins brotavam peixes, nas rvores
amadureciam estrelas. O relgio do Palcio marcou a hora do espanto num cu carmesim com
manchas amarelas.
     Via-se ento uma aurora de cometas nascer sobre os prostbulos e cada mulher-dama ganhou
marido e filhos. A lua caiu em Itaparica sobre os mangues, os namorados a recolheram e em seu
espelho, refletiram-se o beijo e o desmaio.
     De um lado a lei, os exrcitos do preconceito e do atraso, sob o comando de Dona Dinor e
de Pelancchi Moulas. De outro lado, o amor e a poesia, o desassombro de Cardoso e S, rindo
por entre os seios de Zulmira, tenente-coronel do sonho.
     Vinha o povo correndo nas ladeiras, com lanas de petrleo e um calendrio de greves e
revoltas. Ao chegar na praa, queimou a ditadura como um papel sujo e acendeu a liberdade em
cada esquina.
     Quem comandou a revolta foi o Co e s vinte e duas horas e trinta e seis minutos ruram a
ordem e a tradio feudal. Da moral vigente s restavam cacos, logo recolhidos ao Museu.
     Mas o grito de Yans susteve os homens no pavor da morte. De Vadinho, sem mos, sem
ps, sem estrovenga, sobrava muito pouco: encardida fumaa, cinza esparsa e o corao roto na
batalha. Um quase nada, coisa -toa. Era o fim de Vadinho e de seu carrego de desejo. Onde j se
viu finado em leito de ferro a vadiar, de novo sendo? Onde?
     Deu o revertrio na batalha. Exu sem farsas, cercado pelos sete cantos, sem caminhos. O egun
em seu caixo barato, em sua cova rasa, adeus, Vadinho, adeus, at jamais.
     Foi quando uma figura atravessou os ares, e, rompendo os caminhos mais fechados, venceu a
distncia e a hipocrisia - um pensamento livre de qualquer peia: Dona Flor, nuinha em plo. Seu
ai de amor cobriu o grito de morte de Yans. Na hora derradeira, quando Exu j rolava pelo
monte e um poeta compunha o epitfio de Vadinho.
     Uma fogueira se acendeu na terra e o povo queimou o tempo da mentira.

Captulo 29

    Na manh clara e leve de um domingo, os habitues do bar de Mendez, no Cabea, viram
passar, Dona Flor, toda elegante, pelo brao do marido, doutor Teodoro. Ia o casal para o Rio
Vermelho, onde tia Lita e tio Porto esperavam para o almoo. De rosto vivo mas de olhos
baixos,discreta e sria como compete a mulher casada e honesta, Dona Flor correspondeu aos
bons dias respeitosos.
    Seu Vivaldo da funerria mediu Dona Flor de alto a baixo:
     - Nunca pensei que esse doutor Xarope fosse capaz de tanto. No parece disso e, vai-se ver...
     - Disso, o qu? Como farmacutico, bate muito mdico... interrompeu o santeiro Alfredo.
     - Reparem nela... Que formosura, que beleza de mulher! Um peixo, e se v que anda
contente, que nada lhe falta nem na mesa nem na cama. At parece mulher de amante novo,
pondo chifres no marido...
     - No diga isso! - protestou Moyss Alves, o perdulrio do cacau - Se h mulher direita na
Bahia  Dona Flor.
     - Estou de acordo, quem no sabe que ela  mulher honrada? O que eu digo  que esse
doutor, com sua cara de palerma,  um finrio. Tiro-lhe o chapu, nunca pensei que ele desse
conta do recado. Para um pedao de mulher assim, to rebolosa,  preciso muita competncia.
    Com os olhos acesos, completou:
     - Vejam como vai se rebolando. A cara sria, mas as ancas olhem aquilo! - soltas, at parece
que algum est bulindo nelas... Um felizardo esse doutor...
     Do brao do marido felizardo, sorri mansa Dona Flor: Ah!, essa mania de Vadinho ir pela rua
a lhe tocar os peitos e os quadris, esvoaando em torno dela como se fosse a brisa da manh. Da
manh lavada de domingo, onde passeia Dona Flor, feliz de sua vida, satisfeita de seus dois
amores.
     E aqui se d por finda a histria de Dona Flor e de seus dois maridos, descrita em seus
detalhes e em seus mistrios, clara e obscura como a vida. Tudo isso aconteceu, acredite quem
quiser. Passou-se na Bahia, onde essas e outras mgicas sucedem sem a ningum causar espanto.
Se duvidam, perguntem a Cardoso e S, e ele lhes dir se  ou no verdade. Podem encontr-lo
no planeta Marte ou em qualquer esquina pobre da cidade.

    Salvador, abril de 1966.

Fim do livro


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